sexta-feira, 16 de março de 2012

Bom dia, tristeza

Parei em outro trecho dA abadia de Northanger, aquele livrito de Jane Austen. Mal chega a ser trecho, limita-se a frase: “Catherine estava infeliz demais para sentir medo”. Só um escritor agudo diz tanto em tão pouca letra. A infelicidade, se existe deveras (que palavra oitocentista é “deveras”!), existe assim: sempre como uma urgência superior às outras fomes. Ficamos infelizes também por cansaço. Ficamos infelizes, às vezes, para tirar um desejável passaporte de irresponsabilidade.

O ser infeliz mergulha-se tanto, afunda-se tanto em si próprio que não lhe sobra agenda para o mundo. Tristeza é um álibi. Porque excessivamente tristes, estamos (ou nos consideramos) dispensados de nós mesmos. Cabulamos compromissos, deixamos empregos, descartamos velhos pavores, levamos para a lixeira tanta coisa que sonhávamos ser obrigados a abandonar por algum motivo de força maior. Infelicidade no grau mais fundo, mais insuperável, é nosso motivo de força maior. Não há questionamentos. Ninguém nos interroga de nossas prioridades. Existe um respeito generalizado à tristeza que a felicidade, coitadinha – a tola, a frívola –, não consegue alcançar em suas petições. Felicidade, aparentemente, não tem emergências.

Tristeza é a maior das chancelas. Quando nos encerramos em nossos lutos, tão intensamente os outros nos desejam alegres que se veem prontos a aceitar caprichos. É nos momentos das agonias horrorosas que ganhamos ao menos um privilégio: as pequenas satisfações culpadas viram lei e ordem. Naquele conjunto de deliciazinhas gigantes é que nos escoramos – aquelas; as que a sobriedade, a sabedoria de nosso estado natural nos fazem evitar. Infelizes, temos passe livre. Chocolates perdem o tabu, ginásticas entram em stand-by, cinemas longuissimamente adiados vão pras cabeças da fila, um ou outro ponto sem assinar fica esperado e normal. Todos mimam o triste; todos o pressionam a fazer justinho o que mais ama. Anistiam-no dos minicrimes de guerra e das loucuras catárticas. Abonam-lhe as verdadinhas perigosas e as mudanças súbitas. Abrem-lhe a porta fechada há tanto: seja-se. Plenamente. Seja o mais alegre possível enquanto estiver socialmente amargurado, desde que não fique se amofinando aqui tão perto. Sai pra lá com essa downzice inoportuna.

Vai daí que o povo defende com unhas e dentes sua garantia de compreensão eterna. Juram, cantam e recantam: tristeza não tem fim – porque nessa crença vai seu aval de felicidade. De felicidade, sim.

2 comentários:

OGROLÂNDIA disse...

defendo ardentemente que não existe felicidade nem tristeza...existem momentos e só.

Cicero Edinaldo disse...

a vida tem vários sabores...em alguns momentos pensamos que é amarga...em outros doces...mas na verdade a vida é agridoce.
---
devemos aproveitar cada migalha dela...hoje e sempre.
---saudades de vc no meu infinito particular.