sábado, 9 de julho de 2011

Foi ele que começou

Sala de aula. 40 gremlins de uniforme. Um deles faz algo ligeiramente mais excêntrico que o caos nosso de cada dia. Cruza a sala e esmurra o melhor amiguinho, digamos. Desaba da cadeira de tanto rir, no meio da prova final. Atira a carteira na melhor amiguinha. Seja qual for o ato de candura ou a providência que você, resignado mestre, venha a tomar, não tenha dúvida: o cidadão se virará indignadíssimo com a sua injustiça. E soltará um inevitável – “Mas foi ele que...!”. Me chamou, me cutucou, me roubou, me sacudiu, me bateu chateou arranhou cuspiu xingou obrigou a subir na mesa riscar a parede tirar a roupa quebrar a porta (seus neurônios de resignado mestre já não conseguem processar as vírgulas em tempo real). Acompanhando a declaração de que “foi ele”, um gesto vago, apontando tanto o colega da direita como o de oito mesas atrás. Foi ele, qualquer ele, desde que não tenha sido eu. Foi o não-eu. Foi o mundo.

É sempre o mundo. Esse conspirador, esse desconhecido. Você, resignado mestre, discursa pela quaquicentésima vez que não, não foi ele, quando um não quer dois não brigam, a gente tem que assumir a responsabilidade e blás, muitos blás. Todos blás verdadeiros. Mas, em um daqueles momentos-joão-batista, você é a voz que grita no deserto. Está arraigado, grudado em gente brasileira feito visgo, desde criancinha. Primeira noção básica de brasilidade: a culpa é dele. Somos, basicamente, um país que se terceiriza.

Foi a colonização que a gente teve. Foi a Inglaterra que exigiu nosso ouro, ora pois! Foram os nobres da época que exploraram, escravizaram, se venderam. Foram os pobres da época que exploraram, escravizaram, se venderam. Foram seus filhos que puxaram os gritos de guerra subversivos. Foram os Estados Unidos que meteram seus filhos nessa guerra. Foi o candidato do PQP que começou essa obra. Foi o governador do TNT que deixou essa dívida. Foi o FMI que nos ferrou. Foi o FBI que nos obrigou.

Foi a Light que ganhou a concessão. Foi a CEG que não fez a manutenção. Foi a Globo que plantou a informação. Foi a escola que deixou ele entrar. Foi a escola que fez ele sofrer. Foi a minissaia que fez ele se excitar. Foi a lotação da casa que prejudicou o funcionamento. Foi a falta de chuva que impediu o abastecimento. Foi a União. Foi o estado. Foi o município. Foi a lata de lixo que não chegou mais pra cá. Foi o carro da frente que não chegou mais pra lá. Foi mamãe que mandou. Foi papai que deixou. Foi o Juca que quebrou. Foi ele que...!

Com o primeiro país que disser “Fui eu!”, eu caso.

17 comentários:

Kiko Lemos disse...

Uma bela crítica em que sempre acabamos falando ser responsabilidade do outro, do fulano e ciclano, mas não conseguimos enxergar nosso papel. Gostei muito do "somos, basicamente,um país que se terceiriza" o que é verdade, infelizmente.

Grande abraço

Lívia Neves disse...

Concordo, tudo que acontece de errado e fomos nós que fizemos, arranjamos um jeito de colocar a culpa no outro, não importa o que tenhamos feito. A culpa é colocada lá na época de 1900 e guaraná com rolha ou até mesmo bem antes disso, mas nunca assumimos a nossa parcela de culpa, de erro. Uma crítica maravilhosa.
E bom, mudando de assunto, obrigada pelo comentário lá no meu blog. Fico feliz em saber que gostou da minha resenha. Obrigada por me dar o toque do errinho lá, já tirei aquele espaço.
Seu blog está de parabéns. Muito sucesso pra você.

Macaco Pipi disse...

se pensarmos assim nunca acaba nada

Samanta Azize - Blog Azize Fashion disse...

Gostei da crítica.

http://azizefashion.blogspot.com/
Minha page:
http://www.facebook.com/pages/AZIZE-FASHION/133491186723572

Rodolfo Xavier disse...

Adorei a crítica, feita sutil e acidamente. Você escreve bem, e continue assim!

dá uma passada no meu!

www.naosoutaoruim.blogspot.com

Jamerson Izaque Widller disse...

caralho, mt phoda esse texto.
tive que ler rápido pq tow de saída, mas depois dou uma lidinha com mais calma, mas tah mt bom
parabéns. abraços

paradigmas universal disse...

Você é professora? visão trágica da educação ...

paradigmas universal disse...

Me add no msn alexandrespop@hotmail.com bjos

Lucas Adonai disse...

Muito bom ;D

Mara Paulino disse...

Comecei a ler e confesso que fui pegando entusiasmo e não parei mais.
A triste verdade. Nunca estamos prontos para nos auto acusar. Aparece o desespero e estamos sempre prontos para apontar um culpado.

Gláu ツ disse...

Muito bom seu post ^^
Vou seguir o blog..
visite o meu

http://lovesongone.blogspot.com/

bjs

Ana C. disse...

flor, vc falou da receitas..
sua irmã temalergia?
olha só, esse blog é mto bom ^^
http://malucontraaalergiaalimentar.blogspot.com/

bjinhos ^^

Nivaldo Gomes Filho disse...

ola fernanda, sobre o comentario que voce deixou em meu blog.

vou tentar explicar


como voce pode ver o tema do meu blog é evangelico e por o tema ser esse tenho sofrido varios calotes e nao é certo isso.
pois quem postar ali ta aceitando as regras da comunidade e tem que postar nao importa qual o tema do blog
se voce postou seu blog voce tem sou evangelico e mesmo assim comento em blogs com tema variados.

o que nao acho certo é voce postar, comentar no blog acima do seu poster e nao recebeer comentario da pessoa que postou abaixo do seu poster.que comentar no de cima e quem postou apois voce tem que comentar no seu.
pra voce ter uma idea eu

eu nao to obrigando ninguem a comentar no meu blog eu só acho que se ela postar o blog dela ela tem obrigação em comentar no blog acima caso contrario terei que punir mesmo, é regra da comunidade e como voce pode ver existe muitos blogueiros querendo levar vantagem mas la o indice tem reduzido devido a essa regra de expulsão

agora as pessoas pensa antes de dar calote.


bom fds que o senhor te abençoe.

Luana Feres disse...

Gostei. Já tinha comentado outro dia no seu blog e lembrei dele. Eu gosto da maneira como você escreve. É bem... natural. Despretensioso, sabe. E a critica está ótima. Parabéns.

Beijos.
Mulher gosta de falar

Brandão Figueredo disse...

Minha cara,

Você percebe perfeitamente a vitimização passiva característica de nosso perfil, onde sempre o outro é o culpado; o traço histórico, seu desenvolvimento contínuo na linha de nossas desventuras coletivas...
Somos nós que produzimos a miséria, o subdesenvolvimento, a imbecilização, a barbárie. Isso é feito agora, neste exato momento - por nós. A ideologia é a ordem mística desse rítmico movimento das serpentes e dos ossos. É o que repetimos todas as horas dos dias.
A função do artista - se existe alguma - é quebrar as essas verdades, miná-las, destruí-las...ruir a ditadura do lugar-comum, da infinita repetição fascista de obviedades cretinas.
Estou com raiva. Isso é bom. Estou com vergonha. Isso é melhor ainda.
A culpa é sua. Obrigado.

Anderson.

Paulão Fardadão Cheio de Bala disse...

Não sei... existem casos em q o aluno é importunado diariamente e direção da escola não faz nada, tem medo de perder uma mensalidade ou entrar em conflito com os pais se expulsar os alunos agressores. E então, qdo o infeliz toma uma atitude por conta e arrebenta a boca de alguém, "qdo um não quer dois não brigam" "tem q assumir suas responsabilidades". E a responsabilidade da direção em zelar pelo seu aluno?

Nivaldo Gomes Filho disse...

gosto muito do seus textos vou seguir seu blog.


que o senhor te abençoe.