quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Taking it easy

Desde 2007, 28 de setembro é o Dia Mundial Contra a Raiva. Claro que tratamos da raiva-hidrofobia, aquela que faz cães salivarem borbulhantes, como bichos danados. Mas vamos fingir que não. Vamos fingir que falamos mesmo da primeira que nos vem – ou que nos sobe – à cabeça, a que transforma bons guris em matadores de professora, alunos tímidos em exterminadores de turma, motoristas pais de família em esmagadores de crânio. Vamos fingir; face aos acontecimentos das últimas décadas, poucas epidemias houve piores. Vamos fingir, que estamos precisando.

A raiva que não é hidrofobia tem vacina? Tem vacina. Nem carece de posto: duas colheradas diárias de tempo e silêncio resolvem o assunto. Tempo, sim, porque nada põe a humanidade mais nos cascos do que o fato de viver (?) atrasada para alguma coisa. Numa síndrome de coelho da Alice, já saímos pela manhã como pacmen engolindo o mundo sem mastigar. Não pisamos na rua, adentramos uma tela de game, papando cada minutinho que dê sopa e fugindo aos obstáculos que comprometem nossa logística – sinal de trânsito, faixa de pedestre, lata de lixo, esses fantasmas. Se o casalzinho fechou a passagem da escada rolante, pronto: raiva. Se a senhorinha demorou 10 minutos no caixa eletrônico, pronto: raiva. Se o carro ao lado tirou um nanomilímetro da pintura da porta, não há dúvida: raiva furibunda. Entrou na vaga um segundo antes? Ganhou inimigo mortal, para todos os séculos. Estamos inflamáveis, estamos descompensados. Em nome da civilização, disputamos o tempo com requintes de selvageria. Tanto pautamos nossos deveres pela exigência alheia que, no corre-corre, esmagamos o alheio. A raiva do apressado já nasce absurda, não sendo mais do que ressentimento contra quem nos impede de consumar nossos sacrifícios mais cedo.

O outro santo remedinho: silêncio. Silêncio é justamente a percepção interna do tempo, ou seu melhor garoto-propaganda. Silêncio é a avenida onde se dá de cara com a gente mesmo e se pergunta por que cargas d’água estávamos correndo, anyway. Em silêncio, não temos escapatória quanto ao que deixamos mal resolvido entre nós e nós (essa nossa predisposição para virar Hulk, afinal, é coisa de gente que não anda se encontrando consigo para conversar).

Silêncio é o ato de existir para dentro. Raiva é quando não nos habitamos plenamente e preferimos lastimar a existência da porta para fora. Quem tem raiva, tem-se saudade – é um sem-teto de si próprio, que empurra toda a bagagem dolorida para a vida do vizinho. O raivoso, enfim, pode não ser má gente. Só não é gente o bastante para marcar horário com as velhas dores em lugar mais discreto. E não faltar.

3 comentários:

Andy A. disse...

Gostei da diac do silêncio como "remédio" pra raiva .
http://andyantunes.blogspot.com/

Millena disse...

Todos nós jáfomos acometidos pela raiva algum dia, afinal de contas somos seres humanos.

Belinha disse...

Bom eu lido tbm com silêncio a raiva
Mais o me segredo respirar e encontrar um ponto fixo.. hei amiga passa la no meu blog amada !!!


http://mundodebelinhasp.blogspot.com/