quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mais um sonho impossível

“Até morrer estarei enamorada/ de coisas impossíveis” – com esses versos tão maciamente precisos é que Cecília Meireles inaugura o poema “Eternidade inútil”. Tenho a mesma fratura exposta. Sensata eu sou para consumo externo, para as imediatices necessárias: duas matrículas de funcionária pública, decoração de casa pensada para não absorver digitais ou piores manchas, impossibilidade crônica de faltar ao trabalho (como, antes, ao colégio) sem ser por urgência de morte, caderneta de poupança rendendo classe-mediamente. Não solicito cartão de crédito para não me ver engolida nas seduções, não bato de frente com tijolo na mão para não queimar relações e navios. Não sou dada a renúncias intempestivas de nada seriamente enraizado ou financeiramente essencial. Não me demoro em utopias pedagógicas que pintem os fatos de arco-íris. Sou, enfim, a pessoa de regular praticidade, a operária de economia estável, poucas ilusões aparentes e pouquíssimas imprudências.

Mas, ai de mim, até morrer estarei enamorada de coisas impossíveis.

Até morrer duvidarei de minhas tantas desilusões. Continuarei prevendo, com o canto d’alma (e não soluciono o duplo sentido desse “canto”), a brisa que varrerá a definitiva inconsertabilidade do país. Prosseguirei amando com paixão explícita a ideia de me teletransportar para um fim de semana em Montmartre, na Abbey Road, no Magic Kingdom. Insistirei em suspirar os delírios de Werther sem aprovar nem crer o amor que se mata. Teimarei em sonhar com a loteria e a liberdade, em não descartar mentalmente o arroubo e o adeus ao trabalho batendo portas, em não permitir que o coração desista de ser best-seller, em não mergulhar no ceticismo irrevogável dos infelizes, no cimento emocional dos que só não morreram por falta de carimbo. Serei tinhosa na persistência de querer, ou, se não admissivelmente querer, de fantasiar; de projetar fetiches financeiros e sociais, mascar pastilhas diárias de loucura e sorrisos absurdos a esperas que (garante a sensatez) podem ser eternas. Até morrer estarei condenada a não pousar com inteireza no chão, a erguer nem que sejam os olhos. Estarei encarcerada em minhas celas feitinhas de suspiro, em minhas nefelibatices escondidas entre fogão e tanque, em meus futuros múltiplos, em minhas vontades cordeiras disfarçadas de lobo. Até morrer estarei solta demais de mim mesma. Sequestrada, sem possível grito nem choro, de meu próprio e tão fixo jeito de estar.

Eu, de tão sólida, desmancho no ar.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Desejo proibido

Nos Estados Unidos, este maio que termina é o Get Caught Reading Month – mês de, veja só, ser “flagrado” lendo. Verdade que em inglês a expressão não soa tão culpada como em nosso bom brasileiro, mas me diverti com a ideia de leitura ganhando status de um prazer de sombras, libidinoso e esquivo. Identifico-me. Quando criança (e mesmo já na adolescência), via minha mãe sugerir calendários de estudo pensadíssimos, segundo os quais eu me iria colocando a par da matéria aos poucos, dias antes da prova marcada. Eram sábias agendas, e de coração me aplicava em segui-las. Mas cadê. Estudando em ambientes balofos de histórias na prateleira? atracava-me, isso sim, com uns casos de Agatha Christie ou romancinhos da velha Biblioteca das Moças, ou com Rebecas do Vale do Sol ou Pollyannas ou meninos do dedo verde. Nos intervalos enfiava um-dois parágrafos de Geografia, três-quatro continhas de Álgebra, só para não morrer de remorsos literários. Se abrissem a porta estava lá eu, com um livrinho dentro do livrão (nem é para outra coisa que fazem grandes os livros didáticos), escondendo tão pressurosamente um Machado como quem gozasse os folhetinhos de Carlos Zéfiro.

Ainda hoje. Já não tenho logaritmos nem reino monera para enfiar na cachola – e tanta gente com nostalgia da infância! –, mas peco repetida e escusamente nesse prazer solitário. Preciso elaborar prova e lá vou eu me embolar com o eterno Machado. Preciso terminar o exercício de aula no metrô e não resisto a uma rapidinha com Jane Austen. Preciso enxaguar as roupas depois do almoço e me perco numa sesta preguiçosa com Martha, Affonso Romano ou meus muitos meninos do século XIX. Uma sem-vergonhice. Uma cafajestagem. Assumo, e no entanto que posso fazer? culpa deste mundo abestado e esdrúxulo em que vivemos, que todo dia me chega com uma nova safadeza ou uma mais abjeta demagogia, e torna dificílima nossa união compulsória sem o escape de umas traiçõezinhas. Não tem jeito de suportar um tal planeta abrindo mão de dez ou vinte aventuras diárias no colo de outros. Convenhamos. Leio sim, como uma doida furiosa, e assumo meu crime dando cara a tapa. Qual de vós repeliu sempre uma anedota, um romance policial, um conto de jornal ou revista que vos abria amorosamente os braços, hein? hein?...    

Relembro e defendo a máxima que já encontrei num texto aí da vida, e que talvez resolvesse o nhenhenhém de falta de tesão que acomete os alunos: ler coloca a gente tão indecentemente reflexivo, ler nos acorda inteligências tão perigosas, que deveria ser proibido. Aí eu queria ver. Visitas noturnas à biblioteca, sequiosas, sôfregas, exasperadas. Colégios invadidos na calada da matina, dependentes metendo o grampo de cabelo no cadeado da sala de leitura, pra cheirar o pó das edições de boa safra. Que extraordinária lascívia, que desgovernada paixão, que fantástico vício não andaria no mundo, finalmente imerso no mais adequado caos!

Nada como um espelho narrativo de nossas tolices para ver se a gente deixa de história.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Edição (i)limitada

Assisti à perolazinha obrigatória A delicadeza do amor, filme francês com a mesma Audrey Tautou (cada vez mais olhuda e adorável) de O fabuloso destino de Amélie Poulain. Esperava um romance suavemente digestivo, distração para fim de tarde, mas eis que pilho uma obra que sorri também seus truques estéticos, dosados com fofura. Não há nem reviravoltas fantásticas nem tatibitatismo americano, nem grandes surpresas nem previsibilidade absoluta. Há achados – de atores, de situações, de recursos; há a delícia simpática que ficamos mastigando após a sessão, de fome alegremente satisfeita.

Todo o longa é festival de cenas sem aresta, porém elejo aqui, como teaser, a fala do doce e desengonçado Markus ao ser questionado sobre o que mais gosta na protagonista Nathalie. “Ela me permite ser a melhor versão de mim mesmo”, simplifica o fofo. Bem dito, bem explicado, bem resumido. Markus é homem absurdamente comum, sem corpo nem cara nem cabelos nem outros atrativos que justificariam a relação com a chefe coroada de talento e beleza. E no entanto transpira um humor, uma ternura, que – livres de serem retratados como milagrosos, formidáveis, ideais, extraordinários, de serem realçados pelo exagero – vêm naturalmente à tona a cada contato com a amada. Não existe bibbidi-bobbidi nem príncipe-encantadice tornando mais explosiva a coisa do que seria em qualquer gabinete ou esquina. Não existe música subindo ou auréola alavancando o rapaz de borralheiro a cinderelo. Não. Markus continua (como nosso colega, primo, vizinho) fisicamente monótono e desajeitado, mas seduz por não propagandear a Nathalie suas qualidades. Em lugar de fingir suas próprias vantagens, emana-as. Basta o gatilho da presença correta.

Que afinal o amor é isso: a chave que nos destranca. O código que nos descerra. A influência que tem o mistério de nos desinibir para o bem. O amor não necessariamente ensina, nem é fundamental que abertamente aplauda, mas por alguma química personalizada ele, em essência, motiva; cria ambiente a que aflorem os dons que não são maquiados nem de empréstimo, que não são mentidos por interesse de sedução. O amor é clima de fazer crescer nossa fauna de dotes, é a geografia necessária para nosso enraizamento, é a condição atmosférica ideal de floração, é terra específica da safra nossa mais dourada. Não é que nos modele ou reinvente – antes nos capta em flagrante desenvolvimento. Amor é o espectador escolhido das evoluções que nos constrangem.

Amor é habitat natural.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Nem Paris

Em Voando alto – a Sessão da tarde decentezinha que tivemos hoje –, Gwyneth Paltrow é uma comissária de bordo apaixonadíssima pela carreira, que finalmente chega ao topo: viagens internacionais. Londres, Lisboa, Paris. Ah, Paris. Quando pela primeira vez se pega de folga na Cidade Luz, a aeromoça flana com encanto e delícia, mesmo solitariamente. É a paixão dos contatos inaugurais, a alegria embebedante dos objetivos alcançados, o deslumbramento dos primeiros amores. Mas há um Ted que ficou para trás, há uma vida de desacertos horários com a possibilidade conjugal, sobretudo há um Natal – um Natal que calha de ser em Paris. Um Natal já murcho dos ulalás iniciais, sem mais a brisa de novidade que disfarça os vácuos. E Donna (a protagonista) afunda na obviedade: nem Paris se preenche de si mesma, nem Paris nos preenche por si mesma; nem uma Londres, nem uma Lisboa, nem quaisquer Atlântidas e Utopias projetadas. Inexiste paraíso terrestre que nos arranque, sozinho, a orfandade da companhia específica.

A mostra de decoração é bacanérrima, mas falta o olhar da irmã a tiracolo, babando closets de sonho e mármores de valor obsceno. A visita ao castelo é esplendorosa, mas falta o amigo recitando as histórias todas góticas que tem de memória, algumas verdadeiras verdadeiríssimas. A praia está hoje um pitéu de tranquilidade e mornidão, mas falta o casal de gêmeos entretido, na areia, com a busca de conchas inéditas ou engenharias de baldinho. A casa de chá é filial do bistrô que deveria haver no Éden, mas falta a mãe gulosa de bolos arregaçando olhos e mangas diante da bandeja. A paisagem é linda, mas falta visão para partilhar o adjetivo. O hotel é fantástico, mas falta a amizade que ri junto no ofurô. A quadra é perfeita, mas falta o adversário a nos honrar os esforços. Antes de mais nada e de outro qualquer habitante do planeta, falta o amor (que é enredo) no ambiente que só lhe serve de trono e alegoria; falta a alma sobre o corpo, a essência pousada na base, o abraço do tamanho preciso injetando espírito na matéria. É nula a beleza, se não há quem nos compense pelo cansaço de admirá-la. É triste a alegria, se nos soterra solitários; se nos esmaga com seu peso individido.

Felicidade é excursão.

domingo, 27 de maio de 2012

Professores de nada

Outra de Affonso Romano, novamente do livrito Tempo de delicadeza (o título não poderia ser mais próprio). Transcrevo uma historinha adorável da crônica “Pra que serve a filosofia?”: “[...] um amigo me contou que, quando estava no colégio, um novo professor entrou na sala e lhes disse: ‘Quero lhes dizer que sou professor de filosofia. E que a filosofia não serve para nada’. Os alunos estavam ainda boquiabertos com a franqueza do mestre, quando ele agregou: ‘Agora me deem cinquenta minutos, que vou lhes explicar o que é o nada’.

‘Ao fim da aula’, disse-me o amigo, ‘minha vida estava decidida: eu ia ser professor de nada, ia ser filósofo’. [...] Os imaturos tendem a se deixar seduzir pelo ‘tudo’, que é a aparência, quando é pelo ‘nada’ que se deve essencializar a vida.”

Não só concordo inteiramente com essa lindeza de pensamento como me proponho a dividir profissão com o camarada do escritor. De uma ou outra forma, não nascemos todos potenciais ensinadores de nada? o nada que preenche nossas entrelinhas, o nada sobre o qual cismamos entre o pagamento de uma conta e a seguinte, o nada que nos aflige de morte quando alguém pergunta o que estamos sentindo e nós a custo dizemos: nada. O nada de quem fingimos não ser íntimos, como as amizades que nos embaraçam. O nada que nos invade nas horas mais impróprias, que nos atrapalha assistir à novela, que nos interrompe durante a escrita do relatório, o nada que não cala e nos arranca do que convencionamos ser para nos esfregar no nariz o que somos. O nada que sufocamos com o travesseiro depois de ver a matéria sobre corrupção no Fantástico. O nada que amortecemos com a vitrine após esbarrar visualmente no minivendedor de bala. O tudo-nada que trocamos de roupa e nome com o nada-tudo, que substituímos pelas “urgências” palpáveis menos custosas, que escondemos no fundo do armário para exibir ninharias, mas que (malgrado nosso) conservamos imortal, indeletável, indelével. Somos potenciais ensinadores de nada porque não há matéria que transbordemos mais orgânica, embora renegada. Somos potenciais ensinadores de nada; antes, porém, urge nos atualizarmos modestamente como uns seus aprendizes.

Urge relembrarmos o nada, ou a naturalidade do nada – aquela sem-vergonhice com que, na infância, “perdíamos” tempo namorando geografias de nuvem, brilhices de riacho, poeira dançando no sol, arco-íris guardado em bolha de sabão. Aquele despudor safado com que nos despressionávamos do necessário para meditar o supérfluo, e nos ocupávamos em querer saber o que todos haviam combinado de achar que já sabiam, e mergulhávamos em pequenas brechas não explicadas para intimidar adultos sempre ocupados demais com o tudo. Por que as pessoas se casam com uma pessoa, se gostam de outra? Por que as pessoas ficam sozinhas contra a vontade? são más? estão de castigo? Por que as pessoas votam nos políticos que não resolvem nada? Por que as pessoas têm filhos para depois fazer maldade com eles? – na meninice d’alma, na limpeza de vista com a qual nascemos, enxergávamos como óbvio o nada que o cansaço medroso acaba fantasiando de mistério. “É complicado”, suspiram os adultos que permanecem na mesma ignorância antiga da resposta, se bem que agora convencidos de terem mais o que fazer. Há tudos suficientes para acobertar covardias sob álibis numéricos.

O nada é a arte, o nada é a filosofia, o nada é a ternura, o nada é a generosidade gratuita, o interesse desencaixotado, a atenção liberta de porquês. O nada é a fartura escorregadia da metáfora, o nada é a milésima visita apaixonada ao Jardim Botânico, o nada é a festa do pijama, é o piquenique, é o acampamento na sala. O nada desliza entre as rotinas escudeiras e nos acerta no peito cedo ou tarde; são os fantasmas dos horrores ou doçuras que não vemos, que soam inadequadamente abstratos e amorfos, e que vão cobrar pedágio de nossas desfeitas jogando-nos na chaise do psiquiatra. O nada nos exige ouvintes. O nada nos quer alunos.

O nada é bacharelado que nos permite crescimento apesar da profissão.

sábado, 26 de maio de 2012

Bodas de página

Faço hoje seis meses de casada. Brinquei com minha irmã que, por ser metade das bodas de papel, dava bodas de página. Por enquanto é só um lado da história. Mas é aquilo: se não se conhece um livro pela capa, pela página de abertura já se suspeita como há de se desenrolar a narrativa, ou ao menos se o estilo é de agrado e aconchego. Pois motivos tenho, nessa leitura inaugural, de crer que será livro sempre de cabeceira, daqueles que tanto se reencontram com a mesma e renovada ânsia, que tanto se acompanham com a mesma respiração feliz e suspensa, quanto se saboreiam com o vagaroso cuidado do doce preferido – esse apertume no peito que vem na consciência da finitude. Casamento perfeito, como o livro perfeito, só não é melhor porque não somos fisicamente eternos. Porque somos suporte quebrável, página rasgável de enredo dez mil vezes mais infinito.

Na primeira lauda do casamento se aprende o seguinte. Que todo pró e contra previamente divulgado aplica-se com exclusividade à união alheia, já que cada marido ou esposa é universo próprio, e sobretudo: cada encaixe de marido e esposa é exato e intransferível. Há as parecenças, sim, que afinal não existe quem não tenha roupa a lavar, conta a pagar, comida a fazer. Mas as particularidades. As particularidades! Aquele comodismo em que o Fulano da Prima tanto peca, sabe? na sua dimensão, inexiste. Aquela irritante possessividade do Sicrano da Vizinha, já reparou? é queixa que nunca lhe ocorreu. Da mesma forma, seu lindíssimo não suspeita (em vida não chegará a suspeitar) o que seja calcinha pendurada no chuveiro ou sapato de grife comprado em oitenta vezes no cartão. Pois olhe só que coincidência: o que você e ele de todo desconhecem agora, também desconheciam de todo na época do namoro. “Mas Beltranílson mudou, ele não era assim”, choraminga a distraída. Era, filhinha. Era. Você que não empregou tempo e olhos bastantes para desconfiar do germe talvez tímido, talvez mascarado, porém presente. Espia a semente da agressão ali, indiscutível, sob a cena “romântica” de ciúme. Vê só a droga financeira que fatalmente daria aquela mania “romântica” de andar repleto de sonho e vazio de projeto. Estava ali, querida. O marido dentro do noivo e do namorado, fruta na casca; você não viu, não quis ver ou não observou em si mesma qual o nível de perdão para qual defeitinho, qual a potencial aceitação para qual singularidade. Que casamento, menina, não é junção de duas empolgações e dois deslumbramentos – é contrato maduro, amoroso, de duas tolerâncias. 

Por extensão, o que também se aprende nesse primeiro instante da vida conjugal é que podemos virar o que só de leve desconfiávamos já ser. Achei que faria um sincero esforço de adaptação, e carregava em mim uma esposa de longa data. Achei que a excessiva convivência pudesse assustar meu apego aos intervalos de solidão, e as saudades da convivência passaram a ser triplamente maiores. Achei que nun-qui-nha cataria com minúcias a cabeleira colada ao pano de chão, ou deixaria de considerar o mundo dos temperos uma cabala, ou chegaria a comprar com naturalidade os queijos que odeio – e o faço como quem nunca pensou em fazer outra coisa (aliás, deixa eu esfregar com mais contundência esses vasos sanitários). A gente não muda no casamento: finalmente se percebe. Deixa vir à tona, sob carinhosas ou apertantes necessidades, o talento ou costume incubado – aquele que não assumíamos por preguiça de atualizar o perfil. Casamento somos nós em regime de emergência. É a adultice imediata. Urgente.

Só não é loteria. É antes a colheita do tesouro demoradamente cavado. O juro do depósito disciplinadamente recolhido. O lucro da poupança esforçadamente guardada.

No meu extrato, tudíssimo azul.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Trabalho de fico

Passei o 25 de maio – que, entre outras muitas comemorices, é Dia Nacional da Adoção – considerando. Caramba. Adoção é negócio realmente porretíssima; abrir assim coração, casa e vida a uma ou mais criaturas que você não acompanhou na origem, com quem você não esteve no primeiro dos dois momentos mais cruciais da existência. É como um assalto benigno, um arrombamento de amor que compensa brava, persistentemente o tempo perdido de interação. Não tenho filhos, não pretendo tê-los; se os tivesse (se me sentisse o dom de derramar-me nesse bem-querer tão específico), o mais provável é que os quisesse adotados, por crença absoluta e veneração profunda à capacidade de substituir, abstratamente, o sangue e o leite cabais e concretos. 

Mas verdade seja dita. Restringir adoção ao ato de dar família a quem não nasceu do próprio útero é coisa que peca pelo simplismo. Adoção é maior. É melhor. Três mil vezes mais complicada e ampla. Tem muito – muito! – filho que vive até a morte com pai e mãe de sangue e nunca chega a ser adotado por eles. Porque adotar não se resume à escolha que se faz da criança e adolescente não paridos, aos quais se conhece e se ama com características em grande parte já formadas, e, portanto, aos quais se oferece uma ternura consciente, ternura de quem sabe mais ou menos onde está entrando. Adotar não significa apenas a (bela) atitude de levar para casa aquele cujo sexo, época, características físicas e mesmo emocionais puderam ser relativamente controlados. Adotar não se limita à ação de virar mamãe até com chance de test drive. Não. Adotar é tão comprido e incondicional que deve englobar também os próprios frutos da barriga – os bebês que não vieram com gênero programado (às vezes nem em tempo programado), nem com a perfeição de saúde pretendida, nem com o comportamento mais esplendoroso. Adotar precisa incluir no pacote os filhos tidos com o parceiro de quem se guarda ressentimento, os trigêmeos que estouram orçamento e sanidade, o décimo segundo rebento que chorará sua fome com outras onze pobrezas, o guri que se veste de menina e nasceu de machão convicto, pitboy, neanderthal e maçaranduba, ou o pitboy violento que nasceu de pai sensível. Adotar é a vitória da aceitação sobre a expectativa. Da tolerância sobre a frustração. Adotar é o abraço eterno. Posterior e superior ao trabalho de parto: é o trabalho de fico.

Fico, meu filho, mesmo quando todos tiverem ido porque você teve a identidade cassada pelas drogas ou o nome estampado na página indevida dos jornais. Fico quando você disser que não vai me dar um neto, porque decidiu seguir carreira religiosa, ou se manifestar postura sexual que vai contrária a minha convicção religiosa. Fico quando você perceber o coração flechado pelo time adversário, quando você decidir ser missionário na África enquanto eu o sonhava médico de consultório, morando no outro quarteirão e trazendo prato na ceia de Natal. Fico quando você virar cirurgião plástico de celebridade, enquanto eu o sonhava missionário na África ou administrador de ONG. Fico quando não passar no vestibular, quando fizer tatuagem escondido, quando bater a porta, quando trancar a porta para chorar sem explicação nem partilha – nesse caso, fico do outro lado a postos para qualquer desabafo ou comando. Fico quando os colegas me superarem no rótulo de melhor amigo, fico quando você enjoar dos Beatles, fico quando curtir heavy metal (mas me chame mais alto, por causa do fone de ouvido), fico quando reclamar do arroz, fico quando disser que nenhum de seus 82 vestidos serve para a festa (só não compro um novo). Fico; ainda que não concorde, ainda que me feche momentaneamente em raiva, ainda que seu sonho ou condição física dê despesa, ainda que ficar implique puxar orelha, tirar mesada, marcar presença importuna pelo celular, ainda que me veja ferido na saudade de uma fantasia não realizada, eu fico; fico de a vida inteira estar presente, estar pai, estar mãe para o que servem pai e mãe; fico não de aprovar, mas também nunca de agredir; não de mimar, mas também não de negligenciar; fico de acudir; fico de orientar; fico de compreender; fico de amar em todas as suas formas e implicações, e mesmo na aceitação dos limites e impotências. Fico de estar, e pronto – revogando-se disposições em contrário. Fico como se você fosse meu filho de propósito.

Adotar é permanecer.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Em boca fechada

“Fale sobre o problema, que isso vai te ajudar”, dizem lugar-comumente os amigos de boa vontade. Comigo essa máxima teve sempre validade mínima. Em termos. Se o negócio se encaixa na categoria do que irrita superficialmente, se faz você bufar na hora mas não se prolonga nem se entranha – um caixa eletrônico eternamente quebrado, uma discussão irrelevante de pontos de vista –, não há motivação para digerir em silêncio; ao contrário: o aborrecimento ainda fornece mote de caudaloso assunto. Inclusive assunto fático, de elevador (que útil é sacar um tema da manga nessas horas!). Se, no entanto, a coisa é da ordem do que machuca no mais enraizado, do que rasga na origem, do que sangra, só consigo sobreviver ao contínuo desespero sem verbalizá-lo.

É o melhor meio de alimentá-lo crescente e incurável? para alguns, talvez. Há pessoas que acham alívio em revolver a inflamação, espezinhar o trauma, pisá-lo e repisá-lo à luz do dia, e enfim o vencem à força de torná-lo excessivamente iluminado, batido, comum. Admiro os que têm essa valentia. Eu, porém, funciono de revés: preciso curar-me à sombra. Na impossibilidade do remédio ideal (extirpar de vez o núcleo adoentado), que pelo menos a fissura siga medianamente cicatrizada, sem hemorragias. Qualquer toque, qualquer catucão é tão medicinal quanto trazer a úlcera do estômago para a pele, ou tentar congelar o vulcão pondo para borbotar o rio de lava que destruirá o entorno.

O trabalho, por exemplo – minha ferida que não cria casca. Uma vez que não visualizo alternativa próxima, e preciso continuar engolindo esse batráquio por mais algum tempo, tudo que mais me angustia e atrapalha é conversar sobre escola. O desrespeito crônico em sala, o desinteresse doentio de estudantes, o papaizismo nojento do governo, as políticas cegas e burras que tornam o professor boi de cangalha e boi de piranha, o pedagogês florido dos que analisam a escola de dentro de um gabinete ar-condicionado em Harvard – é pensar ou tagarelar a respeito de um qualquer desses temas e me sinto ferver o sangue. Correm raiva e indignação nas veias; tão muitas, tão envenenantes, que calar se torna a opção mais razoável de sobrevida. Falar é repetir o horror multiplicadas vezes. Falar é retrazer a consciência da selva em que estou enfiada. Então não falo. Não coloco em verbo essa dor sem substantivo. Ou o faço muito por alto, ou muito breve, ou com foco exclusivo nas poucas melhores coisas. E permaneço trabalhando assim; sorriso ensaiado no rosto, força persistente no giz dando viabilidade à confusão interior, como um Hulk contido sob toneladas de serenidade não-verbal.

Há também os que só elaboram a morte sem conversas nem lembranças partilhadas, a não ser quando a cicatriz já se completou. Há os que solucionam melhor as crises de casal sem DRs nem terapeutas, apenas no gestual cúmplice e sintético dos corações parceiros. Há os que morrem por dentro se mencionam, ou se alguém lhes menciona o amor não correspondido, e prosseguem em caminho quase feliz se não há dedo que lhes provoque o sangramento. Há dores de todo feitio, que se fecham ou matraqueiam; que hibernam ou desabafam; que fazem casulo ou se derramam em diálogo. E há, sobretudo, que respeitar a doçura das diferenças e a eficácia das diversas medicinas, como nutrição que se planeja para organismos distintos.

Mesmo para este em que habito, que só chega a assumir que é dor a dor que deveras não sente.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Não há chá possível

“Veio o chá, mas não há chá possível depois de certas confidências”, escreveu Machado em seu conto “D. Paula”, mais um dos lapidares. A D. Paula em questão é tia já idosa de Venancinha, e revive um namoro do passado tomando de empréstimo as emoções da outra, que anda flertando (indevidamente) com o filho do mesmo galã da tia. Para vampirizar um pouco dos ardores moços, D. Paula leva a sobrinha a contar-lhe “tudo, tudo”, nos detalhes mais intensos de suas ingenuidades, descobertas e angústias. Finalmente Venancinha termina a narrativa, ganha os necessários conselhos da parente sensatíssima e cedo se recolhe aos aposentos, tão logo baixa a febre do relato, tão logo se contrai a explosão, o choro, a catarse, a nudez emocional. Não há chá da tarde possível; não há ato prosaico que se encaixe na entressafra da imensa exposição pessoal – sobretudo o ato prosaico que implica interação. Não existe abrigo para a ressaca íntima que não esteja no silêncio da solidão provisória.

Vejamos. Você desarrolhou um “eu te amo” que andava envelhecido e sagrado na adega, quase mito, deitado à espera do momento propício, da ocasião precisa. Eis que apareceu a ocasião precisa, no susto, sem levantamento prévio de luz nem de música. Você é que não percebeu a preparação por imaginá-la mais solene, mas não mais que de repente houve um repente, as nuvens se uniram para dar clima, o ar ficou denso como o das chuvas dezembrinas e você lançou, lançou tudo, pronto. Já que resolveu desengasgar, desceu ao último gole; fartou-se de se mostrar inteiro, as tantas esperanças construídas, os inúmeros detalhes que em voz alta surgem ridículos, a adrenalina tremendo a mão num gozo masoquista de réu confesso. Está feito. E, mesmo que o que venha depois seja uma resposta de paraíso, essa igual adrenalina permanecerá no sangue, fechando a glote para qualquer chá suposto. Dizem que é a felicidade; eu digo se tratar da ressaca de confidências. O efeito é mais visível nas respostas mudas ou negativas: a tristeza escancara a vergonha que o contentamento disfarça. Ademais, o amor correspondido tem por consequência uma celebração em dupla, e então o declarante “engole” o nervosismo que só na solidão digeriria. Mas em nenhuma das situações – desolação ou alegria extrema – existe uma rápida recuperação da capacidade de almoçar ou jantar. Ir ao banheiro, só em último caso. Fica-se preso na mesma nuvem poética, não importa se rosadinha ou cinza.

Ou então você se meteu numa briga. Não das físicas, mas daquelas que vão esquentando verbalmente e puxam uma enfiada de ressentimentos nunca suspeitados, de acusações jamais cogitadas. Toda a mágoa non grata, que você disse ter jogado fora há tempos e se sente embaraçado de guardar, é capturada na enchente e vem à tona. Maçada. Não era para você se denunciar assim, para entregar o ouro de quanto deu valor ao agradecimento não feito, ao muxoxo feito na hora errada, ao presente comprado no número absurdo, ao comentário absurdo ou privado solto em ambiente indevido. Não era, mas já foi. Que droga. Vem aí a péssima fase da culpa de ter falado, de ter injustamente esfregado na cara – porém, acima de tudo, da culpa de se ter mostrado tal qual era, sem as maquiagens cuidadosas que sempre esconderam o caldeirão de chateações primárias, infantis; os aborrecimentos inexplicáveis, as infinitas carências. Resolver como? se avestruzando. Um tempo no buraco, pausa no trabalho, cobertor e Sessão da tarde desmiolada, para oferecer chance de cicatrização (e elaboração de desculpas) numa calma que não se dá com os chamados da rotina.

Bicho raro é o autoperdão que venha ligeiro como se toca o sininho. De bandeja.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Aquele abraço

Instituiu-se que fosse hoje, no Brasil, o Dia do Abraço. Não me admira tenhamos uma data assim: o Brasil é notoriamente abraçante – ao menos no que há de superficial. É cumprimento muitíssimo nosso. Agarramos até quase desconhecidos sem grande reserva, sem praticamente nenhuns pudores de convidar a nós um peito que nos é estranho. Vá assistir a uma final cascuda de futebol para ver se não. Abraçamos de frente, de banda, pelo pescoço ou com fúria, às vezes com demasiados tapas e em geral com suficiente entrega. Abraçamos estrangeiros na metáfora: com pouco tempo de chegada, o cidadão se considera nativo. Abraçamos festas e outras causas rápidas; se (exemplo) existem desabrigados da chuva, chovem roupas e mantimentos. Tudo é muito franco e direto, muito aberto e adequadamente simples. Eis a questão: não abraçamos o abraço no que ele tem de mais profundo. O abraço que envolve a coisa desde as primícias, desde a raiz de sua formação, desde o big bang de sua organização; o abraço que contempla andaime, base, infraestrutura, pacote completo, dedo na ferida. Nosso abraço brasileiro, tão pródigo, é o do tapinha ligeiro, da celebração do gol, do réveillon em Copa, da campanha de passar no mercado e levar leite em pó. Louvável. Mas falta cimento. Falta subterrâneo. Falta arar nossos latifúndios morais, improdutivos. Falta o abraço que agarra e insiste e morde feito carrapato. Falta o abraço renhido de vida e de morte.

Porque é assim o verdadeiro abraço físico: profundo. Não basta envolver a cintura e ficar um-dois segundos tocando levissimamente as costas do outro, enquanto se olha o infinito que mora além dessas costas com ar de quem está louco para se desfazer do carinho e retomar a liberdade. O abraço real olha o infinito que mora aquém das costas, que ali dentro mesmo se acha, se descobre, que tão cedo não pensa em soltar ou ser solto. O verdadeiro abraço é permanência. É o gozo da permanência no outro – numa instância em que não precisa haver a conotação sexual que tantas esferas perturba. Abraço é o jeito mais denotativo de aproximar corações, uma vez não se tendo, ainda, derrubado a impossibilidade de confundi-los no mesmo espaço e batida. E fomos projetados, olha que delícia, a fim de que justamente o contornar dos braços acabasse unindo a esquerda de um corpo à do outro, de modo tão mais colado quanto maior a dificuldade do processo. Porque nascemos frontalmente opostos é que os corações acabam grudados nesse esforço de abordagem.

O abraço verdadeiro é o exato mergulho – de corpo, alma, pensamento e relógio (ou ausência dele) – na mistura de calores e tum-tuns, na confusão de braços e peitos, na chance rara da simbiose platônica. Quem abraça, provisoriamente reside. Reside com toda a inteireza e tranquilidade na junção ao outro, sem pressa nem constrangimento, sem noção de nada mais que impeça a existência de ambos como ser xifópago. O abraço verdadeiro não prevê desejo de fuga e lamenta a rapidez com que é desfeito, por mais que durasse um trimestre. Quer ver um? procure nas despedidas – na gana com que o primeiro estreita o segundo, querendo enviar-se nele em anexo. Procure nos reencontros – na sede feroz com que o segundo se atira ao primeiro, desejando recompensá-lo da ausência por meio da unicidade. Procure nas dores simultâneas – na irmandade furiosa com que um coração sangra no outro a mesma perda. Procure nas alegrias partilhadas – na comemoração cega de felicidade em que um venturoso busca no outro a memória da mesma luta. Procure entre gêmeo e gêmeo. Entre compadre e compadre. Entre romeus e julietas. Entre mães e bebês.

Procure o abraço legítimo onde não sobrou espaço para o mundo entrar.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Perfume

Entre as amofinações todas do resfriado, há uma suprema. Não, não exatamente a coriza – embora seja de um aborrecimento atroz parecer a rena do nariz vermelho e ver o lenço virando anexo do braço, na tentativa úmida e vã de conter a torneirinha –; não exatamente a coriza, porque esta sempre tem seus sprays de auxílio e não costuma durar mais que um dia e meio. Pior que a escorrice é o efeito dela, e das milhões de assoadas que violentam a incham o nariz: a perda temporária do olfato. Como irrita! Nem pelo olfato em si, e sim pelo paladar que voa com ele janela afora. Poucas anestesias me atormentam como essa cegueira gastronômica.

Porque sou gulosa. Não gulosa da quantidade de alimento; tenho gula do gosto dele. Seja qual seja, alface ou ovo de Páscoa. Tenho gula do gosto, volúpia da textura, da temperatura, do cheiro; devoro por inteiro, mergulhando na suculência (delicada, lentamente) de corpo, alma e sentidos (todos). Imagine o tédio de uma pessoa assim – como direi? sinestésica – comendo e bebendo sem o prazer mais imediato de comer e beber. Dou de assoar-me, louca da vida, pra ver se reabro uma via qualquer de olfato, se arranjo algum ponto de respiração por onde penetrem as boas qualidades do quitute. Que não me contento com os sabores gerais, não; não basta saber se é adequadamente doce ou salgado, se é vagamente cream-cracker ou maçã. Quero as impressões mais sutis, mais específicas, cada nuance das semelhanças, cada desvio do neutro. E quero as inflexões pequeninas do amaciante nas toalhas, no lençol, o limão discreto do detergente, a falta ou exagero de perfume na hora de sair. Gosto tanto das entrelinhas, gosto tanto dos tons que moram no paladar e no cheiro, gosto tanto de todo o cardápio do ar!

Assim em tudo: não sou chegada à insipidez, à vida incolor e inodora. Não suporto (mais) o estudo demasiadamente árido (gastei na escola, e em algumas filologias da faculdade, toda a capacidade estocada); não tenho alma e ânimo para trabalho em que não possa deitar uma tal e qual pitada de açúcar, dois dedinhos de literatura, pelo menos alguns gramas de espírito. Desde os cinco anos que sou persona non grata entre os números; sou analfabeta funcional em pedagogês, demagogês e academês, tapada para legislações e inepta para revisões (a não ser que me queiram pulando da Rio-Niterói antes da vigésima página). Não gosto de look monocromático, não curto uniforme, não trabalharia de farda. Sou esquiva, inquieta, amo a variedade na delicadeza, as flores, as cores, um ligeiro caos, o pequeno caos inerente às opções. Preciso comer e viver colorido. Não com os sabores agressivos do camarão e da azeitona (eca), nem com os viveres agressivos das baladas noturnas e dos esportes radicais. Mas com as borrifadinhas de gosto, de alegria; com a suavidade dos temperos, das miniaventuras; com a sutileza das especiarias e novidades. Deixar de sentir um só sabor, de um só caqui ou fatia de pão, é uma provisória morte. Deixar de ver poema num só dia é inconcebível gripe.

Que me seja incurável a síndrome de aspirar.

domingo, 20 de maio de 2012

Quem somos sem nós

Em Cheias de charme, Rosário (Leandra Leal) andou tendo suas desilusõezitas com o universo musical que sempre lhe foi objetivo de vida. Inácio, o namoradão Ricardo Tozzi, até curtiu: não compartilhava nem um tiquinho os quereres da amada, concentrado que estava em tê-la guardada para si, estrela exclusiva. Deu força para o outro talento da guria – a arte das panelas. Ela voltou ao bufê onde trabalhava, aparentemente curada da fome de palco. No capítulo de ontem, porém, em conversa com o namorado, referiu-se ainda à música (saudade na voz) como “meu sonho”. Ele observou com tristeza que ela nunca desistiria do projeto original, né? Ah, não é de uma hora para outra que uma pessoa se desliga do sonho de infância, plano de uma vida inteira, endoçurou a ex-empreguete. Tinha meia razão. Sabe em que momento, só, nos desfazemos do tão longamente pretendido, do tão compridamente desejado em noites de estudo e vigília, em dias de olheira e pensamento fujão?

Nunca.

A gente nunca abandona o primeiro profissional em que se transformou de verdade, se de verdade (íntima) se transformou. A gente nunca se divorcia do primeiro alumbramento, ou, se não do primeiro, do mais penetrante, do mais contínuo. Impossível renunciar a uma missão autêntica sem amputar-nos no eixo, sem nos dilacerar lá onde existimos mais por inteiro, e sem levar de arrastão uma tonelada de alegrias e características periféricas. Abdicar do sonho mais querido é esperar que a árvore continue de pé, em franco crescimento, depois de extirpado o detalhe da raiz. E importa pouco que o objetivo recaia no surreal ou impossível, porque damos jeito de modelar os entretantos sem alterar os a-prioris. Mudam as manifestações; a essência não muda.

Porque amadurecemos, aceitamos crer que nosso talento para futebol é mais de gosto que de fato – mas o atleta (que gostaríamos de ter vocação para ser) vira o comentarista apaixonado, o treinador genial, o jogador de vôlei que arisco se escondia sob aquela vontade de bola. Porque ganhamos mundo e autocrítica, sabemos que não nos veio altura nem boniteza para concorrer a top model – mas o símbolo de moda e beleza que somos por dentro vira a blogueira VIP no universo fashion, a bordadeira habilidosa, a artista plástica de olho clínico para semitons, a manicure com estrela de Michelangelo, a estilista da coleção gracinha para pequerruchos. Porque reconhecemos que nossas relações com Física e similares não são das mais amistosas, desistimos dos delírios de astronauta infantil – mas o Buzz Lightyear que em nós vive, até o infinito e além, nos desvia do céu para fazer-nos escarafunchar terra, corpo, oceano, alma, web (para fazer-nos arqueólogos, médicos, marinheiros, psicólogos, designers, por que não? escritores); ou, diferentemente, nos mantém suspensos no ar como acrobatas ou paraquedistas. Talento não se desvia: se encontra. Se entende. Se aprimora. Sai da caverna para entrar na vida.

Então podemos considerar-nos futuros veterinários, que a pulsão de acompanhar os indefesos um dia nos revelará assistentes sociais; podemos nos ter como virtuais bailarinas, que mais tarde essa paixão do teatro nos indicará como reais violinistas; podemos nos planejar advogados, que alguns anos deixarão nossa ternura pelos argumentos mostrar-nos professores; podemos nos imaginar pesquisadoras, que uma necessária lua de mel com o nosso amor ao esforço, às minúcias, nos formatará depois como superdonas de casa. O que vocacionadamente somos não nos foge, não morre; transmuta-se, como a velha máxima da energia. Sem nós – sem esse primitivo nós que projetamos, o de nossos idealizados futuros –, somos ainda e sempre nós mesmos, a não ser que decapitados de qualquer instrumento cerebral de desejo. Somos nós, ainda que com aparente revolução de panos e planos. Somos nós, a despeito da suposta traição aos interesses legítimos. Não há esquecimento: há maturidade, há (no bom sentido) acomodação. Realocação. Pouco em nós se cria; nada se perde.

Tudo se reforma.

sábado, 19 de maio de 2012

O improvável

Então os azuizinhos levaram a taça da Liga dos Campeões. Quem diria. Na casa e nas fuças do adversário, tomando um gol aos 37 do segundo tempo, empatando em seguida, fazendo pênalti logo no início da prorrogação, defendendo-o em seguida, depois errando bem o primeiro chute na sessão de cobrança de pênaltis, e vendo o Bayern errar dois em seguida. Esteve sempre atrás por alguns minutos, sempre naquele gap que para certas pessoas equivale ao Grand Canyon, mas teve disciplina e sangue frio de não se entregar ao cansaço precoce. Ia reconstruindo a vantagem com paciências de formiga, sem medo nenhum do já-ganhou. Que final bonita.

Alerto que não torço para o Chelsea ou para qualquer outro time dos estrangeiros, e só assisti ao jogo por extensão a um Fábio gamado em futebol que eu tenho. Mas (confesso) quando vi que a coisa andava muito inclinadinha à vitória da equipe alemã, torci intimamente pelos ingleses, como haveria tomado partido dos alemães se fosse o contrário. Só queria ver segurar a taça algum maior azarão; algum J. Pinto Fernandes que não tivesse entrado na história.

Por quê? pela beleza do improvável. Pelo ar fresquinho que sopra do improvável. Gosto de ver ganhar o time que não se espera, o corredor que mais tropeça, a criatura que parte em desvantagem e tem bastante presença de espírito para engolfar o prejuízo, dar um perdido nas estatísticas. Gosto do bilhete de loteria desatando o pescoço do endividado, do cantor mais aplicado (inda que não mais talentoso) abraçando o prêmio da competição, das coincidências esbarrando casais nunca esbarráveis, das químicas de novela bombando personagens impensáveis. Gosto de flor furando calçada, de japonês nascendo de olho azul, de pérolas culinárias sendo descobertas no beco mais próximo, de capa de revista escapando ao assuntão da semana, de dia útil ganhando cinema ou feriado, de aluno esquecido tirando dez balofo na prova. Gosto de pretender um vestido vermelho e me apaixonar na loja pelo azul, gosto de dar com a resposta tão procurada num canto de rua tão qualquer, gosto de escolher tema de texto no desespero e ele virar um mais querido. Gosto de toda inesperice que – sem prejuízo de nossas mais sólidas escolhas, sem perigo ao nosso mínimo de organização saudável – nos invade, nos desarruma, nos pinta o dia de ludismo recente, traz cheiro de pão quente, de café passado na hora. Em que matéria se concebe o amor, senão na improbabilidade das renúncias alegremente escolhidas? De que são feitas literatura e magia, senão de suculentas exceções?

Felicidade é estar dedicado às rotinas com o coração vestido de festa-surpresa.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Era uma casa muito engraçada

Soube com ternura que hoje é o Dia Mundial do Museu, e desde logo comecei a lamentar pelos bobalhões que pensarão nos museus como redutos de mofo, poeira e amofinação. Permanecer nessa crença é afirmar por tabela que a humanidade, até o fechamento desta edição, só fez produzir lixo e feiuras – e, portanto, que nossas próprias casitas, nossos próprios quartinhos não passam de monumentos ao mau gosto. Veja se não é justa a conclusão, uma vez que museus são quartos e casas onde residem memórias de nossa família universal, tanto quanto casas e quartos são museus onde habitam memórias da família específica. Quem por esta tem devoção há de, necessariamente, reverenciar aquela, que motivou cada gesto e preferência da outra. Frequentar museu é visitar a humanidade em domicílio.

Uma fraqueza pontual me inclina mais ainda aos museus, que é a sina de amar as bibliotecas. Os primeiros são maridos das últimas; se são elas templos de pensamento escrito, eles são bibliotecas de pensamento material. Nos museus morre a agonia do estudo etéreo, a angústia da história impalpável; Machado vira alguém que tinha escrivaninha de madeira escura e manuscrito com remendo, O pensador deixa de ser o gigante inatingível para estar humilde e pequenino ao alcance da mão, utensílios e moedas provam que os gregos não eram fruto da Carochinha, esqueletos de T-Rex mostram cabais de que passado concretíssimo a gente escapou. Tudo sai do era, foi ou será uma vez para entrar nas amizades de sempre, no papo da tarde, na lembrança do meio-dia. A História-com-agazão, subitamente tão pertencente, fica sendo Totó, uma nossa chapa de barzinho. Colega de primário. Vizinha de porta. 

Não bastasse ser a casa mágica que tamanha agorice traz ao pretérito mais-que-perfeito e ao futuro do presente, o museu também guarda silêncio. É principal peça de acervo. O museu gosta, como as bibliotecas, que a gente se desperdice o mínimo para entrar na posse do máximo; que a gente se dê pouquíssimo a ruídos que não sejam os das obras e experiências fazendo bulha cá por dentro, desarrumando opiniões e rearranjando memórias, abrindo mão de tolices e inserindo aprendizagens. E eu amo esse eterno silêncio que acompanha a beleza e o susto da ideia; amo esse som de olhos engolindo, lembrança nascendo, cérebro almoçando. Amo esse som da humanidade que sem-pressamente decifra.

E se devora.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Pelas costas

Numa das colunas desta semana, Ancelmo Gois revelou que certo político estrangeiro, num congresso, andou falando bem do Brasil pelas costas. Achei graça. Normalmente reservamos o dorso alheio, a salvo dos respectivos olhos e ouvidos, para meter-lhe o malho – atitude que recomenda ainda pior quem a executa, por recair na suprema covardia de amputar as chances de defesa. Mas há umas criaturas imparíssimas que elogiam por lazer, por gosto, não por investimento. Para umas tais aberrações, até convém que o elogiado esteja ausente, pelo mesmo motivo que teriam de desejá-lo ausente se lhe fizessem a caveira: os elogiados também se defendem. Com maior vigor, inclusive, ainda que não por convicção. Elogiado é uma gente difícil à beça com elogio, e das duas uma: ou acredita sinceramente que não merece o agrado – tirando, assim, algo do prazer de quem o exalta –, ou aceita, busca e aprecia intimamente as boas falas – e, portanto, menos as merece. Além do mais, elogiar longe do contemplado evita que se estimule uma vaidade, e afasta do admirador a nojenta fama de puxa-saco.

Tem-nos faltado mais energia para essa fofoca do bem, que é como aquele mosquitinho transgênico misturado pelos cientistas aos transmissores da dengue: atrapalha a reprodução de sua versão negativa. Espalhar novidades felizes a respeito de quem quer que seja costuma dar um necessário susto aos maledicentes. Não se espera que o outro venha cheio de boas vontades sobre um terceiro, quando o geral é escolher tais e tais ações alheias para bode expiatório de nossas próprias. Elogiar é para os grandes; e não vem dos notáveis por fora, parte dos imensos por dentro. Parte daqueles que guardam tão imensa terra a ser arada, tanto campo, tanto potencial que toda boa semente é bem-vinda. Os que elogiam não estão abarrotados de si; os que elogiam têm vagas. Os que elogiam é porque não são impermeáveis ao vizinho, mas esponjosos o bastante para bebê-lo no que houver de melhor e bastante agradecidos para divulgá-lo. Elogio é gratidão pública pelo bem direto ou indireto que nos veio; mora, exclusivo, nos lábios que namoram sucesso. É o outdoor dos seguros. É a propaganda dos fortes.

E carta de recomendação para quem lhe faz jus – porque, na ausência de quem realmente se encaixe no elogio, vai este sempre pousar em local impróprio. Que, pois, se exalte o capricho do aluno, para que a ele (e não ao espertinho parasita) venham as boas graças do conselho de classe. Que se enalteça a competência da secretária, para que a ela (e não à preguiçosa parente-da-amiga-do-diretor) venha a merecida promoção. Que se decantem a amabilidade e o juízo do amigo do filho, para que a ele (e não ao louco irresponsável) venham as confidências que você mesma não ouvirá. Que se faça campanha pelos honestos, para que a eles (e não aos safardalhas de sempre) venham os adequados milhões de votos. Que se proclamem os excelentes feitos, as índoles generosas, as empresas organizadas, os funcionários eficientes, as notícias consoladoras, os colegas parceiros, os irmãos magníficos, os religiosos exemplares, as mães talentosas, os pais dedicados, os chefes insubstituíveis. Sejam eles os divulgados, os reverenciados, os amados pelos corredores, pelos elevadores, pelos jornais, pela cidade.

Mesmo contra a vontade.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Me dê motivo

Muitos já ouviram falar em Mariana Alcoforado, a jovem portuguesa que se apaixonou doidamente por um oficial francês enquanto estava no convento, e desembestou a escrever-lhe cartas choradíssimas depois de ele ter retornado a suas atividades militares. As tais cartas vieram à luz (anônimas) em 1669, poucas mas longas, de amor rasgado, cortante, rastejante. Não é texto de quem mata saudades de namoro por escrito, e sim agulhadas da paixão que se sabe mal paga e mastiga uma delícia feroz em apresentar os próprios tormentos. Um quê de Julieta, um quê de Medeia; de donzela saudosa e de amante desprezada – o feminino em si mesmo.

Impressionou-me um trecho em especial, no qual Mariana solicita motivação para sair de sua tristeza constante, monótona, e ceder enfim ao último desespero: “Seja mais difícil de contentar! Ordene que eu morra de amor por você!”. E aí não há mais o apenas feminino, mas o demasiadamente humano, se concordarmos em sublimar o apaixonado das palavras e aplicá-lo a toda situação de desgosto passivo. Porque é isso que queremos: dificuldade. Dificuldade que nos arranque de nosso marasmo infeliz e nos ponha fogo de iniciativa. Dificuldade não pequenina, pelo menos não quando já há milhas de amargura acumulada; obstáculo, sim, daqueles tremendos, cabeludos, de nos encostar na parede, de nos dar ultimato, de nos sacolejar com a adrenalina das emergências, com a pressão dos instintos. Queremos a gota d’água que venha de turbilhão. Queremos a desilusão que venha de enchente. A provação que não permita desculpas, que não se deixe empurrar com a barriga, que nos atropele, que nos arrebate, que nos meta um dá-ou-desce. Se depender de nós, daqui não saímos, daqui ninguém nos tira. Então vá lá. Nos cuspa. Nos espanque. Nos dê na cara. Nos dê motivo.   

O trabalho anda aquela safra de humilhações cotidianas, de mortezinhas lentas; porém as danadas são sutis, espaçadas, e quem olha de fora nos atribui um empregão – aumentando-nos o sofrimento com um veneno de culpa. Precisamos de quê? de um bruto dum motivo. Coisa tonitruante, que afinal anule salário obeso, benefícios generosos e esses demais mimos que nos subornam a felicidade. Precisamos de falcatruas para alegar violência de nossos princípios; precisamos de chefe assediando, para sacar do baú nossa incontestável decência; precisamos de colega ou aluno nos dando paulada, para precipitar nosso ato final. É bem-vindo todo problema cuja grandeza exceda a serenidade dos conselheiros. Cujo volume assuste a pachorra da opinião pública.      

A relação vem estando uma fonte muda de despedidas, um canteiro de maus silêncios, uma plantação de desrespeitos ferinos, campo minado de crueldades transparentes. Todos continuam, entretanto, perguntando pelo futuro casório, invejando a união antiga como patrimônio do Iphan. Precisa-se de quê? motivo. Motivo que nos autorize o fetiche da fuga instantânea, daquelas que nem tempo têm de deixar o armário vazio. A crise de fúria do outro, o ciúme assassino, a traição flagrante; a ameaça à família; o cárcere privado. Motivo – visível a todos os olhos, sujeito a todas as piedades, todos os apoios diante de nossos rompantes de liberdade. Motivo tão gigante que não nos traga críticas. Tão certeiro que não nos gere cobranças. Dogmático. Absoluto.

Que para isso alguns grandes males são feitos: devolver-nos ao mercado de bens.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Tratamento de canal

Concordei com o Fábio: daria um ótimo tema de crônica.

Vamos ao caso. Posicionei o controle da TV sobre o 55, número do bom e velho Discovery Home & Health, que há tempos não frequentava. Volta e meia pilho algumas estreias, três ou quatro novidades na programação; nada que deixe o Home muito mais excitante, nem exageradamente congelado. O normal. Só um detalhe causa desespero: os comerciais quase todos, apesar do gordo período transcorrido sem a gente aparecer naquelas plagas, são os mesmos. Os meeeeeeeesmos! do tipo que sabemos recitar em qualquer sabatina, decoradíssimos já faz mais de um ano. Inclino-me a pensar que já faz dois. Não fosse o bastante, os anúncios passam de arrastão, 98% das vezes na mesma ordem. Nem sequer há o consolo do súbito, do imponderável: lá vêm eles de enfiada, o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, idêntico texto e diálogo; todo intervalo eles fazem sempre igual – não nos sacodem em nenhuma hora da manhã, antes nos hipnotizam com seus quase dez minutos de tortura previsível.

“Se a pessoa fica o tempo inteiro nesse mesmo canal, enlouquece”, comentou o Fábio com chateação inevitável. “Mas não é assim em tudo na vida?”, completou, sugerindo numa piscadinha de olho que o assunto era perfeito para uma postagem seguinte.

É perfeito o assunto, e é assim em tudo na vida. Uma criatura acaba insana de pai e mãe se não dá umas trocadinhas básicas de canal, por mais apegada que seja à programação de costume – ou bem por isso mesmo. Não digo, evidentemente, que se fique virando casaca e alternando o inalternável: time, amor, princípio, religião. Longe de mim, tão amiga sou da fidelidade no matter what. Falo dos afetos acessórios; aqueles que formam o citoplasma de nosso núcleo, o invólucro de nosso eixo, a massa de nosso recheio. Falo das paixõezinhas intelectuais, dos lazeres, dos prazeres, das manias, das insistências, de tudo que caiba no rótulo neutro e secundário dos “interesses”. Uma escorregadela de teimosia e o vago “interesse” – que é mero preenchedor de tempo entre nossas devoções maiores – passa a merecer carimbo de obsessão. Da obsessão à maluquice, um pulo. Um sopro. Pertinho assim.

A adolescente que almoça-janta-transpira-respira-estuda-dorme um ídolo. Os cartazes do ídolo, a voz do ídolo, a agenda do ídolo. Muito fofo, muito bonitinho se a guria continua sintonizando no canal da família, dos amigos, da escola, do clube, do esporte, do inglês, do balé, da novela, da paquerice. Mas se a coisa começa a resvalar para a repetição maníaca, a ponto de sono e fome, céu e terra migrarem para os olhos do ser adorado, e tudo o mais se esfarelar em perda de tempo inimiga... sirene na área. S.O.S, desintoxicação – antes que a linda se consuma numa anorexia de mundo. Da mesma forma o sujeito que não termina um pipi sem que lhe toque o celular trazendo novíssimas, urgentíssimas, emergencialíssimas do escritório. Sai do escritório, mas o escritório não sai dele. Devora-lhe a aorta, necrosa-lhe um ventrículo, azeda-lhe a festa do caçula, rouba-lhe o passeio de barco com a turma, insinua-se na mesa de domingo ou no amorzinho de feriado. Controle remoto no indivíduo! – antes que termine um 24 de dezembro em papo amargo e solitário com o fantasma dos Natais futuros.     

Assim também o fumante, afundado no canal de conversações eróticas com dona morte. O misantropo, afogado na antipatia de só ver delícias no Animal Planet. O hipocondríaco, atordoado até o extremo com as ameaças de tantos Enigmas da medicina. A mocinha infeliz para sempre porque, 25 horas por dia linkada no closet das celebridades, já está convicta de ela própria ser um lixo fashion. O rapaz órfão de notas (sim, nos dois sentidos) porque foi abduzido pelo joystick. A mãe vazia de filhos porque há anos se transformou em horóscopo de só prever desgraça. Assim os viciados, os fissurados, os possuídos por qualquer temática imutável, por qualquer cisma tirana que os torne um tédio ou um perigo. É necessário – é estupidamente necessário – desviar-se para focar. Reeducar-se para saber. Tirar o volante da reta obsessiva para não bater.

Trocar o chip é levar desfibrilador na vida.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Antes só

Li num cartum de Facebook uma belezura poética: “Eles eram um só. Agora são dois sós”. É triste, mas compensa com aquela maravilha de síntese, com aquela habilidade verbal que seduz a gente para as cabeças iluminadas. Não é isso, enfim? há casais, tantos, que principiam a junção sem exatamente se aproximarem: se atracam. Em lugar do estudo cuidadoso de terreno, da fascinação pausada e sensata de quem se chega e aconchega mas não se gasta, nem se põe em carne crua, existe a ligação imediata, excessiva, incondicional, furiosa. Vampiresca. Não há amor, há pressa. Uma pulsão doentia de cada um enxertar um apêndice em si mesmo, ou usar o outro como sonoterapia: amortecer ali sua própria personalidade, derramar-se e esquecer-se inteiro, momentaneamente isento de impostos, emprego, família e responsabilidades afins. Pode dar certo? Não pode dar certo. O segundo um dia lembra que não é piscina para submergir o primeiro, nem pasta para arquivá-lo, nem canibal para devorá-lo. Enjoa de ser incubadora, apavora-se com a perfeição fingida e forçada. E se evade de quem o invade. Evade-se necessariamente em algum momento, quando vem a fome ancestral de sair da história (de fadas) para entrar na vida.

Às vezes este segundo – o mais angustiado com a relação xifópaga – não se evade de corpo. Permanece fisicamente, por piedade ou preguiça. E no entanto perdeu, de tal forma, a alegria da contiguidade que “permanecer” passa a ser ofertar ao outro o incômodo de um cadáver sendo arrastado. O segundo não parte e não fica. Não rompe e não ama. Não tem a generosidade difícil de ceder ao primeiro o benefício do luto; prefere o fácil egoísmo de não assinar o óbito. Vira uma relação de inimigos algemados, o ressentimento de quem se vê traído no ideal platônico e o tédio de quem se acha atado à sua pena – com duplo sentido. Uma troca de decepção por cansaço, de cobrança por desinteresse, de paixão por compaixão. Namoro de dois eus sozinhos.

Antes (efetivamente) só – desta “solidão” que merece aspas por ser, na realidade, campo de cultivo de novos futuros. Antes a solidão aspada e fértil que a companhia falsa do coração tornado zumbi, do parceiro compulsório, da presença ausente. Antes terra arada e vazia que plantação ora existente e seca.

Amor é para dois sóis.

domingo, 13 de maio de 2012

O quarto do filho

Uma conhecida elogiou no Facebook o comercial da Pampers para o Dia das Mães, transmitido no intervalo do Fantástico. Linkou o anúncio em sua página e eu fui conferir. Realmente lindíssimo, com a genialidade das ideias simples; mostra “tipos” de filhos/ famílias em sequência e arremata declarando que todo bebê, sejam quais sejam as características, é um pequeno milagre. Não há discordância possível. Existindo vida – quer ela pertença a únicos, gêmeos ou quadrimúltiplos, balofos ou prematuros, exigentes ou não de necessidades especiais –, existe milagre a priori. Existe milagre em duas células virarem músicos, bailarinas, mecânicos, presidentes; existe milagre em triunfarem sobre vírus, bactérias, saudades, vestibulares, bullyings, amores perdidos, casamentos desfeitos. Existe milagre inegável, irrecusável, indecifrável nessa teimosia de vida, autorreciclada para além de Vietnãs, Idades Médias, bombas atômicas, pestes bubônicas. Existe milagre em que as mães não desistam de embebezar-se, apesar dos noticiários. Apesar do mundo.

Mas grande parte dessa persistência é devida à esperança, mesma, da vida sobre a vida; essa confiança que têm os genes de um dia prosseguirem em outros genes, essa força abissal e primitiva da descendência. Por isso, exatamente, eu tendo a enxergar ainda maior milagre em outras mães: as que já não veem nem tocam os filhos, e nunca mais os tocarão nem verão, e nunca mais os terão nos braços como promessa viva de mais vida, símbolo de continuidade, motor de perseverança. Se já é às vezes tão árido seguir viagem com o guri ali na sala, sem querer saber de estudar ou de comer legume; se já é tão heroico não desistir ao ser a única a visitar o rapazote em Bangu I, ou a reencontrar a mocinha na clínica de reeducação alimentar em que foi internada à força; se já é tão angelical abrir mão dos próprios desânimos diante de uma esperança ainda respirante, palpável, concreta – como imaginar que se possa, senão por milagre, continuar multiplicando vida depois de se ter o filho (que era apólice de vida) morto nos braços? Por que artes a mãe se rearranja? Em que caminhos a mãe se reencontra?

Pois entra aí a seiva obsessiva de vida que migra de amor em amor, indestrutível, como a energia de Lavoisier. Sabe mãe-pinguim que fica órfã do pinguinzinho e instintivamente busca outro filhote para aconchegar nas penas, grávidas de cuidados? É tal qual. Uma vez nascida (por dentro), a mãe não se extingue; perdido seu bebê original, derrama-se por onde quer que haja vagas e bebês, por onde existir carência de abraço e leite, de colo e vigília. Sobrevivem assim as mães dos Cazuzas, das Candelárias, dos Realengos, das Columbines, as mães das filhas atingidas por bala no metrô ou por jet ski no mar, as mães das atrizes assassinadas num canteiro ou das adolescentes caídas num parque de diversões: sobrevivem amando. Retirando com bomba, do peito doído, os litros de amor acumulado e viúvo – e destinando-o às campanhas, aos sobrinhos, aos afilhados, às adoções, às instituições. O mundo mata o filho; mas não mata o que nasceu, gêmeo e contemporâneo deste, na mãe. Não mata a maternidade. Cria apenas o vazio que não recebe nome de viuvez nem de orfandade, nem de coisa alguma, porque não permanece vazio: a seu tempo se completa novamente da mesma febre doadora que transborda.

Disse Chico que a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu. Seja. Porém mãe não acaba nesse revés de parto. Ali na cama ou no berço de sua metade amputada, já tinha anteriormente dado à luz a si mesma.

sábado, 12 de maio de 2012

Infinito enquanto dure

Domingo passado, o consulente do psicanalista Alberto Goldin, na Revista dO Globo, era um Leonardo viúvo de 53 anos, com duas filhas universitárias. Duas filhas universitárias, uma esposa precocemente falecida há três meses, uma Estela de 43 anos – que muito o tem apoiado neste momento de perda – e o seguinte to-be-or-not-to-be: “Será que é hora de refazer minha vida? Será que realmente existe tempo para ser feliz?”.

Atualmente, Leonardo e Estela ocultam o namorico das filhas do viúvo, pela natural delicadeza de não lhes impor “madrasta” que seria vista como substituta desesperada. Entendo e admiro a consideração gentil pelos sentimentos das meninas, provavelmente ainda chorosas e tendentes a buscar conforto numa família coesa feito monólito, fechada para balanço, sem vagas para quem seja estranho à dor. Isso de luto é coisa que se inclina mesmo para o íntimo, e em geral é vivenciado em gangue, em seita: aqueles que perderam o ser querido passam tempos chorando juntos, lembrando juntos, conversando em iguais risos e silêncios quando os olhos de cada membro encontra um objeto ou memória do falecido, cujo valor só se compreende dentro dos limites da irmandade.

O problema dessa irmandade fraterníssima, entretanto, que tamanho aconchego traz aos órfãos da mesma saudade, é o inconveniente de uma saudade não ser sempre contemporânea da outra, siamesa infalível, com semelhantes começos e fins. Vai que um dos coraçõezinhos rompe o pacto, por ser mais solar, mais impaciente ou menos talhado para longas tristezas, e principia a ver novas luzitas antes dos demais. Pronto. Eis instalada a batalha de culpas e egoísmos. E a praxe é qual? que a dor sacralizada pela morte, com o aval de quem partilha ou não partilha o luto, se sobreponha em direitos à alegria espontânea de quem vive, de quem precisa viver, de quem já tem as asas secas (mais cedo) do período de enchente. Nós – embora frutos de sociedade viciadíssima no próprio prazer – nós ainda guardamos o “respeito” apavorento pela morte, sobre todas as coisas. Ainda soa leviano ter a audácia de substituir o terror à solidão pelo impulso orgânico de companhia, todo trabalhado na primavera. Ainda soa mesquinho ter a ousadia de não submeter seu calendário mais robusto e resistente ao calendário escuro e invernal dos que sentem os desesperos mais fundo. Ainda cheira a pecado humano, familiar, social escapar-se dos rituais visíveis do luto para completar os seus próprios, invisíveis, e tão autenticamente completá-los a ponto de ainda achar tempo para ser feliz mais cedo.

Não sei se é real ou improvisado o amor de Leonardo e Estela. Importa pouco em nosso caso. Importa, aqui, o (triste) conceito: a culpa infinita de quando o adeus não dura, a obrigatoriedade maior de cumprir para os autos a lamentação e(x)terna do que de inundar os arredores com a alternativa que transborda. Alegria (que não é digna de pena como a histeria, mas convictamente serena) ofende. Felicidade ofende. Pega mal viver com tanta certeza e tão em voz alta quando há quem morra.

Axioma dos invernais, parece. Só se pode ter vida infinita enquanto é dura.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Já é

Estive pensando sobre essa expressão que forma uma das giriazinhas da vez. É sinal de entusiasmada concordância, aproximadamente um “que boa ideia!”, um “estou ansioso para isso!”, um “tem toda a razão!” batidos no liquidificador. Mas o que me dá mais simpatia pelo “já é” vem a ser exatamente o sentimento do agora, do não-vamos-adiar, do “considere feito” (consider it done) que é símbolo de competência nos filmes americanos. Por que essa pressa toda do “já é” que empregamos, tão alegres, para assentir num projeto de recreio, para aderir a uma proposta de dança, de música, de finde, de férias – por que essa pressa impaciente, que nos leva com tanta ânsia a trazer para o presente o que ainda mora no futuro, não contamina de eficiência nossas parcelas de vida todinhas? Por que não sai da esfera do prazer ligeiro para derramar-se no trabalho, nas obrigações e serviços outros, muito especialmente na vontade política, que entre nós tanto padece da Síndrome do Daqui a Pouco (já a caminho da Terra do Nunca)?

Digamos tenhamos acordado coerentes com o nosso ímpeto brasileiro para o carnaval, e tomado o cujo como exemplo para curar a ramerramice que nos acomete em todas as diferentes áreas. Digamos tenhamos engolido a pílula do “já é”. Fim da burocracia farisaica, da papelada interesseira, do apalermamento coletivo, do gerundismo desculposo, da modorra preguiçosa e estúpida – por que não dizer? arrogante. Tudo deixaria de não ser nossa função, e sim do Departamento de Etceteridade Pública, para ser com a gente, sim. Pessoalmente. Diretamente. De súbito abandonaríamos o empurrismo, o por-enquantismo, em prol do “onde eu estava que já não fiz isso há duas semanas?”. Em vez do “a Secretaria de Pontinho-Pontinho-Pontinho informa que estará realizando a licitação para iniciar as obras até o fim do ano”, já é! – considere as obras começadas anteontem, que vergonha não termos solucionado algo tão ridículo desde 1534, pelo menos. Em vez do “órgãos competentes estarão procedendo à triagem dos donativos para a distribuição a ser feita em breve”, já é! – em dois diazinhos um mutirãozão deu conta de separar e entregar direitinho os víveres a cada família, até em domicílio. Em vez do “meu colega da outra seção estará entregando o relatório assim que tiver os últimos dados do projeto”, já é! – eu mesmo adiantei as necessárias pesquisas e sapequei o texto na mesa do chefe antes da viagem de sábado. Não custava nada. Um qualquer-coisa de horas, minutos. Bobagem. Importante é resolver. Ficar com esse troço pendurado mais tempo?

Ficar com a praia suja mais tempo? Bora catar. Esperar mais pra derrubar o político escroque? Fora agora, pela porta dos fundos, e persona non grata pelos séculos dos séculos. Roubou? Prende. Sujou? Limpa. Quebrou? Conserta. Adoeceu? Direto pro hospital equipadinho, que outro jaeísta convicto se encarregou de botar nos trinques. Sem luz? É ligar pra Light e eles dizerem que já foi providenciado. Celular mudão por 10 minutos? No décimo primeiro chega torpedo da operadora, compungidíssima, se desculpando milhões e oferecendo uma semana gratuita. Já é, já foi, já deu, enough; pra que prosseguir fingindo ineficácia, protelando o óbvio, irritando necessidades?

Porque esta nossa maniazinha cretina de brincar de poeira diminuta ou estrela longínqua, de nos fantasiar de avestruz – sabe? Já era. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Os alquimistas estão chegando

Se tem um troço que invejo nessa Nina da novela das nove (além do fato de ser magriiiiinha) é o fato de botar a mão na massa e nos temperinhos e tirar dali uma qualquer coisa de lamber os beiços. E é sempre assim: coisa de quinze, vinte minutos. No improviso, para ficar tudo mais interessante e humilhar bem a gente. Mas convenhamos: a graça está justamente na infalibilidade, na impossibilidade de um prato sair errado, salvo intervenção malvada de outro personagem. É para o povo de casa acreditar mesmo na magia, sentir quase o ovo Benedict estalando na língua, a maciez do risoto, a suavidade da baba ao rum. Perfeitos. Indiscutíveis. Como que frutos dum condão de fada. Feito a Tita de Como água para chocolate, a Vianne de Chocolate, o Rémy de Ratatouille, a Babette preparando sua festa, Tia Nastácia amansando o Minotauro com seus bolinhos. Bruxos da ficção que nos colocam à mercê de um desejo mui verídico e ancestral: atingir o nirvana pelo estômago e alcançar sabedoria culinária pelos dedinhos. Gozar e fazer gozar. Se eles podem, nós também podemos – é a promessa que dorme nesse bovarismo gastronômico. A sugestão da possível alquimia. Do exato feitiço.   

Porque não me vão dizer que não há alquimia em espiar um pedaço de carne, alguns ramos de determinado verde, um pauzito de canela e uma polpa de fruta, e intuir que certo gosto pede outro (contrário) gosto, que moram ali misturas insuspeitamente divinas ao paladar, e que dali têm condições de nascer, portanto, pérolas como frango com alho poró ao molho de manga, ou robalo grelhado com farofa de banana, regado a coentro e suco de abacate. Não me vão dizer que cozinha – apesar de exigir, mais que tudo, transpiração real e figurada – não é movida a essas inspirações do além, baseadas em sabores de memória que são mixados numa batedeira mental. Cozinheiros carregam um portfólio de paladares tanto quanto músicos armazenam sons em arquivo, e são capazes, como um Beethoven, de reunir as informações pretendidas mesmo em total surdez. Cozinheiro, aos poucos, passa a trabalhar sem ensaio, sem provadinha; no escuro. Simplesmente sabe. Fica sabendo. Que nasce sabendo, não creio; porém demora tanto tempo conhecendo que, ajudado pelos dotes naturais de mago, termina adivinhando. Entende o pedido surdo das substâncias, o ponto ideal das matérias, o ponto fraco das delícias, o potencial dos esquecidos. Cozinheiro capta o idioma dos elementos como o gramático pressente as palavras e o veterinário suspeita a alma dos bichos. Fogão e forno são mais que uns punhados corretos de sal e pimenta, mais que fórmula mal ou bem-sucedida; são idílio, flerte, diálogo amoroso. Cozinhar é recitar com a natureza a cena do balcão.

Parabéns aos meus invejados bruxos pelo Dia do Cozinheiro. Adivinhem quem vocês convidarão para o jantar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Menino

Nesta data nasceu um menino. Um, não: nasceram dois. Aquele mais antigo viveu sujeito aos encasacamentos da sociedade – inglesa, sisuda, respeitabilíssima. Este mais recente vive sujeito aos encaixotamentos da sociedade – brasileira, preguiçosa, estereotipante. Aquele foi talvez incompreendido por mostrar, certas vezes, menos seriedade nas maneiras do que seria adequado; este já foi, talvez, subestimado no nível de alegria por aparentar mais seriedade nos modos do que costuma ser frequente. Um criava mundos de eterna infância para compensar o amor que não recebeu como filho, e o amor que não pôde dar como pai. O outro põe no mundo uns olhos felizes, de eterna infância, porque recebeu e recebe o amor que desde os primeiros anos torna a gente simpática à ideia de viver em festa. Um menino se espelhou na invenção do menino que não queria crescer. O outro menino soube crescer sem nunca abandonar o talento de ser lindamente menino. Um, James Barrie – o mesmo James que deu à luz um certo Peter Pan; o outro, Fábio Flora – o mesmo Fábio que há alguns anos me entrou no coração pela janela, derramando em tudo a mais repentina luz.

Há, sim, parecença entre os meninos: são dois escritores capazes de crer que a descrença em realidades coloridas assassina fadas; dois inventores de gente, dois defensores do princípio de que, para voar, não há combustível melhor que meia dúzia de pensamentos felizes. Mas James ia procurando em crianças externas, alter-egoicas, a doçura aventureira que queria transbordar de seu garoto perdido (o garoto interno, tão cedo confrontado com o tiquetaque da morte em família). E Fábio – o meu Fábio – armazena em si mesmo todos os garotos plenamente vividos que já foi, e os garotos potenciais que ainda será; nenhum perdido, cada um pouco a pouco encontrado, redescoberto, numa aventura infinita. Desde seu primeiro passo pro infinito. A terra elaborada por James Barrie era a da exclusão, a do isto-ou-aquilo, a do nunca-mais: nunca mais infância, para alguém já adulto, ou nunca mais idade adulta, para quem fosse criança; nunca mais pai ou mãe, nunca mais ordem e limite, nunca mais a suprema diversão do amor maduro. A terra de meu Fábio é a do isto-e-aquilo: deveres de gente grande, alegria de gente pequena, fadas e expedientes, revisões e brincadeiras, fantasia e assinatura de ponto. A terra em que a escolha não é se, mas quando. A terra sem a pirataria do tempo nos roubando asas e memórias. A Terra do Sempre.

Parabéns elevados à potência do sempre, meu Fábio. Quem, como eu, acredita que nunca lhe faltará a gasolina dos pensamentos felizes – bata palmas.