segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Desculpe o transtorno

Ouvi da apresentadora de uma formatura: “Todos nós, formandos, deveríamos andar com uma plaquinha no pescoço que dissesse ‘Desculpe o transtorno, estou em construção’.” É certo que um cursando de qualquer área pode, eventualmente, dar defeito durante sua formação; tem ocupações, provas, trabalhos, ausências, pequenos desesperos, ainda grandes imaturidades. A porta-voz da turma reconhecia as chatices que o processo poderia ter imposto a cada um dos que se preparavam – e a suas respectivas famílias. Mas, assim que ouvi a frase, me veio o (óbvio) clarão de que a plaquinha não deveria, de modo algum, ficar limitada aos formandos. Ou entendamos isso às avessas: não eram só aqueles formandos os potenciais donos da plaquinha. Sou, aliás, a primeira a entender o pescoço. Pode pendurar. Nele ali, nele, nele e nela também. Também em você, leitor, nem tente se avestruzar. Todos nós estamos em curso.

Todos nós estamos em curso, causando transtornos feito bestas enfurecidas. Enquanto não concluímos o trajeto, enquanto somos humanos amadores, enquanto somos protótipos de gente, atropelamos meio mundo nas pesquisas de nós. Raio de carreira difícil. Passamos noites em claro nos procurando (ou procurando the one, ou ambos) em comemorações intermináveis, e matamos de agonia os que estão em casa, já encontrados. Temos rudezas infelizes porque não atingimos – ou the one não atingiu – bom conceito nas primeiras provas. Temos CDFices obsessivas de relacionamento, DRs obstinadas, porque um qualquer fulano nos deixou de recuperação. Sofremos de teimosia num tema de busca, escrevemos repetindo nossos cacoetes, falamos papagaiando nossos professores. Ou pior: esquecendo nossos professores. Precisamos de 31.247 dias de estágio antes de virar pessoa. Antes de vencer a grosseria que garra na gente pior que cerol, antes de jogar fora os últimos resquícios de ciúme abusado, de inveja encardida. De dependência emocional crônica. De tagarelice maledicente. De covardia amarela. Antes de a gente escancarar as asas e sacudir a velha poeira – e isso ainda com o desengonço de um pterodáctilo saindo no ninho.

Crescermos, maturarmos, evoluirmos dói. Especialmente nos outros.

5 comentários:

JOY disse...

Olááá,
vou aguardar a volta do seu blog!
Enquanto isso, está em meus favoritos.
um grande beijo!

http://joycebc.blogspot.com

Raphael Vidigal disse...

mucho bueno, moçita!
critica ben construtivista.
rotos abrazos

Sandro Batista disse...

Fernanda,

Que maravilha de texto! Perfeito! De fato todos nós deveríamos andar com a plaquinha, alertando a todos que "estamos em construção". Aliás, essa plaquinha deveria ficar pendurada a vida inteira, porque nós estaremos em construção sempre, até o fim de nossos dias, pois não existe ninguém que não tenha algo de novo a acrescentar sempre.

Muito bom texto!

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/

Wanderly Frota disse...

Construção essa que merece atenção todos os dias da nossa vida. Estamos em constante edificação.

Belíssimo!
:D

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

TEXTO NOVO NO MEU BLOG. ACESSE, LEIA E COMENTE.
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/11/fragmentos-de-um-licantropo_08.html

TB ESTOU EM CONSTRUÇÃO. AINDA NÃO ME FORMEI =/