segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Nós todos esquecemos

Em recente coluna no jornal O Globo, sobre o fim da saga potteriana no cinema (e, por extensão, sobre o território dos mitos – Harry, O senhor dos anéis, todos os contos de fadas), Luiz Paulo Horta trouxe uma apropriadíssima citação de Chesterton. Dizia o autor em sua Orthodoxy: “Nós todos esquecemos quem somos realmente. Nós todos esquecemos os nossos nomes. Isso que nós chamamos espírito, arte, êxtase, só significa que, por um momento terrífico, nós nos lembramos de que esquecemos”.

Os adultos maratonistas que somos, aqueles que por força querem enfiar 92 horas em 24, esqueceram as criaturas que poderiam passar três meses no quintal, perseguindo exclusivamente as bolhas de sabão. Os profissionais exaustos ali no espelho desconhecem perfeitamente os seres que – mãozinha no queixo – devaneavam Oscars, planejavam Nobéis e Emmies. Os pais e mães soterrados por décadas de contracheques e preconceitos não cumprimentariam na rua os olhinhos que ainda brilham sobre mangás dos Cavaleiros do Zodíaco. Alguns anos, alguns meses, alguma(s) faculdade(s), alguns pneus furados, algumas carteiras assinadas, algumas geladeiras pifadas, algumas fraldas sujas depois, aqui estamos: estrangeiros daquelas criaturas, daqueles seres, daqueles olhinhos que éramos (somos) nós mesmíssimos.

Segundo Chesterton, em determinados momentos ensaiamos vir à tona. Assistimos a Cordel encantado, discutimos detalhes de As relíquias da morte, compramos ingressos para Um violinista no telhado, vamos ao Rei leão com o mais velho, lemos Cinderela para o caçula, somos voluntários no show de mágica, damos uma voltinha de almoço no Museu Nacional, pegamos o concerto de harpa no fim do expediente. E regressamos. Quando ninguém está olhando se abre uma fresta do portal, destranca-se o armário e revisitamos nossa Nárnia. Por várias eras dessa Nárnia (minutos brevinhos no relógio), nos amalgamamos ao eu sufocado, como naqueles desenhos em que a alma volta do passeio e cola de novo no corpo. Passado o encantamento, nos despimos e despedimos dela; tornamos a pendurá-la no cabide ou deitá-la adormecida, conforme conta Marina Colasanti: trancamos outra vez no quarto a nossa Ideia Toda Azul. Até mais, até a próxima, até um dia. Se der, se o documento não extraviar, se o empréstimo não bater, se o negócio não falir, se o prazo não me enforcar, se o Joãozinho não quebrar a perna, se o Joãozão não furar o cano – eu volto, eu volto, eu me busco. Retratos de Dorian Gray invertidos, definhamos do nosso lado de fora porque acabamos perdendo na correria, entre pares de meia e óculos de leitura, as velhas chavinhas do portal.

Conselho: enganchar no cordão favorito o cartão de acesso à sua Pasárgada, e não tirar nem pra banho. A senha você já sabe: seu nome. A não ser que já tenha esquecido.

8 comentários:

Lucas Yamashita disse...

Realmente a vida corrida,nos torna cada vez mais esquecidos,nos faz esquecer que as coisas simples também sao boas

http://euaparatodosetodas.blogspot.com/

equipeloveme disse...

Olá,
Adorei o seu blog e o conteúdo dele.
Tem post novo no nosso blog, dá uma passadinha lá? =)
Que você tenha uma excelente semana!
Beijão

http://www.thepastimeloveme.blogspot.com/

Anderson Leite disse...

como sempre, seus textos muitooo bons
^^
parabens mais uma vez


http://ministerioartecomdeus.blogspot.com/

France Câmara disse...

Querida, obrigado pela visita no Apaixonadas por Cosméticos! Teu blog é muito bom, parabéns *--* http://apaixonadasporcosmeticos.blogspot.com/
Curta Apaixonadas por Cosméticos no Facebook
@Ap_Cosmeticos

Luciana Martins disse...

Fernanda adorei seu post no meu blog. Nem me fale sobre o quanto de teoria nos é ensinado, porém na prática a realidade é bem diferente. Um beijo grande. E adorei em especial esse seu blog.

Elaine Bandeira disse...

Olá Fernanda, obrigada pela visita no meu blog!
Estou te seguindo
bjo
http://floresmaquiadas.blogspot.com/

Jân Bispo disse...

Uau, pura verdade tudo ai viu, kkkkk revi tanto o que era e o tanto que mudei, mudei sem nem perceber, pois acreditava fielmente ser o mesmo, aquele que ainda olhava com olhos brilhantes as HQ's da turma da monica e do Chico bento kkkkkkk, mas não eu realmente deixei o tudo que ocupa hoje meu tempo mudar tudo que acreditava ser eu mesmo... mas a alma ainda reside aqui e quando escrevo volto a ser quem sou. rs... seu blog é ótimo,de qualidade rs, muito bom ler isso aqui, volto aqui mais vezes, sucesso pra ti.

Tataah disse...

Adoreeei o post.. *-*

Dá uma passadinha lá, vaai gostaar!!!

http://echidellanima.blogspot.com/
Beeijos *-*