domingo, 9 de outubro de 2011

Dia com sobremesa

Existem os estoicos, os que conseguem viver da-casa-pro-trabalho-do-trabalho-pra-casa, os que fecham o escritório às 23h para reabri-lo às 6h e não sabem nem que novelas estão passando, os que estudam dez horas seguidas para concurso público. Invejo essa gente forte, de espírito hibernal e econômico. Pena que nasci de espírito borboleto e primaveril. Por felicidade ou fraqueza, por sorte ou covardia, não aguento o tranco de passar por um apanhado de 24 horas sem bônus, sem brinde, sem um contentamento íntimo. Não consigo viver dia sem sobremesa.

Estou longe de dizer que me consolo com açúcar. Ao contrário, açúcar nem sequer me pertence. Não consigo viver é sem glicose conotativa, o up psicológico, aquele extrinha ao qual a gente se agarra para não sucumbir aos etcéteras aborrecidos. Não me basta o feijão com arroz, preciso acordar e saber que hoje tem marmelada, tem, sim, senhor.

Acordar e saber que hoje o trabalho é só na parte da manhã, depois tem Fábio. Acordar e saber que hoje o trabalho é só na parte da noite, antes tem caseirice. Hoje a aula foi puxadíssima, mas rola fígado no almoço. Hoje a aula será puxadíssima, mas no tempo seguinte rola vídeo (ou prova, ou trabalho em grupo, ou joguinho). Hoje acordo mais cedo, mas após o expediente me enfio no cinema. Hoje corrijo prova, mas após a tortura fico de conversê com os amigos. Hoje pedalo mais, mas em seguida tem festa. Hoje durmo menos, mas é porque antes tem festa. Hoje almoço fora. Hoje ganho mais uma horinha de internet. Hoje não preciso trabalhar no metrô. Hoje vou sentada no metrô. Hoje descubro quem é o assassino da novela. Hoje compro o quer-que-seja do casamento. Hoje escolho o presente de aniversário. Hoje escolho o cartão de Valentines. Hoje aprendo receita nova. Hoje encomendo o buquê. Hoje procuro o sapato. Hoje monto o álbum. Hoje gasto o vale-livro. Hoje, definitivamente, tem sobremesa.

E não tem todo dia? Acaba tendo. Invento, se não tiver. O que sei é que, desde priscas eras, deprimo completamente se aquela rodada em torno do eixo terrestre não trouxer, também, rodada de flor, descanso, história, risada, livro, filme – alguma camada de chantilly sobre as fatias de rotina. Nunca fui capaz de duas horas de estudo sem gibi no meio, nunca fiz prova sem Halls de menta na boca, nunca deixei de bater ponto no cinema em ano de vestibular. Fico impossibilitada de cumprir qualquer compromisso se desistir de ver televisão. Sou diabética ao contrário: posso morrer por excesso de não-açúcar. Metaforicamente falando.

A felicidade é meu fio-terra.

6 comentários:

Bruno Matos (Snopolino) disse...

Nem me fale em trabalho, Tô acordado des de ontem das 6 horas --'

adorei seu blog :)

http://www.vireumempreendedor.blogspot.com

Diva Déa disse...

Hehehehehe!!! Adorei, amiga!! Poético e verdadeiro!! E eu sou igualzinha! Bjssssss.

Mauro Gutembergue disse...

Depoimento interessante Fernanda...

Não se somos tão parecidos, estou mais próximo do Ócio Criativo de Domenico De Masi.

E sinceramente não acredito que haja felicidade nos workaholllics.

Renato Schiavo disse...

Quer achar algo específico na cidade? Quer divulgar seu serviço GRATUITAMENTE no maior portal de anúncio da cidade? Acesse:

http://www.achadoseservicos.com.br

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

PELO AMOR DE DEUS E DE SÃO FRANCISCO, NÃO ME FALE EM TRABALHO. AINDA NÃO CONSEGUI CONCILIAR MEUS TRABALHOS COM OS BICOS, A UNIVERSIDADE E A NAMORADA. TÁ OSSO MERMO!

PASSA LÁ
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/10/blues-do-al-capone.html

Aline Diedrich disse...

Existem muitos doces fora do escritório e longe dos livros do vestibular...