quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Alô, alô, marciano

Neste doido planeta em que há dia de tudo, é claro que não podia deixar de haver um só para ele. Ei-lo: hoje é o Dia do Blog. Dia dos nossos respiros tão imediatamente tornados letras, dia das nossas misturinhas de projeto com amigo imaginário, dia desses desafogos verbais que tossimos no mundo. Nós que fizemos um diário em forma de morango na infância, nós que o encharcamos e trancamos na adolescência –, nós vimos a voz crescer e não caber mais nas antigas roupas. Não caber mais nas antigas chaves. E agora dependemos desses gritos destrancados, despudorados e públicos que nossas ilhas lançam periodicamente no marzão internauta. Dependemos dos sopros transportados pela versão imaterial das garrafinhas. Já tem até nome simpático essa nova camada de ar que respiramos: blogosfera.

Blogar é uma digitação em voz alta, pensamento em vapor. Para o mal e para o bem, já não sabemos ter dúvidas, bravezas, contentamentos, primeiros dias, primeiras vezes, primeiros beijos sem transpirar o coração para quem estiver online. É a realização – pensada e escolhida – da fantasia mais pervertidinha do escrevedor de diário: ser arrancado da intimidade na marra, ser descoberto, ser lido. Sonhamos a chegada dos invasores, ansiamos pela colonização do outro. Por um lado é atitude feliz; cansamos dos martírios em silêncio, das celas particulares, e buscamos no colo do leitor um comentário que traga sol, leite e mel à nossa terra de desolação. Mas também desaprendemos a delicadeza do silêncio, substituímos o resguardo pela febre de conexão. Tudo é (di)visível, tudo é notório, tudo é público e publicável. Tolamente confundimos introversão com tristeza, respeito próprio com hipocrisia, e acabamos na neurose de virar um bando de confessadores compulsivos. Blogs podem se tornar diarreias de intimidade.

E quanto mais mergulhamos nessa incontinência, menos disponíveis ficamos para ser colo e ouvidos necessários. Quanto mais escrevemos, menos lemos. Quanto mais nos mostramos, menos desvendamos. Quanto mais nos enamoramos de nós, menos contemplamos. Estão aí, para provar, os comentários que se fazem nas coxas, sem carinho, cuidado ou preliminares – quase uma prostituição mecânica dos olhos, repetição automática para ganhar o bônus de outro comentário automático. Rabiscamos um “legal”, um “ótimo blog”, um “parabéns” e voamos apressados para o próximo cliente.

Blogs são um tudo, um muito. Só não podem nos transformar em multidão de monólogos.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ser a pessoa certa

Entre os programas “de relacionamento” que passam às terças no Discovery Home & Health, veio na última safra o curioso Traidores. O título é autoexplicativo: histórias (verídicas) de pessoas em relação estável que se envolveram em casos longos ou súbitos. Normalmente, durante a narração que os envolvidos fazem para o programa, fala também algum psicólogo, terapeuta familiar ou afim que tenha trabalhado com o casal principal. Um desses terapeutas tentava explicar o movimento que leva os potenciais traidores a se desiludirem com sua relação: “A maior parte dos pacientes está preocupada em encontrar a pessoa certa para se casar, no lugar de se preocupar em ser a pessoa certa”.

Preciso e genial. Nosso impulso de terceirização da culpa, que comentei posts atrás, não poderia atuar diferente em termos de relacionamento amoroso. Aliás, relacionamento “amoroso” – porque “amor” que é vampiro, em vez de ser doador de sangue, não pode circular por aí sem as aspas. Passamos a vida suspirando pelo príncipe ou (confessem, meninos) princesa encantada, a solução final, o elemento ou elementa que é “para casar” porque é o arroz que supre todos os aminoácidos de nosso feijão, é a nave do arrebatamento, é o anjo do resgate. Desabamos das esferas, chocados, quando percebemos que o herói teve a audácia de não decidir o restaurante de hoje, ousou continuar tendo amigos (e amigas) após a Grande União, foi petulante o suficiente para entrar em crise depressiva maior que a nossa. Pudera. Não queremos um cônjuge, queremos uma empresa fornecedora. Até hoje não sei como é que não ligamos para um SAC nem amanhecemos numa fila de Procon.

Queremos um partner que seja clone do Hugh Jackman e perito em hidráulica, mas nós mesmas vamos das 6h às 23h de pijama de moletom e não aprendemos a fritar um ovo. Queremos uma senhorita que tenha alma de serafim e talentos de Bruna Surfistinha, mas nós mesmos largamos a academia há 16 anos e engolimos com os olhos cada derrière transeunte. Queremos um interlocutor que seja a sensação da festa, mas nós mesmas nunca ouvimos falar em Godard. Queremos uma cozinheira que desfie o caderno de receitas da mamãe, mas nós mesmos nunca pusemos uma água para ferver. Queremos toleradores de TPM, mas somos intoleradoras de futebol. Queremos trazedoras de cerveja, mas não buscamos absorvente na farmácia. Queremos café na cama e deixamos a toalha na sala. Queremos buquê de rosa e esquecemos o pão do café. Queremos elogio e xingamos. Queremos poema e berramos. Queremos abraço e batemos. Queremos e não fazemos. Queremos e não somos.

E se somos: somos? Somos sem dúvida, sem pestanejar, de fato, de verdade? O que costumamos ser não passa de tentativas internas, intenções engolidas, pensamentos-fantasma. O melhor de nós – por preguiça, temor, arrogância, comodismo, ciúme –, geralmente levamos para o túmulo.

A não ser que exumemos o coração em vida, não nos tornamos o amor que fingimos merecer.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Nós todos esquecemos

Em recente coluna no jornal O Globo, sobre o fim da saga potteriana no cinema (e, por extensão, sobre o território dos mitos – Harry, O senhor dos anéis, todos os contos de fadas), Luiz Paulo Horta trouxe uma apropriadíssima citação de Chesterton. Dizia o autor em sua Orthodoxy: “Nós todos esquecemos quem somos realmente. Nós todos esquecemos os nossos nomes. Isso que nós chamamos espírito, arte, êxtase, só significa que, por um momento terrífico, nós nos lembramos de que esquecemos”.

Os adultos maratonistas que somos, aqueles que por força querem enfiar 92 horas em 24, esqueceram as criaturas que poderiam passar três meses no quintal, perseguindo exclusivamente as bolhas de sabão. Os profissionais exaustos ali no espelho desconhecem perfeitamente os seres que – mãozinha no queixo – devaneavam Oscars, planejavam Nobéis e Emmies. Os pais e mães soterrados por décadas de contracheques e preconceitos não cumprimentariam na rua os olhinhos que ainda brilham sobre mangás dos Cavaleiros do Zodíaco. Alguns anos, alguns meses, alguma(s) faculdade(s), alguns pneus furados, algumas carteiras assinadas, algumas geladeiras pifadas, algumas fraldas sujas depois, aqui estamos: estrangeiros daquelas criaturas, daqueles seres, daqueles olhinhos que éramos (somos) nós mesmíssimos.

Segundo Chesterton, em determinados momentos ensaiamos vir à tona. Assistimos a Cordel encantado, discutimos detalhes de As relíquias da morte, compramos ingressos para Um violinista no telhado, vamos ao Rei leão com o mais velho, lemos Cinderela para o caçula, somos voluntários no show de mágica, damos uma voltinha de almoço no Museu Nacional, pegamos o concerto de harpa no fim do expediente. E regressamos. Quando ninguém está olhando se abre uma fresta do portal, destranca-se o armário e revisitamos nossa Nárnia. Por várias eras dessa Nárnia (minutos brevinhos no relógio), nos amalgamamos ao eu sufocado, como naqueles desenhos em que a alma volta do passeio e cola de novo no corpo. Passado o encantamento, nos despimos e despedimos dela; tornamos a pendurá-la no cabide ou deitá-la adormecida, conforme conta Marina Colasanti: trancamos outra vez no quarto a nossa Ideia Toda Azul. Até mais, até a próxima, até um dia. Se der, se o documento não extraviar, se o empréstimo não bater, se o negócio não falir, se o prazo não me enforcar, se o Joãozinho não quebrar a perna, se o Joãozão não furar o cano – eu volto, eu volto, eu me busco. Retratos de Dorian Gray invertidos, definhamos do nosso lado de fora porque acabamos perdendo na correria, entre pares de meia e óculos de leitura, as velhas chavinhas do portal.

Conselho: enganchar no cordão favorito o cartão de acesso à sua Pasárgada, e não tirar nem pra banho. A senha você já sabe: seu nome. A não ser que já tenha esquecido.

domingo, 28 de agosto de 2011

Não resisti

Normalmente essa frase vem precedida de um “desculpe”. Problema nenhum, se o cidadão “não resistiu” a comprar um buquê formidavelmente vermelho para a amada, um pingentinho de pérola, uma lingerie impublicável, um pote da geleia preferida. Ou uma qualquer bobagice que até se paga para oferecer, de tanta vergonha: um adesivo besteiroso, um filme B sujaço, um anel garimpado na 1,99 da esquina. Por muito caro ou muito barato, por excêntrico ou ridículo, por hiperbólico ou minimalista, o presente foi um pecadilho que subiu à cabeça: desculpe, não resisti. E quem queria que resistisse? Desculpamos, sim, desculpamos, só fingimos não desculpar antes de um desembrulhar de pacote e de uma bronca feliz. Seu doido, sua doida, para quê, que tolice, onde é que vou usar? (segue-se avalanche de indignações e beijos perdoantes).

Mas há o “não resisti” que não acompanha travessuras nem termina a guerra sem baixas. Há o “não resisti” que cinicamente explode após a traição consumada (e descoberta), o que chora crocodilos por causa do furto imprevisto, o que desenrola histórias de amor e sofrimento diante da fraude cometida, da deslealdade comprovada, da ofensa, do engano, do engodo, da covardia, da malícia que não foram – é claro que não foram – por má intenção. Imagine se alguma maldadezinha (ou zona) é de propósito. Nada: tudo fruto daquele impulso sobre-humano, daquela possessão descontrolada que nos exime de culpa.

Nenhum “não resisti” nos exime de culpa. Ao contrário, confessa-a. Nós só “não resistimos” a uma decisão já tomada. Dizer que não resistimos traduz-se em: tivemos vontade – vontade muito nossa, inteiramente nossa – e não movemos uma palha para lutar contra ela. Chegamos à bordinha do precipício e, sem violências nem empurrões, nos entregamos à queda enamorados da escolha. Eis a palavra do dia – escolha. Não resistimos: quisemos. Não resistimos: sequer tentamos. Não resistimos: erguemos um altar e uma prece ao nosso desejo, divindade dos egoístas, bode expiatório dos fracos, ídolo das ratazanas, constituição dos que integram a comunidade do eu-sozinho.

Não resistimos a espalhar uma fofoca, o fofocado não resiste a arranhar nosso carro. Não resistimos a contar uma piadinha racista, o insultado não resiste a xingar nossa genitora. Não resistimos a espiar pela fechadura do vizinho, ele não resiste a abrir nossa correspondência. Não resistimos a trair, alguém não resiste a nos fazer traídos. Ooops, lá vamos nós. We did it again. Tão frágeis de princípios, tão quebradiços de convicções, tão dobráveis, tão suscetíveis que qualquer sopro de oportunidade nos carrega, qualquer vislumbre de vantagem nos compra, qualquer lasca de benefício nos seduz. Não faz mal, basta a expressãozinha de maior abandonado, o sorrisinho maroto, o olhar de moleque, não resisti. Resistiremos bravamente (prometemos!) até raiar a aurora do próximo crime.

A não ser que haja aquele que “não resista” antes de nós. Estará desculpado. Será um simples, um outro guerreiro combatendo pela independência dos estados unidos de si mesmo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Madame butterfly

Borboletas são uma provinha ambulante de que o mundo não pode ser em vão. Amo-as, e ao seu jeito de nos fazer crer em fadas. A presença da menorzinha que seja nos convence mudamente do paraíso. É uma de minhas teorias: borboletas são pequenas persuasões acerca do infinito, uma amostra grátis de plenitude que se esfrega em nosso nariz. Mas têm curto visto de permanência do lado de cá do mundo. Não nos pertencem, não podem durar. Duram o tempo suficiente para procriar em outras emissárias e garantir a perpetuidade da boa-nova.

Não bastante, as bichinhas vieram ao planeta como metáfora pronta. Quem já não se apropriou da ideia do casulo, da metamorfose, da reinvenção? Tanto alumbramento nos causa que ficamos cegos ao clichê. Repetimos as comparações hipnotizados, rendidos, na mesma alegria fresquinha com que as borboletas se autorrepetem.

Um aspecto da metamorfose, porém, eu (ad)miro com ternura específica. Larvas de borboleta vivem literalmente para comer. Nada lhes interessa no universo senão acumular cabedal para a fase adulta. Quando finalmente rompem o casulo, quando encerram a preparação para a vida definitiva, voltam incapazes dessa mastigação alucinada. Suas mandíbulas se atrofiaram. No lugar ficou uma trombinha, o probóscis, que permitirá ao inseto (não é horrível manchar borboleta com o nome de “inseto”?) uma alimentação levita, o necessário, somente o necessário. Espanto: em algumas espécies, nem mesmo o necessário. A abertura oral se fechou. Até o fim, até retornar à Wonderland de onde veio, a borboleta não fará nada além de reproduzir e reproduzir-se, voejar e acasalar, amar, querer-se amada – sem almoços, sem jantares, sem distrações. A energia virá exclusivamente do que armazenou em sua existência esforçada de lagarta.

Não digo que parássemos o alimento literal nem figurado, que cessássemos os banquetes, muito menos as aprendizagens. Tão bom seria se aprendêssemos, no entanto – se aprendêssemos a paixão devoradora com que a lagarta se constrói e a avidez de amor com que a borboleta se consome. Se entregássemos a juventude ao conhecimento faminto e a adultice, à missão permanente. Se engolíssemos a terra numa loucura de sabedoria, para depois nos devolvermos a ela belos, crédulos, polinizadores, insistentes, incansáveis, prontos. Se fizéssemos uma escola dos primeiros anos e uma aquarela dos seguintes.

Se fôssemos como somos, mas melhores. Se fôssemos como elas, de existirem, são bilhete para recordarmos a forma esquecida de ser. Se fôssemos uns para os outros um jeito de fazer crer em fadas. Provinhas ambulantes de que o mundo não pode ser em vão.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Por uma vida menos extraordinária

Não adianta, lá vou eu de novo. Citar a Martha. Sou incorrigível. Mas o que faço se ela, invariavelmente, se encaixa no assunto macio, macio? Veja se não dá vontade de mastigar esse mimo da crônica “Emoção X adrenalina”: “(...) emoção nenhuma é banal se for autêntica. Só as emoções obrigatórias é que são ordinárias. Nascimentos, casamentos e mortes emocionam apenas os que estão realmente envolvidos, senão é teatro – aquele teatrinho básico que se pratica em sociedade”.

Lembrei-me do trecho quando, esta semana, o escritor Alcides Goulart – autor de 30(!) livros para crianças e adolescentes – palestrou para os alunos de minha escola. Em dado momento, ainda que o público presente regulasse entre 12 e 15 anos, ele narrou a história de um de seus livros feitos para os mais pequeninos, Você conhece o João?. Narrou e folheou as páginas ilustradas, cada qual com sua frase curtinha. Pensa que os guris metidos a adultões fizeram pouco da história? Acompanharam vidrados, crianças de novo, crianças que são ou recém-deixaram de ser. Após o final-surpresinha, aplausos entusiásticos, espontâneos, just because. Meus olhos acostumados a flagrar traquinagens e bocejos dos estudantes se comoveram de puro susto. Encantaram-se. Piscinaram-se. Quase dei vexame. Não me recordo de um sentimento tão fascinado e inteiro em nenhum dos aniversários a que recentemente compareci. Dos casamentos, só aquele no qual fui madrinha. Nem nos da família. A Martha, como sempre, sabendo das coisas.

Nosso calendário íntimo não põe (obrigatoriamente) estrelinha nos eventos que o grupo assinala. Podemos nos debulhar durante a Sessão da tarde e permanecer de olhos áridos ao receber a festa de despedida. Podemos sentir arrepio da canela à nuca diante do violinista de rua e posar de estátua na estreia do primo no teatro. Podemos ser possuídos por felicidade acachapante sentados no ônibus, sob o vanilla sky do fim de expediente, e ser devorados por sonolência furiosa no show tão aguardado. Vai entender.

Esse, porém, é o entendível: incompreensível é o sujeito terceirizar seus feriados, esperar data e hora para o frio na espinha, engolir o choro por falta de carimbo da folhinha, entrar em êxtase só com autorização do livro de ponto. Androides, talvez. Por mais que nos doa ir além da cadeia de rituais cívicos e familiares em que nos emprateleiramos, não adianta. Não há como nos atermos aos extraordinários de encomenda. Nossos ordinários – e não uso aqui o termo no sentido pejorativo da Martha, mas como sinal das lindices cotidianas – melhor nos conhecem, mais de jeito nos abordam, com mais chance nos pegam. Nosso tantão de lágrimas, gozos, tremores armazenados são paridos antes do parto agendado. Têm pressa. Estão à espreita para imiscuir-se na flor trazida, no comentário do filho, na frase da crônica. Metem-se no poema, no sol, no jingle, no slogan, no personagem, no esbarrão, na notícia. Eles nos querem. Eles nos tomam. Subitamente – às duas da tarde ou nove da noite, na cama ou no caminho, na aula ou no beijo, no sorvete ou no tanque – eles nos têm.

Felizes de nós se é pelo necessário, somente pelo necessário que nos deixamos ter. O extraordinário é um exagero de espera. O extraordinário é demais.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Corrida maluca

A exposição foi organizada na França, rodou por vários países e agora está acampada em São Paulo; fala sobre as ruas e esquinas das metrópoles globais, propõe estratégias para atenuar o caos. Em reportagem sobre o evento, no Bom dia, Brasil de hoje, Fábio Turci lançou um dito lapidar a respeito do corre-corre de nossos espaços públicos: “Na rua, pratica-se a pressa. E a pressa faz inimigos”.

Estabilizamos moeda, economia e vida; compramos carro, trocamos carro. Estendemos a linha do metrô, ampliamos as de ônibus. Mais vans, mais táxis, mais mototáxis, mais motos. Para que um sempre diversificante transporte? Para aprimorarmos a cultura do atraso, é óbvio. Ainda que não estejamos atrasados. Podemos chegar com 16 minutos de antecedência, mas entramos no trem massacrando e xingando a multidão que quer, de propósito, nos impedir de chegar com 26. Há 32 vagas disponíveis, mas autoazedamos a manhã resmungando contra o motorista que tirou o dia para nos infernizar, estacionando bem no espacinho preferido. Se não tivéssemos ficado 17,8 segundos retidos pela senhorinha que andava de bengala à frente, atravessaríamos no sinal das 8h41 e pegaríamos o metrô das 8h44. Se não tivéssemos esperado 2,13 minutos para que o cadeirante embarcasse no ônibus, evitaríamos a maré de sinal vermelho na avenida. Pronto, lá vamos nós: esbaforidos, misóginos, intolerantes, nazistas de ocasião, skinheads momentâneos, feras instantâneas, nosso lado B perigosamente aflorado porque nos malocaram 5 minutos no percurso, esses animais. Nós todos, monstros em pó, de preparo imediato. Basta adicionar meio mililitro de imprevisto e rendemos cinco jarras de fel, para beber de canudinho.

A ferida exposta, a rivalidade potencial, ultrapassa a pista, o trilho, a calçada. Demore para obter resposta do caixa eletrônico, lute na fila do mercado para encontrar aqueles 10 centavos na bolsa, pague com 47 moedinhas a passagem do veículo que preferir: 2.406 suspiros virão atrás de você, ensurdecedores. Muxoxos impacientes. Palavrões eventuais. A campanha surda da torcida adversária, dos outros, dos logrados, dos inimigos. Se temos uma lasquinha de sensibilidade a mais que uma ameba, saímos à rua (ou nem saímos: não se esqueça da hora de embarcar as compras no elevador lotado) rezando para não tropeçar, não enguiçar, não enganchar, não travar, não soltar, não reiniciar. Rezando para realizar o previsto sem levar buzinada nem ganhar abacaxi.

A pressa é inimiga da digestão. Da canção, da função, da união, da opinião. Quanto mais minutos “perdemos” descobrindo o outro como gente, maior a chance de, no fim do dia, sentirmos que a maratona de 24 horas valeu medalha, medalha, medalha.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Liberdade, liberdade

Hoje, no Brasil, é simultaneamente Dia do Artista e Dia da Infância. Coincidência não é. Ser artista de qualquer especialidade não passa de uma licença para continuar brincando. Difícil encontrar profissão mais séria.

Séria, sim – por duas principais razões. Primeira: na arte nos reconhecemos desorgulhadamente como os eternos ensaístas que somos. Arte é o campo de exercitar o erro sem o peso da consequência fatal, um minilaboratório de vida montado para a prática do perdão próprio e alheio. Se erramos como professores, revisores, goleiros, policiais, engenheiros, farmacêuticos, agricultores, fiscais, metalúrgicos, caminhoneiros e (muito destacadamente) médicos, babaus: criam-se traumas, derrotas, intoxicações, desabamentos, ruins sintomas, piores mortes. Não na arte. Um soneto com desvio de métrica, um romance com falha de cálculo, uma novela com barriga de enredo, uma escultura com problema de aresta sai sem vítimas. Até um tropeço de coreografia no Kirov gera, no máximo, cara feia. A não ser que o artista seja um Cisne negro da vida, lapsos na arte não matam. Nos dão tempo e respiro necessários para treinar humanidade, liberdade para saborear devidamente as tentativas. Em termos de saúde, jogo, ensino, não há tentativas. Há finalizações. Nada de espaço para futilidades como ser mulher ou homem.

Em segundo lugar, arte não é coisa que se faz (exclusivamente) por contingência. Faz-se por precisão, carência, desafogo, pobreza, fome até – vá lá. Mas não há chance de o artista não ser impelido por um cadinho que seja de prazer. Pode-se dar aula porque outro caminho não se abriu, e detestar a função improvisada; pode-se encarar a medicina porque pai, avô, bisavô e todos os tataras anteriores foram médicos, e ainda assim ter horror ao consultório herdado; pode-se assumir o cargo de técnico judiciário porque foi o concurso no qual se conseguiu aprovação, e contar cada segundo para a aposentadoria. Não há remota possibilidade, porém, de a manifestação artística não juntar o útil (quando existe útil) a qualquer coisa de agradável, ou o sujeito em questão optaria por torturas mais rentáveis. A arte torna impraticável o engodo de nós mesmos. Inviabiliza o fingimento da alegria profissional. A arte pode até casar por interesse, mas só nos aceita – também – amantes.

Artistas acabam por ser aquelas criaturas que nos resumem. Nos resumem pelo menos em essência teórica: tentantes, falhantes, aprimorantes e movidas, na caça de seu Graal, por gasolina de amor em estado mais puro, de sede na forma mais sincera. Seres automotivados na brincadeira própria, seres autoapaixonados, autoimpulsionados, seres com gerador particular. E suma: o que deveríamos ser se não estivéssemos perdendo tempo sendo inutilidades tão urgentes.

Em suma: crianças.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Síndrome da utilidade

Sei que não devia citá-la tanto, tanto. Aporrinhar o leitor: lá vem ela de novo com essa escritora! Mas sou baba-ovo de Martha Medeiros sim, admito. É um vício. E não resisto a outra citação, tirada da crônica “O que a dança ensina”, do Doidas e santas: “(...) vivemos num mundo onde todos se perguntam o tempo todo ‘para que serve?’. Para que serve um beijo, para que serve ler, para que serve um pôr do sol? É a síndrome da utilidade”.

Confesso que me vejo sempre em risco de derrapar na síndrome, e por isso mesmo exaltei o “just because” alguns posts atrás – o prazer da gratuidade, a alegria atordoante da ausência de motivo para coisa boa. Coisa boa não precisa de motivo, sua existência está paga com juros pelo fato de ser boa. Mas, se deixar, a gente sapeca etiqueta de preço em tudo. Preço, modo de usar, especificações técnicas. Alunos não fazem exercício para aprender a matéria: fazem porque vale ponto. Não aprendem a matéria para preparar a vida: aprendem porque cai na prova. Não escolhem Direito para mergulhar afetuosamente na carreira: escolhem porque facilita no concurso público. (Quase) não visitamos o museu para aguçar o olhar: visitamos porque aquela exposição está bombando e todo mundo já viu. Não lemos o livro para nos casar com ele: lemos porque o professor mandou, o trabalho pediu e todo mundo já leu. Compramos flores só porque a visita vai lá em casa. Comemos frutas só porque o médico vai passar exame. Mandamos duas linhas de cartão só porque é aniversário. Entregamos 50 gramas de bombom só porque é Páscoa. Damos aquele telefonema só porque é Natal. Tudo objetivo, sofrido, cronometrado, friamente calculado. Ai! se passa um minuto, dois reais, dez miligramas do previsto. Um transbordamento que é luxo de doidos.

Faça o teste. Experimente declarar que hoje, plena terça-feira, vai visitar a prima, abraçar o sobrinho, almoçar com o irmão, levar um doce para a avó, tomar um chope com o colega de escola, sair para dançar com os pais, ir à festa do cliente. Oito entre dez chances de alguém desejar esclarecimento: é aniversário? nascimento? discussão dos rumos da empresa? combinação dos vestidos das madrinhas? vai apresentar o noivo? vai entregar os convites? E os pares de olhos se arregalam por dentro quando você balança a cabeça, não, é just because, porque sim, puro afeto. Como assim, gastar dia útil com puro afeto? Onde é que nós estamos. Já não bastam sábado e domingo para as pausas de felicidade extravagante?

Bastam, se você veio ao mundo com a missão de assinar ponto. Se é um Tio Patinhas destinado a acumular uma caixa-forte de tratados, motivos, justificativas, carimbos, assinaturas, provas, ciências, teses e razões. E nadar neles, refestelado. Mas se são outros seu câmbio e sua fome, uma vida inteira de evolução, beleza e amor excessivos não chega a dar nem pro começo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Assessor de assuntos aleatórios

Outra daquelas celebrações tipicamente americanas. Outra que achei totalmente simpática. Hoje, 22 de agosto: Be An Angel Day – dia de ser um anjo. Alguns enviesariam o nariz, alegando não combinar com auréolas e asinhas. Discordo. Figurino de anjo é coisa que cada qual põe a seu gosto. Tem pra todo número. Não pode faltar é o combustível que sacode as asas: vontade de tirar, em todos os sentidos, a gravidade do dia alheio.

Primeira atribuição de um anjo diplomado, por exemplo. Ser delivery de boas-novas. Ter como sabor favorito o da notícia feliz. Sobra gente faminta por anunciar dois ou três apocalipses diários, a doença suspeitada, a morte consumada, a perda, a falência, o incêndio, o sumiço. Sobram urubus, há vagas para pombos-correio. Um carteiro de talento entrega e goza junto a aprovação no vestibular, bebemora o nascimento do afilhado, felicita pelo emprego atingido, traz a música, puxa a dança, enfeita a festa. Nada mais profissa que saber partilhar a alegria de outrem sem querer, da boca para dentro, consumi-la inteira.

Uma segunda tarefa de anjo recém-contratado: ser desviador de furada. Não necessária nem preferencialmente dando sermão. Conselheiro que é conselheiro mantém ao máximo a boca fechada e o olho (e o abraço) aberto. Acompanha mas não invade, aponta mas não empurra, sugere mas não violenta, conduz mas não arrasta. Invade, empurra e arrasta em casos extremíssimos. Vira óculos, ponte, manual, divã – não vira venda, bengala, cadeado e coleira. Vigia com discrição de fada, visita com sorriso de primo, bronqueia com licença de irmão. Anjo que é da guarda mora, transparente de peso e de volume, sentadinho no ombro. Zelo online com leveza de offline.

Anjo vestido de gente também trabalha por temporada, também assume o posto por dez segundos, vinte minutos, quatro horas. O tempo de um atravessar de rua, de um trocar de lâmpada, de um consolar de criança perdida, de um carregar de sacola pesada, de um ler de letrinha miúda, de um macete pra prova, de uma companhia pro médico, de uma dica de presente, de uma informação de trânsito. Tem anjice de toda sorte. Tem anjo de plantão pra toda obra: pra ser jornal, martelo, braço, mão, meteorologia, espelho, almofada, band-aid, semáforo. O que geralmente não tem é aviso prévio para essas anjices de ocasião. Pode-se entrar no carro, no prédio ou no elevador e ser convocado. O contrato chove ali, agora.

Da próxima vez que um desconhecido lhe oferecer asas, isto não é Impulse. Vista-as. Na rua seguinte, tem alguém (precisando de uma forcinha) que é o seu número.

domingo, 21 de agosto de 2011

Só uma lembrancinha

Duvideodó que você nunca tenha resmungado ou ouvido resmungar sobre um presente. Aliás: sobre uma “lembrancinha”. Aquele presente sem convicção, avexado de si mesmo, que se entrega quando Natais e aniversários nos pressionam a não fazer desfeita. Lembrancinhas são quase sempre compradas no fio da navalha, no desespero que mora entre uma prova por corrigir e uma conta por pagar, um almoço por improvisar e um e-mail por responder. São pequenos pedágios de civilidade, passaportes para a boa vontade familiar, a tolerância entre amigos, a aceitação entre colegas. Espécie de recenseamento anual do afeto. Trouxe lembrancinha? trouxe; parêntese marcado na checklist; próximo, por favor. Cumprida está a dança tribal de pertencimento ao grupo.

Quem me lê julga que detesto comprar lembrancinhas. Ao contrário. Adoro-as. Adoro o ritual da busca, do farejamento, da dúvida, da escolha, da análise salivante de opções, da encomenda quando é o caso, do pagamento do boleto, da espera do pacote, do capricho na embalagem. Comprar presentes é um artesanato de alegria. O que detesto está do outro lado: a ranzinzice de alguém que não sabe merecer qualquer dom que lhe tenha vindo. A petulância de querer valer mais do que algo gratuito. A soberba de nivelar o obtido pela régua do sonhado. A arrogância de cobrar mais do que aquilo que já chegou como bônus. O complexo de Dogville: visão do supérfluo como obrigatório, do lucro como falta, da oferta como promessa, da dádiva como dívida.

Falo de (in)gratidões e lembrancinhas porque de hoje a 27 de agosto, ao menos nos Estados Unidos, celebra-se a Thanks For All The Gifts Week (semana de agradecer por todos os presentes). Não conhecia a comemoração, mas simpatizei de cara. Justamente por dedicar especial antipatia aos maus recebedores, os que nasceram com a síndrome do ultramerecimento. Agradecer por todos os presentes, afinal, não significa fazer pouco de si a ponto de assinar embaixo de uma pérola do mau gosto, ou de deitar na lama para um presente porcaria passar. É o oposto. É suar grandeza interna. É estar tão acima do físico que se fica com altura de sobra para visualizar o simbólico. A tia-avó lhe trouxe meias de novo, mas preferiu esse – assim chamado – mico a aparecer para você de mãos vazias (cá entre nós: pelo tanto de gasto e de praticidade, acho meias sempre bem-vindíssimas). A colega de sala inventou um perfume que você odeia – mas é da mesma loja de sua essência de estimação? beleza: é só ir trocar no horário de almoço. A madrinha enviou uma blusa de cor radioativa, dois números abaixo do seu; maravilha! considera você a mesma adolescente magriiiiinha de anos atrás. Foi dois números acima? tanto melhor: nada mais reconfortante do que roupas ficarem imensas em nós. Passe o bichinho adiante e economize no Natal. Ou exercite a criatividade tão embotada e customize a peça sem dor no coração. Invejável terapia.

Gostar é irrelevante, querer é o de menos, usar é facultativo. A gratidão pela lembrancinha não obriga mudança de estilo nem sacrifício de vontade. Envolve exclusivamente a humildade do aceitar. Se a lembrancinha em questão tomou duas semanas de procura no Fashion Mall ou dezoito segundos no Mercado Livre, se levou 50 parcelas no cartão ou 50 centavos no jornaleiro, se saiu da Armani ou do armário, que importa? Algo que não tínhamos nos foi dado. Ganhamos pedaço alheio que não nos pertencia. Com ou sem o prazer do mimo, alguém roubou de si um naco de vida, de dia, de almoço, de ideia, de intenção, de pensamento, para (entre tantos destinatários) depositá-lo na gente.

Sem possíveis devoluções.

sábado, 20 de agosto de 2011

A perda do medo

Hoje é, era, seria aniversário de Cora Coralina. Infelizmente lhe sei pouco. Muito pouco. Poemas cá e lá, uma crônica ali, um conto saboroso de defunto que ressuscitou. Mas sei, para minha admiração e esperança, que a nascida Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, escritora amorosa desde os 14, só aos 75 é que foi ter o primeiro livro publicado. Publicado e adorado, incensado, paparicado por Drummond. Deu no que deu.

Minha esperança não é ser uma Coralina ou ter um Drummond. Minha esperança é – cedo de preferência, mas tarde que seja – viver o turning point conhecido pela poeta (odeio a palavra poetisa, vocês não?) aos 50 anos, num momento que descreveu como a “perda do medo”. Que medo? Tantos. Vários. Nascida que era no século XIX, não seria de admirar que muitos. Antes de ser Cora Coralina, Ana Lins já publicava em jornal e até dirigia um semanariozinho feminino, mas também se uniu a um Cantídio que a proibiu de participar da Semana de Arte Moderna, apesar – ou por causa? – do convite de Monteiro Lobato. Ana Lins escrevia, mas era mulher do chefe de polícia. Escrevia, mas ficou semanas trancada num hotel paulista porque os revolucionários de 1924 haviam parado a cidade. Escrevia, mas teve um de seus filhos participante da Revolução Constitucionalista de 1932. Escrevia mas ficou viúva, vendeu livro, vendeu linguiça, vendeu banha de porco. Escrevia mas tinha receios, tinha limites, tinha obstáculos, tinha preocupações, tinha obrigações, tinha desvios, tinha contingências. Aos 50 anos, sei lá por que processo ou realidade, perdeu-as. O que fosse que ainda a afastava de si, perdeu-o. Entrou no casulo Ana, saiu Cora.

Estimo que não tarde ainda 19 anos, porém aguardo lagartinhamente o rebentar do casulo. Não a perda do pudor público: a perda do visgo privado. Não a perda da vergonha: a perda da algema. Não (não, não!) a perda do respeito, do receio, do tato, do decoro: a perda da covardia, da paranoia, do orgulho, da timidez. O rasgo da fita métrica pautada por olhar alheio. A quebra dos sins dados sem propósito e dos nãos ditos sem piedade. O estilhaçamento da pressa sem objetivo, da fuga sem critério, da falta sem desculpa, da opinião sem estudo, da recusa sem reflexão. O fim das autoarmadilhas, autoboicotes e autotropeços. A renúncia à parte de mim que se posta em meu caminho.

Não coremos, não corramos – coralinemos. Abaixo o branco-e-pretinho básico que nos deixa a alma mais sobrevivente que caminhante. Eis um dia tão perfeito como qualquer outro para chutar a carcaça e brincar de sol.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

De triste memória

Na novela das 21h, Raul (Antônio Fagundes) e Wanda (Natália do Vale) acreditam que seu filho Léo (Gabriel Braga Nunes) morreu num acidente aéreo. Fosse o psicopata que fosse – e que, infelizmente, continua sendo –, estão ambos arrasados. Mas tristeza arretada, mesmo, mora na afirmação de Raul, que ontem desabafou com a pretê Carolina (Camila Pitanga): “O pior de tudo é que eu não tenho uma lembrança boa do meu filho para guardar”. Não foram essas palavras, foi esse o teor. Ainda que na realidade continue vivo, Léo já teve o mais medonho dos enterros. Ninguém – a não ser a mãe igualmente picareta e ruim – conserva dele qualquer memoriazinha que preste, um souvenirzinho autenticamente feliz. A mais verdadeira das mortes fingidas.

Ter morado sobre o planeta durante 20, 30, 50, 80 anos, não ter deixado para trás uma rosa de aniversário, um telefonema de Natal, um Garoto de Páscoa, uma mãozinha dada de cinema, um lápis emprestado de escola, um lugar cedido de metrô. Ter dialogado um trilhão de verbos e substantivos, não ter esquecido no mundo um vai-com-Deus, um vai-passar, um conta-comigo, um adorei-sua-blusa, um vamos-lá, um estou-aqui. Ter respirado por um tantão de décadas, não ter inspirado um sorriso, uma melhora, um abraço, uma vontade, uma redação, uma solução, um desenho, uma carta, uma compra, uma ideia, uma surpresa. Não ter servido para varrer uma única nuvem. Não ter prestado para espantar um só pesadelo. Não ter expulsado sequer um monstro do armário, não ter buscado um copo d’água na cozinha, não ter elogiado nenhunzito corte de cabelo, não ter rabiscado uma dedicatória solitária. Herança de zero poema, zero árvore, zero filho, zero chocolate, zero empréstimo, zero piquenique, zero colo, zero bolo, zero beijo, zero festa, zero canção. Vida estéril de si, oca de gente, vida (outra vez lembrando Martha) não habitada. Vida em que morrer é mero assinar de recibo. Simples formalidade.

Tem coisa, sim, pior que ser enterrado vivo. É ser cadáver ambulante. Ser aquele que não circula vestido de caixão, que não dá endereço de sepultura, que não tem foto na lápide, mas de quem só conhecemos os restos mortais.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Comprar problema

Da mesma colega de trabalho cujo estômago “não fica de luto” (frase que me rendeu uma postagem semanas atrás), veio nova expressão deliciosa: comprar problema. Ela se referia ao gosto por palavras-cruzadas, mais exatamente nas férias, quando a ausência enervante de amofinações nos leva a adquirir desafios no jornaleiro. Cruzadas, duplex, caça-palavra, criptograma, sete erros – estamos para tudo. Importante é garantir a cota de perrengue essencial à vida. Se a perturbação não vem, a gente compra.

Tudo muito saudável enquanto são conflitos de bolso, obstáculos de papel. Vira doentio quando o cidadão decide estragar um pouquinho, por tabela, a vida dos outros. Para se distrair. Resolve que a mulher mais interessante é justamente aquela acompanhada de um mamute. Entende que o vizinho recebe jornais em excesso e não se importará de ceder (compulsoriamente) os de domingo. Cisma que o calouro da universidade está de frescura e precisa aprender a nadar feito homem. Percebe que o jogo segue muito sonolento, à espera somente de uma bombinha de gás adentrar o campo. Premiar como? uma criatura que com tanto afinco busca partilhar, com o máximo de paraísos alheios, o seu inferno de bordo? Seja qual seja a atitude escolhida, a punição aplicada, uma certeza (e quem assistiu aO segredo dos seus olhos há de concordar): nada pior para um exportador de problemas do que a mais absoluta desatenção, a mais absurda indiferença, o mais excruciante silêncio. Existe quem só saiba existir incomodando. Uma vez que não é recompensado por nenhuma raiva fresquinha, por nenhuma vingancinha sangrenta, por nenhum ódio saindo do forno, seu plano de se alavancar pela estupidez acaba morrendo de inanição.

Mas há quem não exporte problema. Há quem importe. Há quem se importe – o bastante para anexar à sua labuta uns dois ou quinze quilos da labuta alheia. Quem precisaria de 92 horas diárias para dar cabo da agenda, e pega 60 minutos no cheque especial para brincar com pacientezinhos do Inca. Quem deixa o terno no tintureiro, o relatório na chefia, a esposa no escritório, o mais velho no colégio, a caçula no inglês e 530 gramas de companhia na casa da tia que está com a perna quebrada, em Itaquaquecetuba. Quem segue as cotações da Bolsa e as notas do afilhado. Quem é estilista de coleções nas manhãs e bordadeira voluntária de enxovais nas noites. Quem insiste para o filho não parar de estudar e para a faxineira retomar os estudos. Quem é corretora de mansões até as 18h e às 19h separa doações para desabrigados. Quem decide ser aquele com quem se pode contar, quem estranhamente acha que o outro é, sim, de sua conta.

Se a alfândega interna não liberou ainda altos índices de importação problemática, bom não é, mas é menos pior. Pior, mesmo, se não meteu taxas monumentais, gigânticas, everésticas nas cotas de exportação. Problema não é doce de São Cosme para distribuir na praça. Tá na seca? entorna uma Coquetel na banquinha de jornal mais próxima. Lustra ao menos o vocabulário e fica dentro do orçamento.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Almofadas

Brasileiro não examina: dá uma olhada. Aliás, uma olhadinha. Brasileiro não visita, dá uma passada. Não se diverte, dá uma espairecida. Não observa, dá um confere. Não passeia, dá um rolé. Não se bronzeia, pega um solzinho. Não surfa, pega uma onda. Não aborda, chega junto. Não entretém, faz sala. Não encontra, faz social. Não resolverá: quer resolver. Não ligará: pretende ligar. Não gosta: costuma gostar. Serve cafezinho, manda beijinho, dá tchauzinho, pede dois minutinhos. Transforma toda objetividade crua em afirmação indireta, todo verbo rápido em locução demorada; iguala todo pedido ou ordem, toda mostra de fraqueza ou força no mesmo diminutivo. Nossa língua nos mimetiza. Não enfrenta nem atravessa: contorna.

Nunca nos jogamos inteiros na frase, como nunca no país; nos entregamos de meio-corpo. Deixamos sempre uma rota de fuga (vai que). Até em questões de idioma, fugimos ao compromisso do permanente. Atenuamos. Amenizamos. Relativizamos as declarações tanto quanto aos problemas. Estamos um bocadinho cansados, um pouco preocupados, ligeiramente apavorados, mais ou menos apreensivos; estamos, tipo, exaustos. Meio que não dormimos bem, meio que devemos uma fortuna no cartão, meio que fomos despedidos. Ainda não ouvi, mas ouvirei alguém se dizer “meio que grávida”.

Não admira o gerundismo de telemarketing ter alcançado tanto sucesso por estas bandas. A almofada perfeita. Um “vou estar transferindo”, “vamos estar cobrando”, “íamos estar cancelando” maleável, suave, acolchoado, em lugar do “transferirei”, “cobraremos”, “cancelaríamos” e sua agressividade de adaga. Malandros, dribladores, amamos a curva e tememos a reta. O verbo liso, o substantivo nu nos ofendem. A burocracia nos salva da eficácia. O talvez nos salva da regra. O quem-sabe nos salva da lei. Sins e nãos, olha que perigo: são lavrados na rocha, reconhecidos em cartório, não vêm com saída de incêndio. Desviamo-nos ao contrato, esgueiramo-nos por baixo da porta, embalamos a realidade em palavras de plástico-bolha. Herdeiros dos salamaleques promíscuos com a família real, nós – principalmente nós cariocas – não queremos ferir suscetibilidades. Louvamos o chegar-junto no macio, não queremos melindrar. Queremos seduzir, sondar, serpentear, farejar a presa na diagonal, sem derramamento de sangue. Safadamente infantis, fazemos da língua um Cavaleiro do Zodíaco: o que morre não morre direito, renasce, remorre, torna a renascer e remorrer de acordo com as melhores conveniências. Tudo menos o definitivo. Tudo menos a definição. O Brasil é um país provisório.

(Tipo assim.)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Just because

Tão simpática essa expressão dos falantes de inglês. Just because. Você chega a um site de cartões virtuais e está lá a categoria: “just because”. Para-se no meio do dia, interrompe-se o trabalho, a revisão, a correção, o atendimento, o arquivamento, pensa-se em determinadíssima criatura e manda-se um cartão virtual assim, simples assim. Apenas porque. De repente é agosto (ou setembro), é inverno (ou verão), é terça-feira (quarta, sexta), dia de São Panfílio (ou Santa Gertrudes). Porque se acordou resfriado, porque o time joga hoje contra o Porangatubense, porque a meteorologia previu granizo para essa área escura do mapa, porque vai passar A lagoa azul na Sessão da tarde, porque a novela está na última semana, decretamos feriado. Hora de repassar a piada, de enviar o torpedo, de comprar o cartão-postal, de fazer o pavê de morango, de deixar o raminho de lavanda no travesseiro. Assim. Porque.

Vestimos a lingerie de seda importada sob o jeans e a camiseta da labuta. Comemos a trufa de sobremesa. Presenteamos a trufa de sobremesa. Vamos pela outra calçada. Vamos pelo outro quarteirão. Escutamos desapressados o garoto do violino. Trocamos o café pelo Ovomaltine. Roteirizamos o curta de animação. Fotografamos o jasmineiro do pátio. Matriculamo-nos na dança do ventre. Entramos no curso de francês. Saltamos dois pontos antes e seguimos descalços pela areia. Saltamos duas estações depois e visitamos o primeiro museu. Compramos o CD desconhecido. Vendemos o vestido de formatura. Decoramos três origamis. Comentamos em cinco blogs. Criamos um. Plantamos a semente de girassol. Oferecemos o buquê de tulipas. Escrevemos para o jornal. Inscrevemo-nos no concurso. Ressuscitamos sete contatos para um “olá” no Orkut. Marcamos convenção do Chapolim pelo Facebook. Deu na telha, deu vontade, deu saudade. Por quê? Porque.

Não estou, é claro, pirando na apologia da vontade soberana. Nossa vontade não é, não, soberana: acaba justinho em divisas de respeito, noção, caráter, juízo. Falo aqui da loucurinha inócua – necessária – que põe açúcar no day by day. Capricho de pequeno porte, capricho que é bagagem de mão. Pílulas de ser-humanice no meio do cimento. Sem esta sandice inesperada, sem este contrariar de nossos próprios planos, sem esta quebra de roteiro, o dia fica sendo (yaaaawn) exatamente o que seria. Que morna eficiência abraçamos. Que insossa produtividade engolimos. Que tediosa companhia nos somos (e, sim, é bem sem acento este “nos” – obliquamente).

Faça um favor, meu bem: olhe com menos desleixo, menos whatever, mais flerte e mais ternura este ser que o aguenta nas vinte e quatro horas do dia. Impressione-se.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Super 6

Assistimos a Super 8, o novo de J. J. Abrams. Mas é irresistível sair do cinema dizendo: o novo do Spielberg. Ou coquetel de antigos. Apesar de o velho Steven “apenas” produzir o filme, estão lá (todões) seus elementos reconhecíveis de autor e diretor: a amizade infantil dos Goonies, as misteriosas-ocorrências-em-cidadezinha de Contatos imediatos, a solidão entre pais e filhos de Prenda-me se for capaz, o medo comunitário de Tubarão, as aproximações monstruosas de Jurassic Park e, claro, a simbiose homem/alienígena, os adultos nulizados, os militares carrancudos de ET. Lanternas, muitas lanternas. Bicicletas, muuuuuuitas bicicletas. Infelizmente, não voadoras.

A não-voadorice das bicicletas de Super 8 traduz o filme. Apesar da propaganda que enfatiza a twilight zone, apesar do climão de sci-fi, apesar da conspiração rolando solta e o sinistro batendo ponto, o longa é terrestre e (demasiadamente) humano. Extraordinário mesmo é o grupo de crianças que o protagoniza: Joe (Joel Courtney), um Elliot aparentemente mais órfão e sofrido; Charles (Riley Griffiths), incrível projeto de Orson Welles; Cary (Ryan Lee), miniatura de Michael Bay – segundo o Fábio –, com sua fome orgástica por explosões; Martin (Gabriel Basso), atorzinho chorão e vomitão; Preston (Zach Mills), caxiasinho medroso; e o melhor achado do enredo, a mini-heroína Alice (Elle Fanning) – sem favor nenhum, merecedora de papar Oscar. É do sexteto fantástico que emergem as maiores estrelices da produção, com destaque para três cenas de Alice: as duas em que a menina ensaia para o filme amador do grupo e aquela na qual lamenta, massacrando corações, a morte da mãe de Joe (não é spoiler, gente: a história já começa no velório da Sra. Lamb). Os seis jovens heróis nos perplexam. Conforme comentou o Fábio, não parece que vivem hoje, no mundo real, ainda como pré-adolescentes. Tanto chupam o gosto e o cheiro do finzinho dos 1970s, tanto absorvem a contestação respeitosa, a marotice inocente da época, que aparentam ser crias autênticas dos seventies e eighties – atualmente crescidas, como todos nós.

É justamente a recriação (e bota RE-CRI-A-ÇÃO!) histórica o que mais sacoleja depois do elenco juvenil, tão perfeita que é. Os setenta/oitenta não estão ali imitados: ressurgiram. Belos adormecidos, acordaram como os deixamos. Cristalizados. Intactos. Não à toa – não podia ser à toa –, na saída do cinema uma lua pornograficamente cheia enfeitava o Pão de Açúcar. Olhando mais alguns minutos, tenho certeza: veríamos uma silhueta de Elliot com um certo seu amigo na bicicletinha.

Tínhamos acabado, todos, de voltar para caaaaaaaasa.

domingo, 14 de agosto de 2011

Morreu no abraço

Muita gente conhece a parábola bíblica do filho pródigo: o guri mais novo pede sua parte na herança, sai de casa, torra a bolada com mulheres, festas e “amigos” que precisam de aspas. Ferradão e sozinho, começa a trabalhar cuidando de porcos e chega a invejar a comida dos bichos. Aí se dá conta da burrada; resolve voltar para casa, oferecer-se ao menos como um dos empregados da família. O pai não se faz de rogado: manda trazer roupa e sapato novo pro moleque, anel, vinho, novilho gordo para dar festança. Happy-end sem DRs.

Pois fizeram para a parábola uma musiquinha que é um primor de síntese – reúne o tudão do enredo em três estrofes. A mais bonita começa assim: “Nem deixaste-me falar da ingratidão,/ morreu no abraço o mal que eu fiz”. Este último verso, uma pancada, não consigo cantá-lo sem molhar os olhos. Como é que cabe tanto conteúdo em tão pouca forma. Oito palavras que descrevem o indescritível por todos os Aurélios do continente: abraço e perdão. O que acaba em um e onde o outro começa.

Adoro principalmente o início do verso. Morreu. Não que eu seja fã do verbo, bem muitíssimo ao contrário; por isso mesmo, estimo vê-lo ligado ao “mal que eu fiz”. O mal que eu fiz não foi empurrado, não foi varrido, não foi espanado, não foi arquivado para seguintes consultas, não foi reservado para posterior cozimento, não foi escondido na gaveta para inesperadas redescobertas. Morreu. Não fazemos a festa agora e vamos discuti-lo mais tarde, não aproveitamos o bom momento e o estocamos para o mau, não sorrimos na frente dos amigos e o retomamos no enfim-sós. Morreu. Não morreu que nem zumbi ou múmia de cinema, morreu direito. Morreu sem se questionar morto. Morreu sem ter dúvida. Morreu de HD formatado. Morreu de flecha lançada. Morreu de papel carbonizado. Morreu de navio queimado. Não tem jeito, não tem volta, não tem sombra, morreu. E morreu no abraço.

Morreu no melhor lugar do mundo, segundo Martha: “Dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito”. Ali, naquele enlaçar de pai, há um modo próprio de dar à luz – o parto sem sangue, sem grito, sem mesmo frase. No abraço do pai, o filho pródigo fez aniversário. Deixou-se para trás, reinaugurou-se. Saiu da cerimônia de perdão com outra data de nascimento.

Ainda que não tenhamos acumulado tanta asneira a ser redimida, cada abraço recebido vira nosso pai. Todo abraço é pai de alguém. Milimétrica que seja a mudança, pessoa alguma sai dele como entrou. Por causa de um coração que se constata próximo, de um perfume que se percebe amado, de um apoio que se descobre presente, de um afeto que se conclui imprevisto, de um cumprimento que (não tínhamos notado!) é tão fundamental, mundos giram diferente. Cometas passam. Estrelas cadentes riscam. Às vezes o dia prossegue melhor. Às vezes melhora tanto que reinicia.

Hoje, meus filhos, não economizeis partos: abraçai. Crescei e multiplicai-vos – uns aos outros. E o tanto de ingratidão, de ressentimento, de pinimba, de dívida, de dúvida, de implicância, de discordância, de desacerto; e o mal que ele me fez, e o mal que eu fiz que estava aqui?

Morreu.

sábado, 13 de agosto de 2011

De pensar caiu um muro

Um 13 de agosto já amanhece paradoxal. Primeiro: é Dia do Pensamento, a coisa mais livre, mais não-aprisionável deste mundão. Segundo: é Dia do Encarcerado. Como se um calendário metido a engraçadinho botasse Corinthians e Palmeiras para aniversariar na mesma data.

Hoje celebramos nossas asas e lembramos nossas prisões. Ou ao contrário: lamentamos nossas grades (reais, metafóricas) só para falar do antídoto. Se a cela é um crime cometido, qual a saída? pensar – no daqui-pra-frente. Se é uma fobia, qual a chave? pensar – na terapia que traz o daqui-pra-frente. Se é uma opressão de tirano, o que a destranca? pensar – nos livros, panfletos, manifestos que se escrevem até sem papel e tinta. Se é uma insegurança, o que a demole? pensar – nos exemplos vistos, nos sucessos vividos, nos acertos felizes. Pensar em forma de pesquisa, de pergunta, de entrevista, de mudança, de conselho, de filosofia, de leitura, de estudo, de escuta, de escrita, de reportagem, de garimpo, de reflexo, de reflexão, de meditação, de reza, de busca. Pensar não somente: pensar além. Pensar com excesso. Pensar o bastante para reconhecer a hora do pensar-pensado e do pensar-sentido. Pensar com fartura, para se dar de comer e sobrar. Pensar o suficiente para descobrir que pensar, sempre em falta, não sobra.

Pensar desnuda absurdos, expõe manipulações, escancara incoerências. Pensar tira cismas, pensar enfrenta manias, pensar desmente julgamentos. Pensar melhora conclusões. Pensar previne ilusões. Pensar revela intenções. Pensar evita precipitações. Pensar nos desacorrenta do hábito, nos tira da caverna, nos passeia pela cidade, nos corre pelo país, nos viaja pelo mundo. Pensar nos serve novos pratos (os certos). Pensar nos apresenta novos amigos (e velhos). Pensar foge à primeira tragada. Pensar cala a última palavra. Pensar arranca rótulos, inicia diálogos, escreve prólogos, recebe hóspedes. Pensar descerra. Pensar encera. Pensar nos desengaveta, repara, hidrata, espana, banha, lustra e nos deixa de boa herança para a gente mesmo.

Xadrez, hoje, só de tabuleiro. Grade, só de varanda. Cadeia, só de lojas. Corrente, só de oração. Barra, só de chocolate (umazinha pode). Feliz dia desalgemado, desencarcerado. Aproveite que você está se convidando para sair.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Forever young

Hoje é o Dia Internacional da Juventude. Devia ser feriado. Juventude é o maior estado de proclamação de independência da gente mesmo. É o tempo que começa quando se muda a plaquinha luminosa interna para o modo “livre”.

Nascemos jovens – todos. Com um ano de idade, tem gente que já é velha. Apanha, defende-se, amargura-se e morre matusalém aos cinco anos, com maior ficha corrida de desmandos e desgostos do que eu, você e seus avós somados. Mesmo se a coisa não degringolar nesse tanto, há os que, aos doze, têm rugas n’alma de fazer inveja a Benjamin Button. Beberam preconceitos de canudinho, depois direto no gargalo. Cresceram sabendo, com sorte, que a Terra é (quase) redonda – e olhe lá. Nunca entraram nos livros, portais de fazer o mundo mais largo e o coração mais moço. Nunca andaram em terras (Oz, Atlântida, Pasárgada, Sítio do Pica-Pau Amarelo) em que a gravidade é menor e a gente começa a pesar a metade, a metade da metade. Espírito atrofiado, voltaram-se para o que sobrou e estava à mão, o corpo. Era a ânsia de voar, um restinho de instinto jovem que dizia: há mais. Não achando o que havia mais, iniciaram-se sexualmente aos dez, tiveram o primeiro moleque aos onze, o quinto aos dezesseis. Lá vieram mais matusaléns (a matusalenidade se transmite).

E não me venham falar de planejamento familiar: falemos antes em planejamento de vida, em educação de alma, em prevenção da velhice interna. Voltemos no tempo, não falemos dos filhos que se penduram nas pernas daquele idoso de dezoito anos. Falemos nas âncoras que se penduraram no idoso uma década antes. Falemos dos voos sem visibilidade, dos arremedos de sonho gorados, dos projetos natimortos, das asas rasgadas, dos talentos assassinados com o travesseiro. Não falemos de todos que dele nasceram: falemos dos que nele morreram. Dos jovens que nele viviam, ensaiaram viver e não lograram existir – frutas derrubadas antes da hora, milhos que não arrebentaram. Piruás. Pessoas-piruá, como diria Martha. Ou pedaços de pessoa. Tentativas de juventude que se inauguram no nascimento e caem na arapuca antes da audácia do segundo passo. Antes que se metam a besta, que se achem gente, que virem pipoca.

Mas nem só de piruá forçado vive a velhice. Conheço uma rapaziada-assim – lida, sabida, instruída – que ainda não começou a ser jovem. Crê que o segredo está nas baladas, minissaias, rocks e passeatas. Não está. Isso é distração, crachá de jovem, perfumaria. Ser jovem é lento, pede às vezes uma eternidade. Principia, como falei, quando se começa a ser livre. Não das regras da mãe, não da vigilância do pai, não de fidelidade, não de compromisso, não de lei, não de moral, não de estudo, não de trabalho, não de fralda suja, não do cartão de ponto, não do serviço militar. Livre do que nos torna pesados por dentro. Livre do lixo que a gente, só a gente, se acumula; livre de radicais livres (emocionais). Livre de ressentimentos, fardo que envelhece 14 rugas por ano. Livre de invejas, castigo que nos custa 7,5 meses o grama. Livre de preconceitos que engessam as pernas, livre de timidezes que amarram a língua, livre de ciúmes que furam os olhos, livre de ganâncias que vergam os ombros. Livre da tralha do nosso autoquartinho de despejo.

Continuo a caminho. Mas planejo não demorar mais que 10 ou 15 anos para me aposentar de mim e finalmente ficar jovem. Depois é curtir os últimos 148 aninhos de mocidade que restam.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Conta, conta, minha gente

– Professora, pode ouvir música na sala?

É a senha. Não, ele não está (desaforado) pedindo permissão para ouvir música na sala: é seu jeitinho brasileiro, malandramente indireto, de informar que alguém está ouvindo música na sala. E, portanto, ele também quer seu quinhão. Não denuncia por amor ao certo, denuncia por desejar convite para a festinha do errado.

Já viram? lá pelos onze, doze anos, há um gozo supremo em delatar pequenas falcatruas, especialmente de colegas de classe. Está colando, está com o fone no ouvido, está jogando bolinha de papel, está jogando no celular, está mandando torpedo no meio da aula. Para não dar tanto as caras como caguete, o aluno terceiriza a denúncia em dúvidas vagas – pode colar? pode ficar com o fone no ouvido? –, das quais só consegue sair ganhando: ou o professor permite a todos a contravenção, ou acaba com o prazer do jovem meliante, o que parece ao delator igualmente delicioso. Não importa que os professores digamos não gostar de fofocas e caguetices. Na aula seguinte, pode crer: o rebelde enrustido continuará de falso secretário, exterminando por tabela os privilégios que cobiça.

Já adultos, finalmente convencidos a evitar a pecha de xisnoves, levamos a coisa a ferro e fogo. Antes delatávamos por inveja covarde; agora não delatamos por covardia indiferente. Menor distância nos separava de ouvir música durante a prova do que de obter propinas gordas. Estávamos mais próximos de participar do joguinho em sala do que das negociatas no ministério. Queríamos matar aulas, mas (por felicidade) não queremos matar transeuntes. Queríamos pegar o estojo novinho, mas não queremos roubar a loja. Quanto mais quilômetros entre denunciantes e denunciáveis, menos semelhança entre privilégios possíveis. Calamos, então. Nem sempre por medo. Calamos por preguiça de comprar brigas alheias, por desmotivação de desviar o próprio itinerário, por falta de tempo para o público em prol do particular. Calamos por dar de ombros. Calamos por falsa esperança de que outro não se cale. Calamos porque o filho está esperando na porta do colégio, porque o bolo está esperando no forno. Calamos porque, invertidamente, caiu-nos a ficha guardada para os tempos de escola: aquilo não nos diz respeito. Calamos porque não disputamos, porque não cobiçamos. O que os olhos não querem, a boca não conta.

Conforme já tuitava Millôr: este não é um país solidário. É um país conivente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Amendoeiras

O programa matinal da rádio BandNews falava das amendoeiras. Falava contra as amendoeiras. De como as bichinhas (junto com mangueiras, jaqueiras, flamboyans) fazem estragos nas calçadas cariocas. No caso, atapetando-as com uma folharada da desgrama. Exóticas para nosso clima, amendoeiras são geograficamente desorientadas, coitadinhas: insistem na ideia de que aqui tem inverno e que devem, portanto, despir-se da toalete verdinha para o receberem, laranja-vermelhíssimas. Amendoeiras são senhorinhas de antiga etiqueta, que às 18h trocam de vestido para o jantar.

Como espinafraram as amendoeiras! Um ouvinte entendido observou que elas jamais deveriam ter sido espalhadas em nossas ruas, por serem árvores caducifólias (de folhas que literalmente caducam, despencam de velhas) e não perenifólias (aquelas que atravessam o ano imutáveis, viçosinhas). Eu, porém, tenho-lhes simpatia. Até os oito anos, vivi com amendoeira no quintal: a ela é que devo os casulos de borboleta, os ovinhos de pardal e (óbvio) as recentes amêndoas sempre descobertas com delícia. Foi meu ecossistema de estimação. As folhas abusadas, bojudas – que tanto exasperavam meus pais –, se uniam às alongadas do jasmineiro e eu fingia serem peixes; de meu balanço de duas cadeiras (o “barco”), alegremente pescava as que caíam. Não posso, portanto, carregar ressentimento prático e adulto. Amendoeiras entraram em mim antes do cansaço.

Não é o único motivo da simpatia. Admito preferir árvores que cerejeiramente se cobrem de flores, como ipês, quaresmas, jambeiros – e que tenham o pudor de não ficar nuas em nenhuma época, para nos lembrar de nosso verão permanente. Admito preferi-las, sim, sem o tronco saqueado pela desolação. Mas entendo as amendoeiras. Entendo sua nudez urgente, o ímpeto de se deletar, de se formatar, de se fazer rascunho, começandinho de início, tábula rasa. Entendo a sanha de se dar reboot, quando não se combina mais com a estação interna. Entendo e compartilho. Se viemos a nos estrangeirizar na própria vida a ponto de não ligar o espelho à pessoa, resetar é preciso.

Talvez explique o costume de se entregarem saquinhos de amêndoas como lembrança de casamento – depois do parto, a maior (re)inauguração da gente mesmo. A que mais nos demanda ventar fora, higienizantes, recolorantes, recepcionantes, nossa multidão de folhas secas.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sorria, meu bem

Pergunte a um transeunte o que faz seu dia bem aproveitado. Dirá: um trabalho concluído, uma dívida saldada, um problema resolvido, um relatório finalizado, um prazo respeitado, uma correspondência enviada, um projeto desenvolvido, um emprego conquistado. Compras de mês no carrinho, pagamento na carteira, mantimentos na despensa, filhos na creche, filhos no banho, filhos no berço. Recitada a planilha de tarefas, o transeunte acabará a frase com cara de ufa. Dia produtivo, indiscutivelmente.

Pois eu discordo. O Orkut também. Há coisa de 72 horas, a mensaginha estampada em sua página inicial declarava: “Um dia sem sorrisos é um dia perdido”. Duvido que alguém resumisse melhor.

Pode até ser, óbvio, que as 24 horas workaholiquíssimas do transeunte tenham sido férteis nesse campo. Pode ser que haja feito uma palestra deliciosa, da qual os ouvintes saíram flutuantes. Pode ser que tenha sacado aquela tirada irresistível durante a apresentação da nova campanha. Pôs as crianças para dormir, talvez, contando histórias de sonhar colorido. Entre a reunião e a lavanderia, mandou “eu te amo” por SMS. Entre uma estação e outra do metrô, fez questão de explicar o itinerário ao turista. Na fila do caixa, deu uma dica de filme. Na fila do estacionamento, tuitou uma placa de caminhão. Após o almoço, caprichou na gorjeta. Após o jantar, caprichou nas preliminares. Contou piada. Soltou elogio. Comprou flor. Lembrou aniversário. Esqueceu briga. Aumentou comissão. Cantou. Abraçou. Perdoou. Sorriu e fez sorrir: pedra fundamental de quaisquer 24 horas que prestem.

Se, do contrário, ganhou sozinho na Mega, virou sócio majoritário do Eike e reservou passagem para o Vale do Loire, mas fez esse tudão com cara e alma de quem chupa jiló embolorado, coitadinho do pobre. Cada instante não valeu dez centavos furados – porque custam o valor que a gente lhes dá em peso de riso. Rir é trazer-nos à tona quando afundamos no cotidiano, colocar molho na salada, trilha sonora no filme. Rir é temperar-nos, dar-nos gosto, emprestar-nos luz. Rir é fazer-nos higiene, lavar as camadas que nos escondem de nós.

Se boca e coração – de desacostumados – esqueceram o caminho, como um buraquinho de brinco que fechou, o jeito é cavá-lo outra vez com doses terapêuticas: nem que seja um comercial de pôneis (ou Byafras) de duas em duas horas. Conta-gotasmente. Desabituar-se não é desculpa, é mais urgência. Não pode é continuar engolindo os dias a seco, sem passar uma manteiguinha por cima.

Periga começarmos a acreditar que aquilo é a gente mesmo no espelho.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Abre los ojos

Tive ontem um sonho agoniante, espécie de Jogos mortais light. Eu, Fábio e mais umas boas dezenas de pessoas fomos capturados por um vilão (parecidíssimo com Megamente) e trancafiados em amplo esconderijo, onde ele nos obrigava a engolir uma série de comprimidos duvidosos. Tentávamos passar despercebidos, lembro-me de ter jogado duas ou três cápsulas fora, pois aqueles que as tomavam não eram mais vistos. Até que me convocaram a mandar para dentro os tais remédios na frente dos que estavam “no controle”. Prometi ao Fábio que voltaria para contar o que iria acontecer. Não pude. Quando tomei os comprimidos e abri os olhos (no sonho), o galpão estava completamente vazio, como se eu – alicemente – tivesse retornado à minha dimensão original. Não houve voz que falasse, mas adivinhei com força a moral da história: alívio grandão de estar viva. Eu abriria os olhos (no quarto) pouco depois, ainda com a sensação fresquinha de segunda chance. Acordar segura teve gosto de pão quente.

Cair em armadilhas de Jigsaws é, felizmente, fantasia remota. Está certo que acontecem horrores: sequestros, invasões de atiradores tresloucados, cárceres privados que escandalizam o mundo. São, porém, exageros proporcionalmente raros. O que vemos em cada dobrar de rua são pequenos renascimentos. Lembro-me sempre de um filme italiano, O quarto do filho. Em determinada cena, todos os personagens da família principal correm perigos cotidianos: na moto, no trânsito, na calçada, no trabalho, qualquer um deles pode ser vencido pelo acaso, sem ligar a mínima. O único derrotado é o filho do título, Andrea, que morre num acidente de mar. Embora não recorde os detalhes da cena, guardei nítida a impressão de “fio de navalha”. Eis que somos todos ali, na corda bamba: atravessamos a rua olhando para a direção oposta e uma buzina nos economiza o restante de vida; perdemos o ônibus assaltado no quarteirão seguinte; passamos ao lado do bueiro quinze minutos antes (ou depois) da explosão; a árvore em frente tomba meia hora após sua chegada; o bloco da faculdade despenca na antevéspera das aulas. Nossa “segurança” é mera vaidade de vermes sortudos.

Esperar que um psicopata me ate numa geringonça cujo funcionamento será explicado pelo boneco de bicicletinha? Aguardar que outro pesadelo me desperte a gratidão do alívio? Não, obrigada. Valorizo os dias, celebro aniversários, toda vez que o metrô chega sem problemas, o avião pousa sem turbulências, o carro estaciona sem batidas, a visita ao banco acaba sem surpresas, a descida de escada termina sem escorregões, a volta do trabalho é consumada por uma chave na porta, sã e salva. Como diria Jack Dowson a bordo do Titanic, “each day counts”. Cada chegada é vitória. Cada minuto é bônus. Cada semana é lucro. Os que não creem senão em sua própria infinitude de Hércules, em seu próprio modelito de onipotência, abram los ojos. Ali, agora, hoje.

Vai que.

domingo, 7 de agosto de 2011

Navegar é preciso

Não estaríamos aqui – eu e você postando, você e eu comentando – se não fosse um nosso camarada: Sir Timothy John Berners-Lee. Há exatíssimos 20 anos, o sujeito colocou no ar o website número 1, inaugurando o quê, o quê, o quê? esta ime(eeeeeeee)nsa rede em que vos falo. Esta World Wide Web a quem damos os primeiros bons-dias e engolimos com rosquinhas no café. Esta internet que levamos para passear, que levamos ao médico, que levamos no bolso. Com quem acordamos contentes e dormimos abraçados. Estas veias e artérias em que circulam dados, pedidos, beijados, confessados, fotografados, suspirados; em que correm afetos e saberes, sangue do mundo.

Cresci sem internet, perfeitamente feliz. Mais perfeitamente feliz prossegui, depois que eu e ela nos entrelaçamos. Louvo as delícias do tempo em que não a tive e as vantagens estrondosas de a ter. Igual gratidão. Folheei com gosto a Mirador Internacional e folheio encantada a Wikipédia. Encomendei CDs de amigos viajantes e encomendo tudão de lojas virtuais. Minha adolescência se esbaldou entre correspondentes de papel e chats do UOL. Mas o e-mail – ah, o e-mail! – me faz beijar os pés de Sir Tim numa alegria sem precedentes. Nunca, nunquíssima, nunquinha consegui ouvir toque de telefone sem estremecer de desgosto. Tim me salvou do trim; e-mails reuniram a paixão das cartas à urgência dos (humpfff!) telefones, e meu universo comunicativo entrou na era de Aquarius. Depois vieram os blogs: nirvana.

Sim, sim, os azedos me lembrarão que não estamos apenas num palco das Grandes Navegações. Web tem monstro marinho que só: pedófilo montando clubinho, hacker invadindo conta, mail engabelando usuário, reputação destruída no YouTube, bullying feito no Orkut, intimidade violentada no MSN. Tem? Tem. Como tem pedófilo, ladrão, estelionatário, fofoqueiro, bully, chantagista, ressentido aqui fora. Como tem ONG, site de educação, grupo de filosofia, venda de ingresso, reencontro de parente, formação de casal, reunião de turma lá dentro. Como a TV faz campanha e mostra desgraça, como a laranja vai contra a gripe e a favor da gastrite, como o futebol cria músculos e destrói joelhos, como a arte marcial dá equilíbrio e mata, como o chocolate dá barato e engorda, como o (humpfffffff!) telefone salva e vicia. Internet é gente, mundo é gente. Ficam com o uso que a gente dá, jogam no lado em que a gente põe, têm a cara que a gente tem.

Minha internet é a minha cara. Um bairro de mim, cheinho de Google, Wiki, add friend, responder, encaminhar, curtir, aceitar depoimento, compartilhar notícia, escrever comentário, publicar postagem. Moro dentro dela tão bem quanto fora, cá ou lá eu igualmente “me sou”. Porém só tenho a agradecer ao Sr. Berners-Lee pela “second life” em que tudo vale a pena se a vida não é pequena.

Nós, à rede, o perigo e o abismo demos. Mas nela é que (também) espelhamos o céu.

sábado, 6 de agosto de 2011

Da injustiça dos justos

Professores grevistas foram à minha escola estadual conscientizar os alunos sobre a justeza da paralisação. Educadissimamente, pediram para entrar nas salas e explicaram, com paixão e motivos, os problemas de docentes e demais funcionários da rede. Deram show de sociologia e os alunos aderiram, comovidos. Muito bem. Lá pelas tantas, percebeu-se que uma representante da coordenadoria estava presente. Não entrara incógnita: tinha-se identificado para alguns dos grevistas. Também não fez qualquer pressão sobre o grupo, não desmentiu o discurso nem foi deselegante. Pouco interessava. Assim que todos os professores ficaram cientes de sua presença, formou-se o partido do “expulsa”. Já inflamados pelo conteúdo das reivindicações, tentaram tirá-la da sala aos berros de “Você é Sérgio Cabral!”, “Vocês já têm a Rede Globo para dar seu recado!”. Clima barulhento e feio. O que era ferro se quebrou. Toda a razão do discurso inicial derreteu no ralo tão logo se começou a dar tapas de gritos em quem não erguera a voz.

Assim somos: tão justos, tão apaixonadamente justos que moramos na esquina da injustiça. Tão cegamente balofos da verdade que um qualquer olhar torto nos estoura. Tão embriagados de consciência que vendemos por ela o resto d’alma. Tão enamorados de certezas, tão repletos de direitos, tão sábios, tão lúcidos, tão críticos, tão iluminados que somos um perigo. Por amor destemperado às convicções, por urgência fanática de defendê-las, por fissura nas causas incontestáveis, por vontade alucinada, por bondade excessivíssima, somos maus fronteiriços. A muita coragem nos acovarda, a perfeita audição nos ensurdece, o tanto de hematomas nos ergue o braço. As excelentes intenções formam guerrilhas e Darth Vaders. As necessidades de combate tecem bombas atômicas (hoje a de Hiroshima aniversaria). Prisioneiros de mouros, feridos por infiéis, escaldados, sofridos, aprendemos a andar de lança em punho. Tudo ou nada. Live or let die. Encouraçamo-nos, maniqueistizamo-nos. De injustiçados a injusticeiros é um pulo.

Nada como o campo de batalha para nos fazer iguais aos inimigos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Deficientes

Leio na reportagem que animais auxiliam no tratamento e educação de deficientes mentais. Soa estranho. Não o fato de se usarem animais em tratamentos – são remédios vivos, como a própria reportagem os qualifica –, mas o termo que se segue à informação. Deficientes mentais. Por definição, pessoas fisicamente impedidas de apresentar o mesmo grau de interação, julgamento, aprendizagem do dito “cérebro normal”. Loucos, autistas, gente com paralisia cerebral ou desoxigenada no parto. Uma exceção entre nós, em suma. Uma raridade.

Mentira.

Os que apelidamos “deficientes” são simplesmente incapacitados pelo acaso. Incapacitados para funções determinadas, aliás. Um paralítico cerebral que nunca tocará flauta transversa; so what? eu também não. Um portador (palavra horrível!) da síndrome de Down que não chegará a astrofísico – duvido que alguém lá em casa chegasse. Um autista sem meu traquejo social (que já não é grande coisa): pois conheço mais de um com o triplo da memória que jamais terei. A sermos honestos, somos todos deficientes. Uns que jamais cantarão afinado, umas impossibilitadas de se equilibrar no salto, uns estúpidos em coordenação de cores, uns estafermos em matemática. Todos. A tal ponto todos que é mais fácil considerar: ninguém. Carregamos apenas diferentes eficiências.

Deficiente mental, no duro no duro, dessa maneira se escolhe – só há culpa onde há escolha. Os que têm perfeita noção do direito e decidem-se tortos. Os que receberam moral e resolvem-se bandidos. Os que ganharam educação e preferem-se vagabundos. Os que conhecem a lei e matam. Os que conhecem a prisão e voltam. Os que não conhecem fome e roubam. Os que testaram a gravidade e se atiram. Os que se apresentaram à morte e a paqueram. Os que se têm na mão e jogam-se fora.

Deficiente não o é por nascer ou tornar-se vidro. Deficiente é o que era ferro e se quebrou.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Complexo de Liquid Paper

Além dos pôneis malditos que ficam saltitando na cabeça da gente o dia inteiro (e cantarolando, os miseráveis), uma das melhores sacações atuais em publicidade é a campanha “Vai que...”, da Bradesco Seguros. Mais exatamente o filme em que o ladrão leva o carro, mas tem de aturar um Byafra no banco de trás, mandando ver nos agudos de “Sonho de Ícaro”: “Voar, voar/ subir, subir...” – larararará – “Anjos de gáááááááás...”. Ensandecido de tédio, o bandido larga o automóvel no meio da rua. Entra voz vendendo a necessidade urgente do seguro: “Vai que o seu carro não vem com um Byafra cantando...”. Ri horrores.

Revendo o comercial no YouTube, fiquei surpresa com os comentários ranzinzas. Imaginava que a peça fizera sucesso estrondoso, alto índice de gargalhadas, mas tome ranhetice: “tremenda falta de sensibilidade”, “que mau gosto”, “um desrespeito com a preferência musical da classe C” e semelhantes blablás. Eu seria a primeira a concordar com os detratores, se a agência tivesse recebido um não do artista e decidisse empregar um sósia, digamos. Ou se tascasse a música tocando sozinha, como um alarme – capaz de enlouquecer ladrões por si mesma. Ou se expusesse o cantor a uma situação forçadamente humilhante. Nenhuma das anteriores. Byafra – maior de idade, declarante de imposto, carteira de vacinação em dia – não foi logrado, chantageado ou explorado. Participou por livre vontade num filme leve, usou de arbítrio para assinar contrato, ganhou gordinhamente pelo trabalho e se divertiu. Visivelmente, riu horrores. Hábito higiênico, saudável, que tantas vezes nos falta: riu de si próprio.

Ah, mas não pode. Politicorretistas ortodoxos não dormem e não permitem. Fios desencapados, granadas sem pino, politicorretistas vigiam. Orelhas erguidas, focinhos ao alto, politicorretistas farejam. Politicorretistas são a sala asséptica invadida por Tom Cruise em Missão: impossível. Ai que um fiozinho-assim de bom humor sequer pense em roçar a fronteira com a sacanice! Salivam: dispara o alarme. Politicorretistas (só para insistir na metáfora tom-cruisiana) têm alma de Minority report, gana de punir o crime antes que ocorra. No turno deles, não. Ninguém se autogoze, ninguém defenda seus trocados senão excessivamente a sério (MUITO sério), ninguém ouse considerar a possibilidade de talvez sugerir, remotamente, qualquer crítica indireta de terceiríssimo grau a algo parecido com a cultura popular. Não neste horário, à luz do dia, em canal e cena aberta. Até agora ignoro como Byafra não foi preso (embora acredite em homens da SWAT pendurados nas janelas, só aguardando o sinal).

É fato: desprezamos bullying, homofobia, grosseria, preconceito, humilhação, humor porco, “brincadeiras” à revelia – impostas e unilaterais. Mas somos espertos o bastante para catar o joio, virar a cara pro bad guy e não ter medo de água fria. Não precisar arrastar autocríticas de chumbo. Que assim nenhuma ideia que se preze consegue voar, voar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Vida e obra

Outra de minhas colegas de trabalho voltou (invejinha!) de um tour pela Europa: França, Bélgica e aonde mais os carros alugados podiam levar. Foi ao Louvre?, eu quis saber. Inevitável: ela tinha ido ao Louvre. Mas só vira a Mona Lisa de longe, muito longe, completou. “Um pedacinho de quadro assim” – mostrou a altura de três ou quatro palmos – “atráááás do vidro, e uma multidão na frente, se acotovelando. Desisti. Acenei do meu lugar, tchau, Mona Lisa!, e fui ver outras obras menos badaladas, igualmente importantes.”

Nada mais ilustrativo de uma entrevista que me impressionou há semanas e fatalmente recordei. Ilustrativo por comparação. No blog Duo Postal, o artista plástico e designer gráfico Denílson Baniwa, nascido e educado na aldeia de Baturité, comentava a respeito de suas primeiras referências: “Na vida indígena a arte é cotidiana. Música, danças, esculturas, pinturas representativas, confecção de utensílios e trabalhos manuais são coisas do dia a dia. Quando tive a oportunidade de conhecer o sentido de arte, a aura de uma tela ou escultura, percebi que muito daquilo que se fala nas escolas eu já tinha aprendido na vivência indígena”.

O coração esfarelou-se. Vergonha. Vergonha por nós, crescidos em outra e tão menos civilizada aldeia. Vergonha por nós que ensinamos: arte purinha é coisa de maternal, de infância ainda inábil para geografias e cálculos, que por isso gasta o tempão excedente entre pinturas a dedo, gizes de cera, lápis de cor, colas, tesouras, lantejoulas, purpurinas, massinhas. Estaria muito bem essa formação artística, se não sumisse de nós assim que os professores consideram nosso dedo suficientemente gordinho e decretam: hora de ir ao que interessa. Saem mosaicos, entram matemáticas, entram sintaxes, saem dobraduras. Arte vira desocupação, carga extra, supérfluo, eletiva, sobremesa. Um bibelô na vida. Um penduricalho do cotidiano. Uma tia que se visita (olhe lá) na véspera do Natal. Não se encaixa em nós, não nos encaixamos nela. Espanamos obras para os becos; outras, escolhemos para os altares. Varremos para feirinhas de artesanato ou promovemos ao Louvre. Desde que não fiquem no caminho. Desprezamos, ajoelhamos; não tropeçamos. Não abraçamos.

Quando corais forem feijão-com-arroz de colégio e não projeto “Amigos da Escola”, quando pré-vestibulandos (ou enenzandos) seguirem pro curso com livro de Química num ombro e violão no outro, quando a gente sair da praia e esticar o papo no MAM, quando filhos e colegas tratarem Da Vinci de “Léo” e Beethoven de “Lud”, eu desenterro minha cabeça, destranco a matrícula e volto à humanidade. Desculpe a vergonha que eu passei.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Céu da boca

Qualquer bocado de comida um tantinho mais quente, pronto: ele se pela, magoado. Meu caso agora. Por um almoço engolido sem tempo de assoprar, estou com o céu da boca queimado, suscetível que sou às temperaturas extremas. Chatice. Mas foi só ferir o dito-cujo que comecei a pensar na graça da expressão: céu da boca. Por que não teto, telhado, alto, pico, polo Norte? Por que não metáfora alimentícia – em nenhuma região do corpo seria mais apropriada – como batata da perna, maçã do rosto? Por intuirmos talvez, poeticamente, céu e inferno que daí podem advir?

Crentes na raça humana, limitamos a comparação à primeira parte. Boca é lugar de fazer o paraíso alheio. Não falo de beijo e outras carícias diretas, que se reservam a uma parcela pequeníssima da humanidade. Falo de ser delivery de coisa boa para 100% das gentes. Ser veículo de felicidade portátil, spray de palavra aromatizada.

Boca é correio de voz, nosso cartão de visita, ícone que nos precede. Não carece gasto nem selo, cotas de céu podem vir de telegrama: um parabéns nos últimos dez segundos da véspera, um bom-dia anexo ao sorriso auspicioso, um obrigado que se pendura nos olhos, colado num se-não-fosse-você de reticências felizes. Um te-perdoo que nem se encomenda, um me-perdoa que toca a campainha antes do prazo, um te-amo que chega exatamente no dia. Um elogio dado sem pedido. Um disponha dado sem pedágio. Uma promessa dada em pedaços (capítulos diários de confirmação). Um te-ligo não mentido, um que-linda não aumentado. Uma bronca não imerecida (que nem só de bem-bom os céus se constroem). Em falta de substantivos, adjetivos e verbos disponíveis, interjeições cumprem. Tem melhor cobertor que “alô!” de mãe saindo do fone, melhor afrodisíaco que “uau!” de namorado?

Querendo, a gente monta castelos e põe sol nos dias. Não pode é botar palavra em ouvido alheio sem tempo de assoprar.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O relógio continua

Não, não é afirmação cazuzesca ao estilo “o tempo não para”. É coisa bem mais prosaica. Refiro-me à observação feita pela diretora da escola ao entrar na sala de determinada turma e constatar que o relógio de parede amarelo permanecia em seu lugar, impávido. A professora da classe – um grupo especial, composto pelos repetentes semianalfabetos, que tocam o terror de indisciplina – insistira em colocar o relógio na sala. Para eles terem melhor noção do fim de cada atividade, disse ela. A diretora alertou: vai sumir. Em um, dois dias esse relógio some. Tudo some. Não dou 24 horas para um aluno enfiá-lo na mochila e babau. Vou ouvir reclamações suas. A professora confiou: vamos ver.

O relógio continua!, encantou-se a diretora, semanas depois. A humanidade estava salva.

Eu, espectadora da cena, fiquei entre a festa de salvamento da humanidade e a verificação de seu status medíocre. A humanidade não estava salva porque um menino de escola pública vencera as Olimpíadas de Matemática, confessara espontaneamente um malfeito, voltara à escola para agradecer aos professores sua aprovação em Medicina, defendera o colega de um ataque de bullying. A humanidade estava salva porque deixara de surrupiar um relógio de parede. Não estava salva por superar-se, ir além de si: estava salva por permanecer justamente no mesmo lugar. Não estava salva por se atirar no certo, estava salva por deixar passar um errado. Não estava salva por corrigir seus crimes, estava salva por não aumentá-los. Por não atinar com mais um. Estava salva por negativo. Estava salva por negação. Não marcara a resposta certa, mas ganhara ponto por entregar a questão em branco. Como a definição de açúcar daquela velha piada: “é um pozinho que deixa o café bem amargoso quando não se lho botam”.

Tão mal estamos, ou nos parecemos, que qualquer olho faz rei. Viramos Holandas: nível do mar já é montanha. Congratulamo-nos por não cumprir mais que a obrigação. Comemoramos que um aluno do oitavo ano comece frase com maiúscula, fechamos o clube para celebrar que um do sexto não escreva “você” com dois esses. Entendeu a mensagem da redação? então, que coisa!, pouco importa não haja vírgula ou parágrafo. Devolver a carteira intacta dá notícia de jornal, ceder lugar ao idoso candidata ao Nobel da Paz. Canonizamos o político que declarou fielmente o imposto, endeusamos o prefeito que policiou nossa rua, ajoelhamo-nos ao governador que policiou nosso bairro. Precisa nada: votamos no Fulanílson que “rouba mas faz”. Vamos secos na migalha, glorificamos pelo pouco, pelo básico, pelo óbvio. Vendemos heroísmo por salário mínimo.

Não digo que sejamos – ou que só nos aceitemos – excepcionais. Digo que nos queiramos excepcionais. Que prefiramos ser (como já disse há algumas postagens) tartarugas que dão seu mais no lugar de lebres que ofertam seu menos. Que não nos nivelemos pelo mar, holandamente falando. Que não nos satisfaçamos de ser roupa de andar por aí. Que não nos pechinchemos, não nos compremos barato. Não nos quitemos pela tarifa mínima do cartão. Juros de mediocridade, os mais altos e breves, são cobrados ali na esquina. E o relógio continua.

Cazuzescamente falando.