quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Vazamentos

Restaurante fechado, buraquinho na tubulação, frouxidão na válvula, vazamento de gás, faísca e bum. Explosão em pleno centro do Rio, 7h30 da manhã. Mortos, feridos, arremessados, gente em estado grave, negócios destruídos. Uma tragédia. Que protagonizamos vez por outra, parecidamente, quando somos nós os vazantes. Quando somos nós os portadores do buraquinho na tubulação, os de válvula frouxa. Os que se consideram perigosamente em dia quanto aos riscos de um bum! ocasional.

Eu mesma sou tida como calma pelos desavisados. Quieta, não de muitas palavras (pelo menos faladas), mais observação que conflito. Dou 412 camelos para fugir de uma briga. O problema é que, enquanto fujo da briga, cargas de adrenalina destinadas a ela continuam fugindo de mim, traiçoeiríssimas. Vazamento na área. Em certo momento, alguém acende um fósforo fazendo uma perguntinha (in)ofensiva. Ferrou. Dane-se a timidez, danem-se os camelos: a serenidade vai pelos ares, com rastro, talvez, não de sentimentos mortos, mas de alguns feridos com intenção e relativa gravidade.

Estou longe de ser um arrasa-quarteirão; qual de nós, porém, não guarda minimágoas pontiagudas? Pequenas verdades farpadas? Cacos de opiniões que deglutimos para não atirar, e que acabam virando projéteis à nossa revelia, impulsionados pela combustão interna? Nós, os quietinhos, deveríamos ser interditados pela Defesa Civil: risco iminente de estado de calamidade pública.

Não pretendo defender que o pacato cidadão ali, no banco da praça, aquele que passa a maior parte do tempo na sua, daria um Unabomber em potencial. Nem que o rapazote adormecido no ônibus vem matutando repetir Columbine, depois de não conseguir desconto na cantina da escola. Também não caio na esparrela de recitar “cão que ladra não morde”, de declarar que o bully que te atormenta todos os dias no colégio não passa de um bebezinho amedrontado. Seria tão estúpido quanto garantir que um bueiro cuspidor de fumaça é menos ameaçador do que um vulcão inerte há 200 anos.

Mas uma coisa é batata: não convém subestimar o vulcão.

Há uma força selvagem em nossas lavas represadas. Em nossos estresses subterrâneos. Em nossos traumas ironizados. Em nossas fobias ignoradas. Em nossas carências famintas. Em nossas parcelas subnutridas. Há fome em alguma parte de nós; e fome, todo mundo sabe, assume o lugar do raciocínio quando o reservatório de suprimentos essenciais cai a níveis críticos. Fome move, fome mata, fome esfola. Fome nos faz carcarás. Fome nos faz zumbis. Mesmo mortos-vivos, qual a única paixão que persiste nos zumbis? Fome. Fome de sermos ouvidos, amados, curados, percebidos, abraçados, justiçados, indenizados, atendidos. Se há excessiva fome, há transbordamento de necessidades. Envenenamos o ambiente com nossas urgências. Vazamento no pedaço.

Fome transforma a todos em áreas de risco.

5 comentários:

palavras ao vento disse...

texto forte...muito bem escrito...esta de parabens,,,pela narrativa...

Renato Schiavo disse...

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Compartilhando Sentidos disse...

Gostei do texto. Gostei do blog. Gostei da forma que escreves.
Fiquei por aqui... Seguindo.
Passa lá no meu blog e se gostares, siga-me também.

Até o próximo post.

http://compartilhandosentidos.blogspot.com/

Blake disse...

Texto muito bem elaborado.
Primeira vez por aqui e adorei o blog.

Passa lá pelo Sook e confira um pouco sobre o livro "Sob a Luz da Lua".

Millena Blogueira disse...

A forma como você escreve envolve o leitor e o faz querer mais.
Parabéns!