sábado, 3 de setembro de 2011

Golias e Davis

Quem não conhece a velha fábula? O ratinho encontrou o leão no bosque, quase foi esmagado, mas implorou pela vida e garantiu que ainda seria útil ao bichão. Este achou engraçadíssima a ousadia do pequeno, teve piedade, soltou-o. Mais adiante, caiu ele mesmo numa rede armada por caçadores. Foi a vez de o rato mostrar serviço: roeu as cordas e libertou seu amigão felino. O bichinho-de-nada e o rei do pedaço estavam quites.

Pois ontem se deu um episódio de deixar Esopos e La Fontaines no chinelo. Em Wakefield, Inglaterra, o adolescente Adam Greening foi salvo de um afogamento pelo amigo Sam Brear. Nada extraordinário, não fossem os números envolvidos: Adam, de 16 anos, tem 1,99 de altura e 152 quilos; Sam se resume a 1,54m e, provavelmente, não chega a pesar um terço do outro. O gigante nadava em um canal perto de casa, viu que não conseguia sustentar a cabeça fora d’água e pediu socorro ao baixinho. Depois de 20 minutos lutando para trazer o nariz do grandão à tona, Sam percebeu que a hipotermia deixava o companheiro inconsciente. Arrumou forças (emprestadas de algum anjo transeunte?) para colocá-lo em terra firme e mantê-lo falando até a chegada da equipe de resgate. Médicos do hospital passaram seis horas estabilizando a temperatura do jovem Greening, que estava, segundo a reportagem, “perigosamente baixa”.

Tenho mais o que fazer do que ficar filosofando sobre esses pequenos fatos suculentos, mas fico (o que tenho a fazer pode ser mais urgente, não mais essencial). Acaba que somos, todos nós, Adams sendo salvos por Sams, ou leões por ratinhos. Dependêssemos exclusivamente de nossa grandeza, garras e juba, estaríamos lascados. Circularíamos como granadas sem pino. Escaladores tomados de excessiva bravura e pouco respeito pela gravidade. Pais e mães dotados de maravilhosa confiança e pouca percepção para a mentira. Cientistas envenenados pela própria inteligência. Narcisos engasgados com a própria belezura. Um bando de gigantes temerários, afogáveis pela própria natureza.

Mas não: nossa timidez nos salva de falar sem preparo, nossa humildade nos impede de viver sem amigos, nosso medo instantâneo não nos deixa entrar no avião que caiu, nosso enjoo permanente não nos permite viajar no navio que afundou, nossa pressão alta nos desvia dos riscos, nosso perfeccionismo nos previne dos erros, nossa desconfiança nos afasta dos golpes. Se somos feios, chatos, medrosos, cabeças-duras, cricris, pode não ser frequentemente interessante, notavelmente divertido ou exatamente sedutor – mas alguma utilidade tem. São esses ratinhos e baixinhos de estimação que precisam tanto entrar em campo para nos resgatar de nós mesmos, para impedir que nos depositemos em – e desabemos de – prateleira tão alta.

Perigosamente alta.

9 comentários:

Blogueira disse...

"...nossa timidez nos salva de falar sem preparo..." Concordo plenamente, acho até que todo mundo poderia ser um pouco tímido para não falar asneiras.

LADY D. A. disse...

Adorei vc ter trazido essa história. è realmente adorável ^^

Andy A. disse...

Legal mesmo essa história , muitas vezes precisamos ser salvos de quem achamos ter menos força ... apenas achamos ...
http://andyantunes.blogspot.com/

It'sM disse...

haha, adorei seu blog!

SєиhσяiTα Fαbby♀ disse...

quem disse que tamanho é documento?
td bem com vc Fernanda?
me desculpa a demora em aparecer por aqui, estou tendo dias muito corridos!
seja super bem vinda ao meu blog!
espero que se sinta em casa, para visitar e também opinar sobre os assuntos!
beijokas perdidas e estou aqui adorando os textos e claro te seguindo!

Angelus disse...

Olá! Meu amigo Marcus, do blog Olhar Receptor, fez elogios ao seu blog e vim conhecê-lo.

Realmente se dependêssemos de nós mesmos não iríamos muito longe. Nossas limitações e até alguns "defeitos" são os nossos ratinhos-da-guarda. Além, é claro, daquelas pessoas pelas quais não damos nada, mas que no fim nos surpreendem e se mostram grandiosas.

Gostei muito do blog e do seu estilo de escrita. Parabéns.

Voltatei mais vezes.

lanna consultora disse...

BEM LEMBRADO ESSA FÁBULA.
BOM DOMINGO.

Gabriel Pozzi disse...

pois é, e serve principalmente como exercicio de humildade, muita gente que é prepotente e acha que nunca irá precisar das outras...
a gente SEMPRE precisa das outras pessoas!! seja para sorrir, para brincar, para amar, ou até mesmo, para nos salvar! ;)

http://songsweetsong.blogspot.com/

France Câmara disse...

Tu fala de assuntos muito interessantes, legal alguém pensar nisso! :} http://apaixonadasporcosmeticos.blogspot.com/
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