sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Corte rápido

– Paiê... eu tava pensando se rola hoje de eu ir lá na casa da Paulinha...
– Não.

– Com licença, senhora; nós estamos recolhendo assinaturas para uma ação contra...
– Não quero.

– Amor, e se a gente chamasse a mamãe pra vir...
– Nem pensar.

– Chefe, eu estava pensando... será que tem como eu ganhar um aumento?
– Sem chance.

Os quatro dialoguinhos pertencem à campanha “Corte rápido”, da Tramontina. Para simbolizar a lâmina afiadíssima das facas, os personagens tomam nãos bruscos e secos de exterminar dúvida, nãos que assassinam qualquer reticência. São filmes que não chegam a 20 segundos, hilários em sua simplicidade, por ser impossível não se identificar com os “esfaqueados”; especialmente no último caso, apiedamo-nos de seus não-conseguidos, de seus improváveis. Tão mais improváveis quanto maior é a surdez do outro ao sagrado recurso do argumento.

Intimamente, porém, achei irresistível me aliar ao time dos “esfaqueantes”, por meríssima inveja. Somos criaturas instruídas a não dar negativas, ou a estocá-las todas para explodirem na hora errada, como bueiros voadores. Se somos criaturas fêmeas, a coisa se agrava (simples coincidência que ¾ dos “esfaqueantes” presentes nos comerciais sejam bichos machos?). Mulher dizer não, não, não, só no sexo – e quando não há aliança no dedo. De resto, educam-nos para a doçura do sim, organizam-se para nos transformar desde cedinho em mães no sentido mais global: providenciadoras de conforto. Mulher é secretária dos pais, mulher é consoladora dos filhos, mulher é vice-mãe dos irmãos, mulher é pseudomãe dos alunos, mulher é travesseiro dos amigos, mulher é luminária do marido, mulher é o sim que resolve o mundo. Ai de você, megera, se decide sonegá-lo. Desabam as vigas do planeta sem suas aceitações, suas concordâncias, suas paciências, suas disponibilidades que são ombros de Atlas.

Mas por engano nascemos humanas, temos fantasias de fuga, temos desejos tramontinos. Queremos, uma vez por semana, cortar na raiz o choramingo do bebê (do bebê de cinco, dez, vinte e nove anos). Queremos recusar a rifa sem inventar falta de emprego. Queremos negar esmola sem inventar falta de troco. Queremos fatiar a tentativa de telemarketing em meio segundo. Decepar a carona para o extremo oposto do município. Mutilar o pedido de empréstimo da cunhada. Esfacelar a solicitação abusada, estraçalhar o favor inoportuno, estilhaçar o roubo descarado de nossa boa vontade, o calote dos encostos que não pagam aluguel de nós. Queremos. Fazemos? Então arriscamos nossa reputação de mártires? nosso emprego de querubins? o tema dos próximos desabafos que despejaremos no ônibus, no elevador, na feira a respeito de nossa vida dura?

Sem chance.

7 comentários:

lanna consultora disse...

BOM FINAL DE SEMANA!

paradigmas universal disse...

Gostei desse texto ele é afiado...

Luis Sapir disse...

hahahaaaaahah. Quero ver essa campanha. Deve ser hilária!

"Negar a rifa"

Muito bom!

Chega de estocar o Não! Vamos usá-lo.

France Câmara disse...

É tão chato ouvir não :S http://apaixonadasporcosmeticos.blogspot.com
@Ap_Cosmeticos
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Fábio Alves disse...

Eu adoro esses comerciais! Em especial, o da sogra... rsrsrs...

Andy A. disse...

Texto muito bom . O corte faz parte da vida e ás vezes é melhor realmente cortar o mal pela raiz rsrsrs

musicpris disse...

é inerente ao ser humano reclamar e dizer não é mais prático