segunda-feira, 30 de abril de 2012

Bem servidos

Outro dia, em Avenida Brasil, Nina – a “Condessa de Monte Cristo” que está se fingindo de serviçal abnegada na casa da vilã Carminha – acordou a patroa com bandeja caprichadérrima, musiquinha suave e um sorridente “Quer ajuda para se vestir?”. A outra fez cara de estranheza, entre surpresa e encantada: “Sempre me vesti sozinha”. E Nina, convincente como os vingativos que plantam confiança antes do créu final: “Ah! então a senhora nunca soube o que é ser bem cuidada”.

Olha, cá entre nós. Todo mundo curte umas boas mimices de vez em quando, gosta primordialmente de atenção legítima – o maior dos maiores luxos –, se possível acompanhada de algumas consequências desse olhar que perscruta: uma aparente adivinhação de pensamento aqui, uma surpresinha à mesa acolá, a compra de sua geleia favorita, de seu xampu preferido, a oferta de novo talher mesmo sem se ter atinado que o outro caiu, a agilização de gentilezas, a providência de supérfluos adoráveis. Bom para todos sentir-se percebido, enxergado nas miudezas de desejo, desde que o percebedor mantenha a discrição dos mordomos ingleses e não saia divulgando suas predileções. Até aí estamos de acordo. Mas o bom percebedor, mesmo, saberá o ponto em que deve renunciar à sua condição de essencial em nome da sagrada independência alheia. Eu disse que atenção é o maior dos maiores luxos? que seja; incluamos nisso, porém, a atenção suprema de respeitar o terreno minado da privacidade.

Não concebo falta de privacidade, e de algumas autonomias, nem nas relações mais íntimas – que dirá nas de ocasião. Simplesmente não me ajeitaria como uma das Marias Antonietas da vida, e nem pela inconveniência de perder a cabeça, mas pela chatice de ter alguém sempre mais a par da gente do que a gente mesma. Ajudantes/ secretárias com acesso a gavetas, prateleiras? Pesadelo. Armário aberto é quase a gente nua. Quer ver outra maçada? aquelas sapatarias onde o vendedor insiste em ficar de joelhos a nossos pés, calçando-nos todos os pares. Amofinação. Para evitar a sensação constrangedora de ter um valete ou mucama, assim que chega o sapato pedido eu lanço mão do cujo, e não deixo espaço a que nenhum vendedor me faça de Cinderela. Aceito, sim, que enfie os cadarços do tênis (essa arte desconhecida) e só. Outra chateação, talvez maior, é o garçom não se limitar a pôr as travessas na mesa: começar também a montar-lhe o prato. Lá sabe ele se quero mais ou menos arroz, menos ou mais cenoura, se aceito batata, se gosto de palmito? Que irritação terrível é só poder dosar verbalmente (dosagem relativa, dependendo da rapidez do garçom) cada um dos bocadinhos da refeição! Tem a ver, claro, com alguma necessidade de controle, ou bastante. Mas eu podia estar matando, eu podia estar criando bombas de hidrogênio, eu podia estar planejando dominar o mundo, pelo menos um ou dois continentes. Podia estar monitorando a vida de um ídolo, estar querendo colonizar a rotina do marido, da irmã, da amiga, do primo. E não: só peço, humildemente, para ser senhora absoluta, imperatriz e suserana dos pratos que como, dos sapatos que calço, das roupas que visto; rainha de meus armários, dona e visitante única de minhas gavetas. Só quero que me deixem cuidandinha do que me cabe. É demasiado?

O bom serviço nunca é demasiado. Gentilezas terminam onde, em cada cliente, começa o ponto de nudez.

domingo, 29 de abril de 2012

Quarto e dependências

Não sei se leram hoje, na Revista dO Globo, a respeito do boom de janelas blindadas, quartos do pânico e semelhantes fofuras, em cidades bucólicas como Rio e São Paulo. Eu, carioca, entendo perfeitamente o auê. Muitos consideram exagero neurótico, gasto de quem não sabe mais onde entubar dinheiro, psicose que desvaloriza a imagem da Cidade Maravilhosa ante olhos turísticos – como se não carregássemos no lombo números comparáveis a um Iraque (comparáveis para pior, bem entendido). Como se opiniões docemente românticas pudessem vencer, no mano a mano, a crueza dos fatos. Ou reinventá-los a gosto do freguês. Mais ou menos como o maluquete que se recusa a usar guarda-chuva para negar a existência do toró. Acontecimentos berram por si, e que atire o primeiro colete à prova de balas quem não acondicionaria a própria família em estojinho forrado a veludo, como se maloca a joia preferida em ninho de segurança delicada (não que eu tenha alguma joia nesta vida, viu, senhor ladrão?). Eu acondicionaria. Tivesse eu grana pesada, e morasse em algum lugar ao rés do chão, mandava construir no mínimo um Castelo da Cinderela subterrâneo, impenetrável, antinuclear, e me fechava lá dentro por um mês com as criaturas mais próximas, desde que soasse qualquer alarmezinho suspeito. Com direito a alçapão-de-pegar-bandido. Podem ter alçapão, os quartos do pânico mudernos!

Loucura? loucura é ver seu lugar de nascença virar terra de Marlboro, com fé (que é o que nos vale), mas sem lei nem rei; e algum sonhador que more em Nova York ou Paris, suspire pelo Rio desenhado por Carlos Saldanha e queira trocar, que esteja à vontade. Rio de Janeiro é para tornar felizes os distraídos.

Mas o domingo de meio de feriadão anda por aí, não é hora de assuntos tão feitos de chumbo. O caso é que a reportagem da Revista me evocou um desejinho de infância: ter quarto – ou casa, ou mesmo escola – que abrigasse uma das coisas mais atiçantes do mundo. Passagens secretas! ah, que delícia imortal para crianças e adultos, as passagens secretas. Um guarda-roupa que, tudo bem, não fosse blindado nem chamasse a polícia 10 segundos após soado o alarme, porém abrisse para nossa própria Nárnia, lugarzito de brinquedo onde nos refugiássemos de palmadas, matemáticas, semanas de prova e carnavais. Uma biblioteca no colégio que surgisse ao toque de um botão portátil, um que você, só você levaria escondidinho no bolso – o oásis dos recreios vazios, das explanações inúteis. Uma escaaaaaada comprida como fileira de vogais (bem no chão do escritório!) que você, só você tivesse descoberto no dia da mudança e cobrisse malandramente com um tapetinho, para descê-la às 3h da matuta e desembarcar todo dia em seu navio corsário ou unicórnio de estimação. Qualquer local, qualquer portal, qualquer inviolável segredo. Qualquer escape que fosse de corpo e alma seu – só seu.

Tenho sim, confesso, dificuldade extrema de morar em situação prosaica para a qual não descubra alguma saída poética, alguma tangente, alguma porta de emergência, algum Pégaso selado e estacionado do lado de fora. Só permaneço em aula, palestra, trabalho se ali vejo também maneira de me evadir, normalmente escapulindo-me para dentro de um livro ou de rascunho pessoal que eu possa rabiscar à larga. Tenho a responsabilidade dos sãos, mas entro em dissociação com a fome, a sede e o desespero dos loucos; meu coração desengaiola-se e me abandona no poleiro. Some para o quarto do pânico. Só no amor não me evado, por já ser minha Nárnia. De resto, voo embora para Pasárgada, onde não há especiais favores para amigos de rei. Onde não há rei.

Esconder-se é preciso; é preciso guardar em algo ou alguém nossas rotas de fuga, deixar limpas e desobstruídas e fornidas e blindadas todas as possíveis (in)dependências. Ou morte.

sábado, 28 de abril de 2012

Nas horas mortas da noite

É como principia um poema de meu amadíssimo Casimiro de Abreu, paixão literária desde que descobri ser gente: “Nas horas mortas da noite/ Como é doce o meditar/ Quando as estrelas cintilam/ Nas ondas quietas do mar” – por aí vai. Versos do texto “Saudade”. O que importa é que as tais “horas mortas da noite” sempre me plantaram dúvida. Dizem-nas mortas (não só Casimiro como quase todos os viventes do dia) pelo silêncio em que transcorrem; porque não estão imersas na bagunça do trânsito, porque não têm hora de rush, não têm azáfama (gosto tanto dessa: “azáfama”!) de expediente, não têm pregões de camelô ou Bolsa, não têm apito de guarda ou escândalo de birrentos voltando da escola. Noite, noite mesmo – não as primeirinhas horas, mas nooooooite de já terem todos escovado os dentes e visto a novela –, é vazia de gente, e daí a calúnia de lhe atribuírem morte. Qual nada. É a princípio triste ver a cidade fechando as portas, as opções de divertimento e lanche ficando limitadas, o mundo perdendo aquele montão de possibilidades humanas. Até é. Uma vez feita, porém, a transição da tarde barulhenta para a noite convicta, uma vez a gente se reconformando em estar consigo mesmo, aquele que permanece de pé após tudo tombar de sono constata: é quando se ouve o planeta finalmente respirando de vida.

À noite dormem movimento e barulho, e no entanto despertam, corujamente, as verdades verdadeiras que conveniências, urgências e convivências nos impedem de encarar em horário comercial. A não ser que continuemos a serviço, despimos as máscaras compulsórias. Encantamentos e desencantamentos decantam; felicidades e desgostos que permanecem em suspenso ao longo dos afazeres, misturados no turbilhão, pousam no chão da gente e se deixam ver nuzinhos. Quietos. Íntegros. Conseguimos ter a medida da sorte de o amado ou o filho dormir ali, lindamente desarmado; examinamos em silêncio o tamanho da ferida deixada pelo grito injusto, pela crítica fulminante, pelo incidente de assalto, pela ofensa que soou passageira como a pontinha do iceberg e nos rasgou a modo de Titanic. Só na limpeza total, na suavíssima desintoxicação do trabalho, do metrô, da britadeira, da conta de luz, do chilique da filha de castigo, percebemos alegres – ou com a consolação da autenticidade macia, solitária – o que sobra de nós no fundo da vida que subestimamos, empurramos, maquiamos, engolimos. O que somos depois de manhã e tarde nos tentarem espremer o sumo.

Coração da gente ecoa no dia o que (lhe) é devido. A noite nos coa.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Dedicação exclusiva

Saio do metrô e mergulho com gula na feirinha de artesanato que circunda a estação. Novidades, sempre. Saias, colares, boleros unidos para ameaçar minha saúde financeira. E os produtos de todas as semanas, os mais vários. Há uma barraquinha, por exemplo, especializada em camisetas – brancas e pretas – estampadas com dizeres famosos. Passando em frente, é inevitavelmente com uma citação de Clarice Lispector que eu esbarro: “Não tenho tempo para mais nada. Ser feliz me consome muito”.

Adoro a fala de Clarice porque sou bastante dessas – capaz de consumir o tempo inteiro sendo feliz sem o menor dos tédios. Podem argumentar que todos seriam, mas não. Existem, e não são poucos (proliferam, aliás, a olhos vistos), os viciados em aborrecimento. Uma gente que tem necessidade recôndita de amofinar-se o dia todo; seja porque é portador do célebre “pavio curto”, e leva demasiado a sério o “viver é lutar” de Gonçalves Dias, seja porque carrega a Síndrome da Culpa Eterna e crê que não se pode ser pessoa cidadã e decente sem ganhar o pão entre pesados fardos, sem atuar como resolvedora universal de perrengues, sem estar integralmente em guerra contra reumatismos, malcriação dos filhos, perseguição do chefe. Tem tanta gente que acha pecado uma tiradinha de férias, que acha pouca-vergonha um emprego só de prazeres, que acha ilusão de ingênuos um casamento 99% de harmonias. Tanta gente provavelmente convencida de que plena saúde, extrema felicidade e muita sorte são coisa do encardido.

Não caio nessa. Tenho natural melancólico, mas nada curtidor de problemas; prefiro apenas o sorriso à gargalhada, gosto da alegria mais romântica e mais doce. E vivo na inteira convicção de que nada faz mais bem à humanidade do que emprego e relação perfeitos. Sem essazinha de “conflitos necessários”. Não tenho tempo para conflitos necessários. Quero que não haja necessidade de conflitos, como deve ser: aluno obedecendo, produzindo, caprichando; chefe respeitando; equipe colaborando; marido (ou namorado) mimando; esposa (ou namorada) retribuindo. Não me venham dizer que não tem graça – que mané não tem graça! essa é a desculpinha que inventamos para justificar nossa própria incompetência em polir as arestas, tomar vergonha na cara e ser felizes de uma vez por todas. Ninguém se atreva a dizer que isso é morte. Isso é a única possível e adequada vida. Mas e os que penam com agruras que não buscaram, que não cultivaram, como doenças, maldades/ trapalhadas de familiares e quetais? Pois muitos desses se tomam como mais felizes do que outros que, humilhados pelo sofrimento alheio, tratam de supervalorizar o seu próprio. Porque felicidade não é sentar esperando a (improvável) ausência de sofrimento. É fazer lindamente sua parte e não dar quase nenhuns direitos ou cartazes ao que não se pode controlar.

Olhem, já aviso. A felicidade que defendo ser tão urgente, tão fundamental e imediata, e tão superior a quaisquer tristezas educativas, nada tem de hedonista ou egoica. Não se trata (como muitos maniqueístas ansiosos podem crer) de garantir o seu dinheirinho na megassena e fugir pra Paris, que se dane o resto. É o contrário. É querer, de preferência, puxar o mundo inteiro para um estado de férias em Paris, mas sem esfregar na cara do universo o supremo esforço físico e moral que se coloca na empreitada. Desejar o contentamento mundial, e fazer por onde tê-lo, sem azedar o prazer de outrem com sua expressão de mártir. Felicidade é negócio para profissionais: tem que amar, tem que aceitar, tem que receber, tem que fazer diariamente um juramento de renúncia à culpa, tem que continuamente renovar os votos, tem que entender que a sua não expulsa a alheia (e vice-versa), tem que repetir a si mesmo que ela existe suficiente no planeta para suprir a todos, e sobrar. Felicidade não é para amadores. Não é para amantes. É para quem a abraça como esposa e lhe promete ser fiel na riqueza e na pobreza dos dias, twenty-four-seven, como dizem falantes de inglês. É para quem encara a responsa de nisso consumir-se sem tempo para amarguras tentadoras que nos disputam o espírito.

Até que a morte não mude coisa nenhuma.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Catch me if you can

Sendo hoje o Dia do Goleiro, as festividades se estendem a toda e qualquer criatura fadada, por gênio ou profissão, a defender resignadamente seu gol – e só no erro ganhar holofotes. Porque quem são os goleiros, coitados? gente que conquista fama eterna pelo que não faz, e no máximo três minutos de celebridade pela missão bem cumprida. Quer ver goleiro que vira ídolo, é aquele que cobra falta e bate pênalti; o ativo. O que sai de suas traves para fazer. Se é do tipo usual, ainda que o mais fantástico na defesa – se é o passivo que permanece de guarda, se é a sentinela fiel –, babaus. O mundo é especialmente gamado em gente proativa, esse adjetivo precioso que anda virando cabeças no universo empresarial. O sujeito tem de meter as caras. Correr atrás. Inventar perguntas para todas as respostas. Ser um trator, um devorador, um insaciável. Brasileiro, então, exige provas; idolatra toda competência que consiga ver, se possível apalpar: gráficos, troféus, gols, números, diplomas. Com brasileiro os talentos em surdina, os discretos, que produzem sem se divulgar, estão fora do mapa. Brasileiro não conta os 37 pontos que o adversário não fez. Conta o único convertido quando não havia braço, esforço, músculo que chegassem. Naquele microssegundo em que o goleiro fingiu que era humano.

São goleiros os professores, que devem cobrar a falta – suprir a longa ausência de outrem – e proteger com fúria, com cansaço, a pequena área entre o aluno e suas preguiças, suas lacunas de cidadania, seus apegos à satisfação imediata, suas inclinações ao canto do iPod e ao de outras (piores) sereias. São goleiros os revisores – tantas vezes escritores em potencial, que estrangulam sua vontade de criação para dar decência a textos publicados imerecidamente, e mesmo assim são lembrados pelo gol que escapou, pelo s a mais que passou, pelo pontinho final que ficou em itálico. São goleiros os médicos, jogadores do jogo mais aguerrido – a quem, no entanto, sobra às vezes somente a opção de impedir o aumento da desvantagem, para ao menos perder dignamente. São goleiros os pais que, em plena juventude dos rebentos, se veem mais forçados a administrar a educação já semeada do que a se alastrar em terrenos novos. São goleiros os ecologistas, dedicados a tapar os buraquinhos do dique enquanto não entorna irreversível a catástrofe. São goleiros os garis. São goleiros os psicólogos. São goleiros os sociólogos. São goleiros os (bons) juízes. São goleiros os (bons) árbitros – goleiros (eis o riso da metáfora) mesmo de outros goleiros.

São goleiros todos os valorizados unicamente na ausência, os distintos pela falta que deixam, os destacados pelo vácuo que criam. Os que são fotografia em negativo, presença marcada pelo seu contrário. Rins do mundo: filtros silenciosos do que tanto poderia piorar um sangue já turvo em si próprio.

Próxima vez em que for xingar o guardião de seu time, recorde os bons e velhos frangos que você mesmo tem armazenados. De outros tempos. De malfadadas tentativas, de mal pagas dedicações, de intenções injustiçadas, de ofertas repelidas. Lembre as bolas que rindo escorregaram, objetivos que deslizaram entre dedos, sonhos a que o querer não bastou, distâncias que o sonho não atingiu. E se pergunte se, mais desengonçado que ele, você não dormiu uma de suas noites sob um frango assim. Ou assado.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Se eu morresse amanhã

Faz hoje 160 anos que morreu Álvares de Azevedo – dos poetas afobados em morrer, o mais precoce. 21 anitos incompletos; não sei bem se plenamente vividos. Azevedo entornou-se a tal ponto em alguns dos versos mais exasperados, mais transpirados da língua, que era natural não haver sangue e nervo que chegasse para além de duas décadas, e olhe lá. Era morrer ou explodir. Morreu, a criança; morreu depois de explodir-se em belezas como “Se eu morresse amanhã, viria ao menos/ Fechar meus olhos minha triste irmã;/ Minha mãe de saudades morreria/ Se eu morresse amanhã!”.

Coincidiu tristemente, com esse aniversário de óbito do poeta, a descoberta dos corpos daqueles jovenzinhos do Espírito Santo – tão novos e pululantes como Azevedo. Cinco passamentos de uma vez, com duplo doer: da perda inesperada e da mocidade perdida. Não deu outro assunto. Colegas meus de trabalho relembraram casos assim, de morte acachapante, estúpida, que colhe num zás-trás. Uma recordou o pai de uma amiga, morto dormindo após um dia de absolutas normalidades; outra lamentou uma velha professora de piano, com quem tivera aula ainda na tarde a que se seguiu sua morte. Tudo muito rápido, muito impressionante. Uma piscada e foi. Com que então! o Fulano, tão vivo há coisa de dois minutos, como é que morre assim e não avisa nada!... Soa a desfeita, soa a malfeito, mas é o que é: natureza nossa; feita, só, e acabou-se. Como deve ser.

Assim deixamos de ser: entre uma aula e uma noite. Entre um sonho e o seguinte. Entre a viagem e a festa. Num vapt, num vupt, antes de acabar um pirlimpimpim. Terá bafejado a cabecinha dos cinco viajantes, do pai da amiga, da professora de piano: “Se eu morresse amanhã”? Terão sequer mastigado essa possibilidade, tão possível como a de tomarem o próximo café da manhã vendo Bom dia, Brasil? Terão em algum segundo considerado – que tolice a minha – o fato de não dormirem, se erguerem, comerem feijoada ou andarem de bicicleta com a onipotência de seres eternos? Portanto: terão feito as convenientes despedidas? as necessárias pazes? suficientes perguntas? adequadas declarações? Terão escolhido com sabedoria e doçura as últimas palavras? Terão tirado a dúvida dos que tão bem lhes queriam – a dúvida de serem ou não amados? Terão reunido provas bastantes de a vida valer a pena, fornecido provas bastantes de sua vida valer a pena a tantos outros? Terão sido felizes em seus presentes, em seus conformes, ou projetado felicidade para tempos incertos? Terão inutilmente estocado sonhos? Terão fulminado de tédio os dias que vieram gratuitos? ou feito deles escada, ponte, aeronave, passaporte? Terão partido com alma de dentes escovados, mala arrumada, bainha pronta? Terão ido sem arestas?

Se nós morrêssemos amanhã, que não deixássemos nenhum engasgo. Não fosse nem peso, nem alívio. Fosse, apenas; natural como os bons finais de filme, redondo como o livro que fecha as pontas, só algo triste (mas leve) como o hóspede que fecha as contas. Na suavidade de quem acaba as férias e torna à casa que ama. Mesmo sendo em jatinho expresso. Súbito. Num susto.

Importante é que, dentro, nunca seja de repente.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Outros tempos

Não o fazia para mostrar-se, isso se via; lançava ao redor uns olhares que nitidamente espiavam para dentro, vazios de quase todo contato externo. Arrumadinha, mas sem exagero. Sobrancelhas desenhadas, porém não a tal ponto que fugissem ao natural. Olhos grandes, grandes, enormes às vezes. E lá ia a senhorinha cantando no ônibus, cantando em seu banco, de si para si. Não só cantando: entremeando a melodia com assobios perfeitos, afinados de dar vergonha em sabiá. Limpos. Agudíssimos. A música não era de minhas conhecidas, e no entanto soava tão familiar pelo clima de antigamente. A letra em inglês, um “when I’m feeling blue” aqui e acolá, uns trejeitos de Louis Armstrong ou Nat King Cole, um quê de Bing Crosby cantarolando para Grace Kelly, uns arranjos que tiram a gente para rodopiar com Fred Astaire. Não era “True love”, mas parecia. Não era “Cheek to cheek”, não era “As time goes by”, mas parecia. Parecia qualquer classicão americano que entra em CD de Rod Stewart. E mesmo eu – eu que me irrito tão extremamente com essas “trilhas sonoras obrigatórias” de ônibus ou metrô; eu que me lambuzo tanto de silêncio – mesmo eu não me amofinei um tico com o assobio da senhorinha, que se impunha quase ao meu lado. Inclinei até a cabeça em direção à janela, e respirei saudade.

Respirei saudade, embora com alívio. Aquele alívio de esbarrar com as coisas antiquadas bem aqui no meio do futuro. Sabe o futuro que imaginávamos quando crianças, que povoávamos de soluções milagrosas? ficamos adultos e ele nos atropela; isso em todas as gerações, mas pior agora, que somos um bando de criaturas plugadas cada qual em sua Matrix. Conectadas a seres longínquos, trazidos no bolso, e desconectadas do vizinho de banco. É o império absoluto – talvez irreversível – da descortesia, da deselegância, do nivelamento por baixo. Então como faz bem encontrar esses emissários de outros tempos! Não se trata de querer voltar a eles; trata-se de constatar, esporadicamente, que a humanidade é capaz de não esquecer as memórias acumuladas, é capaz de relembrar velhas inocências, está apta a invocar suas boas tradições. O que o passado tem, o que nele nos conforta, é o talento de provar que há (pois já houve) alternativas para nós mesmos. Vê-lo é nos ver em versão possível, é encarar aquilo de que já fomos capazes. Para o mal também; mas o foco de hoje não é o mal. São aquelas doçurinhas que praticávamos e que nos renovam as esperanças quando vistas – mais ou menos o efeito de sentir cheiro de terra molhada na própria rua, para quem acreditava viver numa selva de cimento irrecuperável.

Não é nostalgia achar consolo em outros tempos; nostalgia é crer que morremos neles. Que foram nosso princípio e fim, que só restaram zumbis e trogloditas a partir de determinado momento histórico. Era diferente o caso da senhorinha do ônibus, aparentemente satisfeitíssima em seu próprio instante. Tanto que seu esporte não era resmungar: cantava. Nem arengava ressentimentos, nem emudecia com o olhar triste, infrutífero, das saudades sem cura. Comemorava com o melhor dos vinhos antigos o fato de termos chegado até o agora.

E vivido pra cantar.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O livro e a rosa

Sabe onde eu gostaria de estar hoje? Catalunha. Ah, certamente na Catalunha. É dia de seu patrono, Sant Jordi – ninguém menos que o nosso amadíssimo São Jorge. Por que querer celebrar São Jorge no lá, e não no cá, é coisa que logo explico. Os catalães não o veem apenas como o santo guerreiro; emprestam-lhe as tradicionais funções de São Valentim, e fazem hoje também a festa dos namoros. Dos namoros e das amizades. O que mais me encanta é a troca de presentes, lindamente específica: mocinhas dão livros a seus amores (e amigos queridos), homens dão rosas com ramos de trigo a suas musas (e filhas, mães, amigas). Livros – porque o 23 de abril, data de nascimento e morte de Shakespeare, e morte de Cervantes, foi escolhido Dia Internacional do Livro por motivos incontestáveis. Rosas – porque, segundo a lenda, São Jorge salvou uma princesa sacrificada ao dragão que aterrorizava a Catalunha, e do sangue do dragão (atravessado pela lança do cavaleiro) brotou um pé de rosas vermelhonas, símbolos de amor leal. São deliciosas as explicações. As comemorações não o devem ser menos: eis que as ruas se enchem de barracas de flores e vendas de livros, estes a preço de convite, uma vez que o governo, na data, é sábio a ponto de suspender os impostos sobre letrinhas.

Apaixonei. Sugiro instituirmos urgentemente o Dia de Sant Jordi. Já é mesmo feriado para os fluminenses; adequadíssimo, pois (nós que estamos sempre celebrando o clima de primavera), que saiamos por aí fazendo a corte, presenteando quem mereça com o que melhor representa a beleza possível: nosso mundo de dentro, traduzido em páginas, e nosso mundo de fora, visto no incontrolável desenho das pétalas. O poder humano de escrever universos e a impotência humana de reproduzir as mínimas flores. A alegria do que conseguimos e a humildade do aonde não chegamos. Saiamos por aí homenageando o santo guerreiro armados pra batalha mais justa, investidos da razão e da sensibilidade, encouraçados de conhecimento e gentileza, fortalecidos pelo livro, refinados pela rosa – ou, ao contrário, revigorados no contato mais natural e amansados pela civilidade das letras. Nas horas vagas, um lanchinho simbolizado pelos ramos de trigo (porque vestimos uma vontade de ferro sem ainda sermos feitos dele).

Pão, fé, amor, livros, rosas – e os inimigos, tendo pés, não nos alcançarão.

domingo, 22 de abril de 2012

Dia das mães

Hoje é Dia da Terra, e ela brinda a si mesma com seu vinho preferido: chove, chove, chove. Houve tempo em que eu não soube se era dia do planeta com maiúscula, se era o da terra-com-minúscula em que pisamos ou – para insistir na minúscula – se era da terra-pedaço-geográfico que nos vê nascer. Dúvida cruel, de criança. Se bem que importa pouco. Seja terráqueo, terrestre, terreno ou pátrio, o consenso é de que estamos num dia telúrico. “Telúrico” no sentido de feminino essencial, de tudo que é umbigo, ventre, origem. Tudo que concebe, tudo que gera, tudo que dá meios, tudo que nutre, tudo que incuba. Tudo que nos leva no colo por um tempo ou para sempre, tudo que nos abriga as raízes literais e metafóricas, tudo que serve de base às nossas gestações perenes. Tudo que faz viver e, abundantemente, vive.

Em qualquer acepção de “terra”, sou telúrica. Se a entendermos como planeta, serei aquela que tem nojo de Globo repórter desbravando áreas virgens, sujando de contato humano os extremos limpos do mundo apenas para saciar curiosidades. Amo mais a pureza que o conhecimento, e estou pronta a abdicar de todo direito de informação se cada naco de Terra, em troca, ficar inocente de nosso contágio. Reverencio tão mais o planeta quanto menos nosso ele for. Quanto menos ceder de seu projeto original a nossos caprichos de asfalto, ao cinza de nossas avenidas. Quanto menos abrir mão, quanto menos abrirmos estradas. É boa coisa, a ciência; é excelente coisa tomarmos pé do que nos cerca; melhor coisa, ainda, e insubstituível, é deixarmos o que nos cerca em pé, em plena posse de si mesmo. Tendo de escolher, escolho a Terra sem a gente, por mais que não fosse impossível o contrário. Escolho que paremos para que ela prossiga, fiel, inteira; escolho livrá-la do amor esganado que a destrói.

Se compreendermos “terra” como o chãozinho que nos dá base, quanta amizade também lhe tenho! Como o cheiro dela molhada me preenche, me estufa de vida; como me dá lembranças da infância brincada em jardim, que aprendeu cedo a reconhecer folhas e fazê-las de bonecas! Com que vaidade colhi feijõezinhos dos mesmos que eu plantara, com que ânsia ia checar os avanços de cada “filho” no quintal! Mesmo em apartamento, ainda não entendo a rotina sem azaleia e jasmim; ainda planto e acompanho feijões, ainda sinto igual orgulho de lhes dar terra e não panela. Ainda tenho a vibração infantil de (re)descobrir o velho ciclo.

Quanto à terra que é pátria, nossa geografia de nascimento, eu bem que queria ter tão bons dizeres. Por me faltar arte de hipocrisia, não tenho. Se é bonito e natural que amemos nossa (como dizer isso sem cafonice?) nação, pois que a amemos, então, com a prerrogativa da verdade: cobrindo de respeito sem mimar de elogio. Mas há algo materno nessa última terra que posso celebrar sem restrições – o que poderia ser, que é belo somente por si? a língua. Ela, e só ela, é nosso mapa. Só ela, que já chamaram de flor, sabe ser raiz. Quando nos molham – quando nos emocionam –, é o primeiro cheiro que sobe; é a voz na qual xingamos, é o som em que gememos, o sim em que nos declaramos. Nossa casa e cartório. A certidão de pensamento.

Feliz dia de nossas terras à vista. Plantemo-nos – e dar-se-á nelas tudo.

sábado, 21 de abril de 2012

Companhia sonora

Não, eu não gosto de Fórmula 1. Na verdade, abomino. Se já não aguento o futebol com suas humanices, com gente de carne e osso vestida de colorido sobre um verde quase bucólico – e com real possibilidade de um ou outro movimento ter beleza de pintura –, que dirá, ó céus!, a monotonia cinza de um esporte cheio de máquinas e vrrrrrrrrrrruns. Definitivamente não suporto. Mas deixei a televisão matinal sintonizada no treino de Fórmula 1. A TVzita da cozinha recusa-se a admitir que há outros canais além da Globo; só pega Globo, e para ficar ligada exigiu: Globo. Negocia nesses termos, a cretina. Pois bem. Veio o treino. Nem por um segundo me dignei a olhar para o cujo e até agora não sei quem levou a pole. Por que aceitei, então, que a antena me impusesse um programa desagradável? Confesso. Companhia sonora.

E olha que prezo (prezo muitíssimo) o silêncio. Amo-o, para dizer de modo mais dramático. Mas isso quando me vejo mergulhada em necessários pensamentos, reflexões mais úteis e alongadas ou flagrante delito de escrita. De outras vezes, enquanto a cabeça está suficientemente erma – sem trabalho que não os automáticos, mecânicos –, pede um preenchimento de jeito que beira a solidão. E já que nunca tive paciência para rádio (considero música algo a ser ativamente escolhido e ativamente escutado, sem indiferença), quem é recrutado? a TV. Também porque é mais fácil selecionar companhia sonora em graus distintos. Para os momentos em que me bate a fome de fazer parte do mundo, com maior carência de abraços vocais, o interessante são programas de auditório; ou até, no desespero, jogos de aborrecido futebol – ao menos têm torcida, e são ao vivo. Há instantes de querer o calor do ao-vivo, mas sem tamanha animação e com vaga impressão de conteúdo: aí entram os jornais da Globonews. Que beleza ignorá-los consciente de que, no minuto seguinte, algo palpitante pode tomar-me de volta! Existe ainda uma terceira necessidade específica: a da companhia sonora ficcional. Quando precisamos ter a impressão, oposta às outras, de estarmos cuidando de nossos afazerezinhos em alguma dimensão que escapa à velha realidade. E, então, nada melhor que um filmito rolando. Um ótimo filme para não ser visto, tolerável porém irrelevante. Ou daqueles cujos diálogos já recitamos. Importante é que a história nos sintonize no canal desejado.

Porque companhia sonora é isso: modalizador da gente. Um confirmador para o humor que já trazemos, humor que não quer (ou não pode) expandir-se em conversas, ao mesmo tempo em que carece aconchegar-se na presença humana. É o ato de ter alguém portátil, que não questiona o silêncio de nossa parte como retaliação ou diminuição de afeto. É o ato do ouvir longínquo de quem pode, volta e meia, se concentrar em ouvir-se. Sem perguntas. Sem urgentes interações. A plena liberdade de pertencer sem participar, que – em uma ou duas gotinhas por dia – tanto nos conforta.

(Claro, claro, nada substitui o conforto da boa companhia presencial; a que nos acolhe e modaliza, calmamente nos constata ou gentilmente nos manipula, influenciando-nos conforme a nossa vontade, exatinho. Nessas, o que ainda falta é virem a nascer com controle remoto. Just in case.)

sexta-feira, 20 de abril de 2012

United States of People

Uma gente merecedora de grossas simpatias tem hoje sua comemoração: os diplomatas. É povo que se fantasia de linha e agulha, que começa a trabalhar justo onde os outros terminam – terminam porque é o ponto em que nasce engavetamento de opiniões e, não muito depois, briga sangrenta de desejos. Lá vai o diplomata, então, partir pro deixa-disso. Apartar os orgulhos. Amaciar o meio de campo, polir as superfícies de contato. E se, por fim, todas as animosidades são detidas antes do homicídio, e se as criaturas voltam para casa refletindo por um ou dois segundos nas razões do adversário – vitória absoluta. Diplomata é o sujeito que deixa dois diferentes menos encantados de não serem iguais.

Em menor (ou maior, porque permanente?) escala, somos diplomatas todos, eternos costuradores de coração desfiado. Eternos construtores de pazes improváveis. A mãe que alcança um abraço entre a curiosidade do caçula e a irmã adolescente que protege diários secretíssimos; o avô que enche de passados a infância presente do neto; a namorada que reúne sabedorias do amor e do estrogênio para tolerar a sessão de Velozes e furiosos; o pai que reconcilia seu marmanjo mais velho com a vontade dos estudos; o professor que faz conteúdo e alegria voltarem a se falar; a amiga que promove entendimento entre o Tico e o Teco da outra, já exausta de burradas amorosas. O chefe que põe pra funcionarem em colaboração os pontos de vista inimigos. O técnico que move seu time de estrelas a preferir gol em lugar de morticínio. O casalzito que distribui a família, na festa, de tal sorte que o casamento não se acabe em funeral.

E com a gente, e na gente? E a habilidade de a gente se convencer que o rompimento foi preciso, que carboidrato não é preciso, que a 38 ainda cabe, que as 24 dão e sobram? E a arte de a gente se seduzir para a ginástica, para o trabalho, para a social do departamento, para a visita de cerimônia? E o jeito de a gente se persuadir (tola a gente, de acreditar) que a coluna aguenta, que o salário dá conta, que o computador ainda dura, que a máquina de lavar não mastiga, que o cachorro fofinho não morde, que o vestido atochado não rasga, que o inglês está enough, que a informática está em dia, que a vida está em dobro melhor do que era e só razoavelmente longe do melhor que poderia ser?

Otimismo é diplomacia pra dentro. Diplomacia é otimismo pra fora. Profissionalismo na área é pegar nossos mesmos quereres – ou alheios –, os quereres de nosso mesmo país – e de alheios –, atar tudo e jogar n’água, como o catar-feijão de João Cabral. Absurdos conceituais, a gente afoga na origem. E sobrevive da vida possível: de toda a paz que boiar.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Para ontem

Hoje se relembra Santo Expedito – aquele que dá mãozinha nas causas urgentes. Aproveito e peço a nosso amigo Expedito uma força no próprio ato de reconhecer as causas urgentes. Porque andamos assim: viciados na urgência das pequenezas e adiadores incontroláveis da essência. Fissurados em cada ninharia que nos arranca o couro! e tristes indiferentes ao fundamental que mendiga atenções, que implora miligramas de vergonha na cara. Assim estamos. Coisa vexatória. Caso de apertarmos o pause três, quatro vezes por dia para inspirarmos o mantra de essencialidades e desimportâncias –

Trocar o celular por uma iCoisinha da moda: pode esperar. Por futuros indeterminados. Pode esperar o fim das parcelas do carro, do cartão, do Leão. Pode esperar meia década, por baixo, se o treco estiver cumprindo a primordial função de falar e receber. Não consegue sacar se a voz do interlocutor é de homem ou de mulher? troque. Identificou perfeitamente que é a de sua tia de Porangatuba? a próxima iCoisinha pode esperar. No tempo que empregaria escolhendo e testando a iCoisinha na loja, ligue para sua avó (do celular véi de guerra mesmo). Raciocine o problema de trigonometria com seu filho. Elogie a redação da caçula. Ajude o vizinho a acomodar as compras no elevador. Escreva um cartão de fofuras coloridas para a esposa. Escute o marido desabafar as perrenguices do escritório. É urgente.

Atender o telefonema do chefe no meio do almoço, do banheiro, do cinema ou (crime!) das férias: pode esperar. O relatório há de ser mais bem concluído por funcionários sem indigestão, sem necessidade pendente, sem vida sociocultural abortada, sem instante familiar mutilado. Chefão deu piti de querer arrancar as meias pela cabeça? aí que espera mesmo, até baixar a bola de louco furioso. Não deu piti? belezinha; percebeu que já é menino crescido e sabe lidar com breves frustrações. Em vez de se rasgar em cinco partes para cumprir 18 demandas simultâneas de big boss que ignora as leis da física, despedace-se em elogios ao noivo. Liste 18 músicas do casal para copiar num CD de aniversário. O buldogue de olhar pidão, há quantos meses não lembra que tem quintal e buldogue de olhar pidão? jogue umas bolinhas com gosto, para adoçar o dia do coitado. Cace o primo de terceiro grau no Facebook. Apresente-se. Mande uma mensagem pro velho prôfi porque encontrou um caderno antigo. Planeje festa de despedida pro senhorzinho da xerox que alcançou aposentadoria. Diga saudades. Tenho saudades. Você deixou, deixará saudades. É urgente.

Aceitar o trampo que vai te render três mil a mais e três filhos a menos: adie pra nunca. Fazer as malas pra viagem a Veneza que surgiu num concurso de supermercado: dentro de no máximo 26 segundos. Chamar o técnico pro ar-condicionado do quarto dos meninos: ainda aguarda dois ou três dias bastantes pra família inteira brincar de acampamento. Comprar sabonete glicerinado pro chá de bebê da secretária: só a demora de chegar à drogaria da esquina. Bolar trote pros calouros que iniciam o curso amanhã: cancele pelo resto da existência. Tirar satisfações com o síndico porque o vizinho botou vaso gigante na porta: agende para jamais. Desengasgar o eu-te-amo: hoje. Soluçar um me-perdoa: agora. Sorrir dizendo conta-comigo, e pôr verdade: sempre.

Para ceder à antiquada maratona das vaidades sem propósito, não tem calendário que chegue. Para pendurar um zip-a-dee-doo-dah no próprio dia ou no alheio, o prazo é até um minuto pra daqui a pouco.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O olho grande do menino

Hoje um dos meus grandes, primeiros amores faz 130 anos: o impossível Monteiro Lobato. Por sua causa, 18 de abril foi escolhido o Dia Nacional do Livro Infantil. Que outra data poderia haver? Lobato foi inédito em crer que a (ainda) receptiva esperteza das crianças seria público mais aguçado que a turronice dos adultos. E então dedicou-se amorosamente não a agradar-lhes com bobagens coloridas (ou nem coloridas), mas a colorir seus leitores por dentro: fazer mundos onde pudessem crescer e educar-se entre serões; joelhos de vó em que pudessem escolarizar-se de sabedoria e lendas, gramáticas e mitologias; pomares, jardins, luas, labirintos, cozinhas e templos e bibliotecas, olimpos e águas claras em que pudessem nutrir-se de ambrosias e devidas reinações; anjos, sacis, leitões, barões, centauros, minotauros, príncipes e caubóis com quem pudessem rebentar-se de brincar a tarde inteira, desprendidos do mundo meramente possível. Lobato deu-nos bolinhos e jabuticabas, escamas e pernas de pau, planetas e ombros de Hércules para povoar a infância; e é do fundo dessa canastra de memórias perfumadíssimas, aqui no peito, que tiro os mais impronunciáveis agradecimentos. Foi com Lobato que comecei a suspeitar o que era embarcar a rotina num lindo e nosso balão azul.

É paixão herdada. Minha mãe recebeu de meu avô os livros amados que lhe embalavam as férias, e mais tarde, por sua vez, injetou-me a mesma loucura. Ganhei volumes em aniversários e Natais, pesquisei títulos para pedir de amigo oculto. Fazia parte das brincadeiras de julho, dezembro, janeiro encafifar-me em algum quarto, ou ficar ao ar livre em algum degrau, agarrada ao livro da vez numa delícia infinita. Que beleza aprender, sem saber, uma tonelada de mitos gregos (outro amor eterno plantado em mim pela turma do Sítio), geografias básicas e referências anteriores a minhas próprias décadas de vida! Que diversão ser politizada pela boca de Emília, pela fala desaforada de quem se espantava com as asnices adultas! Até hoje me espanto – tanto quanto ela se assombraria – ao ver desocupados tachando o autor de preconceituoso e reacionário, por culpa de um ou dois termos que deixam o mundo atual todo melindradinho. Anacronismo de maus, de péssimos leitores. Nada que não fosse perfeitamente combinante com as expressões da época. Esperar o contrário seria medir os 1900 pelos 2000; e, a buscar literatura que não afronte os mais escaldados, já teríamos tacado na fogueira todos os classicões do século XIX. Nunca a China teria soluçado as tragédias de nossa Isaura. É coisa de quem procura chifre em Burro Falante, ou de burro falante que procura chifre.

Digam o que disserem os ociosos, Lobato era a ternura humanitária na essência; era a deferência aos conhecimentos vários – do tempo em Dona Benta, do povo em Tia Nastácia, da ciência no Visconde de Sabugosa, da infância em Pedrinho e Narizinho, da liberdade em Emília. Era a alegria de crescer pensando. Era e é minha principal fonte literária de igualdades e fraternidades, meu principal ensinador de questionamentos, minha principal lenha de imaginações. E quem quer que ainda acredite em avós e sítios, em casamentos com peixes, em alianças de polvilho, em caramujos doutores, em Iaras e Pássaros Roca, em viagens ao céu, em reformas da natureza, em chaves do tamanho; quem ainda acredita em Brasil com petróleo, em menino levado brincando nas férias, em meninice levada feita com ensinamento e quitutes, em país feito com homens e livros; esse aí que acredita – ainda, sempre – no mais aconchegante dos teletransportes, aquele que nos desprende com segurança do mundo meramente possível, repita comigo devagarinho, saboreando, crendo e gritando da boca pra dentro:

Pir-lim-pim-pim.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Derramamentos

É justíssimo que se reserve o 17 de abril para entrar em solidariedade mundial com os portadores de hemofilia – aquela delicada condição em que o corpo simplesmente não consegue, ou mal consegue cicatrizar-se. Enquanto os não portadores contam com as plaquetas para frear sangramentos, hemofílicos as têm poucas e incapazes de lacrar feridas satisfatoriamente. Entornam-se, entornam-se em vazamento que não acaba mais, entornam-se para sempre, numa espécie de suicídio involuntário. Apenas homens apresentam a doença – que desde meus tempos de aula de genética (azão com azão, azinho com azinho...) me impressiona bem muito.

Porque vejamos. A criatura está na infância e será fatalmente tratada pela mãe (seres desesperados, as mães) com apreensões de cristal ou porcelana. Moleque que é moleque se rala, se lanha, se espadana por completo, e volta do recreio ou do sítio da avó como um veterano do front; sai de casa com os sete buracos de praxe na cabeça, retorna com 223, onze dos quais pedindo sutura. Mal consigo imaginar, então, a angústia de quem quer o filho tão feliz quanto vivo, tão brincante quanto ileso de todo e qualquer arranhão. O desassossego de alguém cujo menino tem de ser menino com exagerado cuidado. É coisa tênue à beça, essa linhazinha entre o gozar a vida e o beijar a morte – e encarar uma tal oscilação com tanta clareza, e desde tão cedo, ganha ares de poesia triste. Todos os meus respeitos às famílias e aos pequenos que devem aprender a lidar com a própria fragilidade sempre à espreita.

Há esses de quem o corpo, sendo incapaz de conter-se, nasce como que inimigo de si mesmo. Mas não posso deixar de pensar que há também os incontinentes emocionais, aqueles de sentimento excessivo que vaza, vaza, vaza de não terminar nunca; aqueles de artérias afetivas de vidro, eternamente prontas para escoar aos últimos mililitros em cada rachadura do dique. Que eram poetas românticos senão esses – esses que escolheram não cicatrizar nem os menores traumas e decepções, mas, ao contrário, derramá-los todos com desespero amplificado, em cada tanto de poesia louca e vida furiosa? Que são os “de pavio curto” senão esses – esses que se decidiram inábeis para toda serenidade e preferem afogar os aborrecimentos vomitando impropérios até a última raiva? Que são as “mulheres que amam demais” senão essas – essas que resolveram o amor como um pretexto para se devorarem como cera de vela, se derreterem, se dissolverem, se liquefazerem de aflições, até não sobrar mais gota de si que as sustente para uma vida digna, razoavelmente?

Tinham/têm a hemofilia menos decisiva e menos direta que a congênita, e talvez nem por isso menos perigosa. Porque não há possível doação de sensatez; inexiste transfusão de pensamento que salve quem não se quer salvo, que cure quem não se aceita curado, que convença quem não se deseja convencido. Não há plaqueta externa que remende corações convictamente esfareladiços. Não há plasma que detenha em lago quem se vê como pororoca, torrente, enchente. Não há contenção bastante para quem se determinou a causar-se estragos de jamanta.

A humildade, só, nos coagula.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

All you need is voice

Hoje é Dia Mundial da Voz, e, para cúmulo de coincidência, eu estava lendo uma crônica de Manuel Antônio de Almeida (o pai de Memórias de um sargento de milícias, lembram-se? da pisada e do beliscão?) sobre o mesmo assunto. Crônica lindinha, “Fisiologia da voz”. Vão trechos: “Falam do olhar, e dizem que é nele que a alma se manifesta com mais verdade; é um erro. No olhar a alma transluz apenas; na voz a alma expande-se. [...] O olhar vive da luz que não está em nós, mas fora de nós, deve-lhe suas reflexões, o seu fogo, as suas centelhas, os seus desmaios; a voz em suas inflexões, em sua harmonia, em seu canto, em seus gemidos, em seus gritos, nada, ou bem pouco, deve aos agentes externos; é toda nossa, é toda do íntimo. O olhar recebe, a voz dá. [... A] palavra pode ser a mentira, a voz é sempre a verdade. Quantas vezes a palavra está dizendo não quando a voz está dizendo sim?”.

Tendo a concordar com o velho Almeida. Se mentimos pouco com os olhos (explica o autor), é que falamos pouco com eles – tão limitados de recursos são. E mesmo não é com a voz que mentimos muito, bem o diz Manuel Antônio; não é com o suporte, e sim com o conteúdo. Com as palavras danadas. Mentimos com as nossas escolhas verbais, com as historinhas inventadas, com as desculpas cretinas, com os arrependimentos insinceros. Com a voz, o timbre, é impossível. Quando é que meliantes passam no teste do polígrafo, o popular “detector de mentiras”? Quando dizem verdades. Quando acreditam piamente na versão que desenvolveram de encomenda para a ocasião. É porém algo breve, desmanchável; e em outro qualquer momento, passada a tensão, a voz do sujeito vai recordar e denunciar sua verdade primeira, livre das análises de estufa. Ainda que a má palavra sequestre a voz e a faça refém, esta treme, levanta, gagueja, se agita, ergue o tom como quem ergue os braços para dar sinal de não estar na posse de si. Mentir perfeitamente é complicado porque (espera uma distraçãozinha só!) o timbre mete spray de pimenta na lorota que é obrigado a sustentar. Voz é ama-seca que nos acompanha pela existência a fio, fiel em tentar impedir que sejamos violentados por nós mesmos.

Não sei se tem a ver com essa verdade indisfarçável que se entorna na fala, mas há uma particularidade entre mim e as vozes alheias. Algumas me hipnotizam no bom sentido; tocam num ponto G da cabeça, feito um do-in sonoro, e me fazem desabar de relaxamento imediato. Nada tem a ver com gostar ou não da pessoa em especial. Não passa por lógicas sentimentais. Acontece de eu apenas estar no ambiente e ser invadida por um dito em determinada frequência, seja quem seja, e então os olhos tombarem no mesmo segundo, amaciados de sono. Estranho; no entanto, é preciso reconhecer: existem criaturas com quem mal posso conversar sem bocejar alegremente. Alegremente, sim. Pessoas que devem guardar algum quê felpudo onde as emoções fazem a curva, por emitirem um perfume fonético que me abraça numa redoma. É um pressentimento, uma revelação ou um perigo.

Outro viva às vozes veladas, veludosas vozes, volúpias de violões que andam voando no mundo e virando (sa)fadamente nosso juízo, como almofadas que nos derrubam à covardia.

Para a nossa alegria.

domingo, 15 de abril de 2012

De cor

Hoje é dia de uma gente que admiro à pampa, e à qual já quis mesmo me unir em profissão: os desenhistas. O povo que, de uma folha qualquer, tira um sol amarelo, um castelo, luva e guarda-chuva, a Notre-Dame a bico de pena ou o submarino aquarelado, o horizonte num toquinho de carvão ou a caricatura do transeunte no último teco de giz. Que coração adivinhante pode saber, quanto o deles, as possibilidades residentes num papel em branco que chama, que não intimida, que não assusta? Que olhar tão sem covardia é capaz de lançar um traço a sudeste, outro a noroeste, um terceiro a bombordo e o quarto a estibordo, e com mais cinco ou seis retas ter a pachorra de uni-los todos numa beleza milagrosa, pressentida no meio do impossível? Quem, senão eles, tem visão de jogo bastante para brincar com o espaço que é incompreensível a tantos, para arrancar um tudo de um quase e aparente nada, para manipular as geografias misteriosas do vazio?

Alguns: os escultores, os tricotadores, os futebolistas. Sim. Mas há lentidão necessária na escultura, há demoras de visualização no tricô, há tão breve imaterialidade no gol feito de repente. Não no desenho. Seduz-nos justamente o combinado de rapidez e matéria, atrai-nos o imediatismo tornado palpável, guardável, acessível a nossa fome de colecionadores e a nosso encanto. Nosso encanto infantil, impaciente e sempre na beira de deixar-se maravilhar. Artistas de traço e de cor sabem o mundo de cor: armazenam-no em qualquer dobra da manga, tiram-no de qualquer cartola, possuem-no a tal ponto conhecido e memorizado no talento que bastam alguns segundos para um parto normal. Um zás! e nasce outro mundo feliz, filho do desenhista com este universo que com tantos flerta e a tão poucos fecunda.

Jamais consegui cumprir a paixão de infância – apesar de ser recordista, em casa e na escolinha, quanto ao número de riscos e rabiscos e coloriscos das mais várias espécies. Desenhava muito e sempre, e relativamente bem; mas desenhava sem a alma de quem inventa realidades, com o espírito de quem mais as complementa ou reproduz. Foi pouco. Amor insuficiente. Palavras (e suas cores metafóricas) venceram, em mim, o interesse do desenho. Mesmo assim, conservo Mãos mágicas como melhor lembrança de TV; permaneço com Maurício de Sousa e Quino numa prateleira especial do coração; e ainda me refiro ao adorável Daniel Azulay como o “Papai Zulay” de meus cinco-seis anos. Antes de tudo, envio gratidões ao avô pintor – também ilustrador – que não conheci, e que me deixou no sangue esse apetite pela forma. Esse respeito por quem sabe traduzir o mundo num idioma anterior às legendas.

Um viva aos senhores do simples. Que só carecem de um lápis na mão e dois minutos para tornar verdade a ideia da cabeça.

sábado, 14 de abril de 2012

O inafundável

Hoje faz um século redondinho que o velho Titanic – todo gloriosão em seu tamanho inédito, todo besta de sua inafundabilidade – esbodegou-se num iceberg e afundou. Pronto. Fim da viagem primeira e última, de quatro dias. Fim da propaganda espaventosa, do luxo que não combinava com as mais simplinhas regras de segurança descumpridas, como o número (muito) insuficiente de botes. A falar verdade, não lastimo que aquele monumento à autocomplacência humana, aquela Torre de Babel deslizante, tenha escorrido ralo abaixo com seus lustres e louças e carraras e muranos; não ele em si; e gosto tão mais que haja desaparecido quanto mais balofo de pedrarias era. Quanto mais tafulhado de orgulhos ocos estava. O que lamento é a carga de valor perdida, a única: mais de 1.500 almas que largaram o corpo afogado nos andares do navio ou congelado no freezer marinho. Fosse apenas um morto, já seria um desastre histórico. Colapso planetário. Do jeito que foi, acabou de acabar com a infância do mundo – que, dois anos depois, já entrava ferido na guerra.

Não sei o leitor, mas duas situações do Titanic (retratadas no filme de 1997, e provavelmente verdadeiras) me impressionam em especial. Uma é a imagem do casal de velhinhos consciente de que seria improvável conseguirem enfrentar o aguaceiro e arrumarem vaga em algum barquinho salvador. Ficaram então os dois na cama, abraçados entre si e abraçados à própria finitude, aceita com apreensão, claro (que não eram de ferro), mas também com a solidez das despedidas maduras. Eles se amavam, amavam com certeza o que andaram erguendo pelas décadas, e por isso não quiseram arriscar-se a morrer como dois depois de terem vivido feitos um; temeram acabar em horas diferentes o que haviam começado em uníssono. E esperaram. Coladamente. Mais um bilhete de viagem comprado em parceria. Quem não mentiu no altar, quem casou por dentro e por fora, quem não concebe o mundo castrado de seu amor de pouso, quem se veria despejado do planeta sem o outro coração que é seu endereço, entende. Faria talvez o mesmo. Não havendo a menor chance de flutuarem ambos, preferiria consolar-se na constatação de que ambos afundariam. Mas prosseguiriam como “ambos”, on and on. Inafundáveis.

O caso que mais me assombra, no entanto, é o dos famosos músicos. Os tais músicos do Titanic, que devem ter pressentido, também, quanto seria improvável a sobrevivência. E aí decidiram tacitamente permanecer ali, unidos e superiores no meio da confusão. Tocando. Tocando. Tocando. Fazendo o que faziam de melhor, abençoando com últimos pingos de beleza o horror inevitável, embalando em violinos a grosseria do pânico. É sobre-humano, quase, o ato de abdicar do instinto pelo senso extremo da delicadeza; abrir mão do medo – até do medo, fome tão primeira e tão autoprotetora – em nome do amor absurdo à própria missão. Não foram heróis de dar vida a ninguém; foram heróis de botar dignidade numa história de abandonos e negligências, heróis de deixar de ser uma qualquer-coisa para serem plenamente si mesmos, ao cúmulo. Heróis de largar uma promessa de morte pra lá e prosseguir on and on.

Inafundáveis.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Aquele beijo

É fofa coincidência que a novela das 19h, cujo título roubei carinhosamente, termine no Dia Internacional do Beijo. Foi uma boa novela, correta ao menos – e subestimada, certamente. Uma coisa me chamou a atenção: que não tenha caído na estrutura fácil e besteirosa dos folhetins das sete, tantas vezes populares por investirem no riso tolo. O texto de Miguel, embora nem sempre me agrade em suas cores almodovarianas, anda cada vez mais amadurecido; doce, portanto. Fica, da história, o sabor apuradíssimo dos comentário em off do autor, da narração que merece todas as notas dez possíveis, por não duvidar da inteligência do espectador em apreciar citações de bambambãs vários – Robert Frost, Camões, Drummond, Bilac e ótimos etcéteras. Outro acerto: a abertura nostálgica, farta de homenagens a beijos de novelas modernas e antigas, num clima de Cinema Paradiso. Deixo a ela meu agradecimento e minhas ternuras.

Mas, ora bolas!, hoje é Dia Internacional do Beijo, e há claro absurdo em ficarmos discutindo televisão. Não é dia de beber os alheios; é dia de buscar os próprios. Só não acho lógica nenhuma em sair abatendo beijos pelas salas e salões, boates e barzinhos, blocos e trios. Em caçar faminto de quantidade, apenas. Parece sabe o quê? parece quem se lambuza de chocolate de segunda linha – aquele feito com pressa comercial, sem cuidado, sem artesanato, quase nada de cacau e muita gordura, pra vender às pencas sem entregar sustância. Assim o excesso de beijos colhidos na correria, pra matar o apetite imediato, desesperado, livre de critério: sacia mais que o necessário e deixa dor de barriga moral na despedida. Ataca só a fome corpórea, mas gera a saudade do quitute favorito. Denuncia o vazio específico. A viuvez seletiva. Beijar muito é um prazer e um luto; alegria instantânea e, ao mesmo tempo, renúncia ao gosto ideal, particular. Beijar o qualquer é dizer adeus ao único. Beijar os tantos é não se aperfeiçoar no último. No definitivo. No essencial.

Porque aquele beijo, assim com a voz em itálico, exige mais paciência que pesquisa. Raramente vai ser o vestido encontrado pronto, que cai como uma luva; será fatalmente o resultado de um ajuste, feito de alfaiate. Virá depois de uma prova, e outra, e outra, e estudos de encaixe, e puxa mais pra cá ou pra lá, mede de um lado e outro, pendura aqui ou ali um cetim, um veludo, um enfeite. Está muito sóbrio, precisa acrescentar algo de exagero; está muito over, carece retirar uns seis palmos de paixão furiosa e alinhavar carinho. Existe no beijo um prenúncio de sexo, justamente um teste de caimento, que não deve ser banalizado com a fartura inconsequente. Nossa métrica enlouquece com tanto estica-e-puxa, tantos diferentes cheiros e paladares e contornos e manias. Para preencher-nos, de fato, um número basta. Um que vai ter tempo de vestir-nos, ganhar cancha de adivinhar-nos. Vai ter tempo de nos ter, nos ser, de ser nosso. Do lábio ao céu. Além da boca.

Abusar da elasticidade amorosa cedo ou tarde nos arrebenta.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Ao infinito e além

Há 51 aninhos, Yuri Alekseievitch Gagarin sacava a sua nave Vostok I e dava pinta pela órbita do planeta. Contava só 27 primaveras russas e foi o primeiro a viajar pelo espaço – viajar e assombrar-se, como bom menino que era: “A Terra é azul. Como é maravilhosa. Ela é incrível!”. Por causa do feito, 12 de abril virou Dia do Cosmonauta e Dia Internacional do Voo do Homem ao Espaço. Justíssimo. Se não anda nada fácil a gente se locomover de um ponto a outro do bairro, quanto mais pra riba da atmosfera. Né bolinho não. Tem de comemorar mesmo. Mas, sem querer de modo algum desmerecer o trabalho dos desbravadores do céu, dos ampliadores de fronteira humana, dos desafiadores de gravidade, vai um lamento aflito. Ainda há muito – há um mundo inteiro por bater e trilhar aqui mesmo, amplo, inóspito, mais aquém do além, adonde que veve os vivos. E não digo Sibéria, Ártico, Antártico, grutas morceguentas e campos onde se planta aurora boreal, não. Não digo o cânion abissal nem a mata embruxada, nem a savana em que se correr ou ficar o bicho come. Digo outra selva, povoada de outros bichos mas também salpicada de diferentes auroras, e tão igualmente desértica de fogo ou gelo, e tão igualmente fértil de ervas curantes e águas medicinais. Digo esse infinito que carregamos na cabeça, e por conveniência de romantismo retratamos no peito.

Por exemplo. Alguém me ajuda a povoar urgente, urgentíssimo, o pensamento ermo de eleitores que votam masoquistamente em quem os rouba, roubou e roubará? em quem só está ali de palhaçada, às vezes no sentido literal? Alguém me ajuda a desbravar a lógica dos amantes que se empenham em fazer-se odiáveis para os amados? Alguém me ajuda a desvendar o raciocínio dos passageiros que vão saltar daqui a 1.967 estações, porém fincam pé na porta do metrô para serem o mais sovados, amassados, pisoteados e achincalhados possível? Alguém me empresta uma nave portátil, de câmbio manual mesmo, capaz de penetrar nas ideias do aluno que viaja 43 quilômetros para chegar à escola e matar aula no corredor? Alguém me cede ferramenta para escarafunchar a cuca do vendedor que acha lucrativo perseguir o cliente pela loja? E dos que metem ferro no ambiente que os amamenta? E dos que fabricam filho para não o amamentar? para o atirar no lixo em vez de no colo dum amor adotivo? para o esquecer em nome do trabalho que é feito para sustentá-lo?

E as cismas? as neuras? as tolices? as vinganças? as manias? as paranoias? E sobretudo as cruezas, as crueldades? Quem vai tripular uma sonda aos nossos infinitos de ignorância, nossos abismos de maluquice, nossos confins de sem-nexo, nossas crateras de sem-noção, nossos espaços siderais – eternos – de desinteligência aguda? Quem nos escalará o topo das raivas gratuitas e botará luz nas cavernas ciumentas? Quem circunavegará nossos traumas oceânicos? Quem visitará nosso egoísmo indivisível? Quem aterrissará em nossos horrores virgens de todo contato?

Haveremos de. Em dia de chegarmos à última fronteira, de pisarmos onde nenhum homem jamais esteve – a comemoração maior, enfim. Talvez aí haja esperança, conserto, medicina. Seja momento de maravilha real, de exclamação sincera, toda trabalhada no alívio: a Terra é azul.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A turma do farol emprestado

Há dias falei (embasada por Quintana) que não existe pior chato do que o perguntador, aquele incapaz de o abandonar na quietude de seu silêncio. Reitero ser este o pior; mas um certo outro tipo pode bem causar controvérsias. Lembrei-me dele por estar hoje conversando com uma colega professora. Passou por nós um aluno seu – adulto – que conheço de fama: é impossível de contentar. Assim que o viu, ela suspirou exaustamente e disse tê-lo abordado, faz algum tempo, com pureza d’alma e tranquilidade na voz, a melhor das boas intenções: “Escuta, meu filho, você já está aqui há tantos anos e eu nunca o ouvi falar bem de nenhum professor que fosse. Nada está bom, nada serve, ninguém trabalha direito. Por que é, afinal, que você não vai para outra escola?...”.

Ignoro a resposta do cujo. Nem acho que precise. Não precisa porque sua permanência naquela ou em outra escola é meríssimo detalhe, assim como sua estada neste ou naquele hotel, sua viagem para alhures ou acolhures, sua residência na rua de baixo ou na de cima, seu trabalho na repartição do 5º. ou na do 8º. andar. Whatever. Resmungadores convictos maldirão o som do Fantasma da ópera, acharão arranhadura na taça do espumante servido na primeira classe do voo, encontrarão micromilionesimal queimadura nos brioches de Paris. Fazem isso porque fazem. E pronto. Tenham tido berço de 18 quilates ou de caixa de papelão, vão reclamar à farta pelo restante da existência, ainda que os demais caiam na esparrela de desdobrar-se em mimos. Reclamarão just because.

Não é bem just because, sejamos francos. E também não é, contra toda a lógica aparente, por se considerarem deuses do Olimpo, superiores a tudo o mais. Bem ao contrário. Essas almas resmungam, murmuram e ranzinzam porque são da opinião (íntima) de que é o último recurso que lhes resta para angariar alguma atenção. O que eu chamo de turma do farol emprestado: isentos de brilho inerente (ou assim autoenxergados) que, na aflição de serem vistos, esfolam qualquer luz alheia para se mostrarem comparativamente luminosos. Chupam a beleza em redor, vampirizam toda qualidade num raio próximo, massacram verbalmente toda virtude cravando os dentes em seu único ponto fraco. Desse único ponto fraco na virtude alheia, nasce a única virtude dos que necessitam de farol terceirizado. O professor fez greve, então eu sou um aluno exemplar. O funcionário é um incompetente, então eu sou um gênio desamparado. O governo é uma porcaria, então eu sou um cidadão excelso. O time não para de perder jogo, então eu sou um técnico e torcedor incompreendido. O erro do outro é minha faísca de empréstimo, o desvio alheio é minha perfeição de aluguel; ai de mim, tão maravilhoso, que sou vítima (vítima!) da sua fraqueza indiscreta.

Tédio; oh que tédio de presenciar autoestimas tão subterrâneas nivelando o mundo por baixo, pelas afrontas e deslizes, para o pôr à sua altura. Os urubus, os incontentáveis, os sequestradores de luz, os desenvolvedores de gato emocional, as celebridades do nhenhenhém improdutivo que me desculpem – mas fazer a hora sem esperar o outro (não) acontecer é fundamental.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Pedaço de mim

Soube pelo Jornal Nacional que o governo de Santa Catarina investiu numa bonita campanha, Laços de Amor. Tem o objetivo de convencer pais e mães potenciais a adotarem crianças com mais de três anos, contrariamente à tendência de se levar para casa um bebezito zero quilômetro. Apoio a medida sem restrições, e com entusiasmos de admiração por quem decide dar família a filhos já crescidos, taludos e fornidos. Babo pelo exercício da maior de todas as adoções: aquela em que existe menos a chance da manipulação unilateral, e mais a luta (renhida) do encaixe amoroso.

Porque é esse nosso grande conforto, nossa inconfessa ambição; fazer o outro – sobretudo o herdeiro, a sequel, nossa continuação natural e emissário enviado ao futuro – à nossa imagem e semelhança. Pegar a tábula rasa, a folha em branco, a massa esponjosa de possibilidades e apertá-la qual massinha a nosso gosto de gênio, jeito, cor, time, partido, filosofia, escolha profissional e musical. Que sonho. Apetece-nos sempre muito mais (por óbvias razões, e coerentes) torcer a planta a nosso molde do que corrigir a base antiga, malfeita. Receber o aluno sem rascunhos, sem errados ensinamentos colados na crença; receber o jogador sem traumas e vícios, fresco de corpo e de entendimento; receber a bailarina de coluna e pés virgenzinhos, prontos a vergar-se nas direções apontadas – eis o truque. Poupa tempo e paciência não ter de recobrir alguém de esforço e amor retroativos, mas, ao contrário, crescer um amor de estufa, ao menos de nossa estufa pessoal, afiliada a um infinito particular. Ser espectador e professor de todas as primeiras vezes.

Somente no achômetro, sem qualquer base de ciência humana, arrisco supor que seja, talvez, por isso a convicção geral de que não existe amor tão incondicional como aquele havido entre pais e filhos. Há imenso querer e uma proteção faminta, doentia, sim; no entanto, ocorre também o afeto inevitavelmente espelhado do autor pela obra, do escultor pelo busto, do eu pelo eu 2, pelo minieu. Amamos, mas sem conseguir não fazer alguma colônia de povoamento. E daí nossas juras necessárias no altar – na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, no Vasco e no Flamengo, na concordância e na decepção –, daí nosso amuo ante o colonizado renitente, nosso enfado perante a constatação de que não há 100% de congraçamento possível entre dois seres oriundos, igualmente, de duas colonizações outras. Todo amor que não se conhece nem começa de berço é (em última instância) pura aventura, pura viagem de descobrimento. Todo amor não passa de uma adoção.

Meus parabéns renovados à campanha catarinense, e minha torcida. Que milhares de famílias principiem onde tantas terminam: no reconhecimento sincero de nossa mais absoluta não-onipresença.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Crítica da razão pura

Primeiro disseram que o tal Anders Behring Breivik – o sujeito que, em julho passado, detonou bomba num prédio do governo em Oslo e atirou em jovens reunidos na ilha de Utoya, com saldo de 77 mortos – sofria de esquizofrenia paranoide. Agora não. O segundo grupo de psiquiatras envolvidos garantiu que o fulano não carrega doenças da cuca, está sãozinho da silva. Portanto, não deveria ser enviado para hospital coisíssima nenhuma, já que é plena e penalmente responsável pela decisão do massacre.

Me admito leiga no assunto, mas vamos matutar. Todo crime é uma espécie de loucura, se loucura considerarmos o ato de despregar-se das devidas limitações sociais e tacar os outros (e potencialmente a si mesmo) no lixo. Eu disse uma espécie de – porque é maluquice fronteiriça com a ruindade e a burrice. É a loucura conotativa, a da inconsequência, da irreflexão, da inabsorção de valor humano; loucura às vezes plantada de cedo, porém em apenas pouquinhos casos realmente orgânica, hormonal, irresistível. Esta (a irresistível) acontece inteirinha sob um véu, um pesadelo, como se a criatura estivesse inadvertidamente aprisionada num Tron, como se permanecesse num ostracismo interno, eterno, desabada num buraco de coelho. Não há senão um contato fortuito com esta dimensão. Parece-me não ser o que diz o olhar de Breivik, que está com a nossa dimensão e não abre. Tanto não abre que não deixa espaço para qualquer sentimentalização capaz de incutir-lhe algum tanto de alma.

Breivik é o oposto do louco (a tomarmos por louco o sonhador delirante); tão extremamente oposto que dá os 360 graus completos e volta a tangenciar o que menos deseja parecer. Porque Breivik é a excessiva razão; aquela de tamanha frieza em seus raciocínios “objetivos”, de tamanho calculismo em suas causas e consequências direitistas, de tamanho compromisso com o cifrão e seu respectivo número, que se veste de insanidade – uma vez que ignora a faceta emocional, espiritual, “irracional” passível de equilibrar as razões ensandecidas da razão pura. Breivik é a meta traçada, é o plano gélido, é o ultradireitismo nu de tudo o mais, focado unicamente em si próprio. Direto, na lata, sem demagogias que atenuem nossos melindres. Curiosamente, o que consideramos loucura no tal Anders é o que o senso comum observa com respeito e complacência nas gigantescas marcas e empresas, e nos mais sólidos governos. A diferença: Anders Breivik segue numa reta a sua crença incondicional, e não disfarça. Não quer se eleger nem arrematar empatias, clientes, espectadores. Quer só mergulhar em suas coerências transtornadas. Till the end. The end.

Estou montão com o segundo grupo de psiquiatras: não há, propriamente dita, loucura alguma que desculpe a maldade cristalizada nas más escolhas. Há, pelo contrário, a ausência total da saudável maluquice-beleza que nos empurra a (se necessário) ceder até a vida que nos cabe em prol de uma que a outro pertence. Nada existe de mais doentio do que velar com exageros pelo detalhe insólito que chamamos de eu.

domingo, 8 de abril de 2012

Ressurreições

E é sempre exatamente assim. Quando ninguém está olhando. Quando a faxineira passa aspirador na sala e o marido faz a sesta no quarto, quando o pessoal da seção atende um cliente ou digita o último relatório, quando você mesmo descansa olhos indiferentes em cima da novela, aí vem: bum. Um “de repente” de vontade nova. Uma luzita piscando no fundo de sua desatenção noturna. Um clarão, depois.

No meio de coisa nenhuma, no meio da invisibilidade dos dias; no momento não agendado com plateia, mas espantoso e espantado de si próprio – é nesse momento que a pedra finalmente rola, que seu velho túmulo abre sem discursos, sem cerimônias ou faixas cortadas. É nesse momento que os chumbos amarrados na perna caducam, que as coleirinhas de ferro rebentam, que as algemas tão muito familiares têm infarto fulminante. Morte súbita. Sem repórteres. Sem testemunhas.

Num pensamento que não é pensamento – de tão breve, foi mais suspirado que raciocinado –, a consciência do amor já antigo o invade, e o medo de casar pula da janela. Num exato segundo que por dentro dura meia hora, o trauminha embalado há vinte anos dá o último respiro. Num relâmpago de susto, a decisão de investir naquela viagem (ou carreira, ou pessoa, ou imóvel) explode sem ser notado seu paradeiro original. Não mais que repentinamente, o muro tão sólido desmancha no ar; a mágoa se prova desbotada e o perdão é concedido, caudaloso e como que assombrado de sua mesma demora. Todos os receios e rabugices, todos os ressentimentos e revoltas, todos os nós atados, todas as correntes soldadas, todas as pequenas mortes com tanto esmero e tempo construídas – tudo implode num sopro ou soco de vida, violento; num atropelo de luz. Nada de placa anotada. Enquanto o mundo via televisão, enquanto o planeta lavava roupa. Enquanto você (achava que) dormia.

Diz Drummond que “amor foge a dicionários/ e a regulamentos vários”. Foge também, principal e rimadamente, a calendários; a sede amorosa de tudo, aquela que se opõe a finais e desistências, irrompe entre um subir e um saltar de ônibus. Não precisa de dia-múltiplo-de-cinco nem aniversário simbólico, nem data de efeméride, já que é a efeméride em si mesma. Quando menos se espera – vive-se.

sábado, 7 de abril de 2012

As aleluias

Conhece as aleluias? São árvores de roupa dourada, chamadas pela ciência de Senna multijuga. Como as aleluias de hoje – invisíveis, que pairam aéreas e sonoras, coraçãomente –, as aleluias plantadas florescem mais absolutas de dezembro a abril. É a época de se vestirem de festa, tanto quanto nos trajamos de felizes relembramentos; os maiores.

As aleluias de raiz-caule-folhas brotam fáceis da terra, brotam fáceis de nossa terra, onde espontâneas se alastram. As aleluias de hoje – invisíveis – têm-nos brotado menos fáceis, menos costumeiras do que seria querível. Desde sempre vem assentando, sobre nosso consciente nacional, ou a autocomplacência improdutiva, ou a bobagem estéril e histérica. Cadê a celebração madura de nossos potenciais, sem futurismos, sem burocracias e sem paralisias? Cadê a alegria que não se basta, que arregaça mangas sem achar que não nos pertence dar o braço à seriedade?

As aleluias que crescem do chão podem ficar isoladas ou em grupo, embelezam-se bem no individual e bem no coletivo. As aleluias de hoje – invisíveis – também: tão douradas se mostram numa gratidão pessoal quanto mais espetaculares ficam num buquê de agradecimentos públicos. As aleluias-árvore desenvolvem-se a pleno sol. As aleluias d’alma nos botam pleno sol quando finalmente desenvolvidas. As aleluias de fora são lindas, lindas em paisagem, mas pouco utilizadas porque tão rústicas. As aleluias de dentro fazem lindíssima, íssima a paisagem dos dias, mas são pouco exercidas porque tão meras, tão simples, tão grátis – e por isso mesmo tão desacreditadas por jilós profissionais. As aleluias externas dão flor que se presta a mel. As internas dão mel que atrai mais vizinhas flores.

Sabe as aleluias de quintal? põem dezenas de sementinhas pequenas, espalháveis, facilitantes de nascerem mais e mais aleluias douradas no entorno. As aleluias de Sábado, de sábados, domingos e sempres? essas botam, também, um milhão de embriões no mundo com promessas e delícias, um trilhão de germens escondidos no riso, sugeridos na piscada, soprados na voz e no canto. Cada aleluia contente, dado, é outro nascido; cada obrigado ouvido é broto de obrigado plantado. Em cento. Em ciclo.

Assim na terra como no céu.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Perdas de tempo

Como tenho ido à igreja para as celebrações da Semana Santa, ouvi de alguém: “Não compreendo para que serve ir até lá e ficar rezando. Pura perda de tempo”.

Não é. E quem tem energia elétrica em casa – e aparelhos que dela dependem para funcionar com boniteza – entende facilmente por quê.

Aposto que a pessoa em questão, e qualquer leitor que tenha nascido entre os séculos passado e corrente, já botou nos últimos dias o celular para carregar, o notebook para se realimentar ou a meríssima geladeira para mamar da tomada e, assim, continuar gelando com adequação. Pois. É para isso que serve. Não há “utilidade” prática (a síndrome de utilidades que nos consome!) em seguir as memórias e festividades da própria religião, se se percebe como prática apenas a consequência imediata, direta, palpável, econômica, material e visível. O que há é um tapa na bateria interna, uma recarga nas motivações intrínsecas, uma garibada nas disposições amorosas, uma saciada na fome espiritual. Todos sabem que “religião” vem de religare, e é nada mais ou menos que isto: o ato de nos plugarmos a fonte que nos alimente essa fome espiritual de nascença, tanto bebamos das palavras de Jesus quanto as de Buda, Moisés ou Maomé, tanto sorvamos a Bíblia quanto a Torá, o Alcorão, o Livro dos Vedas. E não se sorvem apenas ditos, teorias; bebem-se histórias, encontros, exemplos, convivências. Importa selecionarmos nossa voltagem e, de coração inteiro, como em todos os demais amores, depositarmos neste nossas coerências e fidelidades. Haverá os que trairão as crenças, tal qual há fracos que traem países, times, equipes, bandeiras. Mas não são estes que devem responder pela fé que superficialmente abraçam – são os que a abraçam profundamente. Não são os torcedores assassinos que devem representar o clube – são os pacificamente apaixonados. Não são os aparelhos estragados que devem levar mau nome à energia elétrica – devem engrandecê-la os que funcionam em plenitude por causa dela.

Atenção que não afirmo a coisa pelo lado negativo (porque os indivíduos andam assustadiços e escaldados à beça; e muitos, se não deixamos tudo ex-pli-ca-di-nho – se declaramos algo e fazemos algum silêncio –, tendem a tomar nosso silêncio como afirmação do suposto contrário). NÃO digo que os que não seguem religiões não têm fonte onde se plugar. Simplesmente garanto que a religião nos fornece esse plugue, e, em oposição ao que tantos pensam, defender um não implica automaticamente “acusar” o outro. Tenho mais o que fazer (o cesto de roupa suja na despensa prova isso) do que julgar vida e pensamento alheios. Só me dou ao trabalho, sim, de apontar o dedo à falta de pensamento em geral, em gente de todos os tipos, acreditâncias, origens e formações. Estender o indicador ao que considero as únicas, as verdadeiras perdas de tempo no mundo: atos gratuitos de desamor. A dedicação da existência a um plano contínuo de grosserias, desrespeitos, crueldades, ódios, matanças, aviltamentos do espaço público ou do direito privado, perseguição às diferenças, lutas estúpidas e violentas pelas igualdades. Maldades grandes e pequenas, se pequenas há; o horror, o horror que nos habita e tantas vezes se manifesta, traiçoeiríssimo, encapotado até nas melhores intenções.

Já os atos de amor – do amor Eros, do amor Ágape, do amor que balança o berço, do amor que doa o sangue e o leite e a medula, do amor que não desiste da carreira, do amor que vai adotar na Suípa, do amor que vai nos achar na Suíça, do amor família, do amor amigo, do amor sociedade, do amor religião – são sempre e necessariamente gratuitos, pelo menos se valem o próprio nome, e em si mesmo se bastam e justificam. Não carecem de fim porque são o fim. São o objetivo e a razão de si, alfas e ômegas eles mesmos. E pronto. Ponto. O tempo é também vassalo irrelevante do Dr. Amor, tão absoluto. E passará. O amor passarinho.

Religião não é para, religião é. Posto de abastecimento de amor. Tão-somente um fio-céu.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Pés pelas mãos

A gente diz (não diz? pelo menos para si mesmo?) que está “aos pés de alguém”; ou, se é durão demais até para uma metáfora romântica, acusa algum Fulano de estar “aos pés de Beltrana”. E o que se entende por essa posição? Entende-se que o sujeito anda temporariamente viciado na criatura, que anda embriagado da própria sorte, e tem se divertido bastante em brincar de vassalo, servindo a todos os caprichos da dona do tal pé. O apaixonado não vem propriamente amando, e sim curtindo a delícia de se fazer eficiente e necessário. Curtindo a fantasia de servo, de sedutor que move céus e terras, de grande amante que manda buscar a lua embrulhada em celofane e recheada de trufas. Há adoração à(ao) companheira(o)? pode haver; mas há adoração espelhada, em que o sujeito ou sujeita escolhe qualquer indivíduo como álibi para a própria capacidade de se mostrar exagerado, jogado aos seus pés, eu sou mesmo exagerado. Álibi de quem adora um amor inventado para dar vazão à idolatria de si.

Estar aos pés, produtiva e boamente, é o que vemos na lembrança desta Quinta-Feira Santa, em que um mestre lava os pés de seus alunos e amigos sem nenhum interesse de consequência – e, inclusive, sabendo que será traído por um dos cujos, muitíssimo daqui a pouco. Ainda assim se verga, calmamente a executar uma tarefa reservada aos escravos, sem excluir o infeliz que traz pensamento de jerico no coração. O espírito da coisa só não está óbvio para analfabetos de vida. Que ficamos aqui nós, com o nosso orgulhozinho mequetrefe, com a nossa empafiazinha de mosca, com a nossa soberbinha de grilo resmungante, sonegando o mais ínfimo favor a quem quer que não esteja à altura de nossa majestosa grandeza e bondade misericordiosa. Eu – eeeeeeeeeeeeeeu?! –, jogar no lixo a bolinha que ELE atirou no chão, professora?? Eu – eeeeeeeeeeeeeeeeeeeu?... –, telefonar praquelazinha depois do que ela me disse?... Eu – EU!! –, sair da MINHA casa para ir buscar o SEU tio folgado no aeroporto!... Tá bom! Eu!...

Nós. Nós sim, muito nós, nós mesmos, nosíssimos. Nós que também jogamos papel de bala na rua, nós que também dissemos nossas verdades particulares para alguma “ela” (para centenas de “eles”), nós que também abusamos folgados e nos aproveitamos sem-vergonhas, nós que também não valemos um décimo de porcaria nenhuma, ou valemos tanto quanto. N-Ó-S. Adianta virar a cara não, que é contigo. Você enquadrado nesse nós que definitivamente não presta, veja se faz coisa de útil lavando alguns pés – e curvando alguma cabeça e joelhos – metafóricos, colocando-se a serviço de algum amor de ida (mesmo que não de volta), pesquisando alguma cura, varrendo alguma calçada, acompanhando algum dever de casa, ajudando em alguma sacola, pegando algum vestido no tintureiro, prestando alguns primeiros-socorros, salvando alguma humanidade. Você aí: bacia d’água no chão, sabão a postos, toalha no ombro, bora, bora, bora. O tempo não para.

De amor, a nossa vida. A que compensa (sem recompensa). Nossos destinos foram traçados na maternidade.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Cantando na chuva

Conto de Machado é (no sentido feliz) que nem formiga: você as vai descobrindo pela casa e matando, matando, até que o primeiro local de matança recomeça a pipocar as danadas. Você pega vinte contos do Bruxo, lê lê lê lê, surgem de um qualquer paradeiro mais trinta ou quarenta, que delícia! Ao fim de um tempo, reprincipia o ciclo com aqueles mais antigos e esquecidos. Há sempre tantas surpresas no novo encontro que a gente jura: é outra história, que nunca me caiu nas mãos. As mãos, no entanto, é que chegam como outras. Trazem outra idade e outros olhos, cheios de mais aproveitáveis experiências e recursos azeitados.

Pois então. Um dos recentemente relidos foi “Frei Simão”, no qual, logo de início, gritou para mim o trecho da despedida do protagonista: “Quanto a Simão, levava os olhos secos e ardentes. Era refratário às lágrimas, por isso mesmo padecia mais”. É exato. Temos inclinação para o consolo das dores visíveis, para a piedade dos olhos tristes; temos fraqueza para narizitos vermelhos e costas sacudidas por soluços. Uma pena terrível. Que dó. Ninguém resiste. Mas ferrado e cerrado, mesmo, é o sofrimento que não se anuncia. Que não dissolve a ponto de liquefazer-se, que não derrete um pouquinho, não se transborda, não se alivia, não se bota pelo ladrão. Esse é o que fica iceberg, só com a cabecinha para fora, bloco imenso de amarguras espalhado dentro. Vira gigantesca bala Soft – monstrengo que cresce canceroso, tapa a respiração e nos engasga de despeitos, de velhas ignorâncias. A dor que não chora é bola de neve se autoalimentando. Se retroalimentando. A dor que não chora dificilmente perdoa.

A gente vê pelos homens sisudões (e mulheres sisudonas, neste sentido raras) dos faroestes reais e fictícios. Sofrem desgraçadamente a perda da inocência, da família, da casa, das terras, da dignidade, do billy-the-kid a quatro. Choram? só quando crianças, às vezes nem isso, e de raiva – uma bruta raiva. Chorar de raiva não vale. É o mesmo que duas ou três gotinhas jogadas em chão deserto, batendo ao solo e voltando com um tssssssss de vapor. Não há irrigação, só irritação dessa terrinha mais rachada, mais escaldante e mais seca. Presta nada. Chorar tem de ser de forma que amoleça a terra empedrada, a cabeça dura, e ao mesmo tempo efeito de algum amolecimento possível. Depois que escorre a primeira geleira, a tendência é seguirem outras de avalanche – e aí o choro vem bom, vem cheio, vem libertador. Vem limpando de enchente, descendo de correnteza, lavando de pororoca. Vem deslizando, deslizando, mandando porcaria pro ralo, jogando fora os excessos de ressentimento congelado ou botando vida no saara ressequido. Que seja assim: de arrastão. Abrindo espaço. De vez em quando, de uma vez por todas. Mas que venha de verdade, no volume necessário, no público ou no íntimo, por três dias ou dois minutos. Que venha na medida certa, como sono. O suficiente para desentupir os canos ou frear incêndios que precisavam de bombeiro.

Não dá pra frequentar coração que não tenha regularidade na faxina. Principalmente sendo o dono.