segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O relógio continua

Não, não é afirmação cazuzesca ao estilo “o tempo não para”. É coisa bem mais prosaica. Refiro-me à observação feita pela diretora da escola ao entrar na sala de determinada turma e constatar que o relógio de parede amarelo permanecia em seu lugar, impávido. A professora da classe – um grupo especial, composto pelos repetentes semianalfabetos, que tocam o terror de indisciplina – insistira em colocar o relógio na sala. Para eles terem melhor noção do fim de cada atividade, disse ela. A diretora alertou: vai sumir. Em um, dois dias esse relógio some. Tudo some. Não dou 24 horas para um aluno enfiá-lo na mochila e babau. Vou ouvir reclamações suas. A professora confiou: vamos ver.

O relógio continua!, encantou-se a diretora, semanas depois. A humanidade estava salva.

Eu, espectadora da cena, fiquei entre a festa de salvamento da humanidade e a verificação de seu status medíocre. A humanidade não estava salva porque um menino de escola pública vencera as Olimpíadas de Matemática, confessara espontaneamente um malfeito, voltara à escola para agradecer aos professores sua aprovação em Medicina, defendera o colega de um ataque de bullying. A humanidade estava salva porque deixara de surrupiar um relógio de parede. Não estava salva por superar-se, ir além de si: estava salva por permanecer justamente no mesmo lugar. Não estava salva por se atirar no certo, estava salva por deixar passar um errado. Não estava salva por corrigir seus crimes, estava salva por não aumentá-los. Por não atinar com mais um. Estava salva por negativo. Estava salva por negação. Não marcara a resposta certa, mas ganhara ponto por entregar a questão em branco. Como a definição de açúcar daquela velha piada: “é um pozinho que deixa o café bem amargoso quando não se lho botam”.

Tão mal estamos, ou nos parecemos, que qualquer olho faz rei. Viramos Holandas: nível do mar já é montanha. Congratulamo-nos por não cumprir mais que a obrigação. Comemoramos que um aluno do oitavo ano comece frase com maiúscula, fechamos o clube para celebrar que um do sexto não escreva “você” com dois esses. Entendeu a mensagem da redação? então, que coisa!, pouco importa não haja vírgula ou parágrafo. Devolver a carteira intacta dá notícia de jornal, ceder lugar ao idoso candidata ao Nobel da Paz. Canonizamos o político que declarou fielmente o imposto, endeusamos o prefeito que policiou nossa rua, ajoelhamo-nos ao governador que policiou nosso bairro. Precisa nada: votamos no Fulanílson que “rouba mas faz”. Vamos secos na migalha, glorificamos pelo pouco, pelo básico, pelo óbvio. Vendemos heroísmo por salário mínimo.

Não digo que sejamos – ou que só nos aceitemos – excepcionais. Digo que nos queiramos excepcionais. Que prefiramos ser (como já disse há algumas postagens) tartarugas que dão seu mais no lugar de lebres que ofertam seu menos. Que não nos nivelemos pelo mar, holandamente falando. Que não nos satisfaçamos de ser roupa de andar por aí. Que não nos pechinchemos, não nos compremos barato. Não nos quitemos pela tarifa mínima do cartão. Juros de mediocridade, os mais altos e breves, são cobrados ali na esquina. E o relógio continua.

Cazuzescamente falando.

6 comentários:

Pamela Dal'Alva. disse...

nossa. amei esse 'cazuzesca'

muito bom mesmo.. dei uma olhada nos outros textos tbm.. muito legal.. xD

(faltade criatividde)

Adriann disse...

Nuss, vc escreve super bem...tá de parabéns...

Sayuri Suguino disse...

Adoro seus textoooos!
Bjs

http://mmmorango.blogspot.com

Jessy Rodrigues disse...

Por vezes tenho medo do futuro, de quando os ponteiros andam.
Parece cada dia mais dificil acreditar nas pessoas e por vezes em si.
Me assusta, pois.
Hoje vejo pessoas morrendo porq um carinha gostou do tal tênis de marca que vestia"
Mundo idiota, que anda pra traz!
As pessoas deviam dar-se valor! Crescer, a mente a alma!

BeijosEstalados

Filipe Dias disse...

Fernanda, este testo me surpreendeu. Já li vás textos ses de suas"indignações" mas este é um que entendo e muito e concordo com você.

estamos vivendo um tempo onde é preciso propaganda na TV para as pessoas se respeitarem, é preciso uma gravação que digam que devem esperar as pessoas sairem do metro ou do trem antes de entrarem, e várias placas pelas estaçoes falando para tomar cuidado com pequenos furtos.

Isso é a melhor medida?

Nicole Medeiros disse...

beem leegal o blog :)
to indo seguir, c poder retribuir eu agradeço mto!

http://continuo-apenas.blogspot.com/2011/08/01-08-2001-algunsdiasforadecasa-parte.html