quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Não-me-toques

Homem é um ser engraçado. Quando duas amigas entram no ônibus, no metrô, como é que se sentam? Juntas, é óbvio (se a condução permite). Ficam lado a lado, botando assuntos em dia entre risadas, risadinhas, cochichos. Uma pega a mão da outra para checar o esmalte Resplendor do Nilo, passa-lhe os dedos no cabelo para conferir a hidratação, mergulha olhos nos olhos. Uma longa coreografia de afeto, uma relação selada em rituais de minicarícias. Amigas são sempre menininhas trocando diários numa festa do pijama.

Amigos não. Adolescentes, em especial. Entram no metrô em time e debandam. Se são quatro, usam quatro bancos livres – um refestelado em cada; pernas e braços derramados sobre o lugar vazio no banco, marcando território. Continuam, porém, conversando com entusiasmo idêntico, os interlocutores dispostos nos quatro polos da rosa dos ventos, partilhando o tema aos brados e gargalhadas com os senhores passageiros. Homem que é homem não tem essa de pertinho. Posiciona-se como se o outro fosse portador do ebola e (jeito macho de se comunicar) dialoga com fúria. Berra os ditos e as piadas. Talvez para amealhar testemunhas de que, em nenhum momento, falou-se de hidratação.

As pequenas carícias que mostram proximidade de meninas viram, entre meninos, pequenos espancamentos. Tem de haver toque? OK; então que seja direito. Para tirar sangue. Podem chegar a se abraçar, mas em geral com prejuízo de alguma costela. Sonoramente: é essencial que a performance afetiva seja sonora. Uma batida de mãos masculina atinge, calculo eu por alto, uns 87 decibéis, variando para mais conforme o grau de amizade. Se o tapa fizer um transeunte se abaixar achando que é tiro, pode crer que o elo é bastante para um querer segurar o outro e dar um beijo na careca do desgraçado. Homens entregam carinho dentro da (masculamente aceitável) embalagem de pugilato.

Acho cômico. Mas adoro quando os desencanados quebram a tradição e mostram evolução na espécie. Houve casos nos últimos BBBs: os varões da Casa se abraçando longamente, afagando a cabeça, chorando no ombro espadaúdo do outro confinado. Vão além e beijam o rosto ou testa do companheiro. Fico maravilhada. Esses são os cabras-macho sem frescura, que dão a cara pra bater – psicologicamente falando – diante de um Brasil todinho e de seu patriarcalismo ainda fofoqueiro e julgador. Se há algum tracinho de coisa boa no reality, é que anda ajudando a naturalizar o que deveria ter sido natural mais ou menos desde o início dos tempos: afeto exibido com o mesmo despudor com que se exibe agressão.

E sem tê-la (de penetra) na festa.

3 comentários:

Jefferson Reis disse...

Que crônica maravilhosa. É desse jeitinho mesmo que acontece. Dia desses eu estava em uma palestra com um colega de classe e ele se virou pra mim e falou: Jefferson, vamos ao banheiro? Levei um susto porque, isso em geral é coisa de mulher. Não vemos homens indo juntos ao banheiro, mas eu fui.

zumbi disse...

Amigas são sempre menininhas trocando diários numa festa do pijama.

auauauaa
achei 10
bem legal

http://zumbiliterario.blogspot.com/

Jackie

Cherry Bomb disse...

Adorei! Concordo plenamente!
Ainda bem q sou "menina".. rs

Bjuxx
http://un-necessary.blogspot.com/