sexta-feira, 19 de agosto de 2011

De triste memória

Na novela das 21h, Raul (Antônio Fagundes) e Wanda (Natália do Vale) acreditam que seu filho Léo (Gabriel Braga Nunes) morreu num acidente aéreo. Fosse o psicopata que fosse – e que, infelizmente, continua sendo –, estão ambos arrasados. Mas tristeza arretada, mesmo, mora na afirmação de Raul, que ontem desabafou com a pretê Carolina (Camila Pitanga): “O pior de tudo é que eu não tenho uma lembrança boa do meu filho para guardar”. Não foram essas palavras, foi esse o teor. Ainda que na realidade continue vivo, Léo já teve o mais medonho dos enterros. Ninguém – a não ser a mãe igualmente picareta e ruim – conserva dele qualquer memoriazinha que preste, um souvenirzinho autenticamente feliz. A mais verdadeira das mortes fingidas.

Ter morado sobre o planeta durante 20, 30, 50, 80 anos, não ter deixado para trás uma rosa de aniversário, um telefonema de Natal, um Garoto de Páscoa, uma mãozinha dada de cinema, um lápis emprestado de escola, um lugar cedido de metrô. Ter dialogado um trilhão de verbos e substantivos, não ter esquecido no mundo um vai-com-Deus, um vai-passar, um conta-comigo, um adorei-sua-blusa, um vamos-lá, um estou-aqui. Ter respirado por um tantão de décadas, não ter inspirado um sorriso, uma melhora, um abraço, uma vontade, uma redação, uma solução, um desenho, uma carta, uma compra, uma ideia, uma surpresa. Não ter servido para varrer uma única nuvem. Não ter prestado para espantar um só pesadelo. Não ter expulsado sequer um monstro do armário, não ter buscado um copo d’água na cozinha, não ter elogiado nenhunzito corte de cabelo, não ter rabiscado uma dedicatória solitária. Herança de zero poema, zero árvore, zero filho, zero chocolate, zero empréstimo, zero piquenique, zero colo, zero bolo, zero beijo, zero festa, zero canção. Vida estéril de si, oca de gente, vida (outra vez lembrando Martha) não habitada. Vida em que morrer é mero assinar de recibo. Simples formalidade.

Tem coisa, sim, pior que ser enterrado vivo. É ser cadáver ambulante. Ser aquele que não circula vestido de caixão, que não dá endereço de sepultura, que não tem foto na lápide, mas de quem só conhecemos os restos mortais.

9 comentários:

Kilber Moreira disse...

Nossa, texto muito bem desenvolvido.
Gostei muito das comparações com vida/morte.
Há muitos que não vivem, apenas sobrevivem, ou nem isso.
Somente passam pelo mundo, sem nunca saber o que de fato é ter feito parte dele.

ostons2.0 disse...

é tem certas memorias que são horriveis certas lembraças e choros de nunca mais poder voltar atras para realizar e ou concertar algo errado muito bom o texto

Guillen disse...

boas imagens, e uma boa construção textual! Parabéns pelo texto...

Eu escrevo pro: http://cafedefita.blogspot.com/
Divulgo meus poemas no: http://www.fragmentosdosonhar.blogspot.com/

Karla Hack dos Santos disse...

É como se não existisse o lado bom.. Muito Triste! Devemos agir bem e procurar vivermos assim.. Belo texto!

;D

Andy A. disse...

As memórias são muitoimportantes e ás vezes as negativas marcammuito mais ,o que é uma coisa horrível...

http://andyantunes.blogspot.com/

Sá - Pô! disse...

Ai, Fernanda como seu "Lugarzito" é lindo e aconchegante, leio ele todo dia! rs Parabéns, tenho prazer em ler o que vc escreve!!
Beijinhos
Sayuri
Tbm tenho um lugarzito, mas aina não é tão bonito quanto o seu. rs
http://coisasdesayuri.blogspot.com/

KGeo disse...

muito bom texto adorei

equipeloveme disse...

Olá,
Adorei o seu blog e o conteúdo dele.
Tem post novo no nosso blog, dá uma passadinha lá? =)
Que você tenha um excelente final de semana!
Beijão

http://www.thepastimeloveme.blogspot.com/

Garota de Várias Faces disse...

cara, que profundo vc escreveu
vc acabou nos revelando através do seu texto, qual o sentido da vida
parabéns, vc antes de morrer, já deixou boas lembranças, esse texto, certamente, é uma delas.


\tô aki retribuindo comentário, mto obrigada, pessoas como vc são a essência para a existência do meu blog


http://diariodagarotadevariasfaces.blogspot.com/
sigo quem me segue e retribuo comentários