quinta-feira, 15 de março de 2012

Propaganda enganosa

A coisa é velha, dos tempos de eu menina. A gente ia às Casas da Banha e não tinha porquinho dançando o chá-chá-chá. Cadê os porquinhos que nos convidavam pra dançar o chá-chá-chá? Absurdo. Deselegância. Chamar os amigos na maior desfaçatez e não aparecer, que nem o Arnesto do Adoniran. Depois lambíamos com vontade o Pirocóptero de morango, na esperança de fazê-lo voar levíssimo como o da televisão, glorioso em sua hélice colorida. Voava pelo quê? meio milésimo de segundo; e nós ali, crentérrimos de que o problema era com a gente. Com as nossas mãozinhas inaptas, desacertadas. Todo mundo conseguia, só lá em casa os mistérios do comercial eram vedados; eram da ordem (da seita?) dos que “pertenciam ao mundo”.

As bonecas andantes, falantes, viravam Emílias de plena independência nas propagandas da TV – e as meninas babávamos do outro lado da tela, numa fé inocente de que ganharíamos amigas verídicas, animadas em todos os sentidos. Viriam criaturas de maravilhosa vontade própria para espantar nossas pequenas solidões. Não vinham. Sabíamos que não vinham, mas nos deliciávamos no engano. Não vinham brinquedos que vivessem; nem (mais tarde) desconhecidos que oferecessem flores num impulso; nem meninos bonitos que trouxessem um Laka de presente; nem quaisquer novidades que espantassem nossas solidões maiores. Não vinham manhãs que tocassem Vivaldi nem emoções colossais na caixa do primeiro sutiã. Mal vinha, solene, o primeiro sutiã. Tudo era um grande contínuo, tudo eram transições lentas; sem coros, sem trilhas, sem orquestras. Tudo escorria sem a bússola dos rituais. Tudo era – subitamente – uma vez.

Continuou não vindo o “efeito Afrodite” dentro dos frasquinhos de xampu, a pontualidade intestinal dentro dos potes de lactobacilos, a habilidade manual dentro das caixas de lápis de cor. Continuou não sendo mais intensamente verão por causa de um Rider, continuou não sendo tão inverno a ponto de haver ursos polares por causa de uma Coca. O mundo prosseguiu sempre normal, inaceitavelmente. Uma terra de cafés da manhã sem o prometido sol das margarinas, uma terra de passeios com amigos sem pinta de musicais da Broadway, um universo de empregos em que a promoção não começa na bonita camisa. O caos.

Pego este Dia Mundial dos Direitos do Consumidor para deixar registrado meu esbravejo: andam vendendo uma realidade pra gente tão diferente da propaganda! tão rica de defeitos de fábrica, tão vazia de “bem-vindos” e “volte-sempres”. Tão mentirosamente cheia de insatisfação garantida. (E o mais intolerável:

Sem nosso dinheiro de volta.)

4 comentários:

tiu disse...

o mercado hj ta cheio disso hoje em dia..



http://www.saudadedoce.blogspot.com/
passa la.

Guru do Metal disse...

era legal esses pirocopteros eu conseguia fazer eles voar por um bom tempo até

http://rocknrollpost.blogspot.com/

Fabinha disse...

Pode crer... São raras as empresas que ainda se dispõem em zelar pela boa relação com os consumidores... Porque a boa qualidade de seus produtos é uma obrigação, e não um "favor/agrado".

Parabéns pela blog!
http://quandotahescuro.blogspot.com/

Beijos

Aline disse...

Sua crítica é ótima... Estou no último semestre de comunicação social e nos deparamos com cada "case" ehehehe... A verdade é que existe muita "propaganda que engana" por aí...o que as pessoas precisam, nessa era da informação, é justamente procurar se informar sobre o produto antes de adquirir e se algo sair errado, buscar os "direitos do consumidor"...


http://alinediedrich.blogspot.com/