
Hoje é o Dia Internacional da Juventude. Devia ser feriado. Juventude é o maior estado de proclamação de independência da gente mesmo. É o tempo que começa quando se muda a plaquinha luminosa interna para o modo “livre”.
Nascemos jovens – todos. Com um ano de idade, tem gente que já é velha. Apanha, defende-se, amargura-se e morre matusalém aos cinco anos, com maior ficha corrida de desmandos e desgostos do que eu, você e seus avós somados. Mesmo se a coisa não degringolar nesse tanto, há os que, aos doze, têm rugas n’alma de fazer inveja a Benjamin Button. Beberam preconceitos de canudinho, depois direto no gargalo. Cresceram sabendo, com sorte, que a Terra é (quase) redonda – e olhe lá. Nunca entraram nos livros, portais de fazer o mundo mais largo e o coração mais moço. Nunca andaram em terras (Oz, Atlântida, Pasárgada, Sítio do Pica-Pau Amarelo) em que a gravidade é menor e a gente começa a pesar a metade, a metade da metade. Espírito atrofiado, voltaram-se para o que sobrou e estava à mão, o corpo. Era a ânsia de voar, um restinho de instinto jovem que dizia: há mais. Não achando o que havia mais, iniciaram-se sexualmente aos dez, tiveram o primeiro moleque aos onze, o quinto aos dezesseis. Lá vieram mais matusaléns (a matusalenidade se transmite).
E não me venham falar de planejamento familiar: falemos antes em planejamento de vida, em educação de alma, em prevenção da velhice interna. Voltemos no tempo, não falemos dos filhos que se penduram nas pernas daquele idoso de dezoito anos. Falemos nas âncoras que se penduraram no idoso uma década antes. Falemos dos voos sem visibilidade, dos arremedos de sonho gorados, dos projetos natimortos, das asas rasgadas, dos talentos assassinados com o travesseiro. Não falemos de todos que dele nasceram: falemos dos que nele morreram. Dos jovens que nele viviam, ensaiaram viver e não lograram existir – frutas derrubadas antes da hora, milhos que não arrebentaram. Piruás. Pessoas-piruá, como diria Martha. Ou pedaços de pessoa. Tentativas de juventude que se inauguram no nascimento e caem na arapuca antes da audácia do segundo passo. Antes que se metam a besta, que se achem gente, que virem pipoca.
Mas nem só de piruá forçado vive a velhice. Conheço uma rapaziada-assim – lida, sabida, instruída – que ainda não começou a ser jovem. Crê que o segredo está nas baladas, minissaias, rocks e passeatas. Não está. Isso é distração, crachá de jovem, perfumaria. Ser jovem é lento, pede às vezes uma eternidade. Principia, como falei, quando se começa a ser livre. Não das regras da mãe, não da vigilância do pai, não de fidelidade, não de compromisso, não de lei, não de moral, não de estudo, não de trabalho, não de fralda suja, não do cartão de ponto, não do serviço militar. Livre do que nos torna pesados por dentro. Livre do lixo que a gente, só a gente, se acumula; livre de radicais livres (emocionais). Livre de ressentimentos, fardo que envelhece 14 rugas por ano. Livre de invejas, castigo que nos custa 7,5 meses o grama. Livre de preconceitos que engessam as pernas, livre de timidezes que amarram a língua, livre de ciúmes que furam os olhos, livre de ganâncias que vergam os ombros. Livre da tralha do nosso autoquartinho de despejo.
Continuo a caminho. Mas planejo não demorar mais que 10 ou 15 anos para me aposentar de mim e finalmente ficar jovem. Depois é curtir os últimos 148 aninhos de mocidade que restam.