segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Atrás do trio elétrico

Já disse aqui no blog que meu modo é primaveril: gosto de beleza suave, fresquinha, com ar viçoso de quem se espreguiça. Gosto de ir pra janela às 5h colher cheiro de dia nascendo. Gosto de broto de folha que ainda guarda pelúcia, gosto de pétala, de umidade, de cachoeira, de hotel-fazenda. De alegria que se manifesta plena e lenta, macia e devagarinha, sem os rigores do verão. Sem sol agressivo, queimando o cocuruto. Sem caminhão de areia e, em especial, sem caminhão de gente apertando dos lados, disputando espaço numa festa furiosa. Havemos de convir, pois, que praia de meio-dia e carnaval – o que de mais verão possa existir? – definitivamente me excluem. Não são pra mim. Para, que eu quero descer. Ir a bloco, trio elétrico, folia doida e ensolarada de rua? Nun-queeee-nha. Não sob esta direção. A não ser que se organize impeachment de mim. Desiste. Nem vem com essa.

Ontem fui ao bloco do Sargento Pimenta, no Aterro do Flamengo. Mais ou menos 60 mil cabeças (fora as perdidas). Numa contagem otimista para os claustrofóbicos.

Pirou, vão dizer. Roeu a corda. Pirei não, nem me traí nas mais arraigadas convicções. Acontece que os primaveris, se curtem diversão com sossego e brisa, ao mesmo tempo estão sempre em instante potencial de florescer. Sempre em véspera. Sempre nascendo. E acontece que meu Fábio, embora também principiante de blocos, é tanto quanto ou mais fã dos Beatles que eu. Então vambora. Pior que o programa de índio era o arrependimento de não ter encarado. Encaramos: marzão besta de gente, aperto de tudo que é lado, sol marvadinho, alalaô-mas-que-calor, a sede, a sede, a sede. Com o som péssimo, puxei o Fábio pra meiuca, quase no gargarejo do bloco, pra pelo menos aproveitar o que era de interesse. Era pra fazer, era pra fazer direito. Aproveitamos. Esguichou Beatles nas várias – todas – direções.

Obladi-obladamos o hino do Pimenta (uma releitura em português da música), balançamos coraçõezitos ao som de “All we need is love”, micaretamos gritando que “we all live in a yellow submarine!”, acompanhamos no braço o coro dos 43.227 “nanananãs” de “Hey, Jude”. Quando corria brisa e o sangue beatle apimentava as artérias, quase não nos lembrávamos do programa de aborígene. Repetir não é a questão. O que não podia “to be” era a gente criar remorso de curiosidade recolhida. Mission accomplished – com alguns quilômetros de vida mais rodados.

Atrás de um eu novinho, só não vai quem já morreu.

4 comentários:

Anderson J. Silva disse...

kkkk muito divertido o seu texto. Eu também não gosto muito de aglomerações. Gostei do seu blog, virei aqui mais vezes!

passa la:

http://errosxacertos.blogspot.com/

beijos

Guru do Metal disse...

também não gosto de muita gente e muito menos de carnaval

http://rocknrollpost.blogspot.com/

Lucas Adonai disse...

Muita coraagem sua ir em bloco de carnaval ! Respirou... pronto, ja está com alguma DST !

Juliana Marques disse...

Que coragem a sua HSHAUIHUAHSI' Não gosto de carnaval, nunca gostei.