quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Modo de primavera

Oficialmente continuamos no inverno (pelo menos são as informações do calendário, este esquizofrênico que renega a verdade: estações do Rio não se renovam a cada três meses – trocam a pele de 24 em 24 horas. Mas isto, vá saber, pode render conversa para um próximo post). Continuamos no inverno até os vinte-e-qualquer-coisa de setembro. Eu não. Eu – que continuo no inverno, nasci no outono e adoro o verão – vivo em modo de primavera.

Porque as pessoas escolhem seus modos. Há os hibernais, naturalmente pendentes para a austeridade, que em nada se amofinam num cotidiano preto-branco-cinza-azul-marinho. Têm alma de amish, deleitam-se com o básico, curtem contenção e minimalismo, embora não sejam necessariamente ranzinzas: apenas não se transbordam nem veem gozo no desperdício. Há os outonais, que transpiram blues; não desgostam de um derramamento, mas em baixo volume. Nasceram de natureza filósofa, melancólica, europeia, com espírito de árvore e biblioteca, de vinho e chocolate meio-amargo. Há os estivais, histericamente felizes, diurnos, cítricos, solares. Expandem-se fáceis, entregam-se abertos, acampam, pulam carnaval, pulam micareta, riem de besteirol, animam grupos e topam programas de índio. Quando não os propõem.

Há os primaveris. Andam em perpétuo estado de nascimento. Mesmo se machos, são femininos, telúricos e caminham nas entrelinhas. Gostam de rosa, em todos os sentidos. Apaixonam-se por amenidades que reúnam os extremos. Moram nos nasceres e nos acabares de dia, por preferirem o céu mesclado de coral e o ar cheirando a sereno. Gostam de sereno, em todos os sentidos. Não compreendem a existência sem supérfluos: flor, cor, anel, renda, vaso, quadro, cinema, açúcar, lencinhos úmidos. Querem brisa, não querem vento, porque levanta a saia (como os primaveris usam saia!). Curtem palavras antigas, especialmente proparoxítonas. Tecidos moles. Trilhas sonoras. Caixas decoradas. Danças de salão. Licores. Cachoeiras. Cupcakes. Borboletas. Almofadas. Fadas. Números, só de balé. Papéis de carta. Papéis de parede. Papéis de presente. Gostam, aliás, de presente – em todos os sentidos.

Primaveris assistem a programas de casamento, cantarolam na rua, evitam multidões, guardam ao menos um bolero (ou xale) colorido no armário. Têm simpatia por verde-água e não saem sem perfume. Têm antipatia por eletrônica, colecionam temperos, veneram Martha (Medeiros) e Jane (Austen), habitam sobre sandálias ou sapatilhas.

Primaveris também sabem que isso tudo é uma grande bobagem e levam com bom humor (inglês) quaisquer rotulações absurdas. Se além de primaveris forem cariocas, estão convictos de que o bacanamente gostoso é misturar as estações.

(Em quase todos os sentidos.)

4 comentários:

Carol disse...

Amei entender um pouco dos Priamvareis! uashuash
:D

Carol disse...

*Primaveris

felipe leon disse...

Gosto bastante destas estações "intermediárias' como a primavera e o outono .

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

EU SOU UM OUTONAL: GOSTO DE BLUES, EVITO MULTIDÕES, GOSTO DE BARES E CLIMAS NOTURNOS, CURTO MUITAS LEITURAS E ADORO COLECIONAR LIVROS. ENFIM... UM LOBISOMEM CULTO.


DEPOIS DE LER O COMENTÁRIO, PASSA LÁ:
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/09/desejo-de-loucura-total-ou-ode-ao.html