quinta-feira, 21 de julho de 2011

É o melhor para poder crescer

Minha colega de trabalho soltou uma expressão literalmente apetitosa: “Meu estômago não fica de luto”. Achei graça e ela disse que é frase de família; entre os seus, não há tempo ruim em termos de comilança. O que vier, traça-se, na alegria e na tristeza. Nada daquelas frescuras de “fechar a garganta” no meio do fogo-cruzado de prazos, senhas, burocracias, empregada faltando, filho de recuperação. Nada do fastio chique de criaturas assoberbadas. Nem da inapetência exigida pelas grandes comoções – doença e morte, principalmente. “Quê? O filho nesse estado e ela al-mo-çan-do na cantina?”, resmungam os seres etéreos. “Mal perdeu a mãe e já montando festa de quinze anos para a filha?”, escandalizam-se os que vivem de fotossíntese. Por razões absurdas, o mesmo mundo que lhe injeta Prozac na veia, no caso de um suspiro dois segundos mais longo, é o que lhe fiscaliza o tempo regulamentar de luto. Especialmente luto estomacal. Ai de ti se as funções vitais não ligaram na CBN, não viram Globonews, não espiaram pela janela a revolução descer a rua – e continuaram respirando, salivando, roncando, tremendo, até (infâmia!) gozando. Monstro de frieza que tu és, incapaz de sofrer adequadamente para o registro nos autos.

Foi escutar a frase da colega e lembrei, de imediato, o maravilhoso conto de Mário de Andrade: “O peru de Natal”. No drama da família que se divide entre a dor obrigatória (pelo patriarca morto) e a fome envergonhada (de uma boa ceia), rios de humanidade correndo. Retrato da vida penetrando nas frestas, entrando pelos cantinhos, comendo pelas beiradas, procurando buraquinhos no protocolo, escondida no cheiro assado do peru. É só o grupo se distrair que ela entra caudalosa – pelo estômago, como entram grandes amores. Como diria Guimarães Rosa, felicidade se acha é em horinhas de descuido.

Sempre acreditei na metáfora do estômago. Olho com mais simpatia os que, faça chuva ou sol, nunca perdem o apetite. Não é frieza que vejo: é justamente esse calor de vida correndo nas artérias, mais poderoso que as quedas no percurso e as etiquetas de salão. Viver é ter fome. Em todos os aspectos. Como até pouco, por escolha (não por vontade); mas o que como, como feliz. Em todos os aspectos. Mirando o prato, cheirando, degustando, vampirizando o caldo das frutas, me lambuzando quando é devido. Metaforicamente me lambuzo ainda mais: meus olhos cismam de engolir o mundo. Deleitam-se infinitamente no que devoram, querem repetir o prato, insaciáveis. O que me conforta. Tenho tesão bastante no planeta para mais uns 190 anos de vida em comum. De que se trata uma desistência completa, um estado depressivo, senão de um coração que perdeu o apetite?

Agora, muito com licença. Vou caçar na rede leiturinhas pro café. Servido?

8 comentários:

Italo Stauffenberg disse...

ótimas comparações traçadas por você em seu texto! ficou super interessante lê-lo até o final!

http://manuscritoperdido.blogspot.com/

Lucas Nuti disse...

A-DO-RE-I!
Viver é ter fome mesmo, e quem tem fome de viver é mais feliz por escolher o que vai comer, e não engolir qualquer coisa!
_______________________________
http://alteregodonuti.blogspot.com/

sabrina oliveratta disse...

Amei o que vc escreveu!

Adorei o post! Seu blog esta de parabéns!
Tem post novo lá no blog.Espero sua visita lá!
bjs!]
http://fashionmaniacbrazil.blogspot.com

Érica disse...

Estupendo! Como diriam os hispanohablantes. Texto maravilhoso, ter fome e sede e poder saciar-se é algo que só se compara com saciar o desejo da pessoa amada. Porém concordo com você que lambuzar-se metaforicamente, saciar os olhos, devorar e deixar-se devorar pela leitura é maravilhoso.
Adoro “O peru de Natal”. Ótima intertextualidade!

Um abraço e até breve!

http://alma-feminina.blogspot.com/

Karla Hack dos Santos disse...

Adorei como suas formas de interligações são inusitadas e encantadoras!

;D

BLoG do CHARQuE disse...

Eu sinceramente ri! Hauaauahahahahuahuuha

inusitado!

O melhor Blog do... Meu Bairro!!!
http://blogdocharque.com/

Lucas Yamashita disse...

Belo post.Porém muitas pessoas se privam desse prazer só para ficarem com a "beleza" ideal...nossa sociedade,nossa sociedade.

http://euaparatodosetodas.blogspot.com/

Marcus Alencar disse...

Ironicamente, a fome alimenta a criatividade. O aparente vazio preenche os espaços que logo se juntam e formam uma idéia. Isso nada mais é do que a fome por palavras, não esquecendo de usá-las e desconectando sujeito de verbo. Não. E a fome de escrever e criar textos que nasce de uma necessidade de comunicação que nada mais do que outro tipo de fome, essa para alguns, como eu, insaciável. O quão faminto não me sinto ao ver um espaço tão bem utilizado de comunicação e atualizado diariamente como o seu blog? Quero saciar essa vontade, mas outras coisas me impedem. Mesmo assim, o sonho continua livre pelo pensamento. Alguns podem querer advertir que quantidade e qualidade não se misturam, mas quando chego aqui e leio cada texto vejo que essas pessoas estão erradas pois todos os seus textos estão muito bem escritos.

Adorei essa situação do final em que você diz ``Metaforicamente me lambuzo ainda mais: meus olhos cismam de engolir o mundo.`` As vezes, acho que os meus também, pois eles insistem em querer desvendar as histórias que encontra em cada pessoa e/ou situação vivida pelo mundo afora.

Bom, acho que isso é tudo o que tenho pra dizer. Que texto criativo, ein? Meus Parabéns. Volto sempre.