domingo, 21 de agosto de 2011

Só uma lembrancinha

Duvideodó que você nunca tenha resmungado ou ouvido resmungar sobre um presente. Aliás: sobre uma “lembrancinha”. Aquele presente sem convicção, avexado de si mesmo, que se entrega quando Natais e aniversários nos pressionam a não fazer desfeita. Lembrancinhas são quase sempre compradas no fio da navalha, no desespero que mora entre uma prova por corrigir e uma conta por pagar, um almoço por improvisar e um e-mail por responder. São pequenos pedágios de civilidade, passaportes para a boa vontade familiar, a tolerância entre amigos, a aceitação entre colegas. Espécie de recenseamento anual do afeto. Trouxe lembrancinha? trouxe; parêntese marcado na checklist; próximo, por favor. Cumprida está a dança tribal de pertencimento ao grupo.

Quem me lê julga que detesto comprar lembrancinhas. Ao contrário. Adoro-as. Adoro o ritual da busca, do farejamento, da dúvida, da escolha, da análise salivante de opções, da encomenda quando é o caso, do pagamento do boleto, da espera do pacote, do capricho na embalagem. Comprar presentes é um artesanato de alegria. O que detesto está do outro lado: a ranzinzice de alguém que não sabe merecer qualquer dom que lhe tenha vindo. A petulância de querer valer mais do que algo gratuito. A soberba de nivelar o obtido pela régua do sonhado. A arrogância de cobrar mais do que aquilo que já chegou como bônus. O complexo de Dogville: visão do supérfluo como obrigatório, do lucro como falta, da oferta como promessa, da dádiva como dívida.

Falo de (in)gratidões e lembrancinhas porque de hoje a 27 de agosto, ao menos nos Estados Unidos, celebra-se a Thanks For All The Gifts Week (semana de agradecer por todos os presentes). Não conhecia a comemoração, mas simpatizei de cara. Justamente por dedicar especial antipatia aos maus recebedores, os que nasceram com a síndrome do ultramerecimento. Agradecer por todos os presentes, afinal, não significa fazer pouco de si a ponto de assinar embaixo de uma pérola do mau gosto, ou de deitar na lama para um presente porcaria passar. É o oposto. É suar grandeza interna. É estar tão acima do físico que se fica com altura de sobra para visualizar o simbólico. A tia-avó lhe trouxe meias de novo, mas preferiu esse – assim chamado – mico a aparecer para você de mãos vazias (cá entre nós: pelo tanto de gasto e de praticidade, acho meias sempre bem-vindíssimas). A colega de sala inventou um perfume que você odeia – mas é da mesma loja de sua essência de estimação? beleza: é só ir trocar no horário de almoço. A madrinha enviou uma blusa de cor radioativa, dois números abaixo do seu; maravilha! considera você a mesma adolescente magriiiiinha de anos atrás. Foi dois números acima? tanto melhor: nada mais reconfortante do que roupas ficarem imensas em nós. Passe o bichinho adiante e economize no Natal. Ou exercite a criatividade tão embotada e customize a peça sem dor no coração. Invejável terapia.

Gostar é irrelevante, querer é o de menos, usar é facultativo. A gratidão pela lembrancinha não obriga mudança de estilo nem sacrifício de vontade. Envolve exclusivamente a humildade do aceitar. Se a lembrancinha em questão tomou duas semanas de procura no Fashion Mall ou dezoito segundos no Mercado Livre, se levou 50 parcelas no cartão ou 50 centavos no jornaleiro, se saiu da Armani ou do armário, que importa? Algo que não tínhamos nos foi dado. Ganhamos pedaço alheio que não nos pertencia. Com ou sem o prazer do mimo, alguém roubou de si um naco de vida, de dia, de almoço, de ideia, de intenção, de pensamento, para (entre tantos destinatários) depositá-lo na gente.

Sem possíveis devoluções.

10 comentários:

Mulher e Loba disse...

Todo presente que dou, dou nomeando como uma simples lembrancinha kkk
Não saberia presentear sem a intenção de realmente agradar, dizem que meu defeito é ser sincera demais.rs
Apaixonada por teu blog, lindo!
Seguindo aqui...

Kilber Moreira disse...

Lindo o texto. Realmente o valor das lembrancinhas não estão tanto no objeto em si, mas sim pelo bom sentimento de lembrar de alguém, e principalmente poder perceber a alegria desta pessoa por ter sido lembrada.
Mesmo que seja um clipe, um caderno.. a intenção sincera é o que mais vale.
Seguindo..

Alynne Mayara disse...

Realmente o valor não esta no presente e sim na intenção da pessoa. Como é bom ser lembrada, mesmo sem ser presenteada com lembranças. Muito bom seu blog, amei. Estou te seguindo, se puder retribua:
http://entreaquija.blogspot.com/

Ericlles L. disse...

Que Legal :D ,
Entra , Comenta , Segue ? , Faz o Que Quiser ,

http://olharpaquistanes.blogspot.com/

Wagner L. Moreno disse...

Por mais demagogo que soa, o melhor do presente, ou da lembancinha no caso, é a lembrança... qq coisa que alguem lembrou da gente é bem legal...

http://radiowebsafira.blogspot.com

Eduardo o/ disse...

eu penso assim

"ñ vou ganhar nada"

ai, o que vier é lucro


http://oarlecrim.blogspot.com/

lanna consultora disse...

OI LINDA PASSANDO PARA TE DESEJAR UM INICIO DE SEMANA ABENÇOADO, BJBJ.
LINDO TEXTO. SEMPRE FALO LEMBRANCINHA QUANDO VOU PRERSENTEAR ALGUÉM, MAS DOU DE CORAÇÃO.

Camila Hame. disse...

Gosto de ganhar lembrancinhas, principalmente canetas e chaveiros, mas poxa, bonitinhos né?
Tinha uma tia(que Deus a tenha) que sempre me dava aquelas canetas com tabuada e calendário, foram muito uteis nas provas da escolas.

www.papel40kg.com

Yes disse...

Lembranças vindas de "algumas" pessoas, sempre demonstram algum sentimento muitas vezes de forma discreta, sempre recebo com carinho pois sei da importância que este gesto tem.
Você escreve muito bem!
Bacana teu blog.

Consultora Online disse...

O importante é que a pessoa lembrou e que essa lembracinha veio com boas intenções.
Eu mesmo adoro dar lembrancinhas e recebelas tmbém, não importa o quão simples elas serão.

bjs

http:/consultoraon.blogspot.com