segunda-feira, 19 de março de 2012

A náusea

Nojo. Nojo de sermos encaçapados por uma verdade de Fantástico tarde demais para que nosso choque pareça maior que o desânimo da feijoada de domingo e o da véspera de segunda. Nojo de resmungarmos que-absurdo (patrioticamente) enquanto arrumamos a bolsa para o dia seguinte. Nojo de amarmos o conforto existencial sobre todas as coisas. Nojo de nosso sono. Nojo de nossa preguiça. Nojo de termos mais o que fazer. Nojo de nossa nauseabunda ausência de nojo.

Nojo da indignação de barzinho – a discussão política que acaloramos (patrioticamente) entre uma cerveja e outra, e que morre virgem sem ganhar forma, ação, direção, cabeça, tronco, membros. Nojo de xingarmos todo o alfabeto de partidos e não reclamarmos do chope que veio a menos na conta. Nojo de precisarmos conferir a conta. Nojo de não reclamarmos do que veio a mais na conta: a iluminação da rua, o terno dos deputados, o cimento dos novos estádios, a Disney dos vereadores. Nojo de quem deveria ser o primeiro dos servos posando de maior dos patrões. Nojo do jeitinho. Nojo do tapinha. Nojo do cafezinho. Nojo da propina. Nojo da mamata.

Nojo de habitarmos um circo sob a lona de cinco estrelinhas – com esperança de, daqui a dois anos, abocanharmos a sexta. Nojo da dogmática alegria de quem se contenta com céus e mares e matas e montanhas. Nojo do nacionalismo basbaque. Nojo da felicidade de proveta. Nojo da aceitação pastosa, nojo do futuro que só vai até o sábado seguinte. Nojo dos narizes torcidos diante dos que denunciam. Nojo da incredulidade diante dos que restituem. Nojo da zombaria aos que respeitam. Nojo da adoração aos que jogam, aos que cantam, aos que atuam, às que rebolam. Nojo de nosso orgulho servil pelos que, estrangeiramente, se projetam. Nojo de ser malvisto o fato de se ter nojo. Nojo de só nos comprazermos e destacarmos pela falta: de erupções, de geleiras, de terremotos. Nojo de nossas qualidades se calcarem no que absolutamente não nos compete. Nojo de nossa sorte geográfica engolir nossa sem-vergonhice histórica. Nojo de os alunos ficarem felizes com a greve. Nojo do masoquismo, do bonzismo, do hienismo e do pouquismo da cultura. Nojo de nossas belezas nos ofuscando e afogando como más Iaras.

Nojo de ser excessivamente tarde para haver tido outro passado e outro chão; para não haver criado laços tão linguísticos, tão estáveis com o solo que amo por costume, e que me enoja. Nojo dessa saudade, essa saudade imensa do que não fomos nem vivemos. Nojo de não sabermos abraçar responsabilidades sem vício de prêmio ou de aplauso. Nojo de sermos focas de show aquático, subornáveis por qualquer tostão de peixe. Nojo de apenas a teima de sobrevivência ser nosso instinto incorruptível. Nojo de nossa paixão incondicional pela vantagem. Pela mais micróbia vantagem. Nojo de existirmos, ainda e sempre, sob a égide de Dom Gérson Primeiro.

Nojo de ele não ter sido o último.

Um comentário:

Mylla disse...

Achei o texto muito, muito bom. Mas quando o tema é esse, sempre prefiro adotar um meio-termo. Acho sim que a gente tem que ter nojo de tudo que tu mencionou aí - bem mais do que nós temos, porque falamos muito e agimos pouco -, mas não acho correto nem justo apontar e/ou reconhecer apenas as "nojeiras". Enfim, vou parar por aqui ou começo a divagar! Hahaha.

:*

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