terça-feira, 6 de setembro de 2011

Greta Garbo já dizia

Num dia qualquer de faculdade, há mais ou menos dez anos, a turma já havia debandado da sala e eu lá continuei, arrumando ou lendo não sei o quê, com toda a calma. Um colega vinha passando por ali e brincou, “está aí tão solitária”. “Sou um espírito solitário”, brinquei de volta com um sorriso – ansiosa para que o sorriso desse a entender que não, não tinha sido abandonada e não era necessário me esperar. Para reforçar, expliquei que estava acabando de arrumar ou ler não sei o quê, com toda a calma. Felizmente minha linguagem corporal foi clara, o colega se despediu com novo sorriso, eu me despedi com um terceiro e continuei a atividade desapressada. Fatozinho tão fortuito – mas ainda relembro a cena como um ícone.

Ontem fui à Bienal do Livro com um grupo de escola. Um grupo adulto, entenda-se. Delícia. Não havia quem precisasse de supervisão e cuidados. No ônibus de ida e volta, fui mergulhada em livro da Martha (sim, já cheguei à Bienal com livro). E no Riocentro, uma vez ultrapassada a bilheteria, o grupo se dispersou. Alunos (adultos) circulando livres, professores (adultíssimos) passeando juntos. Desgarrei-me das duas vertentes e fiquei inebriada de felicidade por brincar na Bienal com minha própria bússola. Liberdade que dava até boa vertigem. Construí meu percurso a esmo, minhas pausas, minhas compras, minhas fotos, meus lanches, minhas idas ao banheiro com alegria de pluma. Na hora combinada, todos juntos de novo. Comentei, comentamos felizes sobre o êxito do passeio – aquela socialzinha animada e básica. Veio o ônibus, voltei à leitura enquanto as luzes estavam acesas. Depois de apagadas, ficamos conversando eu e meu espírito solitário. Felizes.

Não me entendam mal: não sou antipática, não tenho problemas com grupos, não brigo com colegas, não sou antissocial e só dou fora em aluno quando é urgente e inadiável. Definitivamente não sou misantropa. Apenas me dou bem comigo mesma a ponto de curtir os bons sabores da solidão sem traço de incômodo ou desespero. Solidão inclusive de outras vozes. Não tenho um mísero mp3. O silêncio é meu chapa e mui bem-vindamente me acompanha, gentil o bastante para não interromper diálogos entre o eu e o mim. O silêncio é um autocavalheirismo.

Adoro comentar filmices partilhadas, mas também me escarrapachar sozinha no cinema em clima de encontro clandestino. Sou fãzaça de uma reunião cheia de besteróis entre amigos, mas também de considerações solitárias sobre a paleta de um pôr de sol. Amei passear em turma na Disney, também amo seguir meus itinerários particulares. Acho o máximo juntar festivamente a família, também me amarro em almoçar comigo. Sem neuras. Sem se estar falando aqui em dependência ou independência. Dependentes somos todos (é bom a pátria amada se lembrar disso amanhã). Estou apenas confortável em minha pele o suficiente para não entrar em parafuso se fico dez minutos autoconfinada, nesse BBB individual em que tantos piram. Não aguentam se ver forçados a encarar pensamentos, cumprimentar vontades, dar de cara com aflições sem poder atravessar a rua. Não suportam o nhenhenhém das próprias vozes – de dentro. Não toleram os próprios ocos, os próprios ecos. Em consequência, penduram-se nas solidões alheias o máximo possível, exasperando-se quando lhes falta a cachaça de uma companhia. Bebem os outros para se esquecer.

Nenhum problema em fazer do amor almofada, desde que não vire chave de cadeado. Deste eu em que moramos não adianta pedir para sair.

5 comentários:

Carol disse...

Eu tenho esse tal espírito solitário também!
amei comos sempre.

Elaine Bandeira disse...

é sempre bom se dar bem consigo mesmo!

ótimo conto!
bjo
http://floresmaquiadas.blogspot.com/

Aline Diedrich disse...

Que maravilhoso seu texto... Somos de momentos... As vezes queremos estar com amigos, outras vezes não... Mas tem gente que por medo acaba fugindo de um momento só seu...

Heitor Evo disse...

filmeces? novo termo heim rs

belo blog

best fakes disse...

seus textos são maravilhosos adoro seu blog...parabéns beijos

http://bestfakesnet.blogspot.com/