sábado, 25 de fevereiro de 2012

Dez, nota dez

Mesmo quem não dá aula tem intimidade com a cena. O quadro lotado de matéria ou exercício, a apostila crivada de exercício ou matéria, a explicação rolando solta e um ser humano que levanta o braço com ar sonolento. Sim, meu filho, qual é a dúvida? Aposto e ganho que, ao lado da expressão sofrida e entediada da criatura, uma das perguntas vem fatídica: “Vale nota, fessô?”; “Fessô, cai na prova?”.

Não é porque adolescente, porque criança. Fazemos igualzinho – marmanjamente. Plantados e crescidos na cultura do mínimo cultivo pessoal, só tiramos traseiro e dedo mindinho de suas almofadas quando a coisa nos sufoca de urgência. De violência. De dependência. Nos beneficiamos por meríssima obrigação. Nos doamos com os necessários milímetros de dedicação. Só aqueles. Vamos ao curso de ressaca pra não levar falta, lemos o romance de véspera pra fazer prova, diminuímos a velocidade temerária porque tem radar de olho, comemos uma verdura medíocre porque tem mãe de butuca, sorrimos pro cliente porque o chefe mandou, largamos o cigarro porque a noiva exigiu. Fazemos o basiquinho de cuidado e dever sem gozo, sem gosto, sem busca, sem capricho, sem decisão. Nos relegamos a utilitários sem acessórios de fábrica. Nos aturamos porque viver cai na prova. Nos conduzimos com enfado. Nos empurramos com a barriga.

E por nossa mesquinhez incorrigível é que sou fã do desfile das campeãs do carnaval. Este desfile de hoje, de agora, com sua inteireza de sempre. Não que eu já tenha assistido. Sou fã em espírito. Em conceito. Sou fã por princípio de quem adentra a avenida pra ganhar – já tendo o troféu guardado e ganho. Sou fã de quem desnecessita de jurado pra entrar quebrando tudo, no sentido de arraso feliz. Babo nas escolas que repetem a beleza do show original, que se imitam nos estratagemas de sedução, que se esmeram nas iguais marcações, fantasias, coreografias, maquiagens, paradinhas, nas iguais purpurinas e acenos, nos mesmos destaques e efeitos, em até superiores novidades. As campeãs, já campeãs, não se economizam; vêm pra disputar título ainda que moral, que metafórico, de pura delícia própria e alheia, de pura alegria levada a extremos de seriedade. Creem na hegemonia da entrega. No perfeccionismo relaxado dos que (se) amam. No salário maior: o auto e coletivo reconhecimento.

Não acreditam em só existir quando vale nota.

3 comentários:

Luiz Guilherme disse...

nossa..gostei muito do seu txt...apesar de o Carnaval ter passado, sua beleza marca, e fica para sempre em nossos corações!

Jeh Pagliai disse...

Olá :)

Post muito bom (como sempre) hehehe

E realmente, infelizmente as coisas são assim: quem tem o maior $$$ acaba por ter mais reconhecimento :(

Beijinhos

Aline Diedrich disse...

É bom sempre se superar (mostrar o seu melhor), mesmo quando não vale nota... Porque ainda assim, estamos ganhando muito!