domingo, 31 de julho de 2011

A tal

Semanas atrás, Artur Xexéo listou uma série de não-aguentos em sua coluna dominical. Entre outras não-aguentices, não aguentava mais que a torto e a direito se respondesse “com certeza”, que se concluísse um pensamento com “enfim”, que atores e atrizes descrevessem o personagem como “um presente do Gilberto” (ou do Aguinaldo, ou do Maneco, ou da Maria Adelaide), que os participantes da “Dança dos famosos” definissem sua performance como um ato de “superação”.

Acenei afirmativamente com a cabeça. Eu também estava em pleno não-aguentamento desta última xaropada e já mentalizava uma postagem em que concordaria solenemente com Xexéo: superação não é nome que se gaste em vão. Há diferença balofa entre enfrentar dificuldade e superar-se, eu alegaria. Superam-se de fato as pessoas como Helen Keller (surda e cega de nascença, que virou intelectual e palestrante), Beethoven (todos sabem em que condições compôs a mais bela das sinfonias, não sabem?), Nelson Mandela, Galileu, torturados que sobreviveram, amputados que ganharam medalha olímpica, filhos de bandidos que deram cientistas humanitários, herdeiros riquinhos que escolheram cuidar de leprosos – eu exemplificaria, catando situações extremas. Estava pronto, ou pensado, um libelo contra o superacionismo piegas. Um grito de ordem nessa bagunça. Então estão achando que podem meter superação em qualquer obstáculo fubá? Semanquice, please!

Pois “semanquei-me”, e eis que discordo solenemente de mim mesma. A própria teima em atualizar diariamente o blog (suadouro mais fubá, impossível) me dá a conta mais exata e humildezinha da coisa. Monte, montanha, cordilheira demandam fúria, fôlego e equipamento adequado de alpinismo, mas de tal maneira se agigantam no caminho que não há muita alternativa: viver ou morrer. Pedregulhos não. Não te deixam na defensiva contra grandes dores; vêm mansos, vêm traiçoeiros, minam a resistência, encontram a brecha, atacam em casa. Nossa coleção diária de superaçõezinhas não chega a uma superaçãozona de sofrimento extremo, mas dá carrinho, chuta a canela, faz tropeçar e quebra dentes.

São, sim, a tal superação: a raiva engolida sem vítimas, a educação mantida sem remorsos, o tapa não dado, o despertador não destruído, a droga não provada, a traição não cometida, o ritmo aprendido, o torcicolo ignorado, o prazo respeitado, a receita reproduzida, o arroz temperado, a dieta começada, a aula concluída. O blog atualizado. Vencer a cordilheira é dor pra mais de metro; vencer a agonia em milímetros é menos agudo, menos excruciante – não necessariamente menos comprido. Onde estivermos, nosso ponto de vista adivinhará ou providenciará arapucas. Fabricará episódios da série. Complicará a novela. Seremos nela heróis: no atacado ou no varejo.

Com certeza.

9 comentários:

Francorebel disse...

Filosofar muitas vezes é inteclectualizar.

Vamos FAZER as coisas!

F.

Paulão Fardadão Cheio de Bala disse...

Eu tenho raiva é de ouvir em toda porcaria de entrevista com jogador de futebol os caras falando em "professor". Porra, nossa população perdeu o limite da pieguice.

Cidadã do mundo disse...

kkkk amei o post. Vivemos em meio a várias expressões repetidas, que acabam virando a moda do momento. lugares comuns que se repetem e de tanto se repetirem acabam sendo banalizados... um falo outro ouve, acha bonito e repete e assim vai, algumas vezes nem se sabe porque estão (ou até mesmo estamos dizendo aquilo) mas o fato é, entrou na cabeça e caiu na boca do povo.

Wellington disse...

Esse repeteco todo das celebridades é fruto de uma vida sem profundidade intelectual. Em papo amigos na sexta falamos que muitos tem medo de estudar muito um assunto que não terá com quem conversar achando que ninguém entende, pensará ser careta, etc. Alguns que estudam querem ler de tudo sem se aprofundar também. Quando nos aprofundamos elaboramos melhor nosso vocabulário, reflexão e atitude. É por isso que não há muitos que saiam do igual pois para ser diferente e impressionar tem que ter estudo de anos e de bons materiais.

^^ Mas, gostei do seu post! Por isso que dou preferência para internet e ligo raramente a tv.

Abraços!

http://neowellblog.wordpress.com/

Marcelle Gália (Celle) disse...

E não é que os atores seguem mesmo um script fora das telas? rs
O exagero na palavra "superação" é mesmo gritante, mas pensando bem, superação não é algo um tanto individual? Cada um tem seu limite...o que pode ser bobo pra vc, pode ser um grande passo para alguém.

Millena Blogueira disse...

Parece que tudo ficou rotulado e padronizado demais.

HÉLIO disse...

muito bom parabéns

Eri(cat) disse...

é mais facil se arrepender do q nao se fez e nao ter mais a chance

Sandro Batista disse...

Gostei muito da sua reflexão, e vou focar na questão da superação. Concordo que grandes feitos, onde grandes dificuldades são vencidas aparentemente tem mais valor que outras coisas que julgamos corriqueiras... Mas não podemos deixar de levar em consideração, que o poder de superação de cada um não tem medida, e se para nós, simples mortais, a superação de Beethoven, por exemplo, é um feito grandioso, pode ser que para ele não tenha sido tanto assim, afinal de contas, para quem já era um gênio, ter ficado surdo não alterou em nada o talento, o que lhe foi tirado apenas foi a capacidade de ouvir ("apenas" sugere descaso, mas não é o caso, é apenas para ilustrar... Imagine eu ou vc , totalmente leigos em música, e ainda por cima surdos!!!!! e de repente, compomos algo. Nossa superação talvez fosse maior que a dele!). Quero dizer com isso tudo é que não se mede certas coisas, porque o que para alguns pode não significar muita coisa, para outros pode ser uma grande conquista, e eu concluo que a superação é algo bastante pessoal, e intimamente ligado ao poder e visão, e limitação de cada pessoa.

Adorei seu post!

http://estacaoprimeiradosamba.blogspot.com/