sábado, 5 de novembro de 2011

O oferecer como fuga

Em recente crônica na revista Casa e Comida, Bell Kranz expôs a diferença entre nossa cultura “tradicional” – a de oferecer e recusar guloseimas somente por educação – e a cultura de comunidades indígenas no Alto Rio Negro, noroeste da Amazônia. Relata Bell que, em passeio com amigos “brancos” pela região, era comum o grupo levar lanches para agradar aos donos das casas visitadas. “Foi então que, ao perguntar a um índio se ele queria um sanduíche” – conta a jornalista – “ouvi o seguinte: ‘Quando a gente quer dar, a gente não pergunta’.” Paf. De fato, assim foram recebidos os amigos da autora pelos índios Tukano. No questions, nada de “está servido?”; apenas o ato de servir, direto, desburocratizado, simples. O servir em si mesmo, com gosto e apetite, sem ocasião da recusa polida que é fonte certa de frustração (para o recusador).

Oferecer é fuga. Fuga de nossa responsabilidade de doar, de nossa tarefa de dar prazer. Fuga terceirizada na negativa do outro: servi, ele é que não quis. Não quis, é claro. O outro não quer oficialmente privar-nos de um naco, não quer ser diminuidor de nossas porções, e (em especial) não quer ser caçador de gentilezas. Há sabor nenhum em gentilezas caçadas, garimpadas, a contragosto atingidas. São frescas e suculentas as doçuras espontâneas, que nos vêm sem o mover de um dedo. Sem nossa participação na escolha. Que graça, que verdade há no mimo estendido pelas boas maneiras?

Oferecer é falso. Hipocrisia de quem não quer ou espera ser aceito. A ânsia de ceder o quitute, de entregar o presente, não aguarda: é cega o bastante, forte o bastante para atropelar-se, para efetivar-se até antes da hora, preciso sendo. Não pede nem necessita da participação do freguês. Realiza-se em si, na sofreguidão do ofertar. Pouco lhe importa como, quanto, o quê. A essa febre autêntica de partilha, uma aceitação seria redundante; uma recusa, ofensiva. Nada detém o privilégio de alguém realmente encantado com a importância de dividir.

Generosidade tem pressa. Inclusive – generosa que é – de tomar para si a autoria das fomes que ajuda a saciar.

Um comentário:

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

NANDA, REALMENTE ISSO O QUE OS ÍNDIOS DO ALTO RIO NEGRO FAZEM DEVERIA SER UM EXEMPLO PARA ESSA NOSSA SOCIEDADE HISPRÓQUITA!

DEPOIS DE LER O COMENTÁRIO, PASSA LÁ:
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/11/o-hospede-e-o-lobisomem-final.html