
O 29 amanhece com cara de abelha-rainha, pinta de diamante cor-de-rosa, deliciado na alegria de sua raridade. Tem espreguiçar de gente que dormiu em seda. Tem o abrir de olhos de gente que se gosta esperada. Tem o riso marotíssimo de um Macunaíma e o quebrar malemolente de uma Dona Flor, cheio de mistura, liberdade e tempero. Tem, basicamente, ar de quem sabe – sabe há muito tempo e não conta. Não conta seus segredos de meteoro, suas memórias de asteroide, as confidências que sua mãe Terra lhe sussurrou no berço, desabafando as flechadas recebidas no correr dos dias regulares. Não conta o que exatamente causamos de rachadura nesse ventre doído de planeta; porém nos encara com olhar que conhece. E lembra.
Não é ressentido o 29, entretanto. Valoriza a vantagem, faz doce, faz doce em relação aos seus grandes enigmas, mas enfim os compartilha, elegante. Admite que seus 365 irmãos de praxe não são menos incomuns porque anuais; repetem-se em número, nunca em fatos e alma, nunca na história deste (ou de outro) país. Preciosidades distintas que calham de nascer homônimas. O 29 de fevereiro nos saca: observa-nos durante seu longo ócio, vê-nos cair na asneira de tratar o tempo como eterno retorno, e não lucro eterno; como repetição, e não fornada quentinha. Vê-nos aguardar marcos palpáveis de festa, horas determinadas, datas específicas, em vez de considerar cada feito com a deferência de um aniversário. Vê-nos – imprudentes que somos – deixar para ser felizes só de vez em quando.
2012 é ano como qualquer, tão constante e sedutor quanto o são todos. 29 de fevereiro é dia como qualquer, tão especial por natureza quanto o são todos. Bissextos de vida somos nós.