segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Encantada

Muito ator faz laboratório visitando casa, tribo, trabalho de personagem. Mas o laboratório maiorzão de todos continua sendo o figurino. Todo mundo é meio Super-Homem: colocados os óculos, nossa natureza amansa e vira Clark Kent. Vice-versa. Para que super-herói tem uniforme? Com ou sem capa, máscara e malha colante, são idênticos os poderes. Só que muda a voz interna. Muda a sintonia. Muda o canal. Clark não tem clima de voar de óculos, chapéu, terno e gravata; Kal-El beija as nuvens com bota, roupitcha de cores primárias, Szão no peito e cueca por cima do collant. Um vice-versa é absurdo. Pergunte-se ao soldado se é com farda ou traje civil que sente adrenalina pulando na veia. Pergunte-se às vítimas do Esquadrão da moda se é com as roupas velhas ou novas que sentem a postura se esticando como garça. Garanto: a despeito daquelas lições de Sessão da tarde, aparência não mora só no nosso fora. Começa lá, mas faz infiltração. Como é que o nosso dentro pode ficar impermeável ao olhar de nós mesmos, e ao toque, e ao peso, e à forma, e ao tecido?

Tive essa exatinha noção ao fazer, hoje, a primeira prova do famigerado vestido de noiva. Tem nada ainda; está que é só rascunho e alfinete. Somente projeto. Limitei-me a vestir uma ideia branca. Loooonga. E nem gosto (tanto) de branco – muito menos de vestido longo, já que sou, como diz o Fábio, uma noiva curta. Piso no pano quando ando, piso nas anáguas, horrorizo-me ao constatar a quantidade oceânica de fazenda que me rodeará qual a uma ilha. Está longe de ser um saião de Cinderela e já me engole, peninsulazinha que sou. Metros quadrados de estorvo em forma de cetim.

E, ainda assim, nunca fui tão noiva. Surreal a sensação de princesice, o quê de Disney, algo de neblina, o ruc-ruc-ruc do tecido, o dançar feminino e malemolente da saia. Não sei que feitiço há em traje de casamento que nos deixa uma impressão muito razoavelmente simpática de nós mesmos. Que nos empresta um olhar tolerante em relação aos detalhes abominados, que nos cede uma coragem feliz. Eis que me vi ali, não beijando as nuvens de capa vermelha, mas dentro de uma – vestida de uma – no transporte de uma ideia branca, desconfortável e branca, branca e linda. A farda maior da guerra aos hábitos. O uniforme-símbolo dos novos poderes. A fantasia dos novos tempos. A armação das novas posturas.

Noivas, vistam-se de noivas, se forem noivas. É vestir uma versão melhorada da gente, não à toa que branca, como a liberdade fresca dos rascunhos e a tela dos maiores princípios.

5 comentários:

Blog UaiMeu! disse...

Eu acho lindo vestido de noiva. Imagino o seu encantamento e sua emoção, parabéns!

Rejane Ferreira disse...

Oww que texto maravilhoso, adorei! Fiquei imaginando você vestida, "branca e linda". Deve ser uma emoção e tanto, espero ansiosa pelo dia em que sentirei o mesmo. =)

Beijos querida!

http://rejane-ferreira.blogspot.com/

Sombra disse...

legal, deve ter se sentido realmente diferente com um vestido assim, deve ter ficado bonita também! rsrs

João Batista de Lacerda disse...

Fernanda.
Realmente estava devendo e peço desculpas, mas, por favor, refaça seu comentário em meu blog.

Cicero Edinaldo disse...

por mais q o vestido fosse bonito, ele não ofuscaria a beleza q vc tem interiormente! adoro os seus posts!
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blogestarcomvoce.blogspot.com