domingo, 11 de setembro de 2011

Os que viveram

Dez anos atrás, lá estávamos: embasbacados diante dos televisores da faculdade. Atônitos. Recebendo e dando telefonemas perplexos. E nós nem éramos americanos (infelizmente, continuamos não sendo), nem tínhamos lá familiares ou amigos; aquilo nem nos afetava em nossas corriqueirices. Mas, de algum jeito, afetou. De repente não éramos mais os mesmos e vivíamos como nossos pais. Um pedação de inocência, um dos últimos, foi embora. Aquela adorável ingenuidade que separava os absurdos fictícios das tragédias factíveis. Aos 21 anos, podíamos compreender (compreender, não aceitar) assaltos, sequestros e tudo mais que coubesse numa edição do Jornal Nacional. Aquilo não cabia – ficava restrito às telonas dos Cinemarks nascentes. Infâncias têm o hábito de acabar quando se percebe que o que acontece no cinema não pode ocorrer na vida real. A infância do planeta acabou quando percebemos que podia.

E nós nem éramos americanos. Imagina quem era.

(Não, não os que morreram.

Os que viveram.)

Se nós prosseguimos com um hemisfério a menos no coração – nós que não engolimos a fumaça empesteada, nós que não tivemos o pulmão carbonizado, nós que não recebemos ligação do voo 93, nós que não esmurramos a porta do elevador da segunda torre, nós que não nos despedimos do pai-irmão-filho-marido bombeiro, nós que não nos ajoelhamos quando o bombeiro trouxe alguém no ombro, nós que não esquecemos como era o ar sem as cinzas, nós que não mantivemos o último recado de voz na secretária –, tento calcular quantos por cento de coração devem ter sobrado para quem engoliu, recebeu, esmurrou, despediu-se, ajoelhou-se, manteve-se existente após ter morado dentro do 11 de setembro.

Se nós, em nossos quilômetros de segurança, mal pudemos nos acostumar com a Terra recém-inaugurada, tento estimar o que foram o 12, o 13, o 14 de setembro para quem teve a rotina demolida e cismou de permanecer respirando. Quem tomou o café amante e almoçou viúvo, quem dormiu ninado e levantou órfão. Quem precisou entender mais depressa. Quem precisou decidir mais depressa. Quem precisou resolver em segundos se fazia um esforço de horas para continuar residindo no planeta, apesar de. Quem foi tragado em tempo real pelo surrealismo aberto no meio do dia. Quem foi tragado para sempre e não teve tempo real de resolução. Era urgente viver, just because. Ainda que viver não parecesse mais um hábito.

Minha homenagem aos que morreram. Minha homenagem mais doída aos que morreram e viveram para contar.

9 comentários:

Jefferson Prime disse...

bem legal...

France Câmara disse...

Muito triste o que aconteceu, e mesmo que tenham se passado dez anos, não iremos esquecer! Beijos

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Andy A. disse...

Um dos momentos mais tensos e tristes da humanidade , com toda certeza .
http://andyantunes.blogspot.com/

Lucas Adonai disse...

uma palavra:

trágico.

julianamenegussi disse...

é, esse é um fato que mudou o mundo pra sempre.

Lillo Dogmez, o licantropo. disse...

UMA FARSA TÃO BEM BOLADA E TÃO BEM CONTADA, QUE ATÉ HOJE QUEREM FAZER O MUNDO ACREDITAR QUE FOI O TERRORISMO. TENHO PENA DOS QUE VIVERAM E ESTÃO CALADOS SEM REVELAR A VERDADE DO QUE ACONTECEU.

DEPOIS DE LER O COMENTÁRIO, PASSA LÁ:
http://thebigdogtales.blogspot.com/2011/09/o-monge-e-o-licantropo-3-parte.html

Rock in Culture disse...

Olha foi triste e tudo mais porem não justifica uma guerra e perda de mais vidas e tal Legal o Post PARABENS

Luciana Martins disse...

Ruim saber que existem pessoas que se sentem felizes em tirar a vida de outras. Não concordo que religiao ou coisa do tipo tenham haver com isso. Muito triste tal realidade!Legal o blog!

Adriano disse...

foi um dos dias mais dolorosos da história da humanidade. aos que viveram, fica a pergunta: o que faremos dessa dor?