quinta-feira, 26 de abril de 2012

Catch me if you can

Sendo hoje o Dia do Goleiro, as festividades se estendem a toda e qualquer criatura fadada, por gênio ou profissão, a defender resignadamente seu gol – e só no erro ganhar holofotes. Porque quem são os goleiros, coitados? gente que conquista fama eterna pelo que não faz, e no máximo três minutos de celebridade pela missão bem cumprida. Quer ver goleiro que vira ídolo, é aquele que cobra falta e bate pênalti; o ativo. O que sai de suas traves para fazer. Se é do tipo usual, ainda que o mais fantástico na defesa – se é o passivo que permanece de guarda, se é a sentinela fiel –, babaus. O mundo é especialmente gamado em gente proativa, esse adjetivo precioso que anda virando cabeças no universo empresarial. O sujeito tem de meter as caras. Correr atrás. Inventar perguntas para todas as respostas. Ser um trator, um devorador, um insaciável. Brasileiro, então, exige provas; idolatra toda competência que consiga ver, se possível apalpar: gráficos, troféus, gols, números, diplomas. Com brasileiro os talentos em surdina, os discretos, que produzem sem se divulgar, estão fora do mapa. Brasileiro não conta os 37 pontos que o adversário não fez. Conta o único convertido quando não havia braço, esforço, músculo que chegassem. Naquele microssegundo em que o goleiro fingiu que era humano.

São goleiros os professores, que devem cobrar a falta – suprir a longa ausência de outrem – e proteger com fúria, com cansaço, a pequena área entre o aluno e suas preguiças, suas lacunas de cidadania, seus apegos à satisfação imediata, suas inclinações ao canto do iPod e ao de outras (piores) sereias. São goleiros os revisores – tantas vezes escritores em potencial, que estrangulam sua vontade de criação para dar decência a textos publicados imerecidamente, e mesmo assim são lembrados pelo gol que escapou, pelo s a mais que passou, pelo pontinho final que ficou em itálico. São goleiros os médicos, jogadores do jogo mais aguerrido – a quem, no entanto, sobra às vezes somente a opção de impedir o aumento da desvantagem, para ao menos perder dignamente. São goleiros os pais que, em plena juventude dos rebentos, se veem mais forçados a administrar a educação já semeada do que a se alastrar em terrenos novos. São goleiros os ecologistas, dedicados a tapar os buraquinhos do dique enquanto não entorna irreversível a catástrofe. São goleiros os garis. São goleiros os psicólogos. São goleiros os sociólogos. São goleiros os (bons) juízes. São goleiros os (bons) árbitros – goleiros (eis o riso da metáfora) mesmo de outros goleiros.

São goleiros todos os valorizados unicamente na ausência, os distintos pela falta que deixam, os destacados pelo vácuo que criam. Os que são fotografia em negativo, presença marcada pelo seu contrário. Rins do mundo: filtros silenciosos do que tanto poderia piorar um sangue já turvo em si próprio.

Próxima vez em que for xingar o guardião de seu time, recorde os bons e velhos frangos que você mesmo tem armazenados. De outros tempos. De malfadadas tentativas, de mal pagas dedicações, de intenções injustiçadas, de ofertas repelidas. Lembre as bolas que rindo escorregaram, objetivos que deslizaram entre dedos, sonhos a que o querer não bastou, distâncias que o sonho não atingiu. E se pergunte se, mais desengonçado que ele, você não dormiu uma de suas noites sob um frango assim. Ou assado.

2 comentários:

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OGROLÂNDIA disse...

Você realmente tem o poder te trazer coisas comuns para uma ótica totalmente nova e, convenhamos, sensacional.
Quando li sobre o dia do goleiro só lembrava dos meus tempos de goleiro em que minha cara, e outras áreas sensíveis, viravam alvo de boladas.
defender o gol da vida é realmente muito mais complexo.