segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dia sem sobremesa

Ontem escrevi sobre nossas anestesias, as pequenas mortes, e agora acabo de saber de uma grande. Faleceu um amigo da família; não íntimo, não antigo – mesmo assim, a garganta deu um nó (de escoteiro). A diabete negligenciada o pegou literalmente pelo pé, tirou-lhe a base e engatinhou até o coração, que, embora jovem no físico e grande no gesto, não resistiu. Bom até o cúmulo, Celso morreu por transbordamento negativo de açúcar.

Ignoro se há estudos a respeito, mas não é incomum que pessoas generosas ao extremo sejam desleixadas consigo mesmas em igual proporção. Parecem crer numa bondade ciumenta de sua entrega exclusiva; num tempo que se extinguirá, punitivo, caso não vire uma oferenda permanente de autoesquecimento. É a vaidade às avessas: na (justa) paixão pela carreira de anjos, varrem para baixo do tapete as fraquezinhas humanas. Não desejam a onipotência por acreditarem, risonha e tacitamente, que em alguma medida já a possuem. Uma espécie de licença especial de suspensão do corpo, dada aos que trabalham no departamento do coração excessivo.

É significativa, a diabete. Morre-se de muita doçura. Morre-se de inocência. Morre-se por não se acreditar que coisas boas em si podem ter efeitos ruins, morre-se pela convicção infantil de que alegria e energia são isentas de impostos, morre-se pela impressão fofinha de que momentos coloridos escapam ao setor da responsabilidade. Com exceção dos doentes sem acesso a esclarecimentos, morre-se de ingenuidade incontrolável. De otimismo inconveniente. De contentamento indevido. Morre-se porque viver as delícias da humanidade sem pagar tributo a suas imperfeições, porque não dar a César o que é de César – à terra o que é da terra, ao organismo o que é do organismo – vira abandono de emprego, renúncia à nossa condição. Por muito amá-la.

Morremos, tantas vezes, por nos esquecermos de ser eficientemente mortais. Suscetivelmente mortais. Apaixonados menos pelas pulsões, mais pelas escolhas. Menos pelos impulsos e mais pelas decisões. Morremos por não nos lembrarmos da morte. Por considerarmos possível que ela concorde em não se lembrar de nós.

7 comentários:

Diogo disse...

Nossa, o último paragráfo (principalmente) é ótimo... realmente, morrer é bem mais que deixar de existir!

Diogopensamentos.blogspot.com

palavras ao vento disse...

belo texto...muito bem escrito...

sobre meu texto...fiz ele...musicado...de principio...ate...

Vino disse...

Bacana gostei do blog, vou te seguir

Adriana disse...

So sad.
Que a existência dele tenha deixado bons rastros.

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

NOSSA NANDA... QUE TRISTE.MEUS PÊSAMES

DEPOIS DE LER O COMENTÁRIO,PASSA LÁ:
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/10/expira-inspira-expira-inspira.html

Ana Carolina disse...

Nossa, me emocionei profundamente com seu post. Tenho diabetes desde dos noves anos, sei que existe doenças muito piores mas ser diabético não é muito fácil, tomar insulina todos os dias, controlar toda hora e não só doces que aumentam TUDO aumenta inclusive estresse.. Então é bem complexo, mesmo que minha saída para não me abater seja espalhar "minha doçura" ta sendo dificil manter um controle sobre tudo, mas continuo seguindo e persistindo :)


Enfim vim no seu blog mais para agradecer sua visita e comentário no meu cantinho, acabei me emocionando e desabafo um pouco. PARABÉNS :)

enfim passei mais para agradecer sua visita no meu cantinho, que é muito importante pra mim, volte mais vezes :* e uma boa semana

http://conflitopsiquico.blogspot.com

Cicero Edinaldo disse...

as ultimas frases deste post me tocaram profundamente! sempre repgnamos a morte, mas temos em mente q ela sempre nos vigia!...parabens por esta linda postagem1 obrigado ppor me emocionar logo no inicio da manha!. bjos, tchau!
blogestarcomvoce.blogspot.com