sábado, 15 de abril de 2017

Mal-aventurados

Mal-aventurados os miseráveis de espírito – os que, sem a fome que necessita, negociam-se por uma etiqueta ou um anel; os que nivelam pela própria mesquinhez os motivos do outro, e o julgam igualmente comprável; os que sabem ter deixado crianças sem leite mas não engasgam com o champanhe; os que acham seu filho branco mais digno de vida que o filho negro de alguém; os que demitem por capricho irritadiço, os que cortam relação por orgulho arranhado, os que prejudicam por vaidade espetada –, porque é deles já o inferno em terra, povoado de solidões inevitáveis.

Mal-aventurados os que não choram de beleza e ternura, os que não se comovem com as tragédias da Síria nem da esquina, os que não urram por cada poro contra injustiças, os que não sangram pelos olhos de cada célula ferida em corpo alheio – porque não haverá consolação do oco que deveras sentem.

Mal-aventurados os vingativos, os compulsivamente implicantes, os haters profissionais, os perseguidores, os bullies, os espancões, os amigos das armas, os favoráveis ao que picota vidas e membros e sossegos e reputações – porque não possuirão nunca nem a si mesmos, perdidos na fragilidade colérica de quem tipicamente se rejeita.

Mal-aventurados os que não tiveram nenhum dia, nenhuma hora de ânsia pelo que é justo e simples; os que não arderam em nenhum desespero de corrigir as cegueiras histórias, os equívocos, as ditaduras; os que não queimaram na vontade de ordenhar os cofres do mundo na tigela de todos; os que não suspiram, insones, pela chance de avançar em mil anos a psiquê terrestre – porque lhes faltarão sempre o leite e o mel que restauram as almas com apetite de ser gente.

Mal-aventurados os que não perdoam, os que não têm a carinhosa compreensão do humano, os que por princípio julgam e desconfiam, os que preconceituam em vez de escutar com paciência e café, os que maldam, os que difamam, os que apedrejam, os que selam a bobagem alheia com a letra escarlate, os que amarram o diferente e o intolerado na fogueira, os que criam a guerra concreta pela superioridade abstrata, os que se querem deuses mal sabendo ser átomos – porque não terão jamais férias internas, consciência macia, gratidão no pagamento ou serenidade na escolha.

Mal-aventurados os nunca chamados comunistas, ingênuos, utópicos, românticos, petralhas, esquerdopatas, grevistas vagabundos, defensores de bandido, acolhedores de pivete, porque nunca se pareceram com o crucificado e sempre com os crucificantes. Mal-aventurados os incapazes de empatia, os religiosos de decorar versículos e não de encarná-los, os que adoram no verbo e esbofeteiam na vida, os que se escoram no rigor e não no amor, os que querem parecer e não são, os que não querem ser e parecem, os Pilatos, os covardes, os isentões, os soberanamente indiferentes, os pilares (de areia) da comunidade, os sepulcros de mármore que são condomínio de vermes – mal-aventurados sois vós, víboras que mordem o calcanhar por não voarem, hienas que torturam por não terem a coragem do afago, bactérias decompositoras que se alimentam do podre; sois vós, porque vossos limites são pó e ao pó voltarão, vossas heranças cederão ao cupim, vossas lembranças não morarão nos livros de História. Vossos nomes não puxarão lágrimas de reconhecimento. Vossos enterros serão com flores mandadas e sem dores sentidas.

Mal-aventuradas sois: vidas que não regam outras vidas.

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