quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Amendoeiras

O programa matinal da rádio BandNews falava das amendoeiras. Falava contra as amendoeiras. De como as bichinhas (junto com mangueiras, jaqueiras, flamboyans) fazem estragos nas calçadas cariocas. No caso, atapetando-as com uma folharada da desgrama. Exóticas para nosso clima, amendoeiras são geograficamente desorientadas, coitadinhas: insistem na ideia de que aqui tem inverno e que devem, portanto, despir-se da toalete verdinha para o receberem, laranja-vermelhíssimas. Amendoeiras são senhorinhas de antiga etiqueta, que às 18h trocam de vestido para o jantar.

Como espinafraram as amendoeiras! Um ouvinte entendido observou que elas jamais deveriam ter sido espalhadas em nossas ruas, por serem árvores caducifólias (de folhas que literalmente caducam, despencam de velhas) e não perenifólias (aquelas que atravessam o ano imutáveis, viçosinhas). Eu, porém, tenho-lhes simpatia. Até os oito anos, vivi com amendoeira no quintal: a ela é que devo os casulos de borboleta, os ovinhos de pardal e (óbvio) as recentes amêndoas sempre descobertas com delícia. Foi meu ecossistema de estimação. As folhas abusadas, bojudas – que tanto exasperavam meus pais –, se uniam às alongadas do jasmineiro e eu fingia serem peixes; de meu balanço de duas cadeiras (o “barco”), alegremente pescava as que caíam. Não posso, portanto, carregar ressentimento prático e adulto. Amendoeiras entraram em mim antes do cansaço.

Não é o único motivo da simpatia. Admito preferir árvores que cerejeiramente se cobrem de flores, como ipês, quaresmas, jambeiros – e que tenham o pudor de não ficar nuas em nenhuma época, para nos lembrar de nosso verão permanente. Admito preferi-las, sim, sem o tronco saqueado pela desolação. Mas entendo as amendoeiras. Entendo sua nudez urgente, o ímpeto de se deletar, de se formatar, de se fazer rascunho, começandinho de início, tábula rasa. Entendo a sanha de se dar reboot, quando não se combina mais com a estação interna. Entendo e compartilho. Se viemos a nos estrangeirizar na própria vida a ponto de não ligar o espelho à pessoa, resetar é preciso.

Talvez explique o costume de se entregarem saquinhos de amêndoas como lembrança de casamento – depois do parto, a maior (re)inauguração da gente mesmo. A que mais nos demanda ventar fora, higienizantes, recolorantes, recepcionantes, nossa multidão de folhas secas.

5 comentários:

Gleise Erika disse...

Essas espécies exóticas sempre causam estragos em ambientes não adequados, mas sempre existem pessoas que as admiram. Particularmente também gosto de amendoeiras. Mas aqui em Curitiba temos como espécie exótica os Alfeneiros, árvore que eu detesto. Enfim vai do gosto da pessoa né ;)

Belinha disse...

bem eu tenho mangueiras em casa, embora que causam estragos mais sempre bonito ver

Carol disse...

Nussa!!! Eu nem sabia.
O texto ta muito jornalístico!
bjs bjs

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

AQUI EM ARACAJU, AS ARVORES DOMINANTES DOS QUINTAIS DOS BAIRROS TRADICIONAIS SÃO AS MANGUEIRAS. E NINGUÉM RECLAMA NÃO VIU??
MAS QUE ELAS FORAM DESLOCADAS PRA CÁ, FORAM SIM.

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OGROLÂNDIA disse...

quando pequeno plantei um ipê...meu filho também plantou.
perto lá de casa tinha uma amendoeira. batia nos carros, fazia um puta barulhão.
tomei uma no topo da cabeça que acho que tá fundo até hoje.
beijogro