quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Comprar problema

Da mesma colega de trabalho cujo estômago “não fica de luto” (frase que me rendeu uma postagem semanas atrás), veio nova expressão deliciosa: comprar problema. Ela se referia ao gosto por palavras-cruzadas, mais exatamente nas férias, quando a ausência enervante de amofinações nos leva a adquirir desafios no jornaleiro. Cruzadas, duplex, caça-palavra, criptograma, sete erros – estamos para tudo. Importante é garantir a cota de perrengue essencial à vida. Se a perturbação não vem, a gente compra.

Tudo muito saudável enquanto são conflitos de bolso, obstáculos de papel. Vira doentio quando o cidadão decide estragar um pouquinho, por tabela, a vida dos outros. Para se distrair. Resolve que a mulher mais interessante é justamente aquela acompanhada de um mamute. Entende que o vizinho recebe jornais em excesso e não se importará de ceder (compulsoriamente) os de domingo. Cisma que o calouro da universidade está de frescura e precisa aprender a nadar feito homem. Percebe que o jogo segue muito sonolento, à espera somente de uma bombinha de gás adentrar o campo. Premiar como? uma criatura que com tanto afinco busca partilhar, com o máximo de paraísos alheios, o seu inferno de bordo? Seja qual seja a atitude escolhida, a punição aplicada, uma certeza (e quem assistiu aO segredo dos seus olhos há de concordar): nada pior para um exportador de problemas do que a mais absoluta desatenção, a mais absurda indiferença, o mais excruciante silêncio. Existe quem só saiba existir incomodando. Uma vez que não é recompensado por nenhuma raiva fresquinha, por nenhuma vingancinha sangrenta, por nenhum ódio saindo do forno, seu plano de se alavancar pela estupidez acaba morrendo de inanição.

Mas há quem não exporte problema. Há quem importe. Há quem se importe – o bastante para anexar à sua labuta uns dois ou quinze quilos da labuta alheia. Quem precisaria de 92 horas diárias para dar cabo da agenda, e pega 60 minutos no cheque especial para brincar com pacientezinhos do Inca. Quem deixa o terno no tintureiro, o relatório na chefia, a esposa no escritório, o mais velho no colégio, a caçula no inglês e 530 gramas de companhia na casa da tia que está com a perna quebrada, em Itaquaquecetuba. Quem segue as cotações da Bolsa e as notas do afilhado. Quem é estilista de coleções nas manhãs e bordadeira voluntária de enxovais nas noites. Quem insiste para o filho não parar de estudar e para a faxineira retomar os estudos. Quem é corretora de mansões até as 18h e às 19h separa doações para desabrigados. Quem decide ser aquele com quem se pode contar, quem estranhamente acha que o outro é, sim, de sua conta.

Se a alfândega interna não liberou ainda altos índices de importação problemática, bom não é, mas é menos pior. Pior, mesmo, se não meteu taxas monumentais, gigânticas, everésticas nas cotas de exportação. Problema não é doce de São Cosme para distribuir na praça. Tá na seca? entorna uma Coquetel na banquinha de jornal mais próxima. Lustra ao menos o vocabulário e fica dentro do orçamento.

9 comentários:

Angel Martins disse...

Oi flor, tudo bem? Obrigada pela visita, volte sempre..estarei esperando :D bjuss

http://angelmartinss.blogspot.com/

Anônimo disse...

Adorei seu blog, o post é muito interessante, em um único você consegue abordar vários temas, sempre com multimo interesse.

Blog do ubinho
www.blogdorubinho.com.br

Mr. Andrógyni-# disse...

Interessante texto pessoa, escrevi de algo parecido no meu blog também, da uma passada la !!


http://dupladameianoite.blogspot.com/

Elis disse...

Ooi, muito interessante o texto...
Espero a sua visita no meu blog *-*
bjs

Anderson Leite disse...

mais um texto ótimo
parabens
^^

http://ministerioartecomdeus.blogspot.com/

Chris Salles disse...

ahahaha Adorei o termo ! meu estômago não fica de luto" Acho que vou incorporar as minhas frases preferidas. meu anmorado também vai gostar.
Mas voltando ao post, nossa e não é que nós compramos problemas? Acho que ás vezes temos que fazer isso mesmo, para deixar o cérebro "treinado". Se não ele se cansa e para. Ok. Parar é exagero, mas fica mais lento. rs
ótimo post! bjus

Kilber Moreira disse...

ótimo o seu estilo de escrita.
E é relevante mesmo ressaltar como algumas pessoas realmente se importam muito mais em criar problemas para os outros do que cuidar dos próprios.
O que o tédio e uma má índole não fazem, hãn..

ostons2.0 disse...

Bah nem me fala em comprar problemas pior que somos bem assim mesmo

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

EU DEFINITIVAMENTE NÃO TENHO PACIÊNCIA PRA ESSAS REVISTAS DA EDIOURO, MAS ADMIRO QUEM TEM. MEU HOBBY MESMO É ESCREVER. SUA POSTAGEM FOI ÓTIMA EM TODOS OS SENTIDOS.

TEM UMA POSTAGEM NOVA NO BLOG. PASSA LÁ:
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/08/amor-perdido-amor-encontrado.html