segunda-feira, 11 de julho de 2011

Nem parece

Adoro aquela seção “Entreouvido por aí”, da Revista dominical dO Globo. A cada semana, pérolas de conversas recolhidas de passagem – em ruas, shoppings, mercados, praias e afins. Algumas edições atrás, veio uma de academia, dita por uma aluna para a funcionária da cantina: “Você é casada? Nem parece, é tão feliz”. Se um pretendente caiu na esparrela de pedir a mão de alguma leitora naquele dia, tomou na orelha.

Por motivos que me fogem à compreensão, existe uma campanha universal pelo descontentamento. Quem não está descontente com algo deve tomar vergonha na cara e parecer. Nem é de bom-tom mostrar-se tão satisfeito o tempo todo. Empregado que não dá sua sagrada resmungada de 15h20? que nunca se candidatou a promoções porque adora seu cargo? Puxa-saco, vendido, pamonha, sem ambição. Esposa que não tem um ai pra dizer de futebóis às quintas, de tábuas de vaso levantadas, de cuecas perdidas pela sala? Ingênua, tadinha, ainda está em lua de mel. Espera só pra ver quando ele...! Sócio que não briga com sócio? Vai ser roubado. Genro mimado por sogra? Ainda não morou com a velha. Torcedor achando o máximo a nova escalação? Cegueira de apaixonado. Fiel que não vê a menor necessidade de fazer um sandubão de seus preceitos com os de outras crenças? Fanatismo religioso. Impossível ser sujeito decente, pagador de impostos e ao mesmo tempo tão pleno, tão adequado a seu espaço, tão desavergonhadamente feliz. Dá um Tylenol, isso passa. Repouso, vitamina C, canja e uma reclamadinha de duas em duas horas.

Mas nem pense em ser triste. Triste também não pode, há contas a pagar: deixa de frescura e manda ver no tarja-preta. Cidadão que se preze tem de exibir aquela dose respeitável de amargura, sabendo meter na conversa dois ou três comentários ácidos muito bem-vistos socialmente; só o bastante para não oprimir ninguém com sua insuportável alegria – e nem tanto a ponto de seu interlocutor pensar que vai ter de resgatar você da sacada do 27º andar, daqui a 15 minutos. Não queremos assustar um desavisado, queremos? Menos sentimentos, por favor. Pelo menos, não neste horário. A não ser que um excêntrico você prefira ser reconhecido em si mesmo e creia que vale o risco de um atentado ao pudor sair com a alma obscenamente pelada rua abaixo.

Até parece.

7 comentários:

Lucas Adonai disse...

Poxa, muito bem elaborado o texto! :D

Paulão Fardadão Cheio de Bala disse...

Não sei se é apenas preconceito da minha parte, mas identifico a maioria dos maus hábitos, vícios e comportamentos imbecis da nossa sociedade moderna à vida massificada e pasteurizada das grandes cidades, q parecem transformar seus habitantes numa imensa manada q de tanto reagir ás situações com respostas condicionadas, perderam a capacidade de analisar as peculiaridades e individualidades de situações e pessoas, acabando por não saber reagir a nada q fuja de seu arcabouço de frases feitas e comportamentos predeterminados.

enricows disse...

Concordo como primeiro comentário, o texto está muito bem elaborado. Eu o achei cômico e ao mesmo tempo filosófico!
Parabéns pelo blog! Abraço!

Comente no meu blog também:
http://enricows.blogspot.com/

Nubia Santos disse...

Ótimo texto ! Reclamar realmente é um vício humano , é dificil ver alguém completamente satisfeito . Adoro seu blog ;)

MI MARTINEZ disse...

Adorei...sua escrita é simplesmente saborosa,com elementos dos quais mais valorizo,o escrever envolvente como o de quem fala a um velho amigo!
Muito bom!

http://asasecasulos.blogspot.com/

Andy A. disse...

Adorei , muito bom texto e é realmente verdade o "descontentamento " esta na moda .

http://andyantunes.blogspot.com/

Lainara Américo da Silva disse...

Oi linda, vi que você comentou no meu blog e eu fiquei muito feliz em ve-lá por lá, mas muito feliz mesmo, porque cada um tem uma importância muito especial, ainda mais quando percebo que leu a minha postagem e gostou, obrigada mesmo.
Muito sucesso pra ti por aqui também viu guria?
Bjs :*