segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Gostosura ou travessura

Montão de gente encana com a mania recém-incorporada do brasileiro de celebrar o Halloween. Montão de detratores alega que é data importada, tradição ianque, estrangeirismo inaceitável, apêndice vergonhoso de folclore, baba-ovice ridícula. Alega mesmo ser de um macabro incompatível com a realidade tupiniquim. Bobajada. Primeiro que é compatibilíssimo com a realidade tupiniquim descolar festinha extra entre Dia das Crianças e Natal – especialmente se há fantasias envolvidas. Quanto de estrago psicológico pode fazer um chapeuzito de bruxa com estrela azul? Segundo, é no mínimo historicamente nonsense exigir culturas típicas puras de contágio. Contagiar é a ideia. A good one. Misturar, emprestar, liquidificar. Ou o leitor amigo topa adotar o guarani como língua materna? Melhor: bora todo mundo papear em sânscrito. Pureza cultural rola não, gente. Evolução é a prova dos nove. Get over it.

Quanto mais não seja – para sono tranquilo dos arraigados –, o Halloween já não desembarcou americano; desceu do avião devidamente antropofagado, pra encher de orgulho nosso Oswald. Chegou em edição revista e resumida, mais farra e menos morbidez, alegrando a vida de comerciantes e cursinhos de línguas. E já que citamos morbidez, como era mesmo aquela lenda tipicamente nacional de mulher de padre que vira cavalo decapitado e sai a galope com o pescoço em chamas? Como era mesmo o lance da criatura de pés virados que pega um, pega geral na floresta (também vai pegar você)? Como eram mesmo os versos de ninar em que um boi-boi-boi-da-cara-preta ataca bebês só por terem medo de careta? Como era mesmo a história do negrinho-da-perna-só que fuma (FU-MA!) cachimbo, mesmo com aura de criança, e sai espalhando pequenas grandes maldades no entorno? Refresquem-me as ideias: não foi a esse serzito exemplar que tentaram dedicar um dia de nosso calendário patriótico? Ahã.

Convenhamos. Não são culpa do Halloween as nossas bruxas. Nem de leve. Sequer precisamos importar a atividade mais relevante do feriado americano – sair para ganhar doces ou fazer travessuras, coisa que não pegou por aqui –, por já ser e sempre ter sido uma atitude brasileiríssima. Metaforicamente falando. Quem, mais do que nós, é movido à base de toma-lá-dá-cá, ou-dá-ou-desce, me arranja isso que eu te consigo (ou não te estrago) aquilo? Que nação, mais do que a nossa, tem tamanho impulso infantil de detonar o que não serve de pronto, de depredar o que não interessa de imediato, de recusar-se a assumir 1mg de dever que não venha precedido por 25kg de direito? Quem, mais do que este nosso tanque de golfinhos gigante, só faz truque se recebe peixe? só copia a matéria se vale ponto na prova? só investiga a maracutaia se o Fantástico denuncia? só cumpre a obrigação se rola propina? só faz a inauguração se recebe voto? só vota a favor se negocia aliado? só reabre o processo se o Fantástico redenuncia? Já somos de fato, por talento, pela própria natureza, a pátria da gostosura ou travessura, a capital internacional da chantagem a céu aberto, em todos os mais criativos níveis. Não exatamente evoluímos em termos econômicos e políticos: somos empurrados pela inevitabilidade da opinião pública, pelas contrações universais. Mas achamos sempre um cantinho de feira para continuar nosso troca-troca, nosso oba-oba. Um cantinho. Que o resto do mundo não tem medo de careta.

Deixemos em paz as criancinhas, contentemente vestidas de Branca de Neve ou Harry Potter, vampiro ou Tinkerbelle. Tenhamos mais o que fazer como adultos. Discutir estratégias que nos transformem em país sem horas do espanto, por exemplo – antes que viremos abóbora.

domingo, 30 de outubro de 2011

Ouvir estrelas

Sabe quem é Sandy Wood? No Brasil, ninguém. Nos Estados Unidos – descobri pelo site do New York Times –, é a voz que, em 2011, completa 20 anos conduzindo maciamente o programinha de rádio StarDate. Dois minutos para mais de dois milhões de ouvintes. Dois minutos simpáticos, diários, que convidam americanos ocupadíssimos a “ir até o quintal e mirar as estrelas”, como diz a reportagem. Seja com o comunicado da descoberta de um quasar, seja com a informação do melhor camarote para admirar a passagem de um cometa, o StarDate seduz pelo princípio que justifica o nome: uma espécie de “namoro”, de encontro marcado – romântico – com as bonitices do céu. Uma intimação a que retomemos (brevemente, mesmo) nossa essência original de contemplação.

Ora, direis; certo perdeste o senso. Quem tem tempo para se dar ao desfrute, ao demorado desfrute de contemplar hoje em dia? de diminuir o gráfico de ações, a escala de feitos, o índice de resoluções para aumentar a porcentagem de dia “perdido”, olhando para o nada? E eu vos direi, no entanto, que a falta de contemplar nos adoece. Não sejam estrelas propriamente ditas; sejam poemas, ondas, rosquinhas de araruta, museus, refeições coloridas, um rosto mais especificamente amado. Seja o que seja, contemplar é preciso. Contemplar é mastigar a vida com os olhos, paquerá-la, sorvê-la, apaixonar-se por ela com voluntária mansidão. Escolhê-la conscientemente. Não a engolir goela abaixo apenas pelo detalhe de estarmos vivos. Contemplar é estar vivo de propósito.

Triste que a impaciência universal atualmente não contemple: fotografe. Somos práticos, somos ávidos, sedentos. Registramos e pronto. Está arquivado. Não conseguimos mais ir a um banheiro de shopping sem documentar o momento para a posteridade, posando no espelho. Nada, nadíssima a ver com o admirar sem pressão que o ato de contemplar exige. Olhar com a pulsão incontrolável de tirar foto, com a ânsia brutal de guardar materialmente, possessivamente, é feito namorar no sofá de casa, com trabuco na cabeça e olho de pai e mãe no cangote. Fotografar sem antes enamorar-se da cena arranca a espontaneidade do belo, deixa-lhe só um sentido de obrigação besta. Contemplar vem primeiro, e é coisa de se fazer com a câmera arriada. Coisa de se fazer desarmado de pressa, de posse, de urgência. Não há permanência na imagem que se copia, toscamente. A permanência mora na contemplação que dá à luz a fotografia. Mora na ternura que nasceu antes, embevecida de prazer, pálida de espanto – e apertou o botão da câmera na esperança de, somente, repetir a si mesma a certeza que já tinha.

Amai a vida para entendê-la, caros. Ou não entendê-la – tanto melhor. Amai-a (que é o amor senão contemplação por dentro?) para recebê-la, merecê-la, só então fotografá-la. Contemplação não é ficar como um paspalho, mudo, esperando ouvir ou flagrar estrelas que lhe recitem de longe, de fora. Não é ser paparazzo do mundo. Contemplação, telescópio virado ao contrário, começa no contemplador; e é, simplesmente, pretexto para abraçarmos nossa própria consciência, nossa própria medida de deslumbre, num climinha de enfim-sós.

sábado, 29 de outubro de 2011

Pegar carona nessa cauda de cometa

O mundo anda cinzinha que dói: ele escancara uma porta colorida como o armário de Nárnia. Chovendão em pleno sábado: ele e você acampam gostosamente debaixo das cobertas. Travessia na barca Rio-Niterói: ele é o passatempo almofadado que ensolara a viagem. Ônibus: também. Metrô: também. Avião: também. Férias na montanha: duvido resistir a pegar uma lareira com ele. Enem no sábado, concurso no domingo: quem mais senão ele para servir de chocolate mental? Insônia: nem com canela um leite quente o supera. Feriado nacional: ele é a luz no fim do programa. Apagão: o programa no fim da luz. Lanterninha salva.

Ele é o sinal de civilização que nos pega no colo, o calhamaço estético que nos educa, a psicologia universal que nos cria. É a cultura que primeiro nos embala. É a arte que de cedo nos cativa. É o mais velho amigo de nossas escolaridades, símbolo das conquistas inaugurais. É a fonte que chove dados, gritos, rimas, ritmos, lamentos, espelhos, memórias, sons. Lutas, pontapés, prazeres, exemplos. Principalmente exemplos. É a janela com vista pro mundo, escotilha da História. E submarino na História. É barco que nos mergulha no alheio e foguete que nos alça ao particular. É bruxo, vampiro, lobisomem que nos dá alternativas ao ser, que nos toma facetas pela mão. É pau, pedra, fim e início de caminho. É empréstimo de sonho, é filial de vida. Reinauguração de vida. Divã.

É hoje, no Brasil, o dia dele. Dia Nacional do Livro. Dia do amante insubstituível de nossas agonias e imaginações, alma gêmea dos coraçõezinhos incompletos (e há completos?). Dia do objeto introcável por qualquer que seja a tecnologia insípida e inodora. Dia do amigo que nos acarinha e acarinhamos folheando, amassando, cheirando, marcando, sublinhando, espremendo nas almofadas, esmagando no travesseiro. Dia do nosso favorito brinquedo de pensar, nosso mais sofisticado jogo de viver. Nossa mais polpuda realidade virtual. Dia de banhos de mar em Pasárgada, machadices com torradas na Colombo, bolinhos de Nastácia no Sítio, turismo no centro da Terra, compritas em Hogsmeade. Dia de nova infância e pré-morte, desse tudo-ao-mesmo-tempo-agora que bebemos no supermercado dos outros. Dia de esconde-esconde em nebulosa, sem voltar pra casa. Dia de fazer casa em nosso lindo, maior, balão azul.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Causas impossíveis

Aproveitemos o dia de São Judas Tadeu para colocar na pauta sonhos e desejos engolidos, nossas pretensões improváveis. Aquilo que damos tanto por bom quanto por perdido, aquelas esperanças que já não encaramos por pudor de nossa inocência, as decisões que alegremente tomaríamos não fosse o fantasma da implausibilidade. Aproveitemos. Não é todo dia que damos trégua à nossa vergonha de querer.

De querer ser útil profissionalmente, por exemplo – dando aulas em escolas do município. De querer ter a ousadia de convencer cada aluno abandonado por si mesmo a resgatar-se do autoesquecimento. De pretender tornar noções como responsabilidade e consequência magicamente compreensíveis. Simplesmente normais. Pelo menos normais. De pensar em fazê-los amar pensamentos, encaixar e desencaixar pensamentos por brinquedo e não por chicote. De esperar lhes dar fome e sede – das boas – como algum legado. De cogitar não deixar-lhes apenas números defuntos no boletim, mas uma herança social que preste.

De sonhar, também, ver um contexto social que preste: papéis e latinhas guardados na bolsa até a próxima lixeira (de coleta seletiva); broncas e indignações postas para fora sem esperar a próxima eleição (do que for); maiorias convencidas de não ser imperatrizes da verdade; minorias convencidas de não ser eternas vítimas; cadeias com cartão de ponto e contracheque para hóspedes; constituições com mais sins, mais nãos e menos talvezes; governos que tornem ONGs obsoletas; hospitais que tornem planos de saúde obsoletos; futuros que tornem nosso presente um coitadinho. Futuros de se falar em aquecimento global e mula sem cabeça no mesmo folclore.

Aproveitemos o dia para nos desapegar desse triste pouco que nos habituamos a ser. Para nos liberar de nossos preconceitos contra a felicidade longínqua. Para tacar na lixeira (de coleta seletiva) nossas manias de não conseguir, nossas decisões de não buscar, nossa serena aceitação da incapacidade. Livremo-nos da aridez do perfeitamente possível.

Nos impossíveis é que mora a única razoável sobrevivência.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Proteger e admirar

Revistas femininas gostam muitão de falar de quê? Homem, claro. Matéria batata de entrar na edição é aquela que “desvenda o pensamento” dos garotos, como se fosse um dicionário de tcheco. Numa dessas Novas da vida, vinha uma série de perguntas direcionadas às criaturas do sexo oposto que eram os dissecados da vez. Achei interessante e inusitado haver uma questão do tipo “Vocês preferem uma mulher para proteger ou para admirar?”. Um sujeito de 30 anos não se fez de rogado: “Na fase em que estou, prefiro uma mulher que eu possa admirar e com quem construir alguma coisa junto. Quando mais novo, o homem tem o instinto de proteger a parceira para se sentir mais macho. Com o tempo, percebe que pode ser protegido também”.

Incrível a maturidade da resposta. A percepção. Normalmente tenderíamos a pensar que gajos mais novos querem uma extensão da mamãe, querem acabar de ser criados, querem ser acolhidos debaixo das asas – e os mais velhos, já resolvidões, protegem. Mas o cidadão da reportagem disse tudo. Pelo menos trouxe um ponto de vista saindo do forno. Sinal de evolução, mesmo, é aprender a admirar. Aprender a precisar. Aprender a depender num sentido total e alegremente distinto do post anterior: aprender a recuar nas onipotências para aceitar os acréscimos alheios, para abraçar as capacidades doadas, os dons, os saberes que nos faltam. Crescemos – todos – quando nos permitimos tocar nos pontos com mais terminações nervosas; nossos membros-fantasma, nossos às vezes embaraçosos vazios.

Ser o eterno fornecedor de proteção é a maneira mais fácil de autoproteger-se. O zeloso é, também, aquele que controla. Aquele que dá as cartas conforme deseja manipular sua imagem, defensivamente. Quem faz o itinerário para ter a chance de desviar-se dos próprios obstáculos. Quer ação mais infantil do que pretender guiar a vontade adulta? Os protegidos, por sua vez – protegidos maduros, não bebezões que na realidade são reizinhos possessivos –, assumiram renunciar ao faz de conta. Admitiram que não dão conta. Não sozinhos. Protegidos são os realistas: sem deitar eternamente em berço esplêndido, penduram no pescoço sua parcela de fragilidade e, necessário sendo, carregam-na frequentemente para o conserto. Estão abertos (não acomodados) à verdade de suas fraquezas. Protetores compulsivos estão nadando no vício de suas forças.

Querendo saber quem é quem, observe. Protetores machões são os que desejam dar download imediato de um programa de cartografia e reinventar o mapa. Protegidos maduros são os que param para pedir informações.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Razões emprestadas

Foi, se não me engano, no capítulo de ontem da novela A vida da gente. O médico que cuida de Ana, a protagonista em coma, alertou a mãe possessiva da mocinha: sua dedicação interminável à filha era muito boa, muito bonita, mas já estava em tempo de dar também alguma atenção à sua vida particular. “Minha o quê?”, repetiu Eva, tão aturdida como se a tivessem mandado escalar a seleção do Zaire. O doutor esclareceu do que se tratava. Aquela coisa, sabe, que se tem fora do hospital? “Ah, não, doutor” – ela sorriu, mais ou menos compreendendo o que ele tentava dizer – “eu não tenho vida particular. Minha vida é a Ana, sempre foi. Nós somos in-se-pa-rá-veis.” E ali permaneceu a motherzilla interpretada por Ana Beatriz Nogueira, observando a filha com carinho aterrorizante.

Eva é fictícia; seu comportamento insano não é um poço de realismo. O discurso, sim, é realista. No que há de péssimo. Não somos poucas as criaturas que vivemos de razões emprestadas: seres sanguessugas que terceirizam a própria existência vampirizando o cangote de outra criatura – ou de um trabalho, ou de um propósito. Menos pior quando é de um propósito, em especial se muitíssimo elevado. Acabar com a fome no planeta, por exemplo. Ruim demais se for de um trabalho: mutilam-se outras necessidades, sedes e mundos, e aquele ser se torna monofacial, monotemático, monótono. Mas terrível, perverso mesmo, quando cravamos os caninos num outrem que deve gerar energia suficiente para viver por dois. Que desde sempre carrega o fardo parasita ao qual, por acréscimo, tem o fardo pior de não poder decepcionar. Uma relação a três – o viciante, o viciado e sua tonelada mórbida de expectativas. Bom para ninguém, aberrante para todos.

Passar adiante a procuração de nossa felicidade é um tipo de ódio. Deve-se, no fundo, desprezar profundamente o bem-estar daquele em quem sapecamos arreios, cabrestos, correntes. Precisa-se nutrir tanta reverência, tanta admiração pelo objeto hiperamado como senhores de engenho nutriam pelos escravos que eram suas mãos e pés. Depender não é amar: é escolher a vítima conveniente, o alvo de abate. Amor que mereça o rótulo necessita já a princípio ser livre, no sentido de pisar macio para não virar hóspede que incomode. Amor caminha plumamente, delicado na atenção, de sobreaviso na leveza; voa mansinho, flutua, não se arrisca a pousar e pesar. Pousa como quem sopra e permanece com a suavidade de quem não estivesse.

E só assim – desengaiolado, desengaiolante – consegue ser-se. Amor pode e deve ter documento. Desde que limite as algemas às ocasionais de pelúcia rosa, para eventualidades de lazer.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

The end

Eu estava lendo (oh, surpresa) uma crônica da Martha – que, por sua vez, lera uma crônica da Clarice – sobre nossas últimas palavras. As últimas ever. O fechamento verbal da vida. Martha comentou a tremenda responsabilidade, o tremendo peso, de não se poder garantir que toda uma existência não acabará num "putz", ou expressão igualmente cretina. Algo que não faça jus a nossa abundância vocabular, a nosso eldorado interior. De fato, não é questão para se perder no travesseiro entre um dia e outro. É para amofinar. E, na total impossibilidade de se ter controle sobre o momento da declaração final (ainda mais numa cidade estúpida, súbita, como este Rio de Janeiro), resolvi já ir adiantando meu testamento, que segue pelo menos em rascunho. Just in case.

Declaro para os devidos fins que esta foi uma boa vida. Não pode ser uma vida ruim aquela que tem Fábio, casa, família, salário. Que teve amendoeira no quintal. Que teve quintal. Que teve irmã mais velha, show do Roupa Nova, visão capaz de identificar o rosa e o laranja, paladar sensível ao toque da manga, olfato bastante competente para cheiro de café e fornada nova de pão francês. Que teve amigos, Cabo Frio, Magic Kingdom, rua arborizada, agradecimento de aluno (uuuuum que seja). Que escutou piadas, elogios e necessárias broncas. Que teve mãe e pai – só isso já assegura bônus para mais de século.

Declaro que, pela ausência de chance (e cara de pau) e tempo, posso não ter mergulhado com bastância nas atividades mais amadas, posso não ter sido a mais eficaz e exemplar entre os projetos queridos, mas em compensação tentei, sem amargura, dar o rumo mais nobre aos trabalhos que se mostraram possíveis. Tentei, se não ser a melhor, ser melhor do que a eu-mesma de ontem e anteontem. E tanto me afeta, tanto me absorve a palavra que talvez eu não tenha conseguido suportar o choque de usá-la para demonstrar o que mais me afeta e absorve. Talvez eu não tenha amado o suficiente em voz alta. Talvez não: é certo. E me desculpo pelo mau jeito. Reconheço não ser, por acanhamento – diante dos verbos e dos quereres, que tanto medo respeitoso me dão –, a mais expansiva, a mais fluente das sentidoras. Sinto tudo baixinho, a não ser quando trovejo. Prefiro o papel à voz, o teclado ao fone, a ação à declaração. Gosto de favores, abraços, olhadas e presentes no lugar dos eu-te-amos que não me escapam porque me fazem enrubescer.

Por fim, declaro que me esfalfei para ir jogando foras as mágoas e, pelos meus cálculos, devo chegar ao cabo sem nenhuma. Reciclá-las todas antes de cada próximo capítulo. Não sou ainda a recicladora turbo que gostaria de ser, e por outro lado não sou mais a antiecológica criatura que acumulava ressentimentos de magistério sem fazer uma coleta seletiva. Mudo-me, trabalho-me; tento, ao menos. E creio. A vida inteira não deixei de crer. Sou incapaz tanto do otimismo idiótico quanto do pessimismo convicto. Mas, na escolha, entro no time do primeiro, porque creio – e procuro convencê-lo a moderar a pieguice e falar de outro modo as mesmas esperanças.

That's all, folks. Se qualquer coisa que eu tenha dito, ainda que esquecida ou inadvertidamente, deu cria feliz no pensamento de alguém, vali a pena. Saio aqui da história para continuar na vida. Espero que por tempo mais do que suficiente para aperfeiçoar meu último texto através das décadas. Umas quinze. Não tenho pressa de postar a versão definitiva sem certa qualidade na revisão.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Menino maluquinho

Eu tinha de começar por alguém; comecei pelo Juvenal. Pelo Joelho Juvenal – primeiro livro que lembro de ter em mãos. Vieram no embalo Pelegrino e Petrônio, Os dez amigos, Rolim, Um sorriso chamado Luiz. Obras quadradinhas (só em formato), coloridas, que personalizavam partes do corpo com ternura, sem tolice. Minha iniciação. Meu mundo pré-Lobato. Não fosse o planeta lilás onde habita Ziraldo – ele e seus meninos morenos, marrons, maluquinhos, quadradinhos, os da lua, os do Rio Doce, os mais bonitos do mundo, as meninas Ninas –, quem sabe se hoje eu estaria aqui professora, desde sempre uma apaixonada de histórias?

Na 1ª. série conheci Maluquinho, protótipo da criança feliz: fogo no rabo, macaquinhos no sótão, olho maior do que a barriga. Paletó do pai e panela na cabeça. Não amá-lo como? Não eram só Maluquinho, Julieta, Junim, Carol, Bocão: eram os traços ziraldescos, grossos, contentes, solares, inconfundíveis. Passaram na escola uma entrevista em vídeo com Ziraldo e nos recomendaram atenção. Atentei a tudo e anotei tudo com tanto desvelo que meu pequeno relatório fez sucesso entre as tias. Não lembro o teor, só me recordo do autor ziraldeando, fazendo graça, para explicar como criara Maluquinho. Precisava explicar? Maluquinho já nasceu criado, nasceu existente, vivia um pouco em qualquer pequeno de sete anos. Seu pai, carinhosamente, apenas nos constatou.

Hoje, no 24, Ziraldo vira um pequeno de 79 (!!!!!) anos. Ele e suas cores, seus mundos, suas luas, seus cometas, seus encantados planetas. Seus cartazes sorridentes da Feira da Providência, suas anedotinhas fofas do Bichinho da Maçã. Suas mães que são súper, seus Jeremias que são bons. Aliás, Bons. Suas vovós que são delícia, suas tias que são tantas – e são nota dez. Suas lições de alfabeto, geografia, poesia, anatomia doida, astronomia lírica. Seu autógrafo que até hoje me sorri num dos livrinhos: “Viva a Fernanda!”.

Viva o Ziraldo! Por sua causa, o mundo desta professora muito maluquinha desde cedo brilhou bem mais flicts.

domingo, 23 de outubro de 2011

Aquele olhar

“Mudanças fazem milagres por nossos olhos, e é no olhar que se percebe a tal juventude eterna. Um olhar opaco pode ser puxado e repuxado por um cirurgião a ponto de as rugas sumirem, só que continuará opaco, porque não existe plástica que resgate seu brilho. (...) Olhe-se no espelho. Você tem um olhar de quem estaria disposta a cometer loucuras? Tem que ter.”

O trecho é, obviamente, da autoria de Martha, na crônica “Os olhos da cara”. Terminei de ler e corri a dar uma checadinha no espelho. Será que meu olhar transborda todas as possibilidades às quais está aberto? Cintila o suficiente para denunciar que, apesar de quietinho, guarda um turbilhão de embates, uma procura ininterrupta, uma vida de projetos? Brilha o que tem de brilhar para mostrar que ali está ocupado, ali tem gente? Espiei e vou responder com certa condescendência: creio que ele passa no teste. Pode não ser olhar azul, verde ou mel, daqueles que quase nascem aprovados pela própria natureza, mas seu castanho-beirando-preto bem comunzinho dá pro gasto. A timidez me faz às vezes fechar as cortinas; quem examinar para além da timidez, no entanto, vai ver que ali dentro tem lareira acesa.

Precisamos ter olhar de fim de semana mesmo no embaçamento do dia útil. Ainda que no meio de relatórios e correções de prova, ter olhar de férias. Olhar de festa, fresco e buscante, dançante e convidativo, no decorrer da reunião. Olhar de loucura no decorrer da rotina. De loucura no bom sentido. Da loucura sã de continuar achando tudo muito interessante deste lado do mundo, sem que isso nos impeça de, no minuto seguinte, pegar avião para o outro, só com bagagem de mão. Da loucura sábia de enxergar beleza literária num jornal e de ser igualmente capazes de nos enfiar na Biblioteca Nacional, só para ver mais de perto aquele manuscrito da reportagem. Da loucura calculista de não perder o controle, mas de lhe dar um bocadinho mais de corda na coleira, para que fareje universos novos que estejam dando sopa.

Não falo de universos amorosos para quem está comprometido! falo do amor por universos que se abrem para os casados com a vida. Em algum âmbito, é urgente termos olhar de apaixonados eternos. Olhar de don-juans que flertam com o dia, seduzem o trabalho, paqueram o ambiente com fome generosa. Olhar não pode ser solteiro. Muito menos viúvo – de quem acredita já ter feito todo o Kama sutra com a vida e decidiu se aposentar do ato de se surpreender. Olhar saudavelmente louco se enamora todo dia, casa com festa e o escambau. Pega toda chance de contrair núpcias com uma viagem inesperada, uma rua desconhecida, um roteiro improvisado, um emprego impensado, um curso de mergulho que não estava nos planos, uma aula de piano que não estava no caminho, uma fluência em francês que não tinha entrado na história.

Viver é isso: não ser Napoleão nem César nem Gengis Khan, e ter um olhar doido o bastante para entrar na própria história.

sábado, 22 de outubro de 2011

A praça é nossa

Como tem comemoração de tudo no universo, hoje é o Dia da Praça. Descobrir isso me deu ataque de ternura. Minha vida está ligadíssima a duas praças muito diferentes – uma transpirando a cavalinhos, balanço e verde; a outra representando comércio, cinema e lanche com a mãe. Na segunda (coração incontestável do bairro), eu passava os sábados à tarde; na primeira, os domingos de manhã. Crescer com as duas versões de paraíso é privilégio que não dou, não troco e não vendo.

Lembro-me nitidamente de mim aos seis ou sete anos, sa-li-van-do de gula pelo fim de semana, sonhando de olhos arregalados com a oportunidade de montar e alimentar os cavalinhos de domingo. Sim, porque não me contentava em passear nos poneizitos da praça, devidamente guiados pelo cuidador. Eu levava quase todo o passeio puxando e arrancando raminhos das árvores mais baixas, só pelo orgulho de ver os bichos mastigando meu oferecimento com vontade. E, claro, pelo amor que lhes tinha. Sou doida em equinos desde que descobri ser gente. Mas não esqueçamos o balanço – outros 50% de alegria dominical. Eu balançava, balançava, balançava com gozo e instinto de pássaro. Ficaria ali manhã, tarde e noite, aproveitando as asas improvisadas, dando-me impulso com independência, tomando cuidado apenas para não atropelar nenhum desavisado. Ainda é o cuidado que mais me absorve em meus voos particulares.

Já crescidinha, ia mais à segunda praça que à primeira. Não eram voltas de domingo (os domingos sempre tinham sol naquela época), era a delícia de sábado. Cinema ou teatro infantojuvenil; em seguida, chás da tarde – a rigor, cafés com leite da tarde – ao lado de Mãe. Devo muito a Mãe o fato de me sentir em casa nas salas de cinema, que coalhavam minha praça de estimação nesse tempo. Eram várias as de rua. Hoje migraram para os shoppings, encastelaram-se. As casas de chá também. Cines antigos viraram farmácia, Igreja Universal, Leader Magazine. O Café Palheta, de meu amado waffle com manteiga e mel, foi reduzido a um estandezinho da drogaria Venâncio. Memórias românticas foram tristemente enxutas e comercializadas, vulgarizadas pelo progresso, pela falência, pela necessidade. Mas a praça continua ali: popular, caótica, acelerada, as mesas de velhinhos da biriba, os aparelhos de academia ao ar livre, o chafariz que respinga amoroso na gente (tem peixe!), os ônibus que disputam palmo a palmo, a feira de artesanato tão querida, a correria, a pressa, o metrô, o tudão que bate no coração do meu bairro. Bairro que é bairro tem no coração uma praça. Infância que é infância, também.

Não precisam ser duas como meus dois céus, não precisa ser grande, acavalada, encinemada, movimentada. Basta que seja praça honesta, que tenha a decência de oferecer ao menos um balanço. Que apresente ao menos uma criança correndo. Um pipoqueiro. Um vendedor de qualquer coisa que não se deva comer antes do almoço. Uma qualquer vegetação que você sempre recordará como amazônica, ainda que não passe de dois canteiros mixos. Um prédio tombado no entorno. Vários prédios sem varanda no entorno, velhos como a memória. De preferência, alguma feirinha em que se comprem saias indianas. E aquele não-sei-quê que torne a praça grande, imensa, infinita – por mais que no futuro a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim tenham perdido sua reputação de reino encantado pela métrica adulta. Mas a praça da infância fica. Fica. Do mesmo jeito, de igual tamanho. Tombada por nosso patrimônio histórico.

A praça é do povo como o céu é do condor, diria Antônio. Sei não. Acho que a praça pode ser céu de fazer condores momentâneos em balanços voadores. Só não é exclusividade do povo. Ela é, sobretudo, lugar de nossa individualidade sair da cela para tomar seu banho de sol.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O incomemorável

Ele era um ditador sanguinário, maluco, homicida, coisa e tal. Fato. E eu definitivamente estou looooonge de ter peninha do homem. Por questões práticas, não há também como negar que o mundo fica mais respirável cada vez que o índice de portadores de maldade diminui. Mas isso não me consola ou convence sobre o modo como Muamar Kadafi foi morto. Porque o problema está justamente aí: foi morto. A não ser em legítima defesa urgentíssima, quando o sequestrador está insano com a arma na cabeça do refém – pronto para tudo, surdo a tudo – , não consigo compactuar com a ideia do assassinato. Não lastimo (nem celebro) a morte do sujeito: lastimo o falecimento de mais um ponto em nosso nível de civilidade, lastimo mais um enfeiamento de nossa conduta, lastimo outra mancha de sangue de que não precisávamos, outra uga-buguice que a humanidade poderia dormir sem. Lastimo que Kadafi (e Saddam, e Osama) tenha(m) cumprido sua principal função: igualar-nos a ele(s). Qual o nome de quem fica feliz com um fuzilamento que lhe convém?

Perfeita uma carta de leitor (Sérgio Luís Escovedo) publicada hoje nO Globo. Tão perfeita que me retiro a um cantinho e lhe passo a palavra: “A morte de um tirano traz uma onda de júbilo para o povo, mas não deve ser comemorada. A morte nunca pode ser comemorada: isto é barbárie, é retroceder ao estágio mais primário da civilização. Basta lembrar que [, na Odisseia,] Ulisses condena sua aia, quando ela festeja a matança dos pretendentes [de Penélope]. Se Homero, em 700 a.C., já dava essa lição, de que serviram quase três milênios de História?”. Excelente pergunta. Inclusive vou ficar aqui no cantinho chorando mais um pouco e já volto.

É justamente – ou é também – para este nosso lado visigodo, canibal, justiceiro mascarado, que existe a ficção. Nela podemos nos dar ao luxo de esquartejar, escalpelar, decapitar, empalar quem quer que seja, desde que a coisa permaneça entre nossos bonequinhos de plástico, celuloide, papel. Podemos atirar em Odete Roitman, empurrar o Coiote no precipício, arrancar a cabeça dos Volturi, petrificar a Medusa, brincar de Jigsaw. Matar o vilão e sair do cinema. Mãos e alma limpinhas. Temos TV, literatura, teatro, Playstation exatamente para dar vazão aos monstros do sótão, tão amorais e genocidas quanto os que nossos tiranos da vida real criaram em cativeiro.

E aí nos vem mamãe falando: você não deve, no embalo do riso, da vontade e da distração, imitar em tudo seus amiguinhos. Porque alguns simplesmente esquecem a hora de parar de brincar.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Amigos de infância

Banheiro de shopping. Experimente fazer um comentário sobre os azulejos, a moldura do espelho, o raio do papel-toalha que sempre falta. 1 real de aposta: a senhorinha (ou mocinha) ao lado responderá com duas ou três frases, enxugará as mãos sorridente (na calça jeans, por causa do raio do papel-toalha que sempre falta) e lançará um “tchau!” ao sair. Se não emendar um “bom dia pra você”, um “tudo de bom” ou semelhantes. É batata. Em qualquer horário, em qualquer lugar: brasileiro que fica 15 segundos e 6 palavras perto de outro já é íntimo, está atado, comprometeu-se; tem, inclusive, a recém-aparecida obrigação de se despedir com afeto e alegria. Para o bem e para o mal, carregamos o vício da amizade instantânea.

Pessoas tímidas como euzita sofrem um pouco com essa etiqueta do acaso. Tenho vergonha de dizer e de não dizer tchau para os amigos de ocasião, especialmente se não iniciei a sessão interativa. Se iniciei, está claro: manda a boa educação que pelo menos um “obrigada, boa tarde” encerre a conversa. Mas se eu jazia na santa paz, um cidadão me abordou e vou saltar do ônibus antes dele, eis-me constrangida. Acabo grunhindo um qualquer “até logo” antes de me pirulitar.

Há dias, sim, de maior boa vontade social, de participação mais condescendente nesta nossa eterna festa de cordialidade. Geralmente, porém, se circulo sozinha, pasme: quero estar sozinha. Não que eu seja – já disse que não sou – antipática e azeda; fico apenas vexada com os sorrisos amarelos que acabo forçada a distribuir. Sem ressentimentos. Lamento mais pelos outros, que precisam lidar com a minha sem-jeitice, do que por mim. Sai no prejuízo é quem se aproxima na esperança de uma prosa de comadres.

O que de fato me aborrece é a verborreia. O derramamento verbal não solicitado. A promiscuidade de confidências. Por que, meu São Crispim, eu pareço interessada em saber que o filho da vizinha de assento está com uma verruga dentro do ouvido? Por que a moça da loja me acha digna de acompanhar seus problemas matrimoniais? O que me dá cara de ouvidora de biografias, receptora de currículos, psicóloga de desconhecidos, conhecedora de hemorroidas? Outro dia foi no táxi: eu tentava docemente ler uma crônica da Martha enquanto o motorista, zero de tato e cerimônia, me punha a par de suas taxas de colesterol, suas considerações a respeito da caminhada, sua pretensão de retomar os exercícios. Nem respirava. Um serial talker. Polidíssima, dei respostas curtas para desencorajar a metralhadora giratória, mantive o livro bem à vista. Funcionou? Tanto quanto funciona pedir clemência a um serial killer. Só parou o bombardeio quando saí das linhas inimigas. Mereço.

Justiça seja feita: na maior parte das vezes, manter-me educadamente silenciosa é o bastante para que evitem me impor um diálogo (ou monólogo). Mas há desonrosas exceções, como o taxista gamado em sua própria voz e ideias. A esses, uma recomendação. Resguardo não é desfeita, sossego não é tristeza, timidez não é azedume. Antes de captar um interlocutor à sua revelia, convém ter certeza de que não somos o chato segurando vela. O quietinho pode estar simplesmente fazendo amor com o silêncio, em plena luz do dia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Soneto de aniversário

(Aos 98 anos do nosso Vinícius)

De tudo ao Poetinha hoje cito
Antes (e com tal zelo na homenagem
Que mesmo em face de melhor postagem
Dele se encante mais meu Lugarzito).

Ah! se soubesse que quando ele passa
Nas páginas de um livro folheado,
O seu poema é mais que um balançado
Que bota céu e mar cheios de graça!

Eu sei que vou amá-lo em cada linha,
Pela beleza que não é só minha,
Pela alegria, sol, luar, ternura.

Um brinde à voz que em tanto amor nos ama!
Que é imortal por ter-nos posto chama,
Que é infinito enquanto a gente dura.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O amor imprevisto

Kate Middleton, nossa atual princesinha dos olhos, conheceu Fabian Bate em setembro, ao visitar o Hospital Royal Mardsen. Príncipe William que se cuide: foi amor à primeira vista. Fabian, 9 anos, luta contra uma leucemia e mantém um blog pessoal. Sem conseguir tirar o pequeno herói da cabeça, Kate lhe escreveu agora uma carta fofíssima, prometendo lembrá-lo em orações, cobrindo-o de pensamentos positivos, enaltecendo seu trabalho no blog e sua “força de caráter”. Os pais do menino, claro, babaram. Segundo o Sr. Bate, a família se comoveu em especial com o fato de Kate recordar-se de Fabian “com tantas outras tarefas em sua agenda”.

Porque de todos os amores é esse o que mais comove: o imprevisto. O amor J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado em nossa história; que nos arromba o meio do caminho num susto feliz. O amor que tinha mais o que fazer e não fez, veja só, por nossa causa. O amor que apareceu quando já fechávamos o caixa, quando já arriávamos a porta da loja, quando já nos aposentávamos da função extenuante de aguardar alegrias. Quando já tirávamos licença-prêmio das famosas esperanças. O amor indecentemente nu de tudo, que nos desconcerta por não pedir, por não trocar, por não tomar nada a nós – nascidos e crescidos em regime de comércio. O amor-brinde, que nos apresenta a uma gostabilidade nova dentro do velho nós-mesmos.

Há amor imprevisto quando compramos presente sem festa, quando chamamos para dançar sem feriado, quando propomos chá na Colombo no meio de dia qualquer – e bancamos. Há amor imprevisto quando damos dois ingressos, quando cedemos o prazer sem impor presença. Quando pagamos a refeição não esmolada, quando patrocinamos o sonho não pedido, quando somos o ouvinte que não dá palestra, quando somos a carona que mora na contramão. Há amor imprevisto em trazer rosas para a mesa da equipe, em trazer salgadinhos para a reunião da equipe, em levar o enteado ao cinema, em fazer passeio especial com o filho em dia de desaniversário. Há amor imprevisto em carregar sacolas de transeuntes, em doar lugares, em doar sorrisos.

Há basicamente amor imprevisto em adotar. Crianças, jovens, ideias, cidades, vidas, estilos, amigos. Às vezes, em adotar-nos. Em acordar mais despidos das neuras, menos condescendentes nos traumas, mais cúmplices nos objetivos – não mais que de repente.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Dia sem sobremesa

Ontem escrevi sobre nossas anestesias, as pequenas mortes, e agora acabo de saber de uma grande. Faleceu um amigo da família; não íntimo, não antigo – mesmo assim, a garganta deu um nó (de escoteiro). A diabete negligenciada o pegou literalmente pelo pé, tirou-lhe a base e engatinhou até o coração, que, embora jovem no físico e grande no gesto, não resistiu. Bom até o cúmulo, Celso morreu por transbordamento negativo de açúcar.

Ignoro se há estudos a respeito, mas não é incomum que pessoas generosas ao extremo sejam desleixadas consigo mesmas em igual proporção. Parecem crer numa bondade ciumenta de sua entrega exclusiva; num tempo que se extinguirá, punitivo, caso não vire uma oferenda permanente de autoesquecimento. É a vaidade às avessas: na (justa) paixão pela carreira de anjos, varrem para baixo do tapete as fraquezinhas humanas. Não desejam a onipotência por acreditarem, risonha e tacitamente, que em alguma medida já a possuem. Uma espécie de licença especial de suspensão do corpo, dada aos que trabalham no departamento do coração excessivo.

É significativa, a diabete. Morre-se de muita doçura. Morre-se de inocência. Morre-se por não se acreditar que coisas boas em si podem ter efeitos ruins, morre-se pela convicção infantil de que alegria e energia são isentas de impostos, morre-se pela impressão fofinha de que momentos coloridos escapam ao setor da responsabilidade. Com exceção dos doentes sem acesso a esclarecimentos, morre-se de ingenuidade incontrolável. De otimismo inconveniente. De contentamento indevido. Morre-se porque viver as delícias da humanidade sem pagar tributo a suas imperfeições, porque não dar a César o que é de César – à terra o que é da terra, ao organismo o que é do organismo – vira abandono de emprego, renúncia à nossa condição. Por muito amá-la.

Morremos, tantas vezes, por nos esquecermos de ser eficientemente mortais. Suscetivelmente mortais. Apaixonados menos pelas pulsões, mais pelas escolhas. Menos pelos impulsos e mais pelas decisões. Morremos por não nos lembrarmos da morte. Por considerarmos possível que ela concorde em não se lembrar de nós.

domingo, 16 de outubro de 2011

Pequenas mortes

16 de outubro de 1846, Hospital Geral de Massachusetts. O cirurgião John Collins Warren espera para começar a cirurgia de retirada do tumor que afeta a região da língua de Edward Abbott. Espera. Espera. Até que aparece um esbaforido William Thomas Green Morton – o cara. Mil desculpas pelo atraso, houve um problema com o inalador. Vamos aos trabalhos. Morton pede que Abbott respire por uma das aberturas do tal inalador de vidro. O paciente segue o comando, vai perdendo a consciência, não dá mais acordo de si. Tudo pronto. Cirurgia feita com rapidez, nenhum grito de dor. A plateia arregalada, incrédula. O cirurgião – normalmente blasé – em lágrimas. “Isto, senhores, não é nenhum embuste”, diz comovidíssimo.

Não é para menos. Se hoje não nos impressiona a cena de um sujeito sendo operado sem que quatro enfermeiros de 2m precisem segurá-lo na cama, é graças ao éter de William Morton – o cara. Marco zero da anestesia como a conhecemos, o episódio garantiu ao 16 de outubro o título de Dia do Anestesiologista. Felizmente, para qualquer entradinha na faca de que eu ou você venhamos a precisar, o doutor Morton chegou com pontualidade britânica.

Anestesia é coisa abençoada (embora particularmente me aflija: já me dei muito tapa depois de arrancar dente, por causa da agonia de não sentir). O problema é que nossa época, se já não fica arregalada, ficou dependente. Adicta. Viciou no amortecimento total dos sentidos. Em todos e de todos os sentidos. Viciou nas pequenas mortes, nas suspensões parciais de consciência que nos abrigam dos excessivos ais deste mundo: é o vidro preto que renega o pedinte, é o tarja-preta que apaga o estresse, são as revistas de vida alheia que cobrem o vácuo da nossa, são os programas de dor alheia que tiram o foco da nossa. É a bebida, a fumada, a cheirada ou a balinha que nos despe de pensamento. É a second life que usamos como máscara da first. É o reality que acompanhamos para substituir nosso show. É a rapidez tecnológica que enche de metas nossa vaziez biográfica. É a rede social que fantasia lindamente nossa solidão particular. São os aturdimentos, os desvios, os devaneios, os fazes-de-conta que elegemos como nossos procuradores, como substitutos do que já não tentamos achar, como manequins do que já não buscamos conseguir. É o muito que empregamos por nos contentarmos com pouco.

Vem chegando dezembro, nosso berço preferencial de promessas. Que entre elas (essas projeções também anestésicas) haja o propósito de levantar e nos encher de poeira para dar a volta por cima. Que sonhemos enfrentar o pau e a pedra para sair desse climão de fim do caminho. Que nossa obsessão de anestesia vá embora just in time para conseguirmos sentir nossa porção adequada, merecida, inspiradora e construtiva de dor.

sábado, 15 de outubro de 2011

O que não somos

Não somos papais e mamães terceirizados, apêndices de afeto para suprir rudimentos de ação familiar. Não somos tiradores de cotovelos da mesa, fechadores de boquinhas mastigantes, fiscais de palavrão, ensinadores de com-licença-desculpe-por-favor-obrigado, trocadores de fraldas reais e metafóricas. Não somos a mão que balança o berço. Não somos Mary Poppins. Não somos Bozos, Carequinhas ou Arrelias. Não somos estepes de governanta, arremedos de babá, imitações de tia-avó, assistentes de pediatra, tentativas de enfermeiro, dublês de psicólogo, guardas de trânsito em plantão, nutricionistas de ocasião, padrinhos de empréstimo, recreadores estagiários, amigos imaginários, colegas de infância, prolongamentos da fauna caseira. Tornamo-nos, querem tornar-nos, acabam nos tornando; ser, não somos.

Não somos chão, pilastra nem parede; somos escada. Ensinamos a conquistar o teto e incentivamos a superá-lo. Não somos leite que mata as primeiras fomes; somos vitamina, complemento alimentar. Não somos pernas nem caminho; somos asfaltadores, somos placas de sinalização, somos veículos. Damos carona. Não somos bolas nem jogadores outros; somos técnicos. Não somos enciclopédias, não somos dicionários, não somos apostilas, não somos bíblias: somos manuais. Somos índices. Não somos mar, timão nem barco: somos faróis. Não somos piscina, somos boia. Somos abrigo mesmo sem ser abraço. Somos casa mesmo sem ser moradia. Não somos molde, somos espelho. Não somos forminha, somos celofane. Somos mão, confeito, tempero, balança. Às vezes fogo, às vezes sopro, gelo às vezes; jamais tabuleiro.

Jamais podemos ser religiões; no máximo sacerdotes, sempre e preferencialmente santos, melhor ainda se anjos. Não damos à luz, não damos a luz: entregamos a pontinha do novelo, o GPS para o labirinto (e a arma contra o Minotauro). Não somos magos, somos pedreiros. Não fazemos feitiço, teimamos. Não trabalhamos, insistimos. Insistimos em arrancar do barro a porcelana, o Davi que dorme no mármore, o anel prometido pela mina. Não somos (apenas) professores: somos garimpeiros. Moramos em Serra Pelada permanente, queimados, ressecados, esquecendo por uma pepita – uma que seja – a aridez do ano inteirinho.

Aos meus colegas de giz e pilot, de quadros brancos e negros, de papelada e datashow, um parabéns sem-graça, torto, amarelo, indeciso como nossos dias que terminam entre notas azuis aqui e tranquilizantes acolá. Um parabéns tristemente orgulhoso porque não somos mães, tias, avós, psiquiatras, palhaços, artesãos, médicos, vizinhos, confidentes, salva-vidas, primos, princesas. Não somos coronéis, não somos gênios da lâmpada, não somos secretários, não somos cuidadores, não somos atletas nem equilibristas nem amigos nem pais.

Somos tudo. E somos mais.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

No clima

Eles, coitados, acabam se destacando pelo erro. Quando acertam, damos de ombros com ar blasé: é o que se espera. Ai deles se derem mancada, com a fartura de recursos atuais. Seu decreto real mexe com o humor e o andamento do dia. Confiamos em sua sagrada atuação. Caso se enganem, sentimo-nos traídos. Pior: vez por outra, enganam-se e nos sentimos aliviados. Somos dependentes e torcedores contra. Clientes e (imaginários) boicotadores. Economistas? Árbitros? Goleiros? Também, mas não hoje. Hoje – Dia Nacional do Meteorologista.

Funçãozinha ingrata, a de quem não pode entregar em perfeitas condições o produto vendido. Quem carrega em anexo os baldes de frustração das noivas que casaram com chuva (vade retro!), dos turistas que levaram granizo no coco, das crianças que não foram à Disney por causa do ciclone. Pobres dos que divulgam na marra o feriadão nublado, pobres dos que não têm chance de prometer um janeiro azul. Mais ou menos (calculo eu) como ter de contar aos filhos que o notebook de Natal está fora do orçamento, ou como confirmar perante seus olhitos que Papai Noel não existe. Se bem que existe.

E não somos todos ligeiramente meteorologistas? Mulheres em especial, mestras em sentir o clima. Quando o guri está inadequadamente silencioso no quarto e adivinhamos um pesadume no ar, de tempestade se formando. Quanto o parceiro acorda instável, tendendo a chuvoso, e – sábias – evitamos proximidade de gestos ou assuntos que possam atrair os raios. Quando a turma chega ensolarada e deduzimos que há temperatura para brincadeira ou agendamento de prova. Nascemos telescópias nos olhos de ampliar detalhe, termômetras no jeito de perceber acolhida ou frieza, pluviômetras no dom de interpretar os índices de choro. Descobrimos, no olhar dos amigos, nimbos, estratos, dores e alegrias ao cúmulo. Toda mulher é meteorologista de gente. Todo meteorologista é leitor do mais feminino dos planetas – este que anda agora em permanente TPM, quenturas de menopausa ou gemidos de parto.

Aos meteorologistas, profissionais de longo nome e paciência comprida, vai o “muito obrigado” de quem escapou da enchente por um triz, de quem não deixou escapar a chance do passeio de barco, de quem se salvou da furada em alto-mar, de quem não marcou o voo para aquele semana nebulosa, de quem colocou o casaco na mochila, de quem levou mochila para colocar o casaco, de quem comprou um bolero a tempo para a festa, de quem agendou a festa em tempo enluarado. Para vocês, um dia de claro a excessivamente iluminado, sujeito a chocolates, pirilampos e fogos de artifício no decorrer do período.

(Seguirei torcendo para que errem toda e qualquer previsão de um janeiro não-azul.)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Vazamentos

Restaurante fechado, buraquinho na tubulação, frouxidão na válvula, vazamento de gás, faísca e bum. Explosão em pleno centro do Rio, 7h30 da manhã. Mortos, feridos, arremessados, gente em estado grave, negócios destruídos. Uma tragédia. Que protagonizamos vez por outra, parecidamente, quando somos nós os vazantes. Quando somos nós os portadores do buraquinho na tubulação, os de válvula frouxa. Os que se consideram perigosamente em dia quanto aos riscos de um bum! ocasional.

Eu mesma sou tida como calma pelos desavisados. Quieta, não de muitas palavras (pelo menos faladas), mais observação que conflito. Dou 412 camelos para fugir de uma briga. O problema é que, enquanto fujo da briga, cargas de adrenalina destinadas a ela continuam fugindo de mim, traiçoeiríssimas. Vazamento na área. Em certo momento, alguém acende um fósforo fazendo uma perguntinha (in)ofensiva. Ferrou. Dane-se a timidez, danem-se os camelos: a serenidade vai pelos ares, com rastro, talvez, não de sentimentos mortos, mas de alguns feridos com intenção e relativa gravidade.

Estou longe de ser um arrasa-quarteirão; qual de nós, porém, não guarda minimágoas pontiagudas? Pequenas verdades farpadas? Cacos de opiniões que deglutimos para não atirar, e que acabam virando projéteis à nossa revelia, impulsionados pela combustão interna? Nós, os quietinhos, deveríamos ser interditados pela Defesa Civil: risco iminente de estado de calamidade pública.

Não pretendo defender que o pacato cidadão ali, no banco da praça, aquele que passa a maior parte do tempo na sua, daria um Unabomber em potencial. Nem que o rapazote adormecido no ônibus vem matutando repetir Columbine, depois de não conseguir desconto na cantina da escola. Também não caio na esparrela de recitar “cão que ladra não morde”, de declarar que o bully que te atormenta todos os dias no colégio não passa de um bebezinho amedrontado. Seria tão estúpido quanto garantir que um bueiro cuspidor de fumaça é menos ameaçador do que um vulcão inerte há 200 anos.

Mas uma coisa é batata: não convém subestimar o vulcão.

Há uma força selvagem em nossas lavas represadas. Em nossos estresses subterrâneos. Em nossos traumas ironizados. Em nossas fobias ignoradas. Em nossas carências famintas. Em nossas parcelas subnutridas. Há fome em alguma parte de nós; e fome, todo mundo sabe, assume o lugar do raciocínio quando o reservatório de suprimentos essenciais cai a níveis críticos. Fome move, fome mata, fome esfola. Fome nos faz carcarás. Fome nos faz zumbis. Mesmo mortos-vivos, qual a única paixão que persiste nos zumbis? Fome. Fome de sermos ouvidos, amados, curados, percebidos, abraçados, justiçados, indenizados, atendidos. Se há excessiva fome, há transbordamento de necessidades. Envenenamos o ambiente com nossas urgências. Vazamento no pedaço.

Fome transforma a todos em áreas de risco.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

The office

Coitada dessa gente trainee. O módulo básico de Ser-Humanismo começa logo após um emprendimento de risco como o parto. Curso tão estafante que chega a ser em domicílio. Um intensivão. Matérias que vão de “Métodos de Alimentação Fundamental 1: o sugar enquanto estratégia” a “Métodos de Alimentação Avançada 12: manejo otimizado de garfo e faca”, passando pelas complexas “Excreção Higiênica 5: descarte eficiente da fralda”, “Linguagem Verbal 4: da onomatopeia ao substantivo” e a terrível “Socialização Aplicada 7: desculpe, com licença, por favor e obrigado”, na qual 80% da classe costumam levar bomba. Férias? nunquinha. Depois da capacitação pré-requisitada, o treinamento se expande para outra instituição – cinco ou seis horas diárias de gramática, lógica, anatomia, noções gerais do que aconteceu ou teima em acontecer no planeta. O material mobilizado inclui mapas, cartolinas, lápis de cor, glitter, papel almaço, DVDs, palitinhos de sorvete. Loucura. Não sei como essa gente aguenta.

Pior: a remuneração inicial é casa e comida. Começar na função é fogo (tutela, hospedagem e refeições de sal, ao menos, costumam estar inseridas no pacote standard). Com o tempo – e avanços comprovados nos módulos de Socialização Aplicada –, agregam-se benefícios: semanada, mesada, abono-aprovação, bolsa-vovó. Rola décimo-terceiro natalino em forma de Playstation; décimo-quarto, se a produtividade na instituição anexa exceder as expectativas. Mas fique claríssimo: nenhuma das gratificações é incorporada ao contracheque. Qualquer escreveu-não-leu, dançam os bônus. Greve? Volta ao regime bed-and-breakfast. Como é duro não ter sindicato de pré-gente.

Pelo menos são 40 horas em contrato? Vai sonhando. Obediência de 168 horas semanais, twenty-four-seven, como dizem os falantes de inglês. Ganham-se quatro triênios ou mais antes de sequer começar a negociar um toque de recolher mais generoso. Visitas e acompanhantes são, com justiça, monitorados. O acesso à internet e à TV a cabo é restrito (notadamente em empresas sérias). Refeições são controladas. Despesas com bens de consumo devem ter seu crédito pré-aprovado. Viagens, apenas em meses específicos, com itinerário limitado e sob atenta supervisão. As disciplinas de “Autonomia Geográfica” têm um dos cursos mais longos.

Gente trainee está habilitada a divertir-se com blocos de montar, conchinhas, Teletubbies, Patati Patatá, porém ainda se encontra terrivelmente desaparelhada para brincar de ver Woody Allen, ler Machado, discutir roteiros europeus ou redecorar o quarto de hóspedes. Gente trainee não sabe nem pode mais que os veteranos, nem é mais feliz. O que gera o mal-entendido é esse tantão de veterano por aí que resolveu se aposentar de si mesmo. E só se lembra do tempo em que ainda não havia desistido da carreira. Bobagem. Não nos excluímos de nós: dia a dia, nos acumulamos. Hoje sou tão capaz de curtir A bela e a fera quanto de embarcar no cinema francês, tanto de me apaixonar por um professor quando de me casar com ele. Ser criança é dez, ser criança há mais tempo é vinte. Trinta, duzentos e sessenta, cinco quaquilhões e cem.

Nada como estar no ramo da infância desde 1980, já lá se vai mais de uma dezena de triênios. Férias? nunquinha. Muito menos aposentadoria. Estou pleiteando bolsa-auxílio de uns 97 anos para ter um período razoável de me especializar.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

I'm coming out

Nos Estados Unidos, Inglaterra e Suíça, hoje é o National Coming Out Day (Dia Nacional de Sair do Armário). Normalmente usamos a expressão para o ato de assumir sua opção sexual, mas eu proponho uma interpretação menos, digamos, ortodoxa. Que tal caçar nas prateleiras do fundo nossos pequenos constrangimentos de estimação, botar pra pegar sol, desamarelar, dar uma espanadinha?

Eu, por exemplo, gostava das músicas do É o Tchan. Logicamente não imitava o figurino das cadeirudas, mas que gostava da discografia, gostava. Cantarolava animadamente – e, se bobear, ainda cantarolo. É que nem giárdia, garra na gente que às vezes não sai nem com tratamento longo. Eu também tinha (perdão! perdão!) o CD da Tiazinha. Pois é, da Ti-a-zi-nha. Tudo bem que não cheguei a escutá-lo, porém ganhei o objeto de danação e não o destruí. Capaz até de ainda gravitar no lixo espacial de meu caos particular. Tenho medo, tenho muito medo de uma arrumação mais séria. Pavor que esses passados me mordam e eu precise ir correndo tomar soro.

Eu via A história de Ana Raio e Zé Trovão. Adorava. Por sinal, era apaixonada pelo Almir Sater. Nas primeiras infâncias, tive um sério lance afetivo com o Pica-Pau. Mais tarde, final da adolescência, era totalmente ensandecida por um dos Cavaleiros do Zodíaco, o Shun (e seus cabelitchos verdes). Vá lá, tinha ao mesmo tempo uma indisfarçável quedinha pelo Seiya. Mas o coletivo me redime. Quem não tinha uma indisfarçável quedinha pelo Seiya? A deusa Atena herself (e seus cabelitchos roxos) não resistia ao charme dos meteoros de Pégaso. Três ou quatro moçoilas do desenho não resistiam. Covardia.

Eu não sei passar batom – nem com espelho. Aliás, não sei passar maquiagem nenhuma; e, depois de passada (por outrem), fico tão confortável quanto o Homem da Máscara de Ferro. Não sei usar salto com mais de dois centímetros na altura e menos de cinco na largura. Não tenho orelha furada nem aguento brinco de pressão. Não sei assobiar. Não sei colocar meia-calça. Adoro usar óculos. Detesto usar Havaianas (e qualquer sapato com aquele trequinho odiento entre os dedos). “O amor e o poder” é uma de minhas músicas preferidas. Nunca tive uma Barbie. Nunca vi Cidadão Kane. Não gostava do Xou da Xuxa. Até hoje confundo esquerda com direita. Não consigo não confundir certos nomes, como Simone e Solange, Roberto e Ricardo. Sou incapaz de me localizar no espaço. Acreditei em Papai Noel até os 8 ou 9 anos. Still do. Always will.

Você que cantou com Odair José contra a pílula, você que colecionou os bonequinhos do Restart, você que se descabelou ao som dos Menudos (ou Polegar, ou Dominó, ou KLB), você que usou ombreira, você que usa calça verde-limão, você que não curte Fellini, você que não curte chocolate, você que larga livros pelo meio, você que começa livros pelo final, você que não consegue reproduzir o th do inglês, você que riu dos pôneis malditos, você que chorou cascatas em Meu primeiro amor – um passo adiante! Hora de espanar vexames naftalinados, espantar baratinhas encucantes que procriam na gente. Celebrar o lado A da falta de vergonha dançando os bracinhos em batida de “Meteoro da paixão”.

(Foi-se Compadre Washington, veio Luan. É complô. Mereço.)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Com quem gastar

Sabe em que época do ano eu mais queria ser milionária de tempo e dinheiro? Em todas, claro – mas principalmente entre setembro e outubro, quando o Festival do Rio desembarca na cidade. Filme que não acaba mais. E vontade que não acaba mais de mandar o trabalho às favas, pedir empréstimo ao FMI e entrar em regime de internato: manhã, tarde e noite caçando pérolas (ou bizarrices) da cinematografia mundial. Aí acordo, tiro o pijama de Cinderela e me dou por satisfeita com os dois ou três títulos que consigo enfiar na agenda. Olhe lá.

Um dos que consegui enfiar na agenda foi o canadense Oliver Sherman – uma vida em conflito. Narra a história de um veterano de guerra que, sete anos depois de sair da guerra em questão, ainda está perdidaço no mundo real. Sem saber o que fazer da vida, vai visitar um amigo casado, estabelecido, duplamente pai, tranquilo, feliz. Mais não digo. Só digo uma declaração feita pelo amigo visitado, que, ao justificar por que tinha resolvido se unir à sua esposa, alegou ter sido amor à primeira vista, e completou com (mais ou menos) estas palavras: “Percebi que ela era a pessoa com quem eu queria gastar todo o dinheiro que juntei, toda a experiência que acumulei, todo o amor que eu poderia ser capaz de sentir”.

Ponto de vista interessantíssimo. Afinal de contas, a quem amamos? Aquele(a) com quem nos sentimos dispostos a gastar. A nos gastar. Podemos ter uma atração ferrada por milhares de seres ao longo da vida, mas em geral com pé atrás: não sei não, acho que ele/ela não vale a tarde de compras perdida com as amigas, o futiba com a galera trocado pela ida ao teatro, o nervoso da visita à sogra, a marcação cerrada do sogro, a mudança de turno, a mudança de hábito, a mudança de cidade. Se é esse o pensamento, sinal vermelho. Óbvio que não pretendo definir a relação a dois como catatau de perrengues e renúncias. Mas que é uma livre escolha de nosso próprio cárcere, lá isso é. Amar é descobrir a corrente que não nos pesa, a algema que não nos aperta, o desgaste que não nos importuna. Amar é escolher nossa modalidade de esporte radical.

Perceber qual felicidade compensa nossos esforços de adotar um visual diferente. Qual investimento gera mais lucro emocional após as teimosas aplicações de jantares à luz de velas, receitas de massa ao pesto, finais de campeonato no Engenhão, cachorrões de pelúcia, corações de pelúcia, 15 sessões no terapeuta, 15 centímetros no salto, 238 sacolas carregadas no shopping, 327 cremes no banheiro. Dar suor e sangue com tranquilidade de anestesia, mergulhar em manias alheias com fôlego de escafandrista, ceder as próprias horas ao lazer do outro, ao prazer do outro, ao querer do outro – tem melhor retrato do afamado amor? Como dizia o padre do curso de noivos, é o sacrifício não do “sofrer”, mas do “tornar sagrado”, para colher o termo pela raiz.

Amor é tudo que nos sobra depois que nos doamos em vida, é nosso patrimônio após nos colocarmos em testamento, a medalha impalpável de tantas maratonas. Impalpável, imponderável. Para os menos amantes, invisível. Para os mais, exatamente o bastante. Amor acaba sendo adivinhar o inquilino que vai, molinho molinho, nos alugar fiado.

E de quem nos lembraremos de não cobrar.

domingo, 9 de outubro de 2011

Dia com sobremesa

Existem os estoicos, os que conseguem viver da-casa-pro-trabalho-do-trabalho-pra-casa, os que fecham o escritório às 23h para reabri-lo às 6h e não sabem nem que novelas estão passando, os que estudam dez horas seguidas para concurso público. Invejo essa gente forte, de espírito hibernal e econômico. Pena que nasci de espírito borboleto e primaveril. Por felicidade ou fraqueza, por sorte ou covardia, não aguento o tranco de passar por um apanhado de 24 horas sem bônus, sem brinde, sem um contentamento íntimo. Não consigo viver dia sem sobremesa.

Estou longe de dizer que me consolo com açúcar. Ao contrário, açúcar nem sequer me pertence. Não consigo viver é sem glicose conotativa, o up psicológico, aquele extrinha ao qual a gente se agarra para não sucumbir aos etcéteras aborrecidos. Não me basta o feijão com arroz, preciso acordar e saber que hoje tem marmelada, tem, sim, senhor.

Acordar e saber que hoje o trabalho é só na parte da manhã, depois tem Fábio. Acordar e saber que hoje o trabalho é só na parte da noite, antes tem caseirice. Hoje a aula foi puxadíssima, mas rola fígado no almoço. Hoje a aula será puxadíssima, mas no tempo seguinte rola vídeo (ou prova, ou trabalho em grupo, ou joguinho). Hoje acordo mais cedo, mas após o expediente me enfio no cinema. Hoje corrijo prova, mas após a tortura fico de conversê com os amigos. Hoje pedalo mais, mas em seguida tem festa. Hoje durmo menos, mas é porque antes tem festa. Hoje almoço fora. Hoje ganho mais uma horinha de internet. Hoje não preciso trabalhar no metrô. Hoje vou sentada no metrô. Hoje descubro quem é o assassino da novela. Hoje compro o quer-que-seja do casamento. Hoje escolho o presente de aniversário. Hoje escolho o cartão de Valentines. Hoje aprendo receita nova. Hoje encomendo o buquê. Hoje procuro o sapato. Hoje monto o álbum. Hoje gasto o vale-livro. Hoje, definitivamente, tem sobremesa.

E não tem todo dia? Acaba tendo. Invento, se não tiver. O que sei é que, desde priscas eras, deprimo completamente se aquela rodada em torno do eixo terrestre não trouxer, também, rodada de flor, descanso, história, risada, livro, filme – alguma camada de chantilly sobre as fatias de rotina. Nunca fui capaz de duas horas de estudo sem gibi no meio, nunca fiz prova sem Halls de menta na boca, nunca deixei de bater ponto no cinema em ano de vestibular. Fico impossibilitada de cumprir qualquer compromisso se desistir de ver televisão. Sou diabética ao contrário: posso morrer por excesso de não-açúcar. Metaforicamente falando.

A felicidade é meu fio-terra.

sábado, 8 de outubro de 2011

Aplainai as veredas

Tem dia para tudo que é profissão neste mundo. Hoje é o Dia do Asfaltador. Já ouviu falar? Pois é. Mas achei a comemoração justa, justíssima. Ando fãzaça dos asfaltadores: ninguém merece mais essas vias embolotadas – um sofrimento para os calos –, desniveladas, paralelepípedas, erguidas e arrebentadas pelas raízes das árvores que tentam, com justiça, livrar-se do cobertor de cimento. Ninguém merece o sapato capturado pelo buraquinho indevido, o tornozelo torcido pela descida brusca. Quem tem carro não merece a dinheirama gasta na revisão do coitado, que não foi feito para safári nem esperava ter essa vida esburacadamente sofrida. Quem vai de ônibus não merece bater com a cabeça no teto a cada pinote que o bicho dá, com fúria de rodeio. Quem está de turista não merece contemplar as ruas como American quilts retalhadas. Merecemos, todos, rodar ou andar sobre o macio que só o asfaltador, esse santo do piche, pode proporcionar.

A tentação da metáfora é poderosa e eu não me dou ao trabalho de resistir. Seguinte: sem uma exceçãozinha, temos a sagrada obrigação de ser asfaltadores. Facilitadores. Alisadores. Temos a missão intransferível de não sacrificar de obstáculos aqueles com quem cruzamos. De não sermos burocratas inventando pedrinhas para azedar projetos. De não sermos empatadores profissionais, os que amanhecem bolando más notícias para atrasar objetivos. De não aparecermos com a lombada abrupta ou com o vazamento de informação inútil. Não: na condição de humanos, fomos escalados para asfaltar. Abrir caminho a pezitos vários, promover chegadas, preencher pendências, apadrinhar sonhos. Fomos criados para office boys da felicidade, os que pegam procuração e agilizam o processo de alguém. Qualquer alguém. Just because.

Asfaltadores são os que criam ONGs – túneis entre o querer e o poder dos beneficiados. Os que escrevem livros de autoajuda que não sejam (somente) para autoajudar suas finanças. Os que recebem desabafo e devolvem conselho. Os que percebem desespero e demovem tolices. Os que às vezes fazem um peso necessário e causam feridas de arado, na certa medida, para redesenharem o terreno com correção radical. Os que não temem incomodar um bocadinho ou revolver muito, os que não temem perder em popularidade, os que não temem sequer perder para assegurar vitórias. Especialmente alheias.

Precisa-se, com sangue e urgência, de asfaltadores. No literal, no figurado, o que tiver pra hoje. Alguém que concorde em nos trazer, entre um abismo e outro, um pouquinho de lisura e retidão.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Exibidos

Consigo conviver com jeans destruídos (desde que, obviamente, não sejam os meus – e desde que a destruição não mostre nenhuma parte que Pero Vaz pudesse apelidar de “vergonhas”). Consigo lidar numa boa com All Stars que andam por aí em cor de chumbo, embora tenham saído da fábrica etiquetados como brancos. Consigo encarar razoavelmente bem as (odiosas) saias e etcéteras balonê. Consigo até, numa prova de evolução humana, olhar com mais serenidade os acessórios de oncinha. Mas tem uma fronteira que não atravesso (além, é claro, das desprezíveis calças saruel, hors-concours que nem merecem menção): alcinhas aparecendo. Aquelas alcinhas de sutiã, sabe? aparecendo. Pode ser a lingerie mais fashion e escalafobética da Fruit de La Passion. Não adianta. Viram peças de 1,99 quando estão aparecendo. Foram feitas para aparecer – e arrasar – exclusivamente em local que não pode ser citado neste horário. Em outras circunstâncias, pagam de cafonice.

Tudo bem, sou intransigente. Nesse ponto eu faço questão. Pelo bem da sagrada elegância. Podemos estar com modelito de 25 anos atrás, roupa emprestada, doada, herdada, resgatada do Exército da Salvação; não podemos, porém, ferir a elegância, estado de espírito e estética que independe de capital. Elegância é harmonia, limpeza e fuga do desleixo. Tem maior deselegância que exibir gratuitamente a própria intimidade? Porque alcinha de sutiã é isso: intimidade. Estrutura. Bastidores. Como pegar um Mickey com a cabeça da fantasia debaixo do braço, em plena Disney. Como vender uma casa com fios e tubulações de fora – não aqueles coloridinhos para fazer charme: todos, e emaranhados. Como lançar livro com as notações vermelhas da revisão. Ir ao banheiro ou cortar as penugens da orelha de porta aberta. Uma “sinceridade” visual desnecessária e broxante.

Elegância é, também, a manutenção de uma mitologia pessoal, de uma delicada reserva, de um adequado mistério. Um hábil ocultamento de estratégias. Uma chavinha que tranca o diário. Faz parte da delícia feminina não escancarar os truques, instigar um como-ela-consegue no imaginário dos garotos (e de outras garotas). Como ela consegue sustentar esse patrimônio sem que se distinga nada além da blusa? Como ela consegue peitar esse decote sem que se adivinhe nada além da sutilíssima linha do busto? Como ela consegue guardar os detalhes opaquinhos sob o top de renda? Um plus, um a-mais, um capricho: a consideração de combinar um modelo normal com a camisa normal e um modelo nadador com a camisa nadador. A perspicácia mínima de evitar uma peça verde fluorescente debaixo da transparência. Não é preciso muito. É preciso ter a doçura do básico. A medida do simples. O respeito simples e básico à própria imagem e ao direito alheio de limpamente admirá-la.

(Parêntese 1: o que não adianta – alça de silicone. Uma hipocrisia retorcida e amarelenta. Bustiê, gente, bustiê now!)

(Parêntese 2: só para me desmentir e amofinar, tem coisa pior, sim, que a maldita alcinha aparecendo. Calcinha aparecendo. É para queimar no fogo fashion eterno, na geena dos que oferecem aos transeuntes o que, definitivamente, não é de sua conta. Oitenta chibatadas de lycra!)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A morte é o melhor da vida

A ideia não é minha – é de Steve Jobs. E não tem nadinha de mórbida. Não quer dizer que devemos curtir deveras o fato ou momento de morrermos, que devemos cultuar o lado negro da Força ou ser suicidas em potencial. Muitíssimo ao contrário. A lembrança concreta e serena da morte nada mais é que uma celebração da vida: por sermos lindamente finitos, por termos o relógio tic-taqueando na parede dos projetos, por precisarmos contar com a margem detendo nossos transbordamentos, é que se faz urgente amar as possibilidades. Amar o caminho. Povoá-lo. Preenchê-lo. Validá-lo. Viver não é para qualquer um: é para quem se prepara para permanecer mesmo após o adeusinho.

Sejamos francos. Que graça ou motivação teria o ziummmmmmm da Fórmula 1, o suor da maratona, sem linha de chegada? Que estímulo teríamos sem o empurrão da mortalidade? sem o privilégio do tempo como artigo raro, fujão, coroado de diadema? Sendo ridiculamente frágeis, já nos arvoramos todo-poderosos; nos damos ao trabalho de gastar minutos armando fofoca, boato, guerra, bullying, programa de pegadinha. Como se ainda tivéssemos até amanhã. Fosse-nos arrancado o dom de perecer, lascou-se de vez: o fim das estribeiras para toda a humanidade. O que nos impediria – a nós, os donos do tempo – de cair num liberou-geral preguiçoso, condescendente e mau até a barbárie? Aliás, não regrediríamos à barbárie, pelo simples fato de nunca havermos saído dela. Com uma estrada inteira diante dos olhos, não há urgências. Não há prioridades. Não há paixões. Não há criações. Não há pressa, aquela pressa do bom sentido, de nos fazer mexer o traseiro gordo e ir ali viver. Uma sociedade sem mortes não sairia do sofá. Se houvesse sofá.

Em seu memorável discurso de paraninfo, Steve deixou em poucas e boas palavras o espírito da coisa: a noção da morte nos faz prosseguir sem orgulho e sem medo. Se ainda estamos arrogantes, covardes e improdutivos, simplesmente não fomos inaugurados como gente. Continuamos fadas, ninfas, kryptonianos ou deuses do Olimpo (ou qualquer fantasia escolhida por nosso fetichezinho de onipotência). Nossa gentice não saiu do armário. Só sai quando a ficha desaba: vou morrer, e hoje é tão possível como daqui a 87 anos. Está então cortada a faixa; estão expulsos os parasitas que aturamos quando ainda não morreríamos e, portanto, tínhamos tempo de ser e fazer infelizes. Não há melhor faxina que abraçar a finitude. Quem pretende seguir caminho agora, now, anteontem – e já está atrasado para chegar ao planeta mais próximo – não se pode dar ao luxo de arrastar excesso de bagagem.

Steve viajou leve de obstáculo e volumoso de conteúdo, pesado onde não pesa e rico (também) do que não enferruja. Imitemos. Por enquanto e para sempre, qualquer tonelada de ideia e sonho passa reto pela alfândega. A única sobrecarga tarifada é a parte essencial que insistimos em deixar para trás.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Na fila

O show de Justin é às 10 da noite, mas lá estão elas – com 12, 13, 14 anos – acampadas na fila há horas, há dias. Há meses, se pudessem. Não é porque é Justin, não é porque são elas: fosse quem fosse, não entendo anyway. Se Paul McCartney e seus beatlemaníacos, se Madonna e seus madonnetes, se Justin e suas biebers, dá no mesmo em termos de incompreensão. Por maior que seja a admiração, a fãzice, o que leva um ser humano a pendurar sua vida no cabide para ficar a 149 (em vez de 150) metros de outro ser humano que está se lixando se você perde prova, emprego, mulher ou a primeira palavra do caçula?

Eu compreenderia, embora com relutância, se fosse caso daqueles amores de perdição – indivíduo para indivíduo – que se sofrem à distância. Ressalva: desde que haja esperança de conquista. Improvável até, mas possível. Aí se fala de peleja por algo que lhe afeta direta e largamente a vida; algo cujo nome pode estar (amanhã ou depois) aliançado em seu dedo, algo com que você visitará Paris, tomará café, trocará fraldas e celebrará bodas de estanho. Mesmo assim, eu definitivamente não deixaria o cartão de ponto em branco para ir me postar, dia e noite, diante da varanda do indivíduo. Não perseguiria as janelas da casa na expectativa de um tchauzinho. Não desistiria de um banheiro decente ou edredom balofo para fazer vigília até o cidadão dar o ar da graça. Convenhamos. “Amor” que corrói a paciência do amado e implica atos estapafúrdios, vazios – especialmente isso: vazios – não é mais do que histeria.

Concordo plenissimamente com Pablo Villaça quando diz que as “crepusculetes”, por exemplo, gritam umas para as outras durante o filme, e não propriamente para o vampiro ou o lobo em questão (que permanecem surdos e distantes). A curtição não é idolatrar, é mostrar que se idolatra mais e melhor que as coleguinhas, tadinhas – não são páreo para mim. Em última instância, idolatramos a nós mesmos e a nossa capacidade de abnegação romântica. Romântica no sentido oitocentista do termo. Estamos enamorados de nossa entrega, encantados com nossa heroica superação. Mais nos amamos quanto mais nos vemos aptos a rastejar, a sofrer diante de um objeto escolhido ao acaso. Olha que apaixonado cascudo que eu sou.

Mas vai ver se a gente se presta ao amor que não dá ibope, que não dá Globo, que não passa no RJ-TV. Vai ver se engolimos o ataque injusto à sogra, vai ver se pensamos duas vezes antes de jogar a toalha (esquecida) na cara do outro, vai ver se fizemos um elogio que fosse nos últimos, hã, 5 anos e 7 meses? Qual: vamos nos passar para ninharias? Queremos os fogos de artifício, os repórteres, a paixão que chama paparazzi, que joga pétala de rosa, que picha muro. Queremos ser os galãzotes e donzelas de nossa própria novelinha. Dói menos o sacrifício calcado no impossível, a construção que não quebra as unhas porque nunca chega a pousar no chão.

E aí acampamos dias e dias e dias na lama, no vento, no relento do estádio, no relento de outro estado. É o que dá começar amor pelo happy-end.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Brejeirices

O metrô passa pela estação Praça Onze e para diante de um painel que conta a história do pandeiro (explicando aos não-nativos: Praça Onze é a estação mais próxima do Sambódromo). Fala algo sobre “ritmo brejeiro” ou coisa assim. Há quantas décadas não ouço ou leio um tal adjetivo: brejeiro. Será porque ninguém (ou pouco alguém) tem estado apto a ocupar o cargo?

Em tempos de “Aquarela do Brasil” (e antes), tudo era brejeiríssimo. As mulatas, as normalistas, o futebol, os Zés Cariocas, as canções, as namoradas. O mundo era uma grande pin-up, havia uma sensualidade bem-humorada no ar – porque brejeirice não é senão isso, bom humor romântico e sensual. Parece difícil, mas a gente do Brasil consegue num piscarzinho assim de olhos. Ao menos conseguia. Nosso atual império da deselegância, do explícito, do superlativo vem deixando o brejeiro em lastimável desuso.

Mulheres Kiwi, Abacate, Tamarindo, Seriguela não são brejeiras – não importa o tamanho do talento com que requebram no palco. Neymarismos não são brejeiros – não adianta o espetáculo de dribles que aparece em campo. Funkismos não são brejeiros – não interessa a sexualidade transparentíssima de suas “obras”. Aliás, exatamente pelo tanto de transparência. Brejeirice não é escrachada, não é evidente, não é espetaculosa. É esperta com delicadeza, é malandra com cuidado, é fagueira com doçura, rebola com graça e não com gana, brinca sem deboche, atrai sem avidez, seduz devagarinho. A arte da saliência inocente, da entrega sutil. Ponto-chave do que tem sumido de nossas prateleiras: sutil. Sutileza, a inteligência vestindo camisola de renda – atiçante e totalmente opaca.

São brejeiras as borboletas, as saias godê, as crônicas da Martha. São brejeiros o cabelo da Céu, a voz da Marisa, os sambas do Zeca, os sambas de Carmen. Dudu Nobre e a primavera são brejeiros. Camisetas de Playmobil e comerciais de pônei são brejeiros. Há brejeirice nos quadris da Shakira, nos olhos da Elisângela, no reflexo das folhas, nas risadinhas nos bebês. Não há no que é mui fluorescente ou muito cinza: nem nas gargalhadas nem nos gabinetes, nem na cerveja nem na burocracia, nem na boate nem na gravata. Mas há no forró, na tornozeleira, no bracelete, na almofada, na pinta de nascença, na sarda, na sapatilha, nos beija-flores, nos casamentos felizes. Nos casamentos felizes mais que em toda parte – que vivem só debaixo de engenho e arte.

Brejeirizar é preciso. Pôr açúcar e afeto no gesto, cortar os excessos de voz e corpo, tirar os gritos, aparar os descontroles, dosar a abordagem. Morar docemente nas entrelinhas, aberto a tudo e óbvio em nada. Ter coração com samba no pé e pé valente, breve, de bailarina. Fascinadamente pronto para o caminho que começa.

(Guardando entre risos o cálculo de onde vai terminar.)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Altas horas

Há 80 anos redondinhos, cravados, ele desembarcou pela primeira vez no Brasil. 11 horas da manhã. Lá vinha ele para bulir com a nossa vida. Era ainda jovem, inexperiente, não funcionava nos termos atuais. Era-nos criança, éramos crianças para ele. Aliás, nem havíamos nascido. Um dia viríamos a nos encontrar, nas imediações do Natal, e precisaríamos aprender a viver em juntice. Ao menos por alguns meses. Meses de pesadelo para uns tantos, com sua rotina baratinada pelo hóspede indesejável. Meses de alegria e leveza para outros, felicíssimos com a companhia. Eu? integro o segundo time, dos que não veem a hora de ele fazer sua visita anual e só faltam ir buscá-lo no aeroporto.

Ele, o horário de verão.

Tem gente que fica biologicamente transtornado quando ele vem. O corpo se perde como formiga fora da fila. Passa o expediente feito zumbi; as madrugadas, num zanzar de Fantasma da Ópera (pessoalmente, não sinto a menor diferença – meu relógio interno já dança rumba o ano inteiro). Ouço, também, vários trabalhadores diurnos reclamarem de sair de casa ainda na escuridão. Pois é exatamente do que gosto. Ir para a labuta com aquela sensação de que ainda é ontem tem efeito tranquilizador: você não está atrasada, filhinha, é cedo, é muito cedo. O cronômetro nem começou a girar. O metrô não estará cheio, todos dormem até o cantar do galo. Olha esse cheiro fresquinho, virgenzinho, perfume de sereno e véspera!

A tarde também se alonga: é cedo, é muito cedo, nunca tempo de rumar para casa. Os dias vêm com vidas extras. Estão em promoção: pagamos 12 horas úteis, chegam 15 no pacote. Horário de verão nos faz cirandeiros, varandeiros, baladeiros compulsórios; nos levanta o queixo, nos aponta a orla, nos mostra a brisa, veja, veja, sobrou tanto dia no fim do trabalho! Insensato é não dar um mergulho de terno. Indecente é não subir 3 cm o tailleur. Com ou sem reunião de colegas, há duas ou três hours lá fora dadinhas de lambuja para nos fazer mais happy.

Mas o melhor do horário de verão é que ele anuncia, dã, o verão. Melhor ao quadrado: anuncia o encerramento de outro ciclo, põe no ar uma promessa de descanso. O mesmo cheiro açucarado que tem o dia em começo, tem o ano em fim. Cheiro de quase. Essência de expectativa. Uma insinuação de festa, uma condescendente sugestão de dezembro. Momento de gritar um “terra à vista” de missão cumprida e principiar a ser desavergonhadamente feliz.

Sessenta minutos mais cedo.

domingo, 2 de outubro de 2011

Ê, meu amigo Charlie Brown

Um dos melhores presentes que já ganhei foi aos 14 anos. Minha mãe me deu de Natal o livro Toda Mafalda, com a íntegra de meus quadrinhos favoritos. Lembro que um texto introdutório comparava a argentininha cabeluda a um outro ícone das HQs, o americaninho careca Charlie Brown. Não recordo o teor exato da comparação – nem pretendo parar tudo e ir escarafunchar o livro para conferir; mas sejamos francos: precisa?

Quem conhece Mafalda e Charlie sabe perfeitamente os pontos cruciais. Ambos são crianças que têm sua tchurma, suas preferências (baseball para ele, Beatles para ela), seus irmãos caçulas. E as semelhanças param aí. Mafalda, a contestadora, tem menos de dez anos quando fica esperando ansiosamente a cegonha trazer seu hermanito, quando pede ao amigo Felipe que escreva coisas que ela ainda não sabe (entrou na escola e foi alfabetizada depois dele), quando faz blergh para o prato de sopa trazido pela mãe. Em tudo mais, Mafalda é adulta; alter ego de Quino (o cartunista) para questionar os anos de repressão argentinos, a formação das famílias burguesas, a política internacional, a realidade profissional da mulher, o conflito de gerações. Mafalda está plenamente inserida em seu contexto e, em termos de agudeza, até o supera. Seus olhinhos engajados, pacifistas, não são vítimas e sim críticos de uma época. Sua perplexidade histórica é a dos que batalham, não a dos que apanham. Tanto que está em pé de igualdade com os adultos da tirinha, os quais aparecem com cara, dúvidas, conflitos e voz. Mafalda é nossa porção gente grande que toma de empréstimo a coragem infantil.

E Charlie Brown? Charlie Brown é nosso medo infantil que segue alive and well mesmo quando somos gente grande. É um looser. É quem nos sentimos ao receber bordoadas do sistema, seres indefesos diante de vozes autoritárias incompreensíveis. Diante de ordens sem rosto. Diante de crueldades na escola, fracassos no esporte, amigos que sacaneiam e paixonites em fratura exposta. Diante de uma vidinha que é isso aí, diariamente o mesmo feijão com arroz (ou pão com minduim), sem perspectivas muito maiores que chutar a bola, finalmente. Sem ideologias muito mais longas que vencer a apresentação no colégio, a fantasia de Halloween, o castigo da diretora, o olhar em que nos penduramos e não nos vê. O labirinto intrincado de cada 24 horas.

Por que eu trouxe à tona a nada mole vida de Charlie Brown? Porque hoje faz 61 anos que a tira Peanuts – e Charlie, e Lucy, e Linus, e Woodstock, e Snoopy... – entrou em nossa nada mole vida. E para que nós, embora sejamos Mafaldas convictas, não deixemos de observar com alguma ternura nossa parte dependente do cobertorzinho de estimação, nossa chatice que se debruça em piano alheio, nossa inocência que não desiste de acreditar na Grande Abóbora (eu acredito!). Que ainda aguarda, sempre aguardará, um cartão de Valentines da nossa garotinha ruiva.

Mas que suspirará um “que puxa” e seguirá a vida, livre e mafaldamente, quando ele não chegar.

sábado, 1 de outubro de 2011

Mar de rosas

Sou tarada em rosa. A flor, a cor e, por fofa coincidência, até os portadores do sobrenome – Noel Rosa, Guimarães Rosa, Murilo Rosa, Samuel Rosa, tão queridos. (Devo esclarecer, em parênteses, que o gosto pelo tom não me faz dar nenhuma pinta de Penélope Charmosa por aí. Isto estabelecido, sigamos.) Não à toa, desde criança sou BFFíssima de Santa Teresinha, cuja festa é hoje celebrada. “Não à toa” porque seu epíteto, para quem não sabe, é a “santinha das rosas”. Quando faleceu – com míseros 24 anos –, um cheiro absurdo dessas flores se espalhou pelo quarto. Enquanto viveu seus plenos 24 anos, um cheiro semelhante devia passear pelo mundo.

Maria Francisca Teresa foi das almas mais deliciosas a se hospedar no planeta. Tinha a crença que mais me apaixona: as pequenices. Para usar suas palavras, não ousava querer fazer coisas extraordinárias, e sim fazer extraordinariamente bem as coisas ordinárias. Tanto que seu caminho para os altares foi chamado de “pequena via”. Lógica simples. Era-lhe improvável – como é improvável a 90% dos terráqueos – partir em missão para a África, presidir a França, inventar vacina, evitar guerra, sanar fome, curar morte. Era-lhe totalmente possível, no entanto, acompanhar a freira reclamona que não costumava ser a Miss Simpatia do convento (e deixar-lhe o pão já fatiado para o dia seguinte). Era-lhe possível engolir o resmungo quando outra irmã lavava roupa respingando-lhe o rosto de sabão. Ou quando o barulhito do terço de uma outra lhe perturbava as ideias. Não admira que Teresinha tenha passado à posteridade no diminutivo: foi em diminutivos que teceu sua enormidade, sua imensidão de obra. Feito colcha americana, costurou-se de minúcias, de detalhes, de entrelinhas, de delicadezas; em pouco mais de duas décadas, cobriu o mundo. Não deixou ninguém com os pés de fora. Teresinha era amor para mais de metro. Nunca usou sua pequeneza como desculpa para não ser grande.

Pois é o que fazemos, os medíocres: nos achamos demais para o pouco e insignificantes para o muito, excessivos para o que não conta e desnecessários para o que importa, desperdiçados pelo serviço e esmagados pelo sistema, guerreiros do nada e covardes de tudo. Nos “achamos” – mas não nos encontramos. Pelo menos não no cantinho que nos cabe. O único cantinho no qual somos reis, o único que conseguimos preencher inteiramente, desde que role esforço e capricho. E paciência como argamassa.

(Se o leitor for pudico demais para classificar isso de amor).