quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Sessão chateação


Tenho (nem preciso dizer) um apreço colossal pela ficção e, em consequência, pela sagrada verossimilhança; se quer me irritar FUNDO é só muxoxar diante de absurdos às vezes presentes em filmes/novelas e tascar: "Ah, pra que esse estresse, isso aí é de mentirinha mesmo, ninguém liga". PERALÁ, MERMÃO. Primeiro, uma construção ficcional não é mentirinha; mentirinha é o que se manda dizer para não atender o telefone. Histórias são uma inteira realidade de outra espécie, e dentro de sua própria dimensão é preciso que todos os tijolitos se encaixem e se corroborem – não à toa falamos em obras ficcionais; se está convencionadíssimo em determinado universo que homens voam e atravessam paredes, perfeito, homens voam e atravessam paredes, e lançam teias e leem mentes e pulam de prédios, sem o mais leve problema. O que NÃO PODE é alguém voar ou lançar teias numa novela do Manoel Carlos, nem montar um filme do Homem-Aranha somente à base de diálogos ao estilo Antes do amanhecer. Ficção não tem, como a realidade do cá-das-telas, o abono do factual para estruturar-se, e com qualquer soprinho do lobo inverossímil a casa toda despenca; já diria Mark Twain lapidarmente (embora eu tenha lido a máxima também com outras autorias e não jure sobre nenhuma) que, ao contrário da realidade, a ficção PRECISA fazer sentido.

Todo esse resmungo apenas para começar a reclamar da reta final de Nos tempos do imperador, novela que acompanhei inteirinha e me pareceu dar várias bolas dentro, apesar de estas ficarem seriamente comprometidas pela boladaça-fora de a família imperial manter o protagonismo. Discussões históricas à parte, a trama tem alinhavado batata em cima de batata nos trechos mais recentes, como se uma edição ofegante e exasperada garfasse desenvolvimentos necessários e o combo roteiro/direção de repente cagasse para obviedades, com o perdão do termo. Em primeiro lugar, aparentemente ganhamos a presença de alguns X-Men na novela, que inclusive voam – ou ao menos se regeneram – e atravessam paredes; é o caso do querido Nélio, que somente quebrou as pernas ao ser atirado de um penhasco sem rolar, segurar-se ou contar com atenuante algum, o que o teria matado de imediato em qualquer face do multiverso (e não é conveniente que o delegado Borges, ao contrário, pareça ter morrido assim que se jogou na água, de altura similar?); é o caso também da condessa de Barral, que adentrou o jornal de Tonico sem ter a chave do cadeado que a direção fez questão de mostrar o criaturo fechando. E MESMO QUE Luísa tivesse entrado enquanto o vilão ainda estava compondo a edição do dia seguinte – o que contraria as cenas exibidas –, não conseguiria sair, sobretudo no meio do fogo que ela iniciou; a coisa ainda piora quando constatamos que o próprio Tonico teve dificuldade de reabrir o cadeado que colocara. "Ah, ela entrou e saiu pela janela" – sério? qual seria o sentido de o vilão trancar a porta e deixar as janelas abertas, em véspera de publicar uma bomba que prejudicaria gente graúda? Por que pitombas esdrúxulas não escalaram Celestina para ser a incendiária, já que seria verossímil ela ter a chave do jornal (seu marido Nino tinha) e não lhe faltavam motivos tanto para se vingar de Tonico quanto para proteger a família real? e, convindo que Luísa fosse a incendiária, por que raios duplos não tacou fogo pelo lado DE FORA, por algum quebradinho que ela fizesse na vidraça – em vez de ser ostentada, como foi, queimando diretamente cada exemplar recém-impresso?

Por falar em Celestina: o fato de a dama de companhia da imperatriz ter escondido por dois anos o manuscrito de Nino também não tem o menor nexo, considerando a sanha sempre demonstrada por ela de pôr na cadeia o assassino do marido. "Proteger a reputação de Nino?" Reaaaaally, gente? O próprio Nino QUERIA publicar o livro, e, se conscientemente se incriminaria de cumplicidade em vida, faria tão enorme diferença incriminar-se depois da morte – principalmente levando em conta que todos os amigos de Celestina já o sabiam cúmplice de Tonico? Outra BATATOSA com dois anos de idade foi o total abandono do colete do vilão (marcado de tinta com a data posterior à do assassinato de Nino) num cesto de roupas a serem lavadas por Zayla, junto ao tanque usado pelas lavadeiras. Vimos que uma escrava de Tonico, ao não conseguir remover a mancha de tinta do colete, preocupara-se com a possibilidade de isso acabar sobrando para ela e deixara a peça com a filha de Dom Olu, sob a promessa duma tentativa de lavagem mais contundente. Zayla, entretanto, sem mais essa nem aquela largou todas as roupas pra lá, e ao que tudo indica nenhuma peça foi reclamada pelo respectivo dono durante os DOIS ANOS convenientes aos roteiristas – até que, numa manhã gloriosa, uma antiga colega de Zayla devolveu-lhe o cesto onde, tcharaaam! jazia prova tão redondinha contra o psicopata. Afinal era relevantíssimo que não se fechasse o cerco sobre o coiso-mor da novela muito antes do fim da Guerra do Paraguai, evento que determinará também o fim da trama; e daí que as explicações para o delay pareçam tiradas da boca do cachorro? Olha: te falar, viu.

Amanhã tem último capítulo, já por natureza um imenso celeiro de irritações. Pior, tem último capítulo com resolução de homicídio, e um homicídio que... Raaam, amanhã (talvez) comento. Torcendo aqui para que as fadinhas da verossimilhança atravessem materiais gravados e ajeitem pernas de história que têm TODA a probabilidade de se quebrar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Era para agora já ser hoje


De Mia Couto: "O que espanta não é a loucura que vivemos, mas a mediocridade dessa loucura. O que nos dói não é o futuro que não conhecemos, mas o presente que não reconhecemos". Muitíssimo bem expresso, Mia; é a mediocridade, a pequenez inútil da atual loucura que nos entontece, essa loucura que nem se pode dizer atual, por ser repeteco enervante de histerias coletivas de há algumas décadas – de há alguns séculos, melhor dizendo; temos afinal uns terraplanismos psicóticos que vestiriam feito luva em tempos inquisitoriais. Como andaram suspirando por aí alguns memes, era para estarmos discutindo teletransporte, diferentes categorias de clonagem, carros voadores, colonizações planetárias, sabe-se lá que tipo de doideira já ou pré-realizável que até ontem morava apenas em ficção científica braba; mas não, estamos aqui esmurrando as mesmelelessíssimas facas de ponta fake que continuam nos roubando o tempo crucial da evolução humana, estamos aqui nos digladiando com gente que parou o download na fase neanderthal, com gente que devia achar lindo ter a cara bexiguenta de varíola, conduzir navio negreiro, proibir estudo feminino, queimar bruxa na fogueira, exterminar indígenas, botar homossexuais em campos de concentração. Olha, pelamor: só não peço pra descer do bonde chamado planeta porque ainda não topamos com alternativa viável (aliás, culpa de quem?).

A esta altura já perdemos as ilusões jetsonianas de que, na vida adulta, nem precisaríamos aprender a dirigir porque viajaríamos em supermáquinas teleguiadas; mas era necessário que despencássemos das nuvens AND de um terceiro andar? Só nos dói por brincadeira esse "futuro que não conhecemos", e que na realidade conhecemos em parte sim, visto que conversamos perfeitamente com pessoas de outros países em tempo real, olhando nos olhos; dói-nos até o abuso, entretanto, o "presente que não reconhecemos" em ações que poderíamos jurar irrepetíveis, pensamentos que julgávamos extintos por algum meteoro civilizatório que não houve, (pre)conceitos cujo DNA ficou dormente nalgum âmbar e que volta e meia são reativados e disseminados em novas espécies mais perigosas. Dói-nos a fratura exposta entre o que deveríamos ser e o que somos: antigamente o mundo atual não teria dinossauros genocidas em presidências, antigamente nunca mais haveria prenúncios de guerras mundiais, antigamente não se falaria mais em tretas EUA X Rússia em pleno 2022, nem estaríamos lembrando a existência da OTAN sem ser em prova de Geografia, nem ouviríamos a palavra comunista como um xingamento ou ameaça pairante. Antigamente era para, agora, o aquecimento global ser um consenso e as providências, imediatas; era para girafas serem deixadas na África por óbvia unanimidade; era para pessoas quase se engalfinharem para vacinar as crianças à mais remota suspeita de epidemia; era para a urna eletrônica ser cem-por-centomente decantada como o primor das invenções. Era para estarmos aparando arestas, dando uma demãozinha de tinta, em vez de configurarmos pó que o pó venera e ao pó eternamente volta.

Era para agora já termos retornado ao nosso futuro de direito, brigando com robôs mal-humorados e criando legislação contra batidas de automóveis voadores; não era para lutarmos medievalmente numa Caverna do Dragão cujo portal vemos tremeluzir de vez em quando apenas para desmanchar-se no ar.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

We can't breathe


Tocante demais quando, em capítulo recente de Um lugar ao sol, o superfofo Ravi – que acaba de ver morrer a ex-namorada Joy – ouve do amigo Christian que ele precisa dormir, e devolve: "Difícil não é dormir, difícil é acordar. Toda vez que eu acordo, recebo de novo a notícia de que a Joy morreu" (a autora me perdoe inexatidões; cito de cabeça). Consigo compreender, ainda que roçantemente, o sentimento de Ravi – não porque tenha perdido alguém amado tão de perto, mas porque o Brasil (minha maravilhosa cidade sobretudo) não nos deixa acordar, respirar, sem receber de novo e de novo e de novo a notícia de que um rapaz foi MASSACRADO numa praia por ter chegado ao local onde trabalhara reclamando seus direitos. SEUS DI-REI-TOS. Uma barbárie tão demasiada, tão imensa que a gente não acaba de acreditar nunca, a gente fica puxando em vão um ar rarefeito e arregala o coração num espanto que mantém a ficha do horror suspensa nesse ar.

Moïse Mugenyi Kabamgabe tinha verdíssimos 24 anos; era congolês, adotado pelo Brasil em criança, já que viera em criança do país natal com a família que buscava melhores condições. E foi o Brasil, o Brasil! que matou esse filho, como aproximadamente exclamou a mãe de Moïse em sua dor dilacerante. Não apenas matou: espoliou-o de um direito seu, negou-lhe o pagamento do trabalho honesto, amarrou-o, espancou-o, castigou-o em plena luz do dia pelo delito de ser pobre e negro e africano, e depois da morte continuou a castigá-lo com reiterada selvageria, enquanto os negócios do quiosque aparentemente seguiam a pleno vapor. Uma epítome redonda do que o Brasil fez e fazia desde quase os primórdios da invasão portuguesa – espoliar jovens negros africanos, explorá-los, espancá-los, negar-lhes dignidade a mais básica, e depois da morte de uma geração e de outra e de outra continuar a castigar-lhes a memória e a descendência com reiterada selvageria, enquanto os negócios plantadores ou industriais ou comerciais seguiam e seguem a pleno vapor (porque, claro, a economia nunca pôde parar). Que história desgraçada é esta nossa, quantos milênios levaremos para expurgá-la? Quando deixará de ser mais e mais da velha maldição miseravelmente naturalizada? Que século é hoje?

Como disse uma querida amiga, está difícil respirar depois da morte – aliás: do assassinato – de Moïse, mais um asfixiado literal e metafórico de nossa terra. Está inviável crer que aconteceu de verdade, em pleno verão carioca de 2022, com o mesmo nível de perversidade e de menosprezo pela vida humana com que teria ocorrido há duzentos ou trezentos anos. Lidar com as toneladas de consciência do que ocorreu há duzentos ou trezentos anos nos amargura fundo, nos envergonha até a última mitocôndria; lidar com a permanência tão sórdida, tão afrontosa da barbárie já na terceira década do século XXI é inqualificável, é insuportável, indescritível. Simplesmente não há como digerir o que só pode ser vomitado em forma de manifestos, passeatas, quebra-quebras, cessação completa de turismos e trânsitos, suspensão total da Barra da Tijuca do mesmíssimo modo como ela parece suspensa no tempo, presa num vórtice de crueldade ancestral, congelada e inutilizada para a civilização. Pois que fique congelada, paralisada, impedida, bloqueada, cancelada enquanto não se providenciar a mínima justiça no caso de Moïse, cuja memória continua reclamando simplesmente o que lhe pertence.

Mais uma parcela da conta que não se sabe se o Brasil um dia chegará a saldar.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Um lugar próprio


São versos do poeta polonês Miron Białoszewski, na tradução de Aleksandar Jovanovic: "Carrego em mim/ uma espécie de/ lugar próprio./ Quando o perder/ não mais existirei". Achei uma linda representação do que é estar vivo em franca plenitude, interna ao menos – carregar em si um lugar próprio, tipo de autoabrigo emocional ou casa psicológica a que não se derruba com as grandes facilidades do universo físico; transportar uma certeza tão completa e tão sua a respeito da porção habitada no mundo (ou independentemente do mundo) que o ambiente exterior pode até constituir um coadjuvante de peso, mas a alma inteira é uma residência portátil.

Precisa-se, no matter what, carregar em si um lugar próprio. Convém que nos conheçamos até o ponto da self-portabilidade que nos torna mais maleáveis para fatos e, exatamente por isso, mais resistentes. Não se trata daquele papo detestável de resiliência com que frequentemente nos coachizam, e com que procuram disfarçar os efeitos da crueldade sistêmica – romantizando como mérito e esforço o que é basicamente a sobrevivência de quem não tem grande escolha. Trata-se de saber-se sem que isso esteja amarrado a uma utilidade de luta, um saber-se prévio, autossustentável, convicto, saber-se porque sim, porque alguém que não se sabe facilmente se desestrutura, ou antes: não chega a estruturar-se; não se estruturando, torna-se desmanchável numa foto, numa fala, numa comparação, num sopro. Uma pessoa que não carrega em si seu lugar, que não guarda a tiracolo uma integridade à prova de ventos – um núcleo mínimo, uma verdade essencial –, com forte probabilidade adotará qualquer raiz e ficará à deriva com qualquer perda, além de considerar como ofensa a integridade dos que se enraízam. Quem não aquieta seu tornado particular tende a levar tudo de arrasto.

Saber-se é ancorar-se no melhor sentido: acatar seu próprio tempo, olhar firme nos olhos do próprio desejo, estar confortável no silêncio externo porque o interno não estrondeia, proceder a uma autoleitura sem o medo que leva à condescendência e sem a ansiedade que conduz à implosão, acompanhar-se a todo momento com a satisfação de quem não receia o tédio. Uma vez que se transporta no peito todo um trailer mobiliado e embagajado de repertórios, pouco se teme a viagem; anda-se com um suprimento de si bastante farto de recursos contra a carência que sabota suas chances, contra o preconceito que materializa recalques, contra a insegurança invejosa que não fixa o olhar num trajeto futuro, contra o ódio que não perdoa realizações das quais não participa. Um lugar próprio é bem isto: refúgio e vacina, veículo e armadura, espaço mental que nos pertence invulnerável e dentro do qual o ego, crina ao vento, se abandona.

Um lugar onde o eu não é somente carona.

domingo, 30 de janeiro de 2022

De luvas e coelhos


Quem assistiu a Ataque dos cães, filme baseado no romance de Thomas Savage, dirigido/roteirizado por Jane Campion e protagonizado por Benedict Cumberbatch, foi constantemente atravessado pelas metáforas da luva e do coelho. É essencial e lindo que seja assim em histórias de muitos não ditos, de muitas denotações enviesadas na garganta, forçadas a não ver a luz pela total ausência de ambiente – pelo clima de estrangulamento ou cansaço emocional nascido do lugar e da época. São, no caso, os Estados Unidos caubóis de há quase cem anos, travados para quaisquer discussões que não fossem coisas de macho (ou superficialidades perfeitas) e bullyingadores de fraquezas, carências, necessidades, hesitações, solidões e demais profundezas humanas que o simplismo próprio da covardia achasse de considerar frescura.

Nesse contexto de mutismo doentio, é notável como a presença/ausência da luva grita eloquências sobre os três personagens mais atribulados do enredo (recomendo que os não assistiram e ainda pretendem assistir não prossigam na leitura): para Phil Burbank (Cumberbatch), a insistência em trabalhar com as mãos nuas é o mascaramento-mor de sua alma que, tanto quanto o restante do corpo, não se despe a não ser no isolamento mais completo – e em última instância é a nudez das mãos, a nudez encobridora e simbólica de seu recalque generalizado, que lhe custa a vida. Para Peter Gordon (Kodi Smit-McPhee), ao contrário, o vestir calculadíssimo da luva é o índice maior de autoconsciência, autolealdade com que se joga em seu plano, por mais que haja temporárias e apenas aparentes concessões dentro de sua verdadeira natureza. Finalmente, para Rose ex-Gordon, atual Burbank (Kirsten Dunst), o calçar das luvas dadas pelos indígenas é não uma deliberação – como no caso do filho –, mas um lembrete dessa verdadeira natureza, ou da verdadeira natureza do mundo sensível, macio, delicado, generoso a que ela espontaneamente pertence.

E os coelhos? esses são um comentário esperto sobre as ações de Peter a respeito dos homens que infernizam a alma aveludada de sua mãe. Sim, os homens; não se pode ignorar que a primeira fala do jovem no filme – "Quando meu pai faleceu, tudo que eu queria era a felicidade de minha mãe. Porque que tipo de homem eu seria se não ajudasse minha mãe? se eu não a salvasse?" – certamente não se refere somente ao plano futuro de livrá-la da influência de Phil, e a própria construção dúbia e ensaboada do que é dito sugere que o rapaz, tendo literalmente matado dois coelhos durante o longa, matou também dois metafóricos. Para deduzir que Peter tirou seu pai alcoólatra da vida de Rose, já nos eram suficientes os atos posteriores do moço com relação ao tio postiço, além da informação de ter sido ele mesmo a encontrar o pai suicidado; mas para corroborar há as circunstâncias da morte dos dois coelhinhos: o primeiro, morto para dissecação – remetendo ao fato de o falecido Sr. Gordon ser médico; o segundo, morto à maneira caubói, e para aliviar o sofrimento da pata quebrada – o que se relaciona com a situação de Phil, a presumível segunda vítima, que aliás também machucara a mão seriamente (e era também animal escondido, caçado por Pete numa espécie de toca). É narrativamente marcante que Peter, sem na realidade desmentir nunca sua essência e seus propósitos, se mostre capaz de ser a luva e apreender, e mimetizar cada um dos obstáculos mencionados em falas-chave; não é certamente à toa que se destaca sua fiel preferência por tênis brancos pouco adequados para um rancho, mas igualmente sua arte em trocá-los por botas durante o estrito período necessário.

Era preciso não haver tantas amarras internas em Phil Burbank para lhe ser possível perceber que não lidava com alguém que precisasse aprender a usar a corda.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Não tem desculpa


No Dia da Visibilidade Trans/Travesti, basicamente o que há a ser dito é: não tem desculpa. Não tem desculpa para deixar de adequar os pronomes à identidade de gênero da pessoa em questão. Não tem desculpa para ignorar a identificação mais profunda do interlocutor. Não tem desculpa para não facilitar a vida de alguém fazendo um microesforço de adaptação linguística. Não tem desculpa.

"Ah, mas o mundo não era assim, eu não estou acostumado." Ainda que o mundo não fosse assim (o que me parece bastante inexato, já que pessoas trans sempre houve e, nem que fosse simplesmente no universo artístico, COM CERTEZA já foram "apresentadas" faz tempo aos olhos teimosos), pois bem, vejam só: agora é. O mundo até ontem não contava com internet, smartphones, redes sociais, e essa ausência em boa parte das juventudes de quem "não estava acostumado" aparentemente não impediu que fenômenos tais fossem incorporados como naturalíssimos – sendo que, ao contrário de experiências puramente humanas, as tecnológicas de fato não tinham precedentes. Ora, criaturas que conseguem apreender o funcionamento do Facebook e do WhatsApp conseguem também lidar com a transexualidade alheia, com muito maior fartura de informação aliás.

"Ah, mas é difícil trocar o pronome de uma hora para a outra." Concordo, quando é o caso de haver convivido por longos anos com uma pessoa antes da readequação de gênero – porém nada que um empenho sincero em acertar não resolva. Quando o convívio se estabelece já durante ou após o processo, entretanto, não existem memórias, hábitos, imagens que ancorem a insistência do falador no equívoco; um empacamento em nomes errados, em termos incorrespondentes denota quase sempre uma agressividade específica ou generalizada. É má-fé sim, beloved – uma DECISÃO de desautorizar a visão do outro sobre si mesmo, estapear a identidade alheia somente para não descabelar nem de leve sua própria versão da realidade; uma escolha enfim peculiar ao eu colonizador que habita os inseguros, normalmente portadores duma psiquê de joguinho de jenga.

"Ah, mas" – não tem mas, é simplinho, é inclusive bastante antigo e tradicional: a gente pergunta o nome, a pessoa diz, a gente passa a chamar a pessoa por aquele nome. Ponto. Tem sido muitíssimo assim desde que humanos passaram a se conhecer no mundo. Se o sujeito declara um substantivo e os convivas o denominam por outro, das duas uma: ou se está no universo do apelido, ou no de algum grau de demência, uma vez que não se trata de informação tão complexa que não possa ser imediatamente absorvida.

Se antes não se sabia, aprende-se – igual a tudo na vida.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O preço


O poeta e revolucionário José Martí – hoje aniversariante de 169 anitos, e tão essencial para a independência de Cuba que é lá conhecido como El Apóstol – disse com toda sabedoria e experiência própria que "a liberdade custa muito caro, e temos ou de nos resignar a viver sem ela, ou de nos decidir a pagar o seu preço". Martí pagou seu preço, sacando o valor da imensidão de bravura de que era dotado: foi um dos grandes mártires na história da libertação do país natal – extremo de heroísmo que provavelmente nunca nos será exigido, mas que tem gordas chances de ser fragmentado em milhões de pequenas prestações de heroísmo a serem pagas por todos os buscadores de liberdade autêntica.

Naaaaada tem a ver com essa "liberdade" estereotipada, ridícula, estúpida dos antivax; nem nadíssima tem a ver com o direito legal de comprar/portar instrumentos de assassinato. Isso não é liberdade, é bateção de pé de criança mimada, de criança estragada que se joga no chão do mercado e berra porque quer porque quer porque quer (ou não quer não quer não quer). A liberdade legítima não tem o componente do egoísmo e é atravessada sempre pela dimensão coletiva: tudo que pertence a alguém pertence-lhe apenas se não tiver sido tomado de outrem – a não ser, claro, que esse outrem tenha sido o primeiro a tomar algo indevido e seja crucial uma devolução, não por vingança mas por justiça direta; libertar terras colonizadas, por exemplo, obviamente não significa tirar nada aos colonizadores, e sim reafirmar a posse dos nativos. A liberdade só concebe pegar algo que já lhe pertencia, o que se estapeia com o caso dos armamentistas e antivacineiros, que não têm forma de alcançar o que desejam sem ser surrupiando uma grande parcela da segurança alheia. A regra é clara: se arrancou algum naco da liberdade de outro, já cometeu pênalti, e vai ter de ser gentezinha grande pra segurar as pontas da cobrança.

Ah, a cobrança – preço que pesa mais salgado nas negociações da liberdade, porém não para os cobrados e sim para os cobradores. Os cobrados, afinal, estão necessariamente em vantagem: metem mesmo a mão grande na autonomia do outro, exploram, expulsam, exterminam, espoliam, escravizam, tudo mais ou menos sem delongas e seguramente sem escrúpulos; de modo geral se organizam em milícias e corporações que, ricas e poderosérrimas, legalizam seus feitos legislando em causa própria, e pronto, está criado um feudo de opressão que definitivamente não há de abrir mão de seus privilégios pelos belos olhos do oprimido que solicita sua liberdade de volta. Não haverá nunca, infelizmente, uma epifania de bondade nos exploradores, uma síncope de reconhecimento de suas próprias culpas; a liberdade SEMPRE deverá ser defendida por quem está na base da pirâmide, sob eterna ameaça de perdê-la. Justo não é, não foi jamais, mas é assim: toda liberdade assegurada a pobres, negros, mulheres, indígenas, sem-terra, pessoas LGBTQIA+ e demais grupos historicamente prejudicados em seus direitos – toda essa liberdade só pode firmar-se se souber que não chegará a estar firme o suficiente para abrir mão da vigilância ininterrupta. Cada conquista não é troféu garantido, é luta perene: voto, mobilização, abaixo-assinado, manifesto, palestra, boca trombonante nas redes sociais e demais mídias, insistência, teimosia, briga nos tribunais. Ainda que não cheguemos (como chegou José Martí) a dar a vida pela causa, não conseguiremos estar desobrigados de empregar nela boa parte da vida, como se engajados num revezamento de olhos que zelam dia e noite contra o bote do predador.

Opressores não dão liberdade, não vendem liberdade – ocasionalmente são forçados a alugá-la por temporada. Ai de nós se ficarmos com a guarda abaixada.