quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Ensaio sobre a cegueira

Foi ontem. Um sujeito entrou no ônibus que vai de Glória a Leblon, no Rio de Janeiro. Obrigou uma menina que voltava da escola a sentar-se no último banco e, AO MEIO-DIA E MEIA, estuprou-a. Ainda tentou com outra passageira; depois saiu, lépido, para tomar uma condução na direção contrária. Sinais do crime ou do criminoso, ninguém sabe, ninguém viu.

Ninguém viu.

Plena luz do dia-recém-tarde, ônibus aberto, cidade grande, quarta-feira sem feriado – e ninguém viu. Nenhum passageiro notou a movimentação, nenhum curioso olhou para trás, nenhum retrovisor alertou o motorista. Nada. Com que então podem nos apunhalar em praça pública. Podem nos degolar num banco de escola. Podem nos esganar no meio de um Fla-Flu. Que importa? ninguém vê. Há anuência geral à cegueira seletiva. Se passa um jeans atochado, uma camiseta divertida, uma faixa vermelha de “liquidação”, um outdoor com a siliconadona (ou bombadão) da novela, pescoços se viram. Fareja-se a presa, ainda que se fique só na saudade. Mas espiadinhas que gerem encrenca, que deem à luz o danado do compromisso, são imediatamente descartadas – em nome de duas santas certezas: estamos atrasados e outro se encarregará de resolver o quiproquó.

Vá lá, também não vemos. Não vemos a criatura de pé na calçada, prancheta na mão e olhar pidão de pesquisa. Não vemos o rapaz sentado na calçada, mão estendida e nenhuma outra intenção que não de fome. Não vemos a vizinha de metrô aos prantos, para nosso constrangimento. Não vemos o deputado eleito às gargalhadas, para nossa humilhação. Não vemos o idoso com expressão de dúvida no caixa eletrônico, ou a idosa com ar de dor sob 16 sacolas. Não vemos o assalto nem o embaraço, não vemos o suborno nem o remorso, não vemos a decepção nem o sinal vermelho. Por que veríamos? Tão mais macio ignorar o tropeço engatilhado, atravessado na rotina. Tão mais confortável passar deslizando, escorregando, com tchauzinho de miss. Fantasiados de ignorância. Aconchegados na bolha.

Piores cegos somos nós, que não pretendemos nos ver.

4 comentários:

Andy A. disse...

enxergamos só oque nos convém e muita gente tem medo de se envolver nos dramas alheios , é uma cegueira social

Ordália disse...

Desculpem a crueza, mas o que vocês viram hoje? Quantas sacolas ajudaram a carregar, em quantas mãos estendidas colocaram alguma coisa sem se importar como seria usado e considerando que não daria pra outra coisa que não fosse "aliviar" a visão? Eu sinto a mesma indignação expressada aqui e confesso que faço bem menos do que poderia... Desculpe... Foi só um desabafo! "Há algo dentro de nós que não tem nome" (Moça dos óculos escuros). Um abraço.

Guillen disse...

é aquela, se não é com a gente, não vamos "ligar"! Vamos ligar um "foda-se" e seguir em frente. O que de fato é um absurdo por que quando a batata vira pro nosso lado queremos protestar reivindicar nossos direitos. Nossa sociedade anda carcomida! somos todos um bando de hipócrita, generalizo, de fato, porem é algo que acontece. Somos assim por achar que nada nunca vai mudar. Somos passivos até dar dó! Infelizmente as coisas são absurdas como as que você relatou! Enquanto alguns realmente se importam, 90% se não 99% da população vai sempre ligar o foda-se e beber sua cerveja na sexta feira!

Marcia Gomes disse...

"Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem".
Ninguém viu a violência no ônibus, ninguém quis ver, porque o olhar o compromete.