segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Nada mais que a verdade

Ontem passamos o dia fazendo curso de noivos, uma das etapinhas de preparação para o casamento. Várias palestras. Vez por outra, reuníamo-nos em círculos menores para comentar o que havia sido dito, e, ao final, o casal relator de cada círculo expunha para todos os participantes as conclusões a que seu grupo tinha chegado.

Um dos temas apresentados nas palestras foi a precisão de dizer a verdade ao outro. Sempre. O assunto, claro, deu polêmica. Então se meu marido – questionou uma das noivas de meu círculo – prepara um estrupício de um jantar querendo fazer surpresa, eu devo cortar a onda revelando que está intragável? Outra completou: se ele sofre excessivamente por mim quando relato os problemas com minha mãe, será saudável continuar desabafando?

Como era de se esperar entre pessoas adultas, o grupo entendeu que a questão não reside tanto em trazer a verdade, e sim na maneira de trazê-la. Aparar detalhes que só serviriam para arranhar sadicamente, atenuar, escolher a luz, trocar o cenário, embrulhar em papel de seda, colocar cortina. Não há decreto determinando que verdade tem de ser lanterna na cara. E se for um abajurzinho aconchegante no canto? O que definitivamente não pode: usar a honestidade crua como disfarce de vingança. Porque tem gente assim (gente que, potencialmente, atende pelo nome de todos nós) – os serial killers verbais. Os sincericidas. Os que se deleitam em encostar o dedo indicador no nariz alheio e gritar verdades, todas verdadeiríssimas. Os que levam sua grosseria para passear com a roupa bonitinha da lucidez, da objetividade. Os que se orgulham da crueldade destilada sob pretexto de franqueza. Os que entendem a ausência de mentira como liberdade condicional para todos os demais defeitos, um salvo-conduto para a deselegância. Os que não têm piedade, tato, doçura, serenidade, medida nem semancol, mas são sinceros – ah, são sinceros. Por que não seriam? É tão divertido se considerarem os agentes puríssimos de Sua Majestade, abarrotados de licença para matar.

A noiva relatora de outro grupo foi quem expôs a questão do modo mais brilhante, numa metáfora que ela mesma já ouvira de alguém (e que tratei de guardar em meu entupido armariozinho de metáforas). Disse que a verdade, de preciosíssima, pode ser comparada a um diamante – reluz límpida, transparente e forte. Mas o fato de um diamante ser o tesouro que é não o exime de machucar uma criatura, se for nela atirado. Calcula levar pela cara a mais dura, inquebrantável das pedras? Nessas horas não se quer saber de preço, lapidação ou grau de pureza: fica nadinha do presente, fica o galo na testa, o nariz fraturado, o corte sangrante no supercílio.

Uma lástima, a lei não deter sincericidas por porte ilegal de arma. Nenhum usuário da honestidade hardcore deveria se dirigir por aí sem carteira de habilitação.

5 comentários:

Elaine Bandeira disse...

Muito legal o post sobre o curso para noivos! a honestidade para mim é a base de tudo!

Ah! Tem um selinho pra você no meu blog!

http://floresmaquiadas.blogspot.com/2011/09/meus-primeiros-selinhos.html

bjaum

Rock in Culture disse...

Oh que fofo não posso falar muito não so romantico sabe mais bem fofinho o post

diogo disse...

gostei da dinamicado texto, acho que poderia utilzar uma imagem a mais

Suzy disse...

"A verdade, por mais dura que seja, nos deixa fortes."
[...]

Ótima semana!

Anônimo disse...

Eu acho que deve SEMPRE falar a verdade, porém, sem ofensas, acho que os casais deveriam fazer um curso SÓ disso.


http://www.diariodagarotadevariasfaces.blogspot.com/
sigo quem me segue e retribuo comentários