sábado, 31 de março de 2012

As duas torres

Há 123 anos nasceu ela, a primeira. A visível. Seus 324 metros – durante tanto tempo invencíveis no mundo, insuperáveis – irradiando ares de rainha. Linda. Elegantemente pousada, com base e com força, e ao mesmo tempo delicadíssima de esbelteza, como toda fêmea parisiense. Feita (parece) de rendas de ferro. Alta, magra, envolta em cinza, basiquérrima e charmosa, dura e vazada de sol, contorno produzido para ser tão igualmente belo no detalhe quanto na silhueta, tão pleno contrastando com o nublado outonal quanto se opondo ao azul estúpido da semana de verão. Nasceu fálica e felina, banhada em feminilidade de aço. Nasceu simbólica. Virou símbolo. Virou símbolo de uma Paris que se suspira pela janela – seja o suspirante um ratinho cozinheiro, um escritor frustrado, um escritor apaixonado num moinho vermelho, uma cinderela ou um americano em Paris. Junto com a Torre Eiffel (aniversariante do dia), surgiu a cidade mesma. Junto com a Torre Eiffel, surgiu a segunda torre, invisível: a crença definitiva de que o paraíso na Terra existe. Existe, faz biquinho e fala “ulalá”.

Não é que Paris já não fosse Luz, raio, estrela e luar antes de 1889, quando foi inaugurada aquela dama de ferro. Era. Poetas flanavam, modas se instituíam, brasseries e dançarinas de cancã tentavam o juízo, amores se entabulavam com alegria e desespero. A vida já era feérica, tumultuada e suavíssima às margens do Sena; para lá já fugiam meninos de excelentes famílias e intenções péssimas, mademoiselles a buscar o melhor do enxoval ou o pior dos abraços. Mas Paris poderia ser Paris, de fato e direito, sem um troféu que assinalasse sua condição de Éden construído? poderia ser a afamada e delirante Paris sem o dedinho erguido ao alto como quem diz “sou eu”? poderia ser a lua de mel de tantas luas e méis; poderia ser a paladina eterna dos românticos sem sua espada apontada para o céu; poderia ser tão majestosa e esparramada madame sem sua filha mais dileta ali, de saia aberta e corpete justo, em trajes sorridentes de Moulin Rouge?

Paris sempre foi Paris, mas nunca foi tão Paris como a partir do instante em que um monumento se ergueu à sua parisice incontrolável – e a fez eleita por todos os séculos. Subiram a torre de ferro e a de espírito, a real e a imaginária, a visitada e a sentida: a estrutura palpável que beija a cidade e o rótulo permanente que nela se grudou. A criatura projetada para honrar o centenário da Revolução Francesa revolucionou a França pela eternidade. O edifício aproveitado como antena de rádio transmitiu Paris pelo mundo. A nave pousada no Campo de Marte trouxe amores planetários à Cidade Luz.

Que me resgate, capte, rapte e abduza para si no meio de qualquer momento, sem previsão jamais de retorno. À volonté.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Perguntar ofende

Fico sempre tentada a principiar pensamentos pelos guloseimas reflexivas de Mario Quintana, e eis que topo com mais uma delas numa esquina de internet: “O maior chato é o chato perguntativo. Prefiro o chato discursivo ou narrativo, que se pode ouvir pensando noutra coisa”. Fato, fatíssimo. Entre todos os chatos, não há pior do que aquele que não se pode tolerar em descanso de tela. Aquele que, em ruim acréscimo e mortal agravante à própria chatice, ainda exige que participemos da cuja. Demanda interação. Nos convoca para a guerra quando apenas suspirávamos pela solidão prática, mesmo que em companhia teórica. É caso de se baixar legislação: indivíduo algum tem de passar pelo desgosto de ser abordado em suas matutices ou recreações íntimas, e nunca, sob nenhuma circunstância – salvo questões criminais –, deve ser pressionado a dividir o que habita seu único território livre. Porque o chato perguntativo é isso; é o bárbaro querendo invadir na marra seu imperiozinho romano particular, tão duramente conquistado depois das devidas pelejas de um dia.

O chato perguntativo é a tia que não se satisfaz com sua declaração de não querer ter filhos, e resolve mergulhar fundíssimo nas razões de tamanha aberração. O chato perguntativo é a namoradanoivesposa que aguarda a final da Taça Rio para averiguar a opinião do consorte (sorte?) sobre a distribuição de seus quilos, gorduras e curvas. O chato perguntativo é o conhecido que não saca: você O-D-E-I-A o trabalho, e cada memória desnecessária acerca do trabalho vai descendo quadrada, ou subindo como um vômito novamente provocado, como uma repetida sessão de azia. O chato perguntativo é o, ah!, estrupício que não percebe: você tem pressa, você tem sono, você tem enfado nos olhos, você tem compromisso na agenda, você não tem interesse no assunto. Não quer desenvolver o assunto. O assunto não importa. Você quer que o assunto morra na linguagem fática, morra no elevador, morra na praia. O assunto é fita a ser cortada no próximo minuto que se inaugura, e não tratado de sociologia a revolucionar consciências pelos séculos dos séculos. O chato perguntativo, que saquinho, lhe dá mais importância que você mesmo. O chato perguntativo – haja paciência! – não tem a gentileza de deixar-se enrolar socialmente. Exige quens, ondes, quandos e porquês que lhe estão em falta clamorosa. O chato perguntativo ignora o charme dos vácuos, o sagrado dos silêncios, o delicado das camadas de neve iderretíveis. É a faca no meio da quiabice carioca. É o estuprador de vontades. Um saqueador. Um viking.

(O pior, meu nego, ainda é o chato desdenhativo, que se fecha em silencioso e excessivo respeito justinho quando você está prenhe de desabafos. O sujeito que ousa não te azucrinar nem dez minutitos durante a novela. Audácia.)

quinta-feira, 29 de março de 2012

A beleza urgente

“Mas há os que, com a maturidade, só veem aumentar a fome de beleza. É como se, através de um necessário e crescente convívio com o belo, já estivessem se desgarrando das feias impurezas terrenas e pressagiando uma luminosa forma de eternidade. [...]”

“A crescente necessidade de beleza faz com que já não nos baste mais sair à sua procura ou apenas frequentá-la de quando em quando. Há urgência em sequestrá-la ou habitá-la para sempre. Disseminá-la nos objetos da casa, despertá-la no corpo amado, desentranhá-la do anonimato e da solidão.”

São trechos que bebi enamorada de Affonso Romano, numa de suas delícias crônicas: “Fome de beleza”. Sentei-me tão na beirada do texto que por pouco não tropecei para dentro e o habitei. Porque sou isso – sou integral, emergencial e nervosamente isso, sou inevitavelmente isso, sou inteira e justamente isso; sou a criatura tão fujona das terribilices do mundo que a mera musiquinha de RJ-TV me causa inflamações no baço, me põe urtigas no peito. A feiura tão constante e absurda dos jornais me dá cólicas, me infecciona os olhos, me deita fel na língua, me espicaça a gastrite, me estupra, me dói. Não me sobra vida possível nessa poluição de horror que adentra os dias. Não me resta ar inspirável na maior parte das 24 horas compulsórias. A não ser no recolhimento de mim, ou em braços de amor, de amizade e de arte, viver tem sido dar de cara com um planeta de visigodos.

E então a beleza perene é pra ontem. É pra semana passada. É para o bimestre anterior. É remédio imediato dos corações em carne viva, das tristezas terminais. Para cada aluna de 11 anos que sabemos grávida, há que haver (urgente!) a notícia de uma ONG que produza bailarinas ou violinistas. Para cada trem depredado por mau funcionamento, há que haver (urgente!) um novo bondinho deslizando em Santa Teresa, uma nova aleia de jambeiros no Jardim Botânico. Para cada versão do vírus da dengue descoberta, há que nascer (agora!) um Vinícius ou um Portinari, um Rodin ou um Paganini. Carece abrir-se um portal de luz que nos engolfe, que nos arranque do costume das decepções, do hábito das agruras; que nos tome possessivamente, que nunca mais nos devolva. Precisa irromper a felicidade súbita, definitiva – que meta um golpe de estado na realidade e a cinderele, a cinderele inteira. Faz-se necessário o oposto da bomba. Faz-se essencial o susto que espalhe vida.

Que a beleza total nos desabe na frente com pressa de telegrama. Que haja urgência em convocar-nos, em sequestrar-nos. E habitar-nos para sempre.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Porque o Messi é o Messi

Antes do mais, aviso aos revisores de plantão (cujo dia hoje comemoramos, viva!) que não há falha no “porque” do título. Fica juntinho por responder à dúvida cruel de Galvão Bueno durante a transmissão do jogo Barça X Milan: o motivo de Messi, numa falta igual à cometida por outrem, não ter levado igual cartão. “É porque o Messi é o Messi?”

Porque o Messi é o Messi – bingo, Galvão. Porque nossa legislação, interna e externa, obedece à regra da produtividade. Porque nossa justiça, oficial e oficiosa, segue a tendência dos sistemas de milhagem: sempre a reunião de informações pregressas, sempre um acúmulo de passados, em lugar da análise desapaixonada de um qualquer presente. Porque nosso olhar é vestido de simpatias perigosas. Porque nossa consciência se bota à venda por preferências suspeitas. Porque nosso julgamento se flexibiliza alegremente ante um histórico de bônus. Porque nossos pesos e nossas medidas correspondem sentimentalmente a nossos respeitos e gratidões armazenadas. Porque nossas emoções prévias se sobrepõem à situação momentânea, nossos veredictos se antecipam ao júri, nossos argumentos correm à frente dos fatos. Nossa lovística ultrapassa a lógica.

Porque aquele alunito sempre foi o primeiro a oferecer-se nas respostas, o primeiro a elevar-se nas notas, às vezes o único a dispor-se nas tarefas, perdoamos sem senões o caso de plágio flagrante, de cola desavergonhada, ou o soco que tirou sangue de um nariz menos esforçado. Porque aquele filho sempre foi o mais largamente carinhoso dos irmãos, mentimos em tribunal para salvá-lo da condenação por roubo. Porque aquela amiga sempre foi a mais grudada das quase irmãs, preferimos terminar com o namorado novo a crer que são calúnias as alegações despeitadas contra o pobre. Porque o réu é primário, vemos com tolerante leveza, beijitos e promessas de não-faço-mais o fato de ter dirigido bêbado e atropelado 57 pessoas na calçada. Porque o criminoso tem o verdor da adolescência, queimamos a ficha corrida de latrocínios e o devolvemos às ruas aos 18, rebootado em criatura angelical. Porque o prisioneiro baixa a cabecinha por duas semanas, apagamos a sentença de 362 anos e o mandamos passear no Rio com alvará de bom comportamento. Porque Fulanílson é nosso chapa, ou se esmerou na conquista, a ele tudo; porque Sicranélson – embora de iguais pecados – não é nosso amiguinho de Face, não cresceu lá em casa, não chamou pro casamento nem fez novela, danou-se. Perdeu a chance de pagar propina a nossos bons olhos, de comprar com fofuras nossa condescendência. Perdeu a hora de arrumar um QIzinho nos corredores gelatinosos de nossa justiça.

Cega.

terça-feira, 27 de março de 2012

É logo ali

Morri de rir com a notícia. Abusando de bom humor docemente genial, a torcida do Magdeburg – timeco da quarta divisão alemã – resolveu dar uma força pro clube desatolar das derrotas e do jejum de pontos. No jogo contra o Berliner AK’07, os fãs do Mag se postaram exatamente atrás do gol de ataque segurando setas coloridas, para ver se o time do coração reencontrava o caminho da rede. Deu semicerto: o velho Magdeburg seguiu as dicas e marcou seu golzito, embora não tenha deixado de engolir dois. Melhor que nada. Quanto mais não seja, pode orgulhar-se de ter alguns dos menos azedos torcedores já existidos.

Morri de rir, sim, e não só da graça do fato em si mesmo, mas da esperança feliz de ainda haver no mundo outras tantas manifestações de candura. Gente que não fica viciada em sucesso a ponto de torná-lo caso de morte sem vida, questão de xingamento e pancadaria. Gente capaz de não se transtornar com gol não feito e aproveitar até fracassos (próprios) como mote de autopiadas. Mais: gente que tem o talento de ensinar o caminho com leveza. Num tempo em que neanderthais se trucidam porque há outros neanderthais usando diferentes camisas; num tempo em que gorilas incitam novos gorilas a exterminar seres de distintas naturezas e opiniões; num tempo em que a conversa é no grito, a dica é no spray de pimenta e a orientação é no taser – há os que influenciam suave e coloridamente, os que dialogam com paciência criativa. Os que abraçam com carinho o que consideram vacilo e, em lugar da agressão urgente, da surdez voluntária, do dedo em riste a um centímetro do nariz alheio, escolhem a reprimenda macia com vaga para o riso moderado. Os que não deixam o erro (ou o que se julga como erro) órfão de compreensão. De chance. De gente.

Abençoadas as torcidas de primeira divisão – que torçam, embora, para times de quinta. Feliz do pequeno ou grande mundo que inclua staff de lealdade persistente e humor incondicional. Sortudo o objeto do amor que inteligentemente o ame. O que sobra aos adeptos do Magdeburg, e anda numa carência danada entre o nosso bando de corações xiitas, é isso: amor inteligente. Aquele que sabe dar endurecidinha na crítica sem deixar de polvilhar com algum açúcar de ternura. Jamais.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Questão de pele

Não é que eu não goste. Até acho bonito quando são borboletas, estrelas, beija-flores, ideogramas mimosinhos. O que não curto é tatuagem monstrenga, agressiva, que engole uma pele inteira de braço ou perna como se o indivíduo viesse embrulhado para presente, no antiestético sentido. Porque ah, não há tão belo como o invólucro original, apenas aqui e ali salpicado de um charmezinho em destaque. Grosseira a tatuagem, quando a pessoa é quem a enfeita.

Independentemente disso, intriga-me uma tendência curiosíssima do universo tatooesco: a mania de tascar na pele o próprio nome ou o do filho, da filha, do(a) digníssimo(a) amado(a), da avó falecida, dos 58 companheiros de turma, dos 92 maiores titulares do time e lá vai reticência. Todo mundo anda acometido da síndrome de Amnésia, da gana de fazer sentimento ou memória dependerem da declaração gravada na carne. Amor que é amor, devoção que é devoção parece estar irremissivelmente ligada à dor da agulha gritando um nome para a posteridade, como se não mais coubéssemos no peito, como se nos excedêssemos, nos transbordássemos – ou como se não estivéssemos autorizados a protestar amor sem o aval dos rituais primitivos, necessariamente visíveis. Andamos materializando, coisificando a dedicação em forma de linhas vazias, no lugar de priorizarmos a concretude dos atos. Preferimos um cartaz descarado às discretas concessões, uma placa ostensiva às pequenas abnegações, um sofrimento berrado ao sacrifício escondido. Preferimos andar etiquetados, feito gado marcado em brasa, a provar com ações nosso atestado de posse.

E vou além. Ficamos (de)pendentes da foto na carteira, do porta-retrato na mesa, do pôster na cortiça, do flagra no celular para reafirmar afetos oficiais, afetos públicos. Como se a paixão em qualquer nível pedisse bênção ao olhar alheio; como se a particularidade de existir em voz alta nos tirasse a responsabilidade de decidir e agir sobre nossos amores. Viram dogmas: uma vez divulgados, sempre os há, sempre os houve; precisam continuar a haver simplesmente, nesta serena indiferença do coração terceirizado.

Mas amor não engloba terceirizações ou calmas facilidades; não perpassa a superfície de tatuagens, só para dentro transborda e só invisivelmente se expande. O que resta não o afeta em suas estruturas, melhora-lhe no máximo a imagem social – à qual, se sincero, dá de ombros. Amor toca a margem mas só é palpável no leito. Mesmo se tatuado, amor só vaza em si mesmo. Amor não se pavoneia. Amor murmura.

E quando lhe acorre a necessidade de ser gritado, amor pede licença. Não quer invadir os direitos autorais de quem o possui em copyright.

domingo, 25 de março de 2012

O fim

O capítulo final de 210 Chicos não nos deixou coração suficiente para o fim da novela. Sorte do coração. Em geral desenvolvo uma grande ou leve ternura por três ou quatro personagens, pela trama, pela trilha, pela abertura, pela torcida de um casal que se adora convincentemente, pela discussão de uma polêmica que argumentativamente nos perturba. Pois desta vez não saí da história com nenhum engulho de reentrar na vida, mesmo por não ter chegado a pisar nem na soleira do enredo. Não sobraram afetos nem memórias de uma obra fundada no deboche à boa vontade espectadora – e calcada na certeza de que, fosse qual fosse o absurdo apresentado, seria ainda como pérolas aos porcos. Éramos bando de Crôs lambendo as botas de uma Tereza Cristina; bando de slaves congelados em nossa audiência servil.

Exemplos? pois vamos aos exemplos. Um dos princípios do bom fim, sabem todos, é saciar a fome de respostas. É cortar cada fiozinho solto dos mistérios semeados. A não ser que se esteja, como um certo Machado, bordando a pura beleza das perguntas – mas eu e o leitor concordaremos que a dúvida sobre os amores de Crodoaldo Valério não tem exatamente o peso daquela sobre os de Capitu, aquele claro enigma cuja construção bastava em si mesma. Ademais, são furadíssimos os argumentos do mordomo para sonegar informações; são estapafúrdias as alegações de que, em Tieta, não se soube o conteúdo da caixa de Perpétua. Soube-se, e muito grandemente sabido. Não foi (nem poderia ser) visto pelo respeitável público de casa, porém cansou de ser enxergado no malicioso espanto dos santanenses do agreste. Quantas, hum, opções anatômicas cabiam na obsessão de Perpétua pelo marido falecido? E quantas alternativas para a identidade do parceiro de Crô cabiam na dedução dos espectadores? Tentar igualar as situações é ato de pirraça e preguiça dramatúrgica. Birra, antipatia, capricho de mimados. Ataque de divice.

Fosse só isso, estávamos bem. Satisfeitos e regalados. Mas e a bizarrice da cena marítima, em meio aos horrores da tempestade que deu vergonha alheia? E a xumbreguice do “verdadeiro” segredo de Tereza Cristina? E o esquecimento do casal realmente interessante – Celeste e Zoiudo –, que não teve chance de reconciliar-se em suas limitações? E o também esquecimento da doutora Danielle, que não chegou a receber passagem para suas boas ações africanas? E as barrigas grávidas que não cresciam? E a paraninfa que nunca botou pezinho numa sala de aula? E a formatura em Medicina com familiares e amigos (e amigos de pseudoamigos de quase amigos) de um único integrante da turma? E a bisonheira completa da última cena, sem pudor, sem nexo, sem bainha, sem explicações? E, e, e? outras tantas traições ao sagrado pacto de autor e espectador: ele nos conduz por mão confiável, nós suspendemos a descrença?...

Que João Emanuel nos valha com sua seriedade e bons históricos, e boas histórias. Que Mark Twain nos valha com sua máxima textual a pairar pelos séculos: “A diferença entre realidade e ficção é que ficção precisa fazer sentido”.

sábado, 24 de março de 2012

Chico total

Mário de Andrade dizia: ele era trezentos, era trezentos e cinquenta. Assim o Seu Chico. Nosso Chico. Nosso garooooto. Se não chegava a trezentos, de duzentos passava: pra riba de duzentas almas morando sob perucas e barbas e tapa-olhos e sobrancelhas, falando distintas vozes como um Pessoa de Maranguape. Vivendo distintas vidas, voando em diversos campos feito o Da Vinci (trinta, quarenta) que ele nasceu sendo. Não à toa careceu expandir-se numa cidade toda, habitar de eus sua Chico City. Assentar sua plantação de gente em terra produtiva. Neste mundo esquizofrênico e duas-caras – em que só tem tantã despedaçado nas próprias identidades –, Chico precisou ser mil para mais lucidamente ser um, precisou ser muitão de partes para mais fielmente ser inteiro. Para fazer rir com mais seriedade, fazer pensar com mais graça. Chico sabia, Chico dizia; nós cremos nele, e ainda assim se finou-se.

Se finou-se; transpôs-se o velho Chico. Mas não levou nosso imenso vácuo, nosso buraco negro de saudade para mais aquém do além, adonde que veve os mortos. A saudade fica e sará malígrina. A saudade fica e ainda morremos disso. Nós que éramos doooooidos por esse neguinho, nós que queríamos ter um pai-pai (um filho, um amigo, um parceiro de torcida, um amado mestre, um incontestável guru) assim, de repente estamos órfãos do prefeito, do profeta e do professor, do coronel e do malandro, do mordomo e do repórter, do jogador e do símbalo sescual. De repente morremos disso e só pensamos naquilo: que temos horror à morte, que queremos que a morte se exploda. Que pô, nosso Chico é xovem, e xovem é outro papo. Que sua saidinha dura a ligeireza de um vapt-vupt, porque afinal isso nos ama! isso nos ama. Mentira, Chico?...

(“Verdade”, diz: “Verdade”.)

Mas ai, que dor nos quartos, meios e inteiros: a voz que sempre tivemos garavada no peito em seus mil timbres, a voz que sempre houve não ouve – permanece ca-la-da. Em silêncio tranquilo nos recomenda alegria, alegria, e que a gente faça como ela: sorrrrria. Sorri ainda uma vez o seu techau.

E o nosso coração, ó.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Feitos de gente

Sabe aquele comercial em que Milton Nascimento vem andando e cantando “Maria, Maria”, em homenagem a Maria Gadú? me amofina profundamente. Não por não curtir a música, mas porque depois não há santo que a tire do ouvido. Existe outra versão do anúncio, porém, na qual os amigos de Gadú falam sobre a cantora, da importância dela em sua vida e carreira; por fim ela mesma toma a palavra, antes de abraçar o grupo: “Eu sou Maria. Sou feita de gente”. Me enterneci com a expressão. E feitos de gente não somos todos?

Somos feitos da tia Elisa que, na segunda série, desenhou estrelinha numa página de nossa autoestima quando acertamos a resposta. Somos feitos da professora Ana que, na faculdade, puxou-nos um tanto de orelha quando perdemos a hora. Somos feitos da mãe que cruzou a cidade atrás do presente desejado, do pai que ficou cinquenta anos sem desistir da loteria, da irmã que conseguiu nos enfiar alguma pouca matemática, da amiga que nos inflou com o merecimento de alguma certa confidência. Somos feitos da avó que colocava no ano-novo um gosto de pudim (inimitável) de leite. Somos feitos do orientador que colocava na matéria dois litros a mais de alma, entendimento, energia e olhos verdes. Somos feitos do chefe que encaixa um melhor horário. Somos feitos do marido que inventa uns melhores eus.

Somos feitos do parecer do médico, da gentileza do caixa, da perícia do vendedor, da boa vontade do colega, do boa-tarde do porteiro. Somos feitos do tempero do chef e da memória do garçom. Somos feitos (quanto!) da compreensão flagrada no aluno. Somos feitos do amor adivinhado no filho. Somos feitos das batatas do Machado, das que-saudades do Casimiro, das reinações do Lobato, das estrelas do Bilac, das pombas do Raimundo, das senhoras do Alencar, das nhinhinhas do Rosa, das zulmiras do Lalau, das travessuras e travessões do Verissimo, das doidas e santas da Martha. Somos feitos das bicicletas de Spielberg, dos retorcidos de Tim Burton, das cidades de Woody Allen, dos labirintos de Del Toro. Somos feitos de gente que nem é gente na dimensão da gente: Julietas e Hamlets e Atenas e Antígonas, Diadorins e Hermiones, Capitus e Porcinas, Ofélias e Miss Marples, Tietas e Miss Poppins. Somos feitos de uma barbaridade de respirações, inspirações; somos efeitos de ações velhas e novas, óbvias e insuspeitas, factualmente vividas ou ficcionalmente supostas. Somos patchwork intransferível de possibilidades. Junção de um empréstimo interminável de moléculas. Combinação exclusiva de poeiras humanas.

Fomos feitos, somos feitos, lá vamos nós continuando feitos. A gente é gente pra mais de metro. A gente é gente que não acaba mais. E, quando acaba, prossegue com teimosa constância em outra gente – que toda a gente é tão igual e inadvertidamente feita de nós.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Me engana que eu gosto

Está dando montão de polêmica a nova campanha americana de combate ao fumo. Não há que negar: sinistrona. A voz meio robótica abre o anúncio em off, enquanto se vê a foto de uma moça lindíssima. Em seguida, a mesma moça aparece na tela como hoje se encontra – horrivelmente magra, rosto deformado, careca. Ela narra sua rotina matinal: colocar os dentes (pega e encaixa a dentadura superior), vestir a peruca (assenta os cabelos louros sobre a cabeça esqualidinha), ajeitar o protetor no buraco da traqueotomia que lhe grita no pescoço. O desconforto é incontrolável. A piedade se estendendo a nós mesmos. Em diferente episódio, outro ex-fumante é focalizado da cintura pra cima, relatando seu caso. O sujeito se levanta. Em lugar de ambas as pernas, caminha com duas próteses. Arrepios.

Ok, o pessoal da propaganda gringa apelou merrrrrmo. Esfregou a desgraça alheia na cara do público e lançou mão das imagens mais desagradáveis, até exageradamente impressionantes para os corações alérgicos a susto. Concordo e pergunto: e daí? Haja vista que o objetivo é justamente evitar a primeira tragada dos bacuris de 14 anos, arrancar até a última fibra de glamour que ainda possa ter essa joça fedorenta, salvar também pulmões inocentes que fumam à revelia e adoecem de empréstimo, acho até pouco. Filminho infantil. Sublinhe-se: não houve explorados nem exploradores; houve ex-fumantes maiores de idade que participaram muito conscientemente da campanha, por cachê ou escolha social, ou os dois. E há espectadores viciados num mundo de estufa, polido o bastante para armazenar verdades até depois do jantar, até depois do cafezinho, e só esvaziá-las na segurança do gabinete – lindamente higienizadas. Um mundito que sacrifique necessidades dominantes às conveniências (e boas noites de sono) individuais. Um mundo que minta generoso. Que minta florido.

Somos mimados, queremos condescendência com as besteiras nossas; atacamos esse tipo de ataque em nome de um presumido “bom gosto” que não é mais do que covardia. Medo de encarar ali, crua e desmaquiada, a consequência que foge ao decoro. Defendemos as “liberdades pessoais” como se o comercial nos estuprasse a vontade, em vez de apenas (está no papel dele) penetrar-nos o estômago e os pesadelos. Desejamos a campanha fácil e ignorável, leve e bem-humorada, correta e inócua, igual e mecânica, a fim de não nos perturbar a culpa assustadiça. Eu finjo que escuto, você finge que me ensina; reservo dois minutos na semana para ter uma força de vontade adequadíssima e, no dia seguinte, passo de três para dois maços. Combinado assim?

Nada. Nada de carinhos com a morte que espreita. Nada de doçuras, nada de bandeja de cookies para a indesejada das gentes. Nada de medidas ternas na hora de sermos extremos. Que nos apareça assim o tempo calvo, cadavérico, como fantasma dos Natais futuros a nos tomar de nós mesmos – não menos que de imediato, não mais que de repente. Agora, ontem, anteontem. Sem pensamentos, sem reflexões: puro reflexo, pura náusea. Náusea súbita, excessiva e definitiva da morte.

Estamos bem com nojinho? ótimo. Agora é olhar com horror, com horror insuperável o que nos leva, nos afoga, nos arrasta. E pedir pra sair.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Quebre a perna

É o que dizem os atores falantes de inglês para desejar-se sorte antes de entrar no palco. Não sei bem por quê. Há lendas: que na Grécia Antiga, em vez de aplaudir, a plateia batia os pés no chão – e, se batesse com excessivo contentamento, quebrava a perna. Dizem também que na Inglaterra elisabetana, se o público satisfeito não sapecava os pés no chão, fazia isso com os assentos – e se batesse com exagerada satisfação... quebrava a perna. Da cadeira. É duvidoso se as historinhas procedem, mas o break a leg está metaforicamente certíssimo: não se sobe ao palco sem quebrar a perna. O próprio ato de subir ao palco já é quebrar a perna. Estar ali, embora vestido de outrem, é de uma nudez extrema; atirar seu trabalho às feras, ao julgamento dos leões, em tempo real. Ali mesmo a plateia o decifra, o devora, o adora ou despreza, gargalha ou vaia. Disseca-o, destrincha-o, analisa-o picadinho; faz o que quiser daquela autoestima assim entregue, indefesa, abandonada, em situação de fratura exposta.

Ai de nós, de nossos sons e nossas fúrias, se não houvesse o teatro. Se não houvesse espelho tão escrachado e carne-vivo de nossas rudezas – mais dedo-na-ferida do que cinema e TV, já que teatro não admite fugas. Teatro é você na base do corpo a corpo com o ator; é você soterrado pelo texto, pelo gesto, pelas caras e bocas, pelas tragédias e comédias que lhe desabam na cabeça sem o coração fazer pausa de cafezinho, pipoca, banheiro, celular. Se saímos da plateia? saímos, quando a necessidade é maior que o medo de chamarmos atenção indevida do elenco, e de sermos depenados por ele em vez de o depenarmos. Nossos pudores mínimos, porém, desencorajam a aventura, e nos submetemos à orgia de máscaras coletivas para não termos as individualidades desmascaradas. Teatro é opção entre esses dois estupros autorizados. Teatro nos exige ou zomba de nós, ou nos tem ou nos rejeita, ou nos possui ou nos denuncia. Teatro é psicologia em imersão total, é divã hardcore. Teatro é dá ou desce.

Neste 21 de março Universal do Teatro, sente-se à plateia com olhos de perna quebrada, postura vergada, vaidade caída, à disposição do que lhe venha expurgar os (des)conhecimentos tão sólidos e as humanas tolices tão incontestáveis. Que Shakespeares e Brechts lhe deem uma boa hora no parto deste novo ser (ou não ser) que nos brota inevitavelmente em cada peça. Merde pra você.

terça-feira, 20 de março de 2012

Eu te proponho

Adoro essas datas americanas. Hoje é o Proposal Day, dia de homenagem às propostas de casamento. As noivadoiras planejam a cena com minúcias de Oscar: ela e ele num balão sobre o Vale do Loire, ou no topo da Torre Eiffel, ou no palco do Teatro Kodak, ou no último andar do Empire State – ou num balão sobre o Empire State, ou num palco em pleno último andar da Torre Eiffel... vocês entenderam. Violinos, um esparrame de violinos. Fogos, naturalmente. Dois muitilhares de borboletas ou pombas, três cacetilhões de pétalas de rosa. Um postulante a marido – ajoelhado, claro – que é o George Clooney cuspido e escarrado. Ou o Neymar, se for de gosto. Ou o Hugh Jackman. Ou o Luan Santana. Vocês entenderam! o essencial é que a criatura se ajoelhe, muito bem bonitamente, nos conformes, e oferte o dito-cujo: um solitário de 967 quilates que já está na família há 82 gerações. Já está na família há 82 gerações e pertenceu a Cleópatra. Pertenceu a Cleópatra e a Heloísa, aquela mesma do Abelardo. Esteve entre as joias favoritas de uma maharani. Agora é seu, garota. S-E-U! E ah, sim: você vai se casar com essa criatura ajoelhada. O nome dele mesmo?...

Propostas cinematográficas são bacanérrimas e fazem a gente crer em cinderelices – o que é mau. Digo: é bom crer em cinderelices, desde que as saibamos impossíveis. Desde que acreditemos apenas no perfume de fé que deixam, na predisposição de felicidade. Excelente coisa é que o casamento inicie da maneira mais romântica; péssimo, entretanto, que todo esse aparato seja condição sine qua non para uma noiva amada e satisfeita. Há as proposals tímidas, realizadas atabalhoadamente num bilhete, num dar de mãos no cinema, num ônibus, no metrô; há mesmo as jamais feitas, as subentendidas, que vão crescendo junto com a relação até o ponto em que os futuros noivos simplesmente as constatam: então a gente vai se casar, né? é. E permanecem unidos e unos por 220 anos, até que a morte os una mais ainda; confundidos um no outro, indeléveis. Pouco se lhes dá que a Proposta tenha ou não envolvido borboletas e balões, que a cerimônia tenha ou não sido disputada por paparazzi. Foi casamento comme il faut. Aquele em que o casal não lembra o que é “não pertencer” – em todos os bons sentidos.

Dicas para uma Proposta eficiente? aqui vão. Eu te proponho que a gente, embora no maior esforço (ou antes por causa dele), aplaine nossos orgulhos e abrace no outro não só o de sempre como o de nunca, não só a praxe como a surpresa. Eu te proponho que a gente brinque de igualar as necessidades, ao menos quatro vezes por semana e de coração integral. Eu te proponho que a gente sonhe viagens jamais bastantes e, sabiamente, junte dinheiro e alegria para as possíveis. Eu te proponho que a gente enlace as famílias num Natal contínuo, que a gente crie os guris acreditando em Papais Noéis, fadas, Brasis melhores e submarinos amarelos, que a gente troque ao mesmo tempo lençóis e toalhas, que eu lave pratos e você enxugue, que eu traga a ideia e você se anime (ou me pouse), que eu levante a bola e você corte. Eu te proponho que a gente seja uma amizade, uma gangue, uma peça de Shakespeare, um filme de Tim Burton, uma sinfonia de Beethoven – a Nona. Eu te proponho como no “Substância” de Guimarães Rosa: “Você (...) quererá, a gente, nós dois, nunca precisar de se separar? Você, comigo, vem e vai?”. E você terá respondido como no “Substância” de Guimarães Rosa: “Vou, demais”.

Ou eu te proponho não dizer nada, seguirmos juntos a mesma estrada. Tudo lá dentro já da gente, de coração ajoelhado. Até que a morte nos una mais ainda. Irmos – demais.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A náusea

Nojo. Nojo de sermos encaçapados por uma verdade de Fantástico tarde demais para que nosso choque pareça maior que o desânimo da feijoada de domingo e o da véspera de segunda. Nojo de resmungarmos que-absurdo (patrioticamente) enquanto arrumamos a bolsa para o dia seguinte. Nojo de amarmos o conforto existencial sobre todas as coisas. Nojo de nosso sono. Nojo de nossa preguiça. Nojo de termos mais o que fazer. Nojo de nossa nauseabunda ausência de nojo.

Nojo da indignação de barzinho – a discussão política que acaloramos (patrioticamente) entre uma cerveja e outra, e que morre virgem sem ganhar forma, ação, direção, cabeça, tronco, membros. Nojo de xingarmos todo o alfabeto de partidos e não reclamarmos do chope que veio a menos na conta. Nojo de precisarmos conferir a conta. Nojo de não reclamarmos do que veio a mais na conta: a iluminação da rua, o terno dos deputados, o cimento dos novos estádios, a Disney dos vereadores. Nojo de quem deveria ser o primeiro dos servos posando de maior dos patrões. Nojo do jeitinho. Nojo do tapinha. Nojo do cafezinho. Nojo da propina. Nojo da mamata.

Nojo de habitarmos um circo sob a lona de cinco estrelinhas – com esperança de, daqui a dois anos, abocanharmos a sexta. Nojo da dogmática alegria de quem se contenta com céus e mares e matas e montanhas. Nojo do nacionalismo basbaque. Nojo da felicidade de proveta. Nojo da aceitação pastosa, nojo do futuro que só vai até o sábado seguinte. Nojo dos narizes torcidos diante dos que denunciam. Nojo da incredulidade diante dos que restituem. Nojo da zombaria aos que respeitam. Nojo da adoração aos que jogam, aos que cantam, aos que atuam, às que rebolam. Nojo de nosso orgulho servil pelos que, estrangeiramente, se projetam. Nojo de ser malvisto o fato de se ter nojo. Nojo de só nos comprazermos e destacarmos pela falta: de erupções, de geleiras, de terremotos. Nojo de nossas qualidades se calcarem no que absolutamente não nos compete. Nojo de nossa sorte geográfica engolir nossa sem-vergonhice histórica. Nojo de os alunos ficarem felizes com a greve. Nojo do masoquismo, do bonzismo, do hienismo e do pouquismo da cultura. Nojo de nossas belezas nos ofuscando e afogando como más Iaras.

Nojo de ser excessivamente tarde para haver tido outro passado e outro chão; para não haver criado laços tão linguísticos, tão estáveis com o solo que amo por costume, e que me enoja. Nojo dessa saudade, essa saudade imensa do que não fomos nem vivemos. Nojo de não sabermos abraçar responsabilidades sem vício de prêmio ou de aplauso. Nojo de sermos focas de show aquático, subornáveis por qualquer tostão de peixe. Nojo de apenas a teima de sobrevivência ser nosso instinto incorruptível. Nojo de nossa paixão incondicional pela vantagem. Pela mais micróbia vantagem. Nojo de existirmos, ainda e sempre, sob a égide de Dom Gérson Primeiro.

Nojo de ele não ter sido o último.

domingo, 18 de março de 2012

Explode, coração

Numa sua crônica que é como mel de laranjeira pros olhos, Rachel de Queiroz cita o que seria o “real desejo de seu coração”. A saber: mandar o mundo se danar com todos os respectivos conteúdos. Mandar amor, público, pátria, dinheiro, parentela se danarem, enquanto ela mesma, faceira, se deita na rede saboreando castanhas e romances de Agatha Christie. Porém – esclarece logo a autora na segunda parte do texto, chamado “Talvez o último desejo” – isso era coisa que afinal não faria. Porque “o miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranquilidade: quer reverenciar, quer ajudar, que vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade”.

Dona Rachel está certa, está muito certa, está certíssima. A não ser em caso de sociopatia aguda, o coração não manda ninguém se danar porque se encarrega de danar-se sozinho. O coração quer precisar; quer morrer mil vezes por hora como experiência de vida. O coração faz questão das pequenas ansiedades como prova de caráter e das grandes agonias como carimbo de existência. O coração quer fazer-se adulto sangrando lágrimas de travesseiro, por causa do perdão não pedido ou telefone não tocado; quer fazer-se criança para mais devidamente sofrer o envelhecimento dos pais; quer fazer criança para – na falta ou na dúvida de outros amores bem violentos – garantir um ultimate love que o desespere de preocupações até que a morte os separe. E a morte não os separa, porque o coração, óbvio, arranja saudade para retorcer-se. Coração, uma vez nascido, não fica offline de suas duras penas.

Mas ao coração não há duras penas. Há tantas alegrias no ato de ficar procurando de que maneira derramar-se, há tantas compensações na obra, que o sacrifício, mesmo, seria se exilar da dor num canteiro de ócio. Coração precisa exercitar os músculos. As pernas. O engenho. Precisa correr toda a Rua da Alfândega atrás de lembrancinhas para os alunos ingratos e acampar dois dias na fila porque a caçula morre sem ingressos pro Justin Bieber. Precisa descobrir, à força, o tom de azul favorito do peguete e vesti-lo na festa de aniversário, como quem não quer nada – quer tudo. Precisa fazer curso de dança do ventre para incrementar de encantos a relação nunca desencantada. Precisa aprender a receita da iguaria russa, de família, que o noivo provou em férias de infância e levou pro resto dos dias como ícone de felicidade. Precisa organizar passeata, precisa ter AVCs emocionais com notícia do RJ-TV e denúncia do Fantástico, precisa chorar nem que seja em novela, precisa se importar nem que seja com o casal do seriado. Precisa torcer nem que seja por um confinado, e dedicar-se nem que seja a votar votar votar votar pela saída do outro participante. Precisa ser participante com seus adequados hematomas e necessários arranhões, mesmo que depois se afogue no Gelol. Coração pode ser milionário no banco, mas carece trabalhar pra ser gente. Coração não vive de rede ou de renda. É tubarão que para de respirar sem movimento. Congela. Embota. Embolota. Embolora.

Deixar de existir é muito perigoso.

sábado, 17 de março de 2012

Não mais que de repente

Sábado quase no fim, tranquilamente sem planos. Não vamos mais sair, certo? Certo. Também há delícias, quantas, na quietude doméstica. Toca o telefone. Casal amigo chamando pro restaurante chinês – tipo: agora. Vamos? Marido hesita um pouco, curte surpresas um tanto mais planejadas (realmente ótimas). Mas os amigos são amigos, o restaurante é perto, há a novidade da primeira visita, há o tempo que refrescou gostosamente, há outro tempo para finalizar as computadorices iniciadas. É sábado à noite, homessa. Quer saber? vamos. Vamos, o papo rende, a comida desce redondo, o passeio coroa o dia que se desfaz perto de meia-noite sem virar abóbora. Tal qual me apetece. Dia com sobremesa.

Ontem escrevi de como a tristeza nos dá salvo-conduto aos desejos no fundo acalentados, inconfessos; mas é fato que existe melhor cobertura (de chocolate) para as pequenas loucurices, melhor anistia para os impulsos sinceros: o súbito. O susto. A surpresa que te sacoleja e exige resposta imediata, pede a frase que já flutuava na língua sem coragem de vir à tona. O assombro que traz à tona o “você” mais básico, a emergência que revela o prioritário, a urgência que desmascara o primitivo. Que maravilha ser, uma vez por semana ao menos, empurrado ou impedido pela urgência. Perder o excessivo controle. Ser tirado do trabalho pela falta de luz, ser enviado para Milão por exigência do chefe, não poder sofrer com o relatório porque o prazo está em cima, não poder sofrer com o modelito porque o carro já está na porta. Por isso as criaturas inseguras (no mínimo uma que eu conheço e vos fala) deixam tanto pra última hora: querem ser arrebatadas das próprias neuroses pelo inevitável, pelo inexorável. Pretendem não ter mais tempo de fazer senão o que, desde o início, estava decidido. Pretendem ser tolhidas de escolha. Pretendem não ter opções. Salvem-me.

Fica a dica: mulheres que apresentam sintomas (não, desses não compartilho) como pedir uns tapinhas em momentos estratégicos, sonhar ser rasgadas por um cowboy afoito ou sequestradas de balão, não querem necessariamente novo parceiro, vida bandida no submundo de Gotham City ou sexo selvagem. Querem(-se) férias.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Bom dia, tristeza

Parei em outro trecho dA abadia de Northanger, aquele livrito de Jane Austen. Mal chega a ser trecho, limita-se a frase: “Catherine estava infeliz demais para sentir medo”. Só um escritor agudo diz tanto em tão pouca letra. A infelicidade, se existe deveras (que palavra oitocentista é “deveras”!), existe assim: sempre como uma urgência superior às outras fomes. Ficamos infelizes também por cansaço. Ficamos infelizes, às vezes, para tirar um desejável passaporte de irresponsabilidade.

O ser infeliz mergulha-se tanto, afunda-se tanto em si próprio que não lhe sobra agenda para o mundo. Tristeza é um álibi. Porque excessivamente tristes, estamos (ou nos consideramos) dispensados de nós mesmos. Cabulamos compromissos, deixamos empregos, descartamos velhos pavores, levamos para a lixeira tanta coisa que sonhávamos ser obrigados a abandonar por algum motivo de força maior. Infelicidade no grau mais fundo, mais insuperável, é nosso motivo de força maior. Não há questionamentos. Ninguém nos interroga de nossas prioridades. Existe um respeito generalizado à tristeza que a felicidade, coitadinha – a tola, a frívola –, não consegue alcançar em suas petições. Felicidade, aparentemente, não tem emergências.

Tristeza é a maior das chancelas. Quando nos encerramos em nossos lutos, tão intensamente os outros nos desejam alegres que se veem prontos a aceitar caprichos. É nos momentos das agonias horrorosas que ganhamos ao menos um privilégio: as pequenas satisfações culpadas viram lei e ordem. Naquele conjunto de deliciazinhas gigantes é que nos escoramos – aquelas; as que a sobriedade, a sabedoria de nosso estado natural nos fazem evitar. Infelizes, temos passe livre. Chocolates perdem o tabu, ginásticas entram em stand-by, cinemas longuissimamente adiados vão pras cabeças da fila, um ou outro ponto sem assinar fica esperado e normal. Todos mimam o triste; todos o pressionam a fazer justinho o que mais ama. Anistiam-no dos minicrimes de guerra e das loucuras catárticas. Abonam-lhe as verdadinhas perigosas e as mudanças súbitas. Abrem-lhe a porta fechada há tanto: seja-se. Plenamente. Seja o mais alegre possível enquanto estiver socialmente amargurado, desde que não fique se amofinando aqui tão perto. Sai pra lá com essa downzice inoportuna.

Vai daí que o povo defende com unhas e dentes sua garantia de compreensão eterna. Juram, cantam e recantam: tristeza não tem fim – porque nessa crença vai seu aval de felicidade. De felicidade, sim.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Propaganda enganosa

A coisa é velha, dos tempos de eu menina. A gente ia às Casas da Banha e não tinha porquinho dançando o chá-chá-chá. Cadê os porquinhos que nos convidavam pra dançar o chá-chá-chá? Absurdo. Deselegância. Chamar os amigos na maior desfaçatez e não aparecer, que nem o Arnesto do Adoniran. Depois lambíamos com vontade o Pirocóptero de morango, na esperança de fazê-lo voar levíssimo como o da televisão, glorioso em sua hélice colorida. Voava pelo quê? meio milésimo de segundo; e nós ali, crentérrimos de que o problema era com a gente. Com as nossas mãozinhas inaptas, desacertadas. Todo mundo conseguia, só lá em casa os mistérios do comercial eram vedados; eram da ordem (da seita?) dos que “pertenciam ao mundo”.

As bonecas andantes, falantes, viravam Emílias de plena independência nas propagandas da TV – e as meninas babávamos do outro lado da tela, numa fé inocente de que ganharíamos amigas verídicas, animadas em todos os sentidos. Viriam criaturas de maravilhosa vontade própria para espantar nossas pequenas solidões. Não vinham. Sabíamos que não vinham, mas nos deliciávamos no engano. Não vinham brinquedos que vivessem; nem (mais tarde) desconhecidos que oferecessem flores num impulso; nem meninos bonitos que trouxessem um Laka de presente; nem quaisquer novidades que espantassem nossas solidões maiores. Não vinham manhãs que tocassem Vivaldi nem emoções colossais na caixa do primeiro sutiã. Mal vinha, solene, o primeiro sutiã. Tudo era um grande contínuo, tudo eram transições lentas; sem coros, sem trilhas, sem orquestras. Tudo escorria sem a bússola dos rituais. Tudo era – subitamente – uma vez.

Continuou não vindo o “efeito Afrodite” dentro dos frasquinhos de xampu, a pontualidade intestinal dentro dos potes de lactobacilos, a habilidade manual dentro das caixas de lápis de cor. Continuou não sendo mais intensamente verão por causa de um Rider, continuou não sendo tão inverno a ponto de haver ursos polares por causa de uma Coca. O mundo prosseguiu sempre normal, inaceitavelmente. Uma terra de cafés da manhã sem o prometido sol das margarinas, uma terra de passeios com amigos sem pinta de musicais da Broadway, um universo de empregos em que a promoção não começa na bonita camisa. O caos.

Pego este Dia Mundial dos Direitos do Consumidor para deixar registrado meu esbravejo: andam vendendo uma realidade pra gente tão diferente da propaganda! tão rica de defeitos de fábrica, tão vazia de “bem-vindos” e “volte-sempres”. Tão mentirosamente cheia de insatisfação garantida. (E o mais intolerável:

Sem nosso dinheiro de volta.)

quarta-feira, 14 de março de 2012

Uns dedos

A desconhecida se apoiava docemente, de lado, em um dos seguradores no meio do metrô. Era como a Catherine Morland de que falei no último texto: mediana. Digo, alta e magra – bem alta e magra em excesso, até para meus padrões de inveja feminina –, mas de beleza mediana. Beleza plácida, suave, sem olhos (nem nariz, nem boca) de ressaca; agradável de ver, embora sem ímãs irresistíveis. Em termos de modelito, o mais básico de todos os universos: calça jeans moderadamente folgada, blusa preta lisa, sapatilhas. Cabelos escuros, médios, molhados. Mochila cáqui. Um nítido desconforto com a própria magreza, talvez não tão bem distribuída em tantos e tantos centímetros. Mas não havia incômodo nos traços delicados, que eram, ao contrário, imperturbáveis. Havia incômodo na linguagem do corpo – recostado, recolhido, recoberto ao máximo pelo cruzar de braços. E tudo morava nesse cruzar de braços.

Por causa do cruzar de braços, ficou em plena exibição uma das mãos da passageira. Ficou à minha altura, piscando o olho. Tremendo abracadabra: morava ali o ímã! Impossível não admirar a mãozinha a um só tempo mimosa e longa, longa, tão fina e tão torneada, de dedos tão de pianista, afilados, perfeitos. Unhas apenas suficientes para coroá-los com graça, sem recurso de esmalte. Uma escultura. Uma esculturazinha presa a um corpo que mal suportava a si mesmo.

E assim não somos todos? Não somos moldura de nossos melhores traços, não somos álibi de nossas melhores porções, não somos condição de existência para nossas perfeiçõezitas de estimação? Não somos veículo usado para as formosuras particulares passearem no mundo? Somos transportadores de belas mãos, pestanas, lábios, cabelos; e, se cada um de nós vem a ser uns maravilhosos dedos (ou pestanas, ou lábios, ou cabelos) cercados de um resto de pessoa por todos os lados, não há, em compensação, ninguém que não tenha um elemento incomparável. Ninguém que não tenha uns olhos ciganos de Dom Casmurro, uns braços luzidios de “Uns braços”, um narizito petulante de Sítio do Pica-pau Amarelo, umas tranças abissais de Rapunzel, uns pezinhos indecentes de Pata da gazela. Ninguém que não seja amável da parte pro todo, que não seja tomável do gole pro litro, que não contenha metonímia pronta de si próprio. Ninguém que não traga seu quê exclusivo, único, apaixonável; seu cartão de visitas, sua isca de hipnose, seu instrumento de embevecer gente.

Tanto melhor se lhe calha um essencial invisível aos olhos.

terça-feira, 13 de março de 2012

Delícias da grade

Um dos quatro ou cinco livros que venho maltratando no momento é A abadia de Northanger, romance de Jane Austen (mulher alguma pode deixar de passar por um Jane Austen na vida). A heroína, Catherine Morland, é construção primorosa, é o mais complicado tipo de protagonista: aquela que não tem um único excesso como traço distintivo. Não é de boniteza extrema, irretocável, ou feia tampouco; tem personalidade de pão de ló (nem rija, nem úmida, nem disforme), inteligência mediana, situação financeira pacatíssima, família equilibrada, bondade sincera sem exageros de polianice. Gente aflitivamente comum. E, como toda gente comum (ao menos da época), a bichinha se distrai lendo romances – especialmente os que tendem para o gótico. Natural. Nada como a mais grotesca das vidas emprestadas para fazer a harmonia das rotinas serenas.

Pois então. Certo dia, Catherine e seus amigos agendam passeio ao Castelo de Blaise, e ela se pré-deslumbra com as alegrias que a visita lhe irá proporcionar. O que achei mais saboroso foi a listagem de algumas possíveis fontes de prazer para a mocinha: “A felicidade de passar por estreitas e tortuosas galerias e ser impedida de continuar pela presença de uma porta com uma grade na frente. Ou até mesmo a felicidade de ter sua vela, sua única vela, apagada por uma súbita rajada de vento, e de ser deixada na mais completa escuridão”.

Há ilustração mais encantadora do quanto são desejáveis nossos apetites insaciados? Do quanto são queridos nossos limites? Do quanto são amáveis nossas barreiras? Catherine ansiava pela emoção inteira, pelo pacote total das heroínas de romance, incluindo seus perrengues e frustrações. Sim: sonhava com isso por não lhe faltar segurança no dia a dia. “Assim é mole”, diremos. Concordo que é mole, e também não sou daquelas que louvam a busca de adrenalina, nem das que caçam problema por esporte (ficaria deliciada, por sinal, de abraçar o cotidiano da senhorita Morland). Mas entendo que, se não precisamos exaltar as velas apagadas e os breus surgidos, não devemos, por outro lado, desprezar esses tropeços como diversões em potencial. É ruim achar a porta trancada, e excelente ter a curiosidade aguçada pela agonia da vontade. É má coisa ficar no escuro, e melhor coisa não há do que ser forçado a um sossego incompatível com energia elétrica. É horrível tomar recusas e ótimo ter de prová-las injustas. É triste levar críticas e maravilhoso trabalhar para desmenti-las. É penoso desfazer noivados e fantástico estar livre para laços mais legítimos. É sofrido esbarrar com doenças e duplamente libertador vencê-las em nome das novas prioridades.

Grades, chamas extintas, trazem exército de delícias na manga; promessas de mais largas habilidades, de outros melhores corredores. Coadjuvantes de si mesmos ficam, inaptos, retidos na alfândega. Protagonistas de carteirinha é que – exclusivamente – nascem com a senha do pacote completo.

segunda-feira, 12 de março de 2012

De orelhas e outros crimes

12 de março marca o Dia do Bibliotecário no Brasil, por causa do vocacionadíssimo Manuel Bastos Tigres (nascido na data), que se apaixonou pela Classificação Decimal de Dewey. Abençoados sejam os que se apaixonam pelas classificações decimais. Se não os houvesse, gente como eu – que inevitavelmente força os livros a um estado de desorganização calamitosa – mergulharia o mundo no caos, e privaria a humanidade de suas maravilhas: bibliotecas. Que inaceitável o planeta se, além da paz universal, não existissem bibliotecas! Ou se não existisse sua confiabilidade tranquilizadora; a chance de lá chegarmos e (faça chuva, faça sol) termos acesso ao livro mais improvável, presente sempre no mesmo bat-lugar, firme e quietinho em sua prateleira. Infalivelmente. A eficiência disciplinada dos bibliotecários nos enrijece a fé.

Nunquinha que eu, entretanto, por maior bem-querer que tenha às bibliotecas, daria uma boa profissional do ramo. Justamente porque é amor bandido, voraz, não a paixão metódica desses heróis da arrumação. Faço vários livros de amantes ao mesmo tempo; largo um cá, outro lá, o primeiro numa bolsa, o segundo noutra, um terceiro no armário, um 18º que baila entre a pasta de trabalho e a cabeceira – e dançam todos um tango doido, alternando-se diante de minha atenção sem (aparentes) lógicas. Não digo que os faço de gato e sapato, mas não me saem incólumes. Acontece que sou incapaz de ler sem os cheirar e catucar ruidosamente as páginas e às vezes pausá-los abertos sobre o peito, ou largá-los de cócoras no sofá, arreganhados, pasmados. Pior: faço orelhas – orelhas! – propositais para assinalar a parada na leitura, por não gostar dos marcadores separados e suas quedas traidoras. Sim, dobro o alto da página; mea culpa. Uma sem-vergonhice. Pois fazia até pior, dobrando também o pé da folha na tentativa de guardar a posição das melhores frases. Desisti, no entanto; o livro embalofava como agenda de adolescente, e perdia a usabilidade essencial dos brinquedos. Como todo amante inacessível, perdia a graça.

Porque é assim que gosto de meus parceiros de papel: acessíveis. Se os trato com deferência exagerada, brincar fica tão saboroso como ganhar de Natal a boneca intocável, rendada, perfeita, de porcelana inútil. Mas dou pancadinhas com gentileza e faço as justas exceções. Poupo as folhas dos livros velhos, por exemplo, que se quebram na ameaça de dobra. Não sublinho nunca os mais belos trechos, para que os olhos escutem a todos com a mesma fluidez e não tenham surpresas gritadas, agendadas. E ja-mais empresto livros; não ignoro sua tendência de voar sem volta, e lhes podo as asas carinhosamente. Tudo de que precisam, mesmo após temporadas de cabeceira e bolsa, é a prateleira materna pra chamar de sua. Principalmente se minha.

Livro tem de receber uma boa mão na orelha todo dia pra saber (que ele é) quem manda.

domingo, 11 de março de 2012

Namorar

Rádio do carro ligado. Vem aquela música bonitinha do Seu Jorge que conheço de refrão, não de letra. “Mina do condomínio”. Pela primeira vez fico atenta aos primeiros versos e caio de fofura ante a profundidade simples, o resumo sem floreios do descompasso amoroso: “Tô namorando aquela mina,/ mas não sei se ela me namora”. Claro, o “namorar” do autor é mais propriamente aquele que fazemos de longe, contemplando, desejando, secando, olhando e reolhando com ar pidão. Só que – noves fora – acaba se aplicando também a todo e qualquer namorar de mão dada, namorar de beijo a leste-oeste-norte-sul, namorar de aliança no dedo, namorar de almoço na sogra, namorar até de lista de casamento na Leader e papel passado e engomado. Todo mundo sabe dizer se namora; ninguém pode jurar de pé juntinho que é namorado em retribuição. Namorar acontece de ser coisa que se faz sozinho. Namorar acontece de ir transitivo direto e voltar intransitivo.

Para namorar, deve-se estar em ponto não apenas de apaixonamento (que isso é mais fácil e mais rude), e sim de admiração. Deve-se ter n’alma algum cantinho de eunuco ou de gueixa, sempre em vias de descobrir e saciar a vontade ínfima. Deve-se ter por dentro, igualmente, o gigante que protege e a pelúcia que se abandona, o doutor que instrui e o fã que se ajoelha. Deve-se guardar a capacidade de ficar horas e horas embevecido no cabelo, no perfume, na memória, nos projetos que se apresentam douradinhos. Deve-se dar de comer a um projeto – bom para ambos, sorridente a ambos, e não posse exclusiva de um dos sonhadores. Deve-se amar um futuro em que caibam os dois juntos, não colados, nem somente atados por benefícios; um futuro que os abrigue unidos sem deixar perna ou braço de fora.

Não namora o outro quem não se vê em estado de pertencimento, preferindo o senso de apropriação. Não namora quem se admira em pupila alheia sem passar pelo resto do admirador. Não namora quem ignora aniversários, quem terceiriza lembranças, quem transfere a escolha de presentes numa suprema indiferença à chance de derramar-se em ternura. Não se namora sem ternura. Mesmo a atração mais urgente, mais selvagem – ou esta principalmente – não subsiste sem um alicerce de delicadeza, sem uma preocupação geral, um indício de que se pensa além de si, de que se está atento também ao que não se é. Namorar é isto: atentar acolhedoramente para o que não somos. Não querer impressionar de maneira ininterrupta, ao menos não unilateral, mas abrir-se aos pequenos encantamentos de outrem; às pequenas (linda palavra!) idiossincrasias. O não-namorar é bastar-se. Contentar-se consigo, estando ou não acompanhado. Namorar é emprestar-se generosamente às surpresas de outro mundo.

É pousar todo dia na lua predileta e dar novos, grandes saltos em sua própria humanidade.

sábado, 10 de março de 2012

A máquina do mundo

Num certo 10 de março de 1876, Alexander Graham Bell principiou tudo. Foi ele o culpado. Fez a primeira chamada telefônica da história – “Senhor Watson, venha aqui, eu quero vê-lo” – e começou a transformar esta Terrinha num planeta de invasores. Porque não é este Dia do Telefone que me há de amolecer o julgamento e convencer do contrário. Que seja (vá lá) um mal necessário, concordo; mas que o bichinho não deixa de ser também inimigo íntimo, X-9 maroto, espião infiltrado, embaixador da amofinação dentro de nossa vida e casa, é crença de que não abro mão.

Sim, o telefone permanece insubstituível para urgências de corpo e alma. Uma consulta ao médico, um apelo ao bombeiro, um socorro! ao chaveiro, um help! encharcado ao encanador. Uma encomenda preguiçosa à pizzaria. Um pedido exasperado à farmácia. Um agendamento expresso do cinema. E também os desabafos de tristeza ou alegria emergencial, intensos, inadiáveis. Admito o uso da maquininha para todas essas (e outras) imediatices. Que jeito. Mas eu – bicho das cavernas – não posso evitar de estremecer quando o toque abominável preenche a casa e insiste insiste insiste, indiferente à nossa ida ao banheiro, ao travesseiro, à novela, ao almoço. Fazendo pouco do sacratíssimo direito à solidão. À caramujice. Ao silêncio. À completa desvontade de relatar o dia, ouvir relato do dia, saber a última fofoca, a mais recente e vazia peripécia, a história da tosse inesperada. O telefone é um estupro de intimidade: requer-nos naquela hora e local, independentemente de nosso preparo; é presença que nos visita sem anúncio – visita de voz, mas visita. Existe, em cada toque não urgente, alguém se aboletando em nosso tempo de mala e cuia.

A coisa piorou com o celular. Piorou até a psicose. Até a loucura coletiva. Concordo, novamente, que é uma comodidade sem tamanho poder avisar que o pneu furou, o bebê nasceu, o leite está em promoção – sem precisar recorrer ao orelhão (quebrado) mais próximo. Mas o povo usa celular pra isso? Usa nada. Usa é pra tudo. TU-DO. Pra dizer que foi ao toalete do shopping: liga. Pra dizer que o toalete do shopping não tinha papel: liga. Pra completar que o toalete do shopping não tinha sabonete: liga. Pra contar que a manicure de sempre faltou ao serviço, faço com outra?: liga. Pra reclamar que a manicure nova acabou de tirar o 38º. bife: liga. Pra perguntar (durante o sacrossanto horário de almoço) se, afinal, a Keila beijou o Paulinho: liga. Pra xingar a Keila por não ter falado do Lucca e do Adriano: liga. Pra mandar um oi: liga. Pra mandar bom-dia: liga. Pra avisar que não vai ligar: liga. E ai de você se desliga! ofensa de primeiro grau estar (como eu) “inacessível” – do jeito que, aliás, até há pouco éramos todos. Pois insisto em prosseguir como me criei, ternamente fujona a essa síndrome da disponibilidade doentia. Sabe-se lá por quê, não curto ser radar ambulante. Um sumiço nosso de cada dia está na Declaração Emocional dos Direitos Humanos.

Tá certo: há compensações para os telefóbicos. Primeiro foi a secretária eletrônica. Delícia! tomar recado sem precisar atender e só acusar recebimento da mensagem em nossa devida hora e vez. Um princípio de liberdade. Aí veio o bina. Que maravilha o bina! Saber com antecedência o número que nos busca, escolher aceitá-lo ou não e, no caso de aceitá-lo, já ir de coração preparado, sem o salto no escuro que um “alô!” implicava. Definitivamente, uma quase alforria. Mas o melhor de tudo, ainda disparadão, é o e-mail – abençoado seja. Que o telefone exige resposta pronta, na lata, sem nem a consolação de um olho no olho nos dando o recurso das expressões faciais e atenuando-nos a indecisão e a gagueira. O e-mail não: nos concede rapidez e, simultaneamente, o tempo da reflexão e da delicadeza, o tempo do cuidado e do apuro, do pensamento e da resolução. O nosso tempo. É o supremo constatar da evolução humana. Ou, ao menos, prova de que podemos adiar um bocadinho mais o completo desespero.

(Só para fechar, e já que falamos em delicadezas e evoluções humanas: eu soube que, no Japão, é proibido conversar ao celular no metrô, para não incomodar os outros com a musiquinha ou com a voz. Vou ali do outro lado do mundo morrer de vergonha e já volto. Quando chegar, telefono.)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Fome de viver

Março, nos Estados Unidos (não sei se em outras plagas), é o Mês da Nutrição. Da nutrição física, é claro. Corpórea. De comer certinho, direitinho, com todos os devidíssimos legumes e frutas e verduras, poucas orgias de açúcares, de preferência nenhuma de gorduras escorrentas. Muito bem. É excelente que eles – principalmente eles, americanos, com suas lanchices supersized – tenham mês de refletir sobre os abusos contra o organismo, e coisa mui digna de ser imitada no resto do planeta. Mesmo assim é pouco. Pouquíssimo. Não só em termos de nutrição que envolve estômago, a propriamente dita; é pouco (é menos ainda) em termos de nutrição geral. Irrisório no que se refere ao conjunto de fomes do mundo. O agrupamento de necessidades não supridas que anda deixando o povo de alma anoréxica.

“Anoréxica” é bem o verbete, porque implica recusa. Ter e não querer. Tocar com olhos e mãos e não se pôr seduzido. Apreciar e não se deixar apetecer. Pilhar uma lua cheia como a de ontem e esnobá-la com desprezo escandaloso (nin-guém olha!); receber mail com versos de Pessoa e deletá-lo sem lhe correr a vista; ser confrontado com um pianista no shopping e prosseguir nas compras, sem dois segundos de permeabilidade. Anoréxicos interiores, como aqueles que aparecem esquálidos nas revistas, habituam-se a renegar o impulso da nutrição até extingui-lo. São convidados e faltam, são amados e ignoram, são acarinhados e repelem, ganham livros e os repassam, ganham ingressos e os esquecem, ganham beijos e os reciclam. Ei-los, aí, nos alunos que têm bons professores e perdem o ano por leseira incorrigível. Ei-los no público que tem show gratuito e puxa vaia, no rapaz que tem alternativa e prefere o crime, na mocinha que tem o parceiro ideal e o trai com um qualquerzito. Ei-los, os anoréxicos d’alma – os ingratos, os indiferentes –, em todo canto onde há mais facilidade que fome.

Existem também bulímicos emocionais, talvez piores. Não são escudos em que as influências batem e voltam, muito ao contrário: absorvem-nas todas com estupidez de draga, devorando, incorporando as fontes sem consciência ou critério, sem saliva que amacie, sem reflexão mastigada. E devolvem essa mixórdia de informações e valores num vômito insano. São produtos desesperados de filmes, novelas, games, propagandas, comícios, funkices, famílias, camaradagens, empresas – um tudão que nem sempre se complementa em questões nutritivas, quando não provoca congestão ao ser combinado inadvertidamente. Os bulímicos da cultura transbordam o caldo podre em que, neles, se transforma a nossa orgia de estímulos. Não encontram guia que lhes oriente a cura da ressaca; não acham Eparema que os ajude a digerir o planeta. Vazam, apenas. Vazam tiros, revoltas, quebradeiras, rachas de carro, moradores de rua queimados, massacres em Columbine. Sem mais o que consumir, vomitam-se. Não se nutrem, não saboreiam. Não comem por decisão, carência ou fome; comem por gula e espanto.

Neste Nutrition Month de longos 31 dias, cultivemos o apetite moderado e buscante das coisas belas, das delicadezas sem colesterol, da degustação tranquila de seriedades necessárias. Sejamos o cardápio de gente ideal; amemos o gosto das refeições possíveis.

... Ou empalideceremos todos de anemia sentimental, apalermados diante das grandezas e pequenices surgidas. Se não ficarmos reféns dos excessos de nossas (prisões) solitárias.

quinta-feira, 8 de março de 2012

(Nada) de novo no front

Quer ver me irritar no Dia Internacional da Mulher? Só fazer reportagem sobre presença de mulher no mercado de trabalho. Em 2012, isso equivale a – sei lá – falar com espanto da eletricidade em 1951, assombrar-se com a existência da televisão em 1995. Ainda anteontem surgiu a internet; no dia seguinte, o homem fez clonagem e mapeou o genoma; e ninguém trata com mínimo susto o fato de podermos estar online dentro de um cinema, ou de termos um cachorrito com DNA idêntico ao do pet falecido. Normal. Assim caminha a humanidade. Mas basta chegar o 8 de março e a xaropada recomeça: a mulher executiva, a mulher motorista de ônibus, a mulher piloto de avião, a mulher advogada, a mulher cardiologista, a mulher engenheira, a mulher zagueira. Que lindo – e que velho. Mais velho que a internet, que o genoma adestrado, que o celular, que a pesca de células-tronco. Velho como a obviedade, óbvio como a conquista do fogo, natural como o uso da roda. Estamos bonitinhas no mercado de trabalho, e daí? Onde, cargas d’água, estaríamos nós?...

Longíssimo de me homenagearem, as repetições basbaques em torno do tema – com direito a sorrisos condescendentes dos apresentadores, ui, raiva! – me botam ruguinhas de má perspectiva. Mau panorama. Se ainda é espantosa novidade a mulher trabalhar fora, sustentar a casa, ter carreira bem-sucedida no que mais lhe agradar; se ainda é imensa novidade o evidente dos evidentes, o básico dos básicos – quando então partiremos para as evoluções periféricas? Quando a mulher que (oh!) ocupa as mesmas funções masculinas terá o mesmíssimo salário masculino? Quando a mulher namoradeira deixará de ser “vadia”? Quando a mulher virgem deixará de ser “atrasada”? Quando a solteira deixará de ser “solteirona”? e quando perderá para sempre o “encalhada”? Quando a casada esquecerá o que são tias (primas, colegas) cobrando maternidade? Quando a mãe sairá para o (oh!) emprego sem culpa de imperfeição? Quando a imperfeição se divorciará da pecha de hormônios em desordem, de falta de sexo, de TPM? Quando a mulher – também aos olhos da mulher – passará do assombro da exceção à serenidade da regra?

No mesmo dia em que nos limitarmos a ver aglomerados de carne expostos no açougue, não em capas de jornais populares (socados em biquínis de 3 mm). Na mesma data em que senhoritas de apelidos hortifrutigranjeiros se tornarem lenda urbana ou heroínas de HQ. Na mesma ocasião em que abandonarmos o posto de gênero alimentício – consumíveis por natureza: no calendário do ano, na revista do mês, na baladinha da noite. No mesmo instante em que a mulher não for mais “pega”, “comida”, tomada, apassivada, puxada pelo cabelo na boate, sequestrada como sabina pelo fato de ser “delícia” ou “filé” exibido na vitrine, à espera do braço forte que lhe arranque roupas e problemas.

Quando for inconcebível que um dia possa não ser Internacional da Mulher; quando for absurdo reservar um vagão feminino no trem ou metrô, tendo-se qualquer assédio por impensável em algum dos outros; quando for obsoleto celebrar a preponderância da chefe, da vice, da presidente; quando o 8 de março aparecer empoeirado num calendário todo feito de batons e rosas – estaremos finalmente no ponto. Continuamos vergonhosamente crus enquanto o ato de pertencer a uma das metades da humanidade ainda é notícia.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Bom dia & cia.

Dizem (com evidente razão) que a infância molda a vida adulta. Acontece também em menores proporções: a infância do dia dá cara às 16, 17 horas subsequentes. Fonte de inevitável mau humor, de manhã azeda, é acordar com barulho. Barulho forte. Barulho chato. Gente berrando, picareta ou martelo cantando nas proximidades, rádio-relógio mandando ver no pagode, despertador esgoelando seu pém-pém-pém neurastênico. Há perversidade no ato de sacolejar um adormecido no grito e no susto, como violência a bebê após o parto. Acordando sacudimos a placenta, chegamos à tona do mundo, achamos a margem desta dimensão depois de longa ausência (mesmo que de 2,1 minutos). Nos re-parimos. Os sentidos tornam à eficiência normal, a cabeça tira a camisola inconsciente e se põe decente como a lógica. Voltam as memórias escolhidas, as conexões controladas. Fio por fio. Cirurgia milimétrica. Só tranquilamente é que nos expele nosso útero de travesseiro; qualquer urgência indevida bota erro no download.

Como é melhor acordar? De preferência, cedo. Quando o dia ainda cheira a (café com) leite, ainda está fresco para não nos assolar com calores súbitos, ainda tem ar de sereno para serenar as últimas impressões do pesadelo, ainda se mostra escuro para não assombrar a vista com sóis agressivos. Essa doçura lenta, silenciosa de quase madrugada pega a gente pela mão e nos vai acostumando à nova data, feito mãe que acompanha no primeiro dia de escola. É preciso tempo, é preciso. Tempo para os cinco minutinhos extras que são prêmio de consolação do sono, tempo para o espreguiçar (e outro) gostoso e inteiro ainda no colchão, tempo para o constatar da hora pela posição dos raios na parede. Tempo para chegar à varanda, beber cheiro de mato molhado e aquela calma, aquela solidão benéfica de cidade adormecida. Tempo para tomar o café sentado, pausado – com boa torrada, boa digestão e Bom dia, Brasil. Tempo para a oração, o banho quente, o chá gelado, os quadrinhos de jornal, a rega no jardim. Tempo para a consciência da temperatura e o capricho no modelito. Tempo para as preliminares. Tempo para o costume.

Tempo para o dia existir de verdade – em vez de passar as horas todas com cara de aquecimento (doido) para a misteriosa maratona que não começou.

terça-feira, 6 de março de 2012

Por um nariz

Há 393 anitos, nascia Cyrano de Bergerac – o escritor, soldado, poeta, duelista que Edmond Rostand retratou em sua peça famosa, narigudamente. Eu e você sabemos pouco de Cyrano; sabemos mais de Cyrano, a obra cheia de romantismos. A obra em que o protagonista se considera feiosão e, apaixonado pela prima Roxane, não tem coragem de escrever-lhe seus amores diretamente. Prefere emprestar as palavras ao boa-pinta Christian, que acaba conquistando Roxane com coração alheio. Quando a moçoila finalmente descobre que o verdadeiro alvo de suas ternuras é o primo narigudo... tarde demais. O sujeito já está pela bola sete. Talvez a mais triste história de ghost-writer de todos os séculos.

Mas apenas história. O Cyrano verídico penou à beça com o apêndice nasal – dizem que duelou umas mil vezes por causa da chacota –, porém não consta que o cujo lhe tenha estacionado a vida sentimental. Nós é que brincamos de Cyrano fictício, e botamos na conta de nossos maiores ou menores narizes a decisão de virar avestruz. Não posso ser bailarina clássica porque tenho coxas abundantes. Não posso dar a palestra porque tenho voz gasguita. Não posso ir à festa porque já estive em três com esse vestido. Sou muito alta para a equitação. Muito baixo para o vôlei. Muito gorda para noiva. Muito magro para lutador. Muito nada para tudo; acabou-se. Baixamos a cabecinha e lá vamos, acalentados pela preguiça de resignação, terceirizar os sonhos gorados no sucesso de nossos Christians.

As mães que se desejavam pianistas (ou advogadas, ou ginastas, ou modelos) e pela pobreza, pelo casamento, pela fraqueza de tempo ou de patrocínio, abdicaram dos projetos para acampar na carreira bem-sucedida dos filhos. Os filhos que se imaginavam dançarinos de salão, mas pela fobia de ir à luta se esconderam no consultório equipadíssimo de papai e vovô doutores. As amigas que se fantasiavam mochileiras e, porque educadas para a solidez e estabilidade da repartição pública, exercem o fetiche pelas narrativas dos que deram a volta ao mundo. As esposas que se pretendiam diplomatas e, na falta de cabeça e gana de estudo, moram parasitas nas homenagens aos maridos. Cyranos: gente que, na linha de saída, se decidiu fracassada no intento e indigna de mandar bala; gente que por momento de contingência, por feiura de circunstância, por um trauma, por um triz, por um nariz não ganhou o direito de vencer a corrida, o sagrado direito ao primeiro passo. O passinho que muito talvezmente levasse aos já abertos braços de qualquer Roxane.

É fato que devemos sempre nascer com algum nariz que sobre. Pouco importa. Melhor pra nós, que podemos metê-lo até onde (inicialmente) não fomos chamados.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Memórias póstumas

Anteontem, Dennis Carvalho esteve no Estrelas e contou a Angélica um causo recente, de novela dirigida por ele. Na última cena de Insensato coração, todo o pessoal da equipe aparecia com uma camiseta em que se viam a foto do diretor e a mensagem “Dennis forever”. Pronto. Bastou para que alguns amigos do cabra, ao longe, se alarmassem e procurassem saber o que havia acontecido – se por acaso o gajo estava morto. Não lhes passava pela cabeça a estranheza de uma homenagem em vida, esse bicho raro. É justo. As aves que aqui gorjeiam (quase) só cantam em honra a figurões vivos se forem puxadoras de escola de samba.

Nunca compreendi o fenômeno: o sujeito nasce, cresce, reproduz-se em música, texto, desenho, amizade, oficina cultural, projeto social, projeto de arquitetura, boa comida, boa crítica, boa política... e começa a existir quando morre. Quando já está cego e surdo ao agradecimento, quando não acha serventia para abraços e tapinhas; quando não tem mais costas para receber tapinhas. Ganha o troféu após perder a prateleira. Ganha a coroa após tombada a cabeça. Ganha o obituário sentidíssimo no jornal, o minuto de silêncio no estádio, o nome do sanduíche no cardápio, a coroa de flores de 3m de diâmetro, a biografia de 400 páginas, a lápide em mármore carrara depois que não há visão-tato-gosto-escuta-olfato para trivialidades de viventes. Depois que a criatura já tem mais o que não fazer.

Não defendo, é claro, que o cidadão seja enterrado, a gente vire as costas e vá embora: circulando, circulando, borracha total no assunto, voltemos à nossa programação normal. Nada disso. Que ponhamos flores, sim, tanto no túmulo físico como principalmente no histórico. Que passemos o legado adiante, que organizemos festivais com os filmes, que botemos bloco de carnaval com as canções, que deixemos verbete na enciclopédia, capítulo no livro didático, estátua na praça, quadro na parede da ABL. Sim, sim. Mas que façamos isso na cara, em plena luz da vida. Que a gratidão se saiba, se veja. Que o contemplado ouça o nome na boca da galera, receba o sucesso em afagos e dividendos, apertos de mão sinceros e respeitos palpáveis. Na fuça. Nas bochechas. O merecedor seja frontalmente reconhecido, seja amado desavergonhadamente.

E vale para todos. To-dos. À faxineira que há vinte e sete anos sabe com capricho a posição das almofadas e ainda deixa pronto aquele feijãozinho de mãe? Contracheque gordo, férias, décimo terceiro, décimo quarto, beijocas na mão e lugar vipérrimo na plateia de show à escolha. Ao marido que celebra níver de encontro, piscada, namoro, casamento? Bombom, massagem, bilhetinho na pasta, passeio-surpresa de balão, declaração nos classificados, bolo de cenoura. À mãe que... enfim, foi mãe com tudo a que dá direito o pacote? Rosas, girassóis, serenatas, visita no almoço, convite pro jantar, companhia pro cinema, carona pro teatro, alegrias, obediências. Ao chefe que incentiva, à secretária que cumpre, à irmã que orienta, ao filho que orgulha, ao avô que relata, à tia que relembra, ao amigo que apadrinha – uma dose generosa de camisetas estampadas, de torcidas e obrigados administrados de vinte em vinte minutos, de duas em duas horas. Uma medalha pelos feitos do dia. Uma placa pela meta do mês. Um telefonema pela piada do último segundo. Um champanhe pela aprovação no último concurso. Ou no próximo. Aplausos pelo objetivo. Tim-tices pelo esforço.

Ao menos uma vez por semana, um Oscar honorário. Pelo conjunto da obra.

domingo, 4 de março de 2012

Se eu quiser falar com Deus

Mas eu não sou religioso, alegará o leitor, prevendo tédios. Que me importa seja hoje o Dia Mundial da Oração? No que me compete? Em que me afeta? E eu responderei num abraço: afeta, de igual maneira, o leitor fiel a uma crença e aquele que não se enamorou de nenhuma (ou não saiu com ela em público). Compete tanto ao que acredita na divindade quanto ao que se mantém em dúvidas; tanto ao que vai à missa, ao culto, à sinagoga – quanto ao que fica com suas ressalvas e não abre. Oração não é estritamente o recitar de textos famosos, não é a repetição de poemas prontos, não é murmurar vazio que escorre pelos dedos. Oração não é apenas gesto: é prontidão. Oração não é sobretudo fala: é escuta. É encontro marcado com a própria nudez de alma, seja diretamente pelo silêncio ou por meio da palavra que prepara a disposição interna, que nos varre por dentro, que deixa pronto o salão. Oração não é o retiro da festa. É a festa mesma.

Oração é a festa em que lamentos, quereres, alegrias nossas ficam rodando sob a agulha do DJ. A celebração em que nos tocamos, nos autopercebemos. Há os que a confundam com meditação. É o oposto. Meditantes esvaziam a mente; orantes preenchem-se de toda a reflexão, toda a claridade disponível, toda a sede possível, toda a análise cabível. Orantes se afastam do barulho externo para melhor ouvirem a própria voz no telefonema. Para lerem com mais fidelidade a própria partitura. Observe-os: orantes podem estar downloadeando uma ideia fresquinha nos dez segundos que seu olhar entrou em descanso de tela. Orantes podem ter baixado uma sinfonia inteira nos dez segundos do mais aparente silêncio.

Oração é, sim, falar com Deus – mas pode vir antes (ou independentemente) de se crer nele, antes de chamá-lo pelo nome específico. Como quem ama de modo intransitivo; como quem sente o desejo da mensagem sem atinar com o endereço do destinatário; como quem se descobre prestes a ser feliz e acabou-se. Oração é uma véspera de felicidade. Um estado de gratidão e melhoria aguda. Ora-se também lendo (de toda alma), separando lixo (com toda a atenção), preparando mamadeira (como se fosse de rei), se metendo numa música (como se fosse a última), se enfiando num abraço (como se fosse o único). Ora-se sendo melhor explicitamente, sendo bom em particular, sendo gente em voz alta. Ora-se sendo inteiro rumo à evolução. Aspirando lições, transpirando medos. Ora-se, às vezes, engolindo sapos. E gritos. Deixando-se, como a célula, invadir pelo alimento e abandonar pelos restos. Ora-se aprendendo.

E se, ao findar, a gente der em nada, nada, nada, nada do que pensava encontrar – é porque acertamos. Não há como a vida para surpreender um bom aluno positivamente.

sábado, 3 de março de 2012

Quando oiei a terra ardendo

Hoje faz 65 anos que Luiz Gonzagão e Humberto Teixeira gravaram a perolíssima “Asa branca”. Música fadada à perenidade pela melodia reta, limpa, facílima, casada a alguns dos versos mais doídos do cancioneiro (“Por falta d’água/ perdi meu gado,/ morreu de sede/ meu alazão”: de matar). Toda “Asa branca” é um desabafo de ternura antiga, o choro da separação maior – entre o vivente e a vida amada, entre o conhecedor e tudo quanto lhe é conhecido. E é oceanão filosófico que cabe, entretanto, dentro das notas mais simplinhas; as primeiro descobertas por qualquer tocador de flauta doce, acordeão, piano. Como se o fácil da partitura universalizasse o direito à tristeza.

Mas a tristeza de “Asa branca” não tem os rigores do sertão ardendo. Nem mesmo o nublado da cor que voa no título. É tristeza da cor do olhar de Rosinha, como dizem os versos que prefiro: “Quando o verde dos teus oio/ se espaiá na prantação,/ eu te asseguro:/ não chores não, viu,/ eu vortarei, viu,/ meu coração”. Não consigo ouvir ou cantar a estrofe sem me encher de ameaça de lágrima. Porque há lamento, sim, porém banhado de esperança e promessa. O sertanejo que parte não voltará “se”, voltará “quando”; o verdejar do campo que era braseiro e fornaia, por mais improvável, é dado como líquido e certo. Há mais que pressentimento, vontade; há certeza. A certeza dos que se recusam a aceitar a seca de coração inteiro. A certeza dos que são tão férteis que não a compreendem.

“Asa branca” assumiu extraoficialmente a condição de hino do Nordeste, mas é hino de todos nós. Nós que (vez por outra) vemos queimado nosso horizonte próximo, vemos palha e desolação até perder de vista; nós que nos despedimos de nossos Joões e Rosinhas em busca da sobrevivência implacável; nós que perdemos gado e prantação no caminho, que ficamos longe muitas légua da gente mesmo, e que no entanto temos a doçura de esperar a chuva cair de novo pra nós vortá pro nosso sertão. Sem dúvidas de que uma bênção providencial iluminará nossa terra de origem.

Feliz aniversário, “Asa branca” – melô da confiança irrestrita, profissão de fé teimosa, trilha sonora dos que brasileiramente não desistem nunca. Guarda contigo nosso coração.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Circle of life

Para meu imensíssimo desgosto, termina hoje a novela A vida da gente. Todo o tempo em que esteve no ar, fez jus ao título. Nada de histrionismo, nada de vilã de desenho animado, nada de núcleo cômico-roceiro, nada de vampiros e simpatizantes, culturas longínquas recheadas de sáris e deuses, tempos longínquos abarrotados de cartolas e anquinhas, nem mesmo as princesices e cangaceiros de meu saudoso Cordel encantado. Nem cidades cenográficas de praia eterna, nem cidades imaginárias de chocolates e roseirais, nem vidas que não a vida presente, o mundo presente, os homens presentes. De nenhum artifício – além de nós proprinhos – precisou a obra de Lícia Manzo para se estabelecer absoluta.

A vida da gente foi, no ótimo sentido, novela de esquina. Novela de vizinhança, de atravessar a rua e tropeçar na história de um personagem, de ir à padaria e esbarrar com o drama da protagonista, de pilhar na família o mesmo dilema do coadjuvante. Teve a briga da paixão sonhada com o amor sereno, teve a luta do amor correto contra o tempo errado, teve a guerra do corpo operado contra o sexo pretendido, teve a maternidade possessiva, a maternidade doentia, a de escolha, a de circunstância, a de adoção, a de inseminação, a sem vocação. Teve adolescente tardia e adulto precoce virando parente acidental no meio do caminho. Teve coma e morte, amizade e vida costurando novas genealogias. Gente se atando sem afeto e se desatando sem falta dele. Traindo qualquer alguém com qualquer algo e qualquer idade. Tendo qualquer surto em qualquer idade. Sobretudo falando – três, quatro, cinco vezes – a cada capítulo o mote maior de nossos capítulos pessoais: será que a gente pode conversar?...

Foi novela de conversas, como somos nós. Conversas cheias de apesares. De como Alice tinha o apoio dos pais adotivos em sua busca pela origem biológica, apesar do risco de decepções. De como Ana guardava um travo de pertencimento a Rodrigo, apesar do casamento marcado com Lúcio. De como Dora não podia continuar unida à irresponsabilidade cotidiana de Marcos, apesar de adorar seu capricho paterno. De como nos vemos irremediavelmente repletos de forças opostas em equilíbrio, opções contrárias de igual atração, rotas que estraçalham com cada um dos gumes. De como o nosso principal esporte é medir decisões pelo seu peso em palavras.

Ainda assim, a cena-chave de toda a trama se deu (esta semana) num quase-silêncio esmeradíssimo. Brigadas por culpa de desencontros amorosos, as irmãs Ana e Manu fizeram as pazes. No capítulo em que discutiram de morte, passaram longos minutos vomitando a alma uma na outra; assunto que não acabava mais. Trincheiras de argumentos. Acusações em jorro e em granada. Na reconciliação, tudo que era importante não era coisa de dizer: em segundos olharam-se, abraçaram-se e protagonizaram um dos mais bem redigidos scripts da história. Sem os excessos verbais com que vestimos o indizível. Sem intermediários gramaticais entre gente e vida. Sem nada que não fosse o que somos quando nus das folhas de parreira buscadas no dicionário.

Parabéns a Lícia Manzo pela novela que deu certo pelo básico: metade de nós é silêncio, a outra se fantasia de idioma. Para tecer a costura: tempo, tempo, tempo, tempo.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Procura-se

... Cidade que não careça lembrar data de fundação, porque não vê mérito no tempo que dura, no tempo que subsiste, e sim no que resta até que todas as assistências e saneamentos estejam cumpridos. Cidade que não insista em se orgulhar da beleza que lhe coube sem culpa, sem merecimento ou escolha, como a beldade oca que só se fia de seus encantos; cidade que core ante os elogios, que argumente (com razão) não ser responsável pela própria lindice, que prefira cumprimentos pela inteligência das realizações, pela precisão dos feitos, pela justeza das atitudes. Cidade que não se veja justificada pela formosura involuntária. Perdoada de seus deveres por meia dúzia de peles e curvas. Inocentada de suas ausências por duas dúzias de mares e sóis. Cidade com vergonha na Cara de Cão, cidade com força de ganhar o Pão. Inda que sem Açúcar.

Procura-se uma qualquer cidade que respeite a pobreza sem normalizá-la, que valorize a favela sem santificá-la, que sorria com o malandro sem mitificá-lo. Que traga a visita sem desprotegê-la. Que trate sequestro como lenda urbana, falta de decoro como perplexidade desconhecida. Que só por álbum recorde a última greve, só por arquivo descubra um último assalto, só por fantasia conceba a inimaginável violência, a falcatrua de ser vista com olhos arregalados de susto inédito. Uma cidade de causas possíveis. Uma cidade de desesperanças perdidas.

Procura-se uma cidade que não (des)monte na preguiça de seus verões, que tenha pachorra de caminhar com o resíduo até a próxima lixeira, que não crie desculpa para transferências, ineficiências, insuficiências de saldo, adiamentos de inauguração, incompletudes de inauguração forçada. Cidade de oceanos turquesa e intenções mais translúcidas, de bairros verdes e orçamentos mais, de crepúsculos de aplaudir e prefeitos idem. Cidade que só sambe se não há quem caia. Que só sapuque se não há quem chore. Que só seja sapeca se não há quem se veja sapecado. Logrado. Que no máximo exploda de confete e blusa de time, que não atine o que seja explodir de bueiro.

Quem encontrar, manda pro meu endereço. Aqui no Rio de Janeiro.