sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Por uma vida menos extraordinária

Não adianta, lá vou eu de novo. Citar a Martha. Sou incorrigível. Mas o que faço se ela, invariavelmente, se encaixa no assunto macio, macio? Veja se não dá vontade de mastigar esse mimo da crônica “Emoção X adrenalina”: “(...) emoção nenhuma é banal se for autêntica. Só as emoções obrigatórias é que são ordinárias. Nascimentos, casamentos e mortes emocionam apenas os que estão realmente envolvidos, senão é teatro – aquele teatrinho básico que se pratica em sociedade”.

Lembrei-me do trecho quando, esta semana, o escritor Alcides Goulart – autor de 30(!) livros para crianças e adolescentes – palestrou para os alunos de minha escola. Em dado momento, ainda que o público presente regulasse entre 12 e 15 anos, ele narrou a história de um de seus livros feitos para os mais pequeninos, Você conhece o João?. Narrou e folheou as páginas ilustradas, cada qual com sua frase curtinha. Pensa que os guris metidos a adultões fizeram pouco da história? Acompanharam vidrados, crianças de novo, crianças que são ou recém-deixaram de ser. Após o final-surpresinha, aplausos entusiásticos, espontâneos, just because. Meus olhos acostumados a flagrar traquinagens e bocejos dos estudantes se comoveram de puro susto. Encantaram-se. Piscinaram-se. Quase dei vexame. Não me recordo de um sentimento tão fascinado e inteiro em nenhum dos aniversários a que recentemente compareci. Dos casamentos, só aquele no qual fui madrinha. Nem nos da família. A Martha, como sempre, sabendo das coisas.

Nosso calendário íntimo não põe (obrigatoriamente) estrelinha nos eventos que o grupo assinala. Podemos nos debulhar durante a Sessão da tarde e permanecer de olhos áridos ao receber a festa de despedida. Podemos sentir arrepio da canela à nuca diante do violinista de rua e posar de estátua na estreia do primo no teatro. Podemos ser possuídos por felicidade acachapante sentados no ônibus, sob o vanilla sky do fim de expediente, e ser devorados por sonolência furiosa no show tão aguardado. Vai entender.

Esse, porém, é o entendível: incompreensível é o sujeito terceirizar seus feriados, esperar data e hora para o frio na espinha, engolir o choro por falta de carimbo da folhinha, entrar em êxtase só com autorização do livro de ponto. Androides, talvez. Por mais que nos doa ir além da cadeia de rituais cívicos e familiares em que nos emprateleiramos, não adianta. Não há como nos atermos aos extraordinários de encomenda. Nossos ordinários – e não uso aqui o termo no sentido pejorativo da Martha, mas como sinal das lindices cotidianas – melhor nos conhecem, mais de jeito nos abordam, com mais chance nos pegam. Nosso tantão de lágrimas, gozos, tremores armazenados são paridos antes do parto agendado. Têm pressa. Estão à espreita para imiscuir-se na flor trazida, no comentário do filho, na frase da crônica. Metem-se no poema, no sol, no jingle, no slogan, no personagem, no esbarrão, na notícia. Eles nos querem. Eles nos tomam. Subitamente – às duas da tarde ou nove da noite, na cama ou no caminho, na aula ou no beijo, no sorvete ou no tanque – eles nos têm.

Felizes de nós se é pelo necessário, somente pelo necessário que nos deixamos ter. O extraordinário é um exagero de espera. O extraordinário é demais.

6 comentários:

Anônimo disse...

eu acho que há coisas na vida que se deve esperar, que só o tempo pode trazer, e outras, a gente deve correr atrás do tempo.


[b]quer ganhar um seguidor?
me segue, que eu te sigo!
http://diariodagarotadevariasfaces.blogspot.com/

Anônimo disse...

eu acho que há coisas na vida que se deve esperar, que só o tempo pode trazer, e outras, a gente deve correr atrás do tempo.


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JannA disse...

meu bem... as vezes as coisas ficam complexas demais e a gente perde muito tempo tentando entender o incompreensível a primeira vista...
o bom mesmo é esperar as coisas ficarem em seus lugares... esperar q o tempo as traga...
ou se não as trouxer, q venham as respostas para então buscá-las.
bjo bjo bjo
http://paradoxoali.blogspot.com/

Raphael disse...

Tocou em um ponto-chave no qual eu venho pensando ultimamente. Quantas vezes não ficamos antecipando as coisas, nos 'preparando', e quando essas coisas (boas ou ruins) acontece a gente às vezes sai com a impressão de que não estávamos realmente lá, que aconteceu com outra pessoa e não com a gente, simplesmente porque esquecemos de viver o presente...

Com toda certeza, o extraordinário é demais. As pequenas alegrias e tristezas do cotidiano fazem parte de um plano maior, que deve ser vivido passo após passo.

Fernando disse...

Bom, chará, as vezes também tenho essa impressão de que quando mais penso que irei me surpreender com alo, bate aquela sensação de mediocridade, que uma emoção já repetida tantas que parece ter pedido a graça... e quando me deparo com as coisas mais simples é que realizo o quanto elas podem ser EXTRAordinárias e quase sempre não estou ou ao menos não me sinto preparado pra explosão de sentimentos que vêm logo a seguir... acho que esse é o barato da vida, nunca nada é demais ou nunca saberemos demais que não possamos sentir aquele arrepio de algo novo acontecendo a nossa volta.

LADY D. A. disse...

Eu to com muita pressa pro tempo passar, mas não quero deixar de aproveitar o tempo antes da data prevista!