quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Na fila

O show de Justin é às 10 da noite, mas lá estão elas – com 12, 13, 14 anos – acampadas na fila há horas, há dias. Há meses, se pudessem. Não é porque é Justin, não é porque são elas: fosse quem fosse, não entendo anyway. Se Paul McCartney e seus beatlemaníacos, se Madonna e seus madonnetes, se Justin e suas biebers, dá no mesmo em termos de incompreensão. Por maior que seja a admiração, a fãzice, o que leva um ser humano a pendurar sua vida no cabide para ficar a 149 (em vez de 150) metros de outro ser humano que está se lixando se você perde prova, emprego, mulher ou a primeira palavra do caçula?

Eu compreenderia, embora com relutância, se fosse caso daqueles amores de perdição – indivíduo para indivíduo – que se sofrem à distância. Ressalva: desde que haja esperança de conquista. Improvável até, mas possível. Aí se fala de peleja por algo que lhe afeta direta e largamente a vida; algo cujo nome pode estar (amanhã ou depois) aliançado em seu dedo, algo com que você visitará Paris, tomará café, trocará fraldas e celebrará bodas de estanho. Mesmo assim, eu definitivamente não deixaria o cartão de ponto em branco para ir me postar, dia e noite, diante da varanda do indivíduo. Não perseguiria as janelas da casa na expectativa de um tchauzinho. Não desistiria de um banheiro decente ou edredom balofo para fazer vigília até o cidadão dar o ar da graça. Convenhamos. “Amor” que corrói a paciência do amado e implica atos estapafúrdios, vazios – especialmente isso: vazios – não é mais do que histeria.

Concordo plenissimamente com Pablo Villaça quando diz que as “crepusculetes”, por exemplo, gritam umas para as outras durante o filme, e não propriamente para o vampiro ou o lobo em questão (que permanecem surdos e distantes). A curtição não é idolatrar, é mostrar que se idolatra mais e melhor que as coleguinhas, tadinhas – não são páreo para mim. Em última instância, idolatramos a nós mesmos e a nossa capacidade de abnegação romântica. Romântica no sentido oitocentista do termo. Estamos enamorados de nossa entrega, encantados com nossa heroica superação. Mais nos amamos quanto mais nos vemos aptos a rastejar, a sofrer diante de um objeto escolhido ao acaso. Olha que apaixonado cascudo que eu sou.

Mas vai ver se a gente se presta ao amor que não dá ibope, que não dá Globo, que não passa no RJ-TV. Vai ver se engolimos o ataque injusto à sogra, vai ver se pensamos duas vezes antes de jogar a toalha (esquecida) na cara do outro, vai ver se fizemos um elogio que fosse nos últimos, hã, 5 anos e 7 meses? Qual: vamos nos passar para ninharias? Queremos os fogos de artifício, os repórteres, a paixão que chama paparazzi, que joga pétala de rosa, que picha muro. Queremos ser os galãzotes e donzelas de nossa própria novelinha. Dói menos o sacrifício calcado no impossível, a construção que não quebra as unhas porque nunca chega a pousar no chão.

E aí acampamos dias e dias e dias na lama, no vento, no relento do estádio, no relento de outro estado. É o que dá começar amor pelo happy-end.

Um comentário:

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

AINDA BEM QUE NÃO FUI DESSA ÉPOCA. CRUZES!!! EU IA SER UM BAITA DUM NERD RETARDADO SEM TER O QUE FAZER E SEM TER COM O QUE GASTAR MEU SUADO DINHEIRINHO. BOA A POSTAGEM NANDA. DEPOIS PASSA LÁ:

http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/10/profecia.html