domingo, 6 de novembro de 2011

Só nós

Releio uma entrevista dada pelo pianista americano Keith Jarrett em março, quando se preparava para voltar ao Brasil. Jarrett é sui generis; quem disse que segue temas ou partituras ao piano? Nada. Toca de improvisíssimo, “numa espécie de transe [...], num fluxo aparentemente inesgotável de ideias e melodias”, conforme definiu Arthur Dapieve em matéria para O Globo. Questionado pelo entrevistador a respeito de suas inspirações, Jarrett lascou: “[...] tocar é como pular de um rochedo sem saber o que há lá embaixo. [...] Tocar é correr riscos, tem de ser perigoso. E há um elemento extra: a sensação de que se eu não tocar, ninguém mais vai tocar aquilo”.

Por aí foi; mas me concentrei nessa parte, deliciada, porque relembra ou confirma minha resposta de sempre aos que dizem “ninguém é insubstituível”. Todo mundo é insubstituível, devolvo. Keith Jarrett, sem falsas modéstias ou comerciais pudores, percebeu e usa a própria insubstituibilidade como gasolina, convicto de ocupar um lugarzito no mundo que outro ser algum ocupa no mesmo estilo, graça, medida, volume. Está certo até o nariz. Se Keith não tocar aquilo, podem vir todos os Moreiras Limas e Nelsons Freires (e mesmo Chopins) que não tocam. Ao menos não dessa intransferível maneira, desse jeito único. Podem nos copiar, emular, imitar, até superar; não podem, porém, nos substituir. Substituímos um rolo de papel higiênico por outro, uma colher que caiu no chão por outra, uma TV que pifou por outra de igual modelo. A gente não. É molde unitário. O que fazemos, benfeitamente ou mal, ninguém tasca, a gente fez primeiro.

Só nós podemos ler o poema com a nossa voz e ênfase, e contar a piada com esse determinado tom, e ter uma tirada genial nesse determinado teor e tempo. Só nós podemos ser aquele exato filho mais novo que produziu aquela exata ruga, só nós podemos ser aquela exata namorada que beija com aquele exato gosto. Só nós temos a nossa música de fala, o nosso ritmo de passo, o nosso timbre de canto, a nossa temperatura de abraço, o nosso cacoete de nariz, a nossa mania de ordem, a nossa ordem, a nossa bagunça, a nossa ternura, o nosso cheiro, o nosso côncavo de travesseiro. Só nós estamos aptos para digitar com a nossa pressa, para tropeçar em nossos cascalhos, para decorar com as nossas cores, para escrever sobre as nossas metáforas, para convidar com os nossos olhos. Somos talvez esquecíveis para alguns, para muitos – porque a lacuna do outro é maior ou menor que nosso número. E a esquecibilidade nos ilude: se somos tão insubstituíveis, por que nos trocam? por que nos deixam? Trocam-nos; mas não seis por meia dúzia. Trocam-nos justamente porque nossa unicidade não é a procurada no momento. Deixam-nos por outra, diferente circunstância. Ainda que seja o shampoo usado ou o piercing no nariz.

Somos trocáveis, não substituíveis. O fim das relações é a justa prova de sermos tão exclusivos. Se fôssemos geleca de modelar, a qualquer um bastaríamos e qualquer um nos bastaria; em qualquer emprego estaríamos bem e qualquer um nos contrataria. Era só brincarmos de barbapapas e nos adaptarmos elasticamente a todo nicho. Não. Não somos pé para todo sapatinho: eis a maravilha. Porque o sapatinho finalmente encontrado e calçado nos compensa com a pelúcia da convidadice VIP.

(E Cinderela, quem diria: no fundo, um libelo da força de nossos talentos.)

2 comentários:

Marcelo Leme disse...

Seu lugarzito é um local interessante. Pela matéria, seu blog é insubstituível.

Boa semana

Karla Hack dos Santos disse...

A conclusão não poderia ser mais feliz!! Adorei a sua reflexão... precisa!

;D