quarta-feira, 14 de março de 2012

Uns dedos

A desconhecida se apoiava docemente, de lado, em um dos seguradores no meio do metrô. Era como a Catherine Morland de que falei no último texto: mediana. Digo, alta e magra – bem alta e magra em excesso, até para meus padrões de inveja feminina –, mas de beleza mediana. Beleza plácida, suave, sem olhos (nem nariz, nem boca) de ressaca; agradável de ver, embora sem ímãs irresistíveis. Em termos de modelito, o mais básico de todos os universos: calça jeans moderadamente folgada, blusa preta lisa, sapatilhas. Cabelos escuros, médios, molhados. Mochila cáqui. Um nítido desconforto com a própria magreza, talvez não tão bem distribuída em tantos e tantos centímetros. Mas não havia incômodo nos traços delicados, que eram, ao contrário, imperturbáveis. Havia incômodo na linguagem do corpo – recostado, recolhido, recoberto ao máximo pelo cruzar de braços. E tudo morava nesse cruzar de braços.

Por causa do cruzar de braços, ficou em plena exibição uma das mãos da passageira. Ficou à minha altura, piscando o olho. Tremendo abracadabra: morava ali o ímã! Impossível não admirar a mãozinha a um só tempo mimosa e longa, longa, tão fina e tão torneada, de dedos tão de pianista, afilados, perfeitos. Unhas apenas suficientes para coroá-los com graça, sem recurso de esmalte. Uma escultura. Uma esculturazinha presa a um corpo que mal suportava a si mesmo.

E assim não somos todos? Não somos moldura de nossos melhores traços, não somos álibi de nossas melhores porções, não somos condição de existência para nossas perfeiçõezitas de estimação? Não somos veículo usado para as formosuras particulares passearem no mundo? Somos transportadores de belas mãos, pestanas, lábios, cabelos; e, se cada um de nós vem a ser uns maravilhosos dedos (ou pestanas, ou lábios, ou cabelos) cercados de um resto de pessoa por todos os lados, não há, em compensação, ninguém que não tenha um elemento incomparável. Ninguém que não tenha uns olhos ciganos de Dom Casmurro, uns braços luzidios de “Uns braços”, um narizito petulante de Sítio do Pica-pau Amarelo, umas tranças abissais de Rapunzel, uns pezinhos indecentes de Pata da gazela. Ninguém que não seja amável da parte pro todo, que não seja tomável do gole pro litro, que não contenha metonímia pronta de si próprio. Ninguém que não traga seu quê exclusivo, único, apaixonável; seu cartão de visitas, sua isca de hipnose, seu instrumento de embevecer gente.

Tanto melhor se lhe calha um essencial invisível aos olhos.

4 comentários:

eumacleamaral disse...

GOSTEI DO TEXTO TEM UM RITMO CERTO
AO MEU PONTO DE VISTA JÁ QUE SOU LEIGO DEMAIS NESSE TIPO DE ESCRITA,
PARABÉNS PELO BLOG.

Juliana Marques disse...

Adorei o texto, realmente o essencial é invisível aos olhos.

Jac Bagis disse...

amei o texto, vc escreve muito bem, parabéns!

http://seenovidadeeuquero.blogspot.com

Samira, disse...

Muito lindo o texto. Parabéns :)

http://thebookofmydreams.blogspot.com/