quarta-feira, 4 de abril de 2012

Cantando na chuva

Conto de Machado é (no sentido feliz) que nem formiga: você as vai descobrindo pela casa e matando, matando, até que o primeiro local de matança recomeça a pipocar as danadas. Você pega vinte contos do Bruxo, lê lê lê lê, surgem de um qualquer paradeiro mais trinta ou quarenta, que delícia! Ao fim de um tempo, reprincipia o ciclo com aqueles mais antigos e esquecidos. Há sempre tantas surpresas no novo encontro que a gente jura: é outra história, que nunca me caiu nas mãos. As mãos, no entanto, é que chegam como outras. Trazem outra idade e outros olhos, cheios de mais aproveitáveis experiências e recursos azeitados.

Pois então. Um dos recentemente relidos foi “Frei Simão”, no qual, logo de início, gritou para mim o trecho da despedida do protagonista: “Quanto a Simão, levava os olhos secos e ardentes. Era refratário às lágrimas, por isso mesmo padecia mais”. É exato. Temos inclinação para o consolo das dores visíveis, para a piedade dos olhos tristes; temos fraqueza para narizitos vermelhos e costas sacudidas por soluços. Uma pena terrível. Que dó. Ninguém resiste. Mas ferrado e cerrado, mesmo, é o sofrimento que não se anuncia. Que não dissolve a ponto de liquefazer-se, que não derrete um pouquinho, não se transborda, não se alivia, não se bota pelo ladrão. Esse é o que fica iceberg, só com a cabecinha para fora, bloco imenso de amarguras espalhado dentro. Vira gigantesca bala Soft – monstrengo que cresce canceroso, tapa a respiração e nos engasga de despeitos, de velhas ignorâncias. A dor que não chora é bola de neve se autoalimentando. Se retroalimentando. A dor que não chora dificilmente perdoa.

A gente vê pelos homens sisudões (e mulheres sisudonas, neste sentido raras) dos faroestes reais e fictícios. Sofrem desgraçadamente a perda da inocência, da família, da casa, das terras, da dignidade, do billy-the-kid a quatro. Choram? só quando crianças, às vezes nem isso, e de raiva – uma bruta raiva. Chorar de raiva não vale. É o mesmo que duas ou três gotinhas jogadas em chão deserto, batendo ao solo e voltando com um tssssssss de vapor. Não há irrigação, só irritação dessa terrinha mais rachada, mais escaldante e mais seca. Presta nada. Chorar tem de ser de forma que amoleça a terra empedrada, a cabeça dura, e ao mesmo tempo efeito de algum amolecimento possível. Depois que escorre a primeira geleira, a tendência é seguirem outras de avalanche – e aí o choro vem bom, vem cheio, vem libertador. Vem limpando de enchente, descendo de correnteza, lavando de pororoca. Vem deslizando, deslizando, mandando porcaria pro ralo, jogando fora os excessos de ressentimento congelado ou botando vida no saara ressequido. Que seja assim: de arrastão. Abrindo espaço. De vez em quando, de uma vez por todas. Mas que venha de verdade, no volume necessário, no público ou no íntimo, por três dias ou dois minutos. Que venha na medida certa, como sono. O suficiente para desentupir os canos ou frear incêndios que precisavam de bombeiro.

Não dá pra frequentar coração que não tenha regularidade na faxina. Principalmente sendo o dono.

2 comentários:

Lucas Nuti disse...

Hoje eu olhei pra tela do computador e de repente digitei seu endereço, decidindo-me segui-la, pois adoro seus textos e sua linha de pensamento.
Um abraço!








Se curtir:
http://alteregodonuti.blogspot.com.br/

OGROLÂNDIA disse...

Mais um texto supimpa!
Mas ogro nunca chora, nem para irrigar, nem para hidratar, nem para enchente, nem para nada, nem para nadar.
Mas nunca nunca deve ser usado, mesmo quando é para se referir ao próprio nunca.