sexta-feira, 31 de março de 2017

Alteridades

O querido Mia Couto já escreveu que “o culto de uma sabedoria livresca pode contrariar o propósito da cultura e do livro que é o da descoberta da alteridade”. Suspeito instintivamente que entendi e concordo: quanto mais se idolatra parnasianamente o papel pelo papel – o livro pelo livro, o estudo pelo estudo, o acúmulo pelo acúmulo, o diploma pelo diploma –, mais se cria um desvio poderoso em relação à utilidade do estudo, do acúmulo e do diploma, que não é embalofar alguém de informações e títulos, e sim enchê-lo de vislumbres (e deslumbres) do outro. Tecnicamente, não se estuda para depois dar o anel a beijar e ser tratado de doutor; estuda-se para se ter acesso a desdobramentos de nós, a simetrias e explicações de nós que jamais teríamos na vida acordar-tomar-café-trabalhar-voltar; e se estuda, mais ainda, para criar contato profundo com o que não somos e nunca seríamos, mas que precisamos reconhecer como existente e perceber como pulsante, antes de respeitar como legítimo ou abraçar como irmão.

E quando digo estudar, não digo se entulhar de análises e teorias com data de avaliação pesando sobre os ombros, mas ler com prazer sem ler apenas por prazer; ler absorvendo, ler mastigando, ruminando, compreendendo, não buscando matança de tempo sumária. Porque leitura é exercício de empatia, é a forma de transmissão de gentes através dos séculos, e não merece nem prostração de joelhos, nem indiferença de sala de espera: demanda amor. Só uma leitura bastantemente amorosa pode nos ensinar que é possível haver Emma Bovary – nós que nunca seremos adúlteros, temerários e suicidas, mas que em Emma o somos, chafurdando assim no lado agudamente humano que (felizmente) nos falta. Só a leitura generosa e entregue nos põe no peito o castíssimo amor de perdição de Simão Botelho, a esquisita ambição vermelha e negra de Julien Sorel, o orgulho de Mr. Darcy e o preconceito de Elizabeth Bennet, a exasperação romântica de Werther, a amargura vingativa de Hamlet, a ingenuidade malucombativa de Alonso Quijano, a angústia desamparada de Gregor Samsa, o eterno rebootar de Jean Valjean. Também rebootamos quando ali nos botamos completos, mergulhados; somos Outros, estamos em Outros, consequentemente não julgamos Outros. Dentro, realmente dentro da leitura, aceitamos Outros tanto quanto nos aceitamos, já que ali e só ali escancaramos a sala mágica do pensamento alheio, essa coisa que parece maldita quando vista da janela e tão, tão familiar quando atravessamos a porta de corpo inteiro.

Livro é a selfie do conteúdo, é a mensagem na garrafa navegando gerações adentro. Reverência à cultura livresca, por si mesma, só tem aquele que joga fora o individual da mensagem e armazena como troféu o vazio da garrafa. 

quinta-feira, 30 de março de 2017

Melindrosos

Uma porção de manias humanas me irrita – a mim como a todos –, mas quer saber uma das que amofinam em grau máximo? A mania de ter melindre. Fingir melindre. Cultivar melindre: whatever. Aquele jeito, sabe? de estar eternamente ofendido, permanentemente agredido, constantemente incompreendido, inevitavelmente injustiçado. Mas corro a esclarecer, antes que me entendam em sentido oposto: não engrosso DE MODO ALGUM o coro de idiotas que consideram autovitimização o que é, na realidade, perfeita e justa autodefesa – a de pessoas que, por exemplo, sofrem e gritam na cara do racismo; a de gente assediada que obviamente se revolta e obviamente decide que qualquer assédio é inaceitável. Com esse povo eu superestou; estou com as vítimas reais e inquestionáveis, as vítimas do machismo, as vítimas do coronelismo, as vítimas de uma história nojenta e maldita, as vítimas de uma escravidão nunca terminada. Quem não me terá ao lado jamé, e me exaspera de modo inenarrável, são exatamente os inquilinos da Casa Grande que volta e meia pedem os sais, em faniquito. Não sou mar evaporento para levar sais, e olha: se tem um caráter que desprezo, é o da diva contrariada.

Alguém que compartilha alguma barbaridade no Face e bate o pezinho se vem outro alguém, sério e argumentativo, que prova o post como barbaridade. Alguém que só aceita comentários a favor e babações rastejantes de ovo, ou, do contrário, tem desfalecimentos de indignação e mágoas de donzela romântica. Alguém que não se suporta pego na mentira e tenta reverter o jogo, acusando seu acusador de qualquer baixeza. Alguém que não sabe lidar com a coerência e a contundência alheias e tenta disfarçar suas limitações sob a capa da brincadeirinha. Alguém que quer ir embora com a bola porque o amiguinho feio-chato-bobo-cara-de-mamão não tem humor para receber de boas as ofensas a que deveria estar acostumado. Alguém que tão mais propaga mensagens cafona e falsamente religiosas quanto mais precisa esconder a raiva sangrenta, militarista. Alguém que sabe apontar mais bruxa que o tribunal do Santo Ofício e queimar as reputações que achar no caminho, pra salvar um fragmento da sua.

Alguém que se considera a Fanta do Saara – o suficiente para tomar como crime de traição nacional um zap não retornado, um comentário aleatório, um aniversário esquecido. Alguém que tem o dom ou o fardo de ser invejado, observado, perseguido, cobiçado, suspirado, molestado, cercado, constrangido por absolutamente TODOS. Alguém que faz beicinho interno cada vez que ousam seguir o dia e a vida sem sua presença. Alguém que estremece de choro patológico cada vez que OUSAM escancarar-lhe a má-fé do discurso. Alguém que usa o patético como arma, o dramático como defesa, o hipócrita como escudo. Alguém que geme novelas mexicanas e baba chantagens emocionais ao receber o baque do não. Alguém que conhece TODOS os ingratos ora viventes na superfície terrestre. Alguém que se encastela na ficção de sua grandeza para encobrir o ressentimento de sua pequenice.

Melindres: mesmo organizando direitinho, não sobra tempo para tê-los. (Por sinal que basta o tê-los para se ser perfeitamente incapaz de sabê-los.)

quarta-feira, 29 de março de 2017

O estado normal

“Aquilo que provamos quando estamos apaixonados talvez seja o nosso estado normal. O amor mostra ao homem como é que ele deveria ser sempre.” Não fui eu que disse, foi Anton Tchekhov, e sei que nele acreditarão todos. Eu, particularmente, acredito. Muitão se fala sobre qual seria o jeito melhor de conhecer uma criatura em sua verdade, em sua situação-padrão: alegam uns que o poder é que seria o cajado capaz de dividir o Mar Vermelho; outros juram que o sofrimento, sim, consegue separar exatinhamente os homens dos meninos. Mas eu prefiro estar no clubinho do tio Anton e crer que o amor, porque nosso auge, é nossa mais precisa definição. Nossa pedra filosofal.

Reflitamos. O amor já começa a nos distinguir pela base, uma vez que alguns tantos nunca nem estarão habilitados a senti-lo: nunca amarão parentes, amigos, parceiros, mascotes, ideais, profissões. Podem no máximo obcecar-se, fanatizar-se, viver um péssimo arremedo de amor – que, como todas as falsificações, traz somente dor de cabeça aos envolvidos, e daí para pior. Outros, apesar de viver em indigência mental, moral, material, conservam sempre a centelhinha e uma ou duas polegadas de terra fofa, para onde qualquer brecha pode ventar uma semente. Outros, ainda, têm suficiente amparo intelecto-emocional para compreender o amor como ideia e conceito, e no entanto o materializam limitado, morno, carregado de cismas e implicâncias e imadurezas, feito um espécime que gorou. Finalmente há os que entendem do assunto – os que veem a meta e se entregam, se multiplicam na busca, se fragmentam nos mais diferentes métodos de ternura por tudo que existe a ser amado. Os que estão plenamente cientes de que o amor é nossa missão e superpoder, o amor é nosso propósito e uniforme de trabalho, e tudo o mais é identidade secreta que não vai para a lápide porque não nos representa.

Nem é fundamental que se esteja in love romântico para que a profecia se cumpra (se assim não fosse, religiosos celibatários estariam excluídos da mágica humana, quando a coisa se dá muitíssimo ao contrário: normalmente é a humanidade inteira que eles levam ao altar). Pode ser amor de qualquer categoria, com o único requisito de ser legítimo; amor-muamba, amor pirata, que na verdade é uma porcaria de paixão ranhenta com a pilha estourada dentro, não vale. Como é que se sabe que é legítimo? A pessoa vira sua versão ISO 9000, vai-se polindo diamanticamente, tem ânsia de fazer certo e não de estar certa, tem fome de cuidar e não de querer. Aproxima-se do uso para o qual foi fabricada, e pelo ponto máximo de aproximação é que se delineia, assim como o atleta é marcado pelo seu recorde e não pelo que ficou abaixo do vértice; assim como o monte é lembrado pela altura e não pela base. Não somos nosso ensaio comunzinho: somos nossa melhor performance.

O amor é a vida cumprida. O que sobra é a mediocridade da espera.

terça-feira, 28 de março de 2017

Dúvidas existenciais

A Bela e a Fera é a coisa mais linda do universo, e sua obrigatoriedade deveria estar registrada em lei, com lacre imperial. O único senão é que saí com a questão existencialista de sempre, e que nunca na história deste planeta alguém foi capaz de curar: se tudão se passa na França, se todos os personagens são franceses, por que só o charmosíssimo candelabro Lumière tem sotaque francês?

É a bobagem das bobagens, mas detonou aquele montão de questionamentos mais ou menos transcendentais que vão tafulhando nosso poço de vida sem que nos apercebamos do excesso. Tipo: por que os aluninhos adorados acham impróprio acumular pontos no primeiro bimestre, com a matéria pequena e fácil, quando podem ser obrigados a estudar até as tripas no último, com o conteúdo do ano inteiro (e a urgência de acertar 37 questões em 20) pesando no lombo? Por que o nome da Casa & Vídeo sugere que o vídeo não faz parte da casa? Por que o azul é tão intrinsecamente relacionado ao masculino, se a tradição pinta o manto de Nossa Senhora de azul? (Seguindo na linha religiosa:) Por que os que mais cuidado têm em dizer-se cristãos – tão menor cuidado apresentam em ser imitadores de Cristo?

Por que os livros, ainda que gerados com papel diferente em tempo diferente, e conservados por décadas em local diferente, envelhecem quase todos com o mesmo cheiro? Por que, depois de proceder a uma limpa de arrumação em armários e bolsas, sofremos recaídas mil vezes mais desarrumadas? Por que (foi Lobato quem me implantou essa perplexidade, ainda na infância) as pessoas brancas se sentem superiores às negras por uma coisa que NÃO têm – ou têm consideravelmente menos? Que raio de superioridade é essa de uma pele mais áspera, menos pêssega e mais desprotegida do sol?

Se todo mundo estava de boas com o microondas junto, por que pitombas teve de virar micro-ondas separado? Dentro da escuridão mais completa, as cores continuam sendo coloridas ou só passam a “existir” quando há um mínimo fiapo de luz? Quem decidiu que os palavrões são tão ofensivos, se se referem simplesmente ao que é humano e, por vezes, um único foneminha os distingue de outros termos perfeitamente inocentes? Por que bullyingam a Mônica chamando-a de baixinha e gorducha, se ela é do exato tamanho e largura dos meninos chatões? Como é que as palavras “cachorro” e “vaca”, ligadas a animaizitos tão queridamente lindos, vieram a se tornar xingamento? Por que as bicicletas não se popularizaram como tricicletas – três rodinhas para conforto e sustento dos desequilibrados? Por que redublaram A pequena sereia da nossa infância e mudaram (hereges!) letras amadas e conhecidas?

Por que se matam, esfolam, desperdiçam, massacram valores absolutos do mundo em nome de números desenhados em pedaços de papel?

segunda-feira, 27 de março de 2017

O que está deixando de ser

Passou por mim um videozinho em inglês que conta, com ilustrações simpáticas, pontos importantes da biografia de uma determinada mulher. Pontos barra-pesada, especialmente. Segundo o vídeo, a pessoa em questão foi rejeitada pela faculdade aos 17 anos; aos 25, perdeu a mãe para uma doença; aos 26, sofreu um aborto; aos 27, entrou num casamento violento e abusivo, do qual nasceu uma filha. Um ano mais tarde, divorciou-se e foi diagnosticada com depressão hardcore – não admira, já que, aos 29 anos, só conseguia criar sua bebê sozinhamente com o auxílio do governo. Aos 30, enfim, culminou o quadro considerando a possibilidade do suicídio. Mas não sei que forças tirou, e de onde, para colocar toda a genialidade e energia no que sabia fazer de melhor: escrever, e escrever porreta. Aos 31, deu à luz o primeiro livro (o vídeo não diz, mas a gente sabe que a pérola foi antes rejeitada por montes de editoras); aos 35, já tinha lançado quatro, e foi eleita Autora do Ano. Com 42zão, vendeu 11 milhões de cópias de uma nova obra – atenção, respire – APENAS NO DIA DO LANÇAMENTO.

A essa altura a gente, hiperventilada e carecida de um desfibrilador, já adivinhou o que o videozinho revela em seguida: “Essa mulher é J. K. Rowling”. E em letras menores: “Lembra que ela pensou em suicídio aos 30 anos?”. Sim, lembramos; e de tal forma estamos paralisados de horror, ante a chance de uma realidade alternativa em que Harry Potter nunca tivesse existido, que não lemos mais nada das mensagens autoajudantes do vídeo. Harry Potter – HARRY! POTTER! – jamais teria jogado quadribol, voado num hipogrifo, recebido carta-coruja se J. K. houvesse sucumbido às dores e entregado os pontos. E eu jamais usaria como chaveiro o brasão de Hogwarts. Jamais visitaria Hogsmeade. Jamais poria na prateleira uma caneca de cerveja amanteigada.

Não sei se todas as informações do vídeo procedem, mas o alvo certamente foi atingido: já estamos acachapados pela vibe A felicidade não se compra e aflitos com a percepção do quanto a ausência de uma vida pode representar. Claro, a probabilidade de haver por aí muitas outras Jotacás em embrião é infelizmente pequena; não se deve realisticamente supor que todos, tendo força e chance e amor e cuidados, seriam tão fabulosos a ponto de se desdobrar em milhões de leitores, gerar trilhares de empregos, desenvolver vacinas que salvassem outros tantos quinzilhões de vidas, criar tecnologias que se tornassem dramaticamente indispensáveis. Alguns, porém, o fariam: alguns dariam abraços quentinhos em parte considerável da humanidade – instruindo, curando, estimulando –, se as CNTP lhes permitissem levar a cúmulo seu potencial. A maioria nunca seria gênio, nunca seria tão unânime e tentacular. Mas tenho a audácia de afirmar que mesmo cada um desses, se aproveitado com engenho e arte, levaria fácil um rótulo igualzinho: dramaticamente indispensável.

A natureza é por si econômica, não se desperdiça, não faz excessos. Nessa crença fico: quem chega a ter oportunidade de existir, ainda que por enquanto num montinho de células, já é fundamental por algum motivo. Já preenche o mundo de um jeito que só elx pode. O desperdício acontece quando a bagaceira social nos extravia, a burocracia nos achata, o braço do crime puxa mais forte que o da educação, o amor não chega e a droga compensa. Aí damos errado, mas darmos errado não é o natural, darmos errado é o desvio. Aquela criança na rua (mas não da rua) tem em si um germe de metáforas, um olho crônico para a poesia, abafado pelo entorpecimento do crack; poucos suspeitam, mas em doze anos ela conheceria o amor de sua vida, teria três filhos e o caçula viria a ser um dos melhores dramaturgos de sua geração. Aquele rapaz que mofa no presídio por ter participado de um assalto pretendia, na verdade, uma zoeira entre amigos, porque é a primeira vez que um grupo o aceita desde que o pai abortou sua existência e a mãe começou a beber; está agora aprendendo novos truques com novos amigos, em vez de ter entrado para o curso técnico que sonhava – ele que era craquérrimo em Matemática na escola e (ninguém sabe) viraria um engenheiro com participação essencial na ampliação do metrô. Aquela senhorinha que morreu ontem no corredor do hospital era mestra no origami, fazia oficinas com crianças de um outro hospital, porém não resistiu ao não recebimento (por cinco meses) de sua aposentadoria – ela que ainda ensinaria a dobradura dos tsurus a uma garotinha com leucemia, que descobriria uma paixão e comoveria a mídia com sua persistência em criar centenas e centenas de tsurus coloridos, o que levaria milhares de pessoas enternecidas a entrarem no cadastro de doação de medula.

Alguém que lhe apresentaria seu melhor amigo não chegará a apresentar, porque uma depressão não percebida nem acompanhada o roubará aos 23 anos. Alguém que lhe emprestaria o filme decisivo para sua escolha de fazer Cinema não chegará a emprestar, porque a perda de um filho em um tiroteio o afastará progressivamente de qualquer convívio. Alguém que se tornaria seu professor favorito na faculdade não chegará a se tornar, porque o bullying severo na escola o fará largar os estudos na adolescência. Uma ruma de excelentes pesquisadores, pintores, pedreiros, médicos, músicos, líderes comunitários, funcionários da Pixar, Doutores da Alegria, parceiros de chopada, colegas de fandom, comadres, amores – não está sendo, não está vingando, porque não está havendo suficientemente quem enxergue, ajude, ampare, adivinhe, reforce, empodere, oriente, defenda, compreenda esses corpos e essas psiquês que nem sabem gritar socorro, que são frágeis diante do vácuo imenso, que dançam ou são jogados no abismo por causa da incompetência coletiva em lidar com a necessidade humana. O governo não os nota. Os familiares não dão conta. Está todo mundo ocupado com sua abacaxice interna e distraído dos investimentos melhores, os mais insuspeitos.

Onde há gente que não vemos, há pequenas magias e milagres que estão deixando de acontecer.

domingo, 26 de março de 2017

Pão na chapa & família

Todo mundo, eu inclusive, já escreveu sobre as pequenas e maravilhosas satisfações da rotina. Mas há pouco lanchei pão na chapa – essa invenção que, tenho certeza, era consumida no Olimpo entre uma e outra garfada de ambrosia –, e o fato de ser bom, bonito e barato impulsionou o ânimo de listar minifelicidades pela quaquilionésima vez. Vamos aos nominees.

Ouvir uma voz que te leva insensivelmente ao relaxamento (sem necessidade alguma de ser voz de alguém amado, sequer conhecido). Ter um livro-curinga que não te exija fidelidade e possa ser aberto a qualquer hora, em qualquer página, e se faça delicioso de qualquer modo. Deitar para ver série depois do trabalho e do banho tomadinho. Descobrir que o sapato comprado pela internet encaixa como um terno de alfaiate. Respirar sossego finalmente, depois que o vizinho de baixo deixa de fazer escândalo no videogame. Pilhar um tema que flua fácil e líquido. Montar um look pelo qual não se dava nada e que resultou chuchuzinho. Esbarrar num meme que te faça rir dias, de puro riso naïf. Ter um choque elétrico de fofura com o indiozinho bebê que apareceu na reportagem. Achar uma nova pasta para sanduíche que venha embalada miúda, com fartura de tempero. Viver ambientes de trabalho cheinhos de colegas show.

Saber que a série favorita continua sendo renovada. Ganhar uma não contada restituição do imposto (ah, esse prazer que nunca tive). Ficar em semiestado de hipnose por uma estampa fan-tás-ti-ca descoberta na rua. Constatar que umas catucadas na descarga já a fizeram voltar a funcionar com força. Soltar na hora certa uma sacada formidável. Reconhecer terreno num quarto de hotel. Perceber que o quarto do hotel tem varanda. Aproveitar sem correria uns biscoitinhos amanteigados. Vestir a casa com cheiro de cinema ao fazer pipoca de micro-ondas. Passar em frente à padaria justinho no cair da fornada. Flagrar uns pedaços de luar na cozinha. Beber mate, mate, mate, mate, mate. Arranjar um casamento feliz entre a cabeça e o ponto ideal do travesseiro. Embalar presente como se fosse capa de Natal da Cláudia. Gargalhar do grito histérico que o vizinho videogamer disparou, em pleno de-repente.

Mergulhar em sebo como se não houvesse ácaro nem amanhã. Apaixonar-se pelo(a) protagonista. Comprar o amor do casal principal. Acordar na exata horinha em que o computador acabou de atualizar. Chegar à estação na exata horinha em que o metrô se escancarou aos passageiros. Esperar só vinte segundinhos entre você se aconchegar e o metrô apitar a partida. Ir a lugar sem fila – e com banheiros largos e limpos. Aspirar o lençol recém-banhadinho. Ver que a roupa realmente não manchou. Enroscar macarrão sem respingar. Falar sem ninguém interromper. Queimar com o coração ao abraçar. Estar em relacionamento sério com bolsa que dura muuuuuito. Massacrar bochechas. Receber colares. Dar a mala por encerrada. Concluir uma arrumação-tabu. Trocar os saquinhos das lixeiras. Ser obrigada a comer batata frita. Vencer o fiapinho vilão que se alojou no dente. Assistir ao episódio com a legenda batendo direitinho. Entender as falas em inglês quando a legenda não bate. Sair depressa de um sonho esquisito. Sem pesar nem esforço, adormecer.

A lista se encomprida, se encomprida e já invade o tempo do programa que me convoca. Há também dessas doçuras: sem pesar nem esforço, partir.  

sábado, 25 de março de 2017

Versáteis

Eu estava lendo uma matéria divertida sobre absolutas inutilidades de infância, que teoricamente amávamos: as famigeradas minigarrafinhas de Coca-Cola (desconheço se alguém bebeu o conteúdo e viveu para contar), os pompons de elástico que só serviam para crianças possuídas fazerem guerrinha em sala, as molas coloridas cujo único propósito era dançar zuuuum para lá, zuuuum para cá – e descer as escadas engraçadamente –, as flores com look roqueiro ou jazzístico que rebolavam acompanhando o som local. Olhando para trás, fico absolutamente besta com a quantidade de brinquedos isentos de objetivo, que muitas vezes só tínhamos porque os outros tinham (desculpa para fazermos boa parte das besteiras da vida, aliás). Não se podia criar quase nada com esses produtos-bobagem, não havia muito gatilho para histórias, apenas repetições ou contemplações que nos entediavam a jato. A mim, bem pouco fã de mecanizações, o tédio vinha supersônico.

Honestissimamente: me encantava milzilhões de vezes mais ficar a manhã inteira no quintal, criando novelas e famílias com as folhas caídas dos oitis, do que me fazer acompanhar por brinquedos Estrela sem quê nem para quê. Eu me autonarrava enredos com fiapos de linha, com gotas d’água, com bonequinhas de papel por mim desenhadas e recortadas de caderninhos e, claro, com bonecos e afins que configuravam brinquedos “normais”. Mas os normais, para não serem enjeitados, tinham de mostrar serviço: não adiantava ficarem encastelados nas próprias funções, duros e inacessíveis, como bebês de porcelana e bonecos patinadores, engatinhadores, cantadores, bolhinha-de-sabonadores, que brincavam sozinhos. Os toys tinham de ser maleáveis para merecer atenção; e não digo “maleáveis” de macios, mas de versáteis – tematicamente flexíveis o suficiente para que o brincador, e não a brincatura, mandasse na parada. De que me adiantava um ser que só pudesse fazer papel de meu filho chorão, se eu não queria fingir de mãe e só esperava que as próprias bonecas casassem e tivessem filhos? Quanto me acrescentava um brinquedinho que já fosse determinado personagem, se eu só planejava insuflar em seus corpinhos meus próprios personagens? Claro que eu não saberia dimensionar naquela época, mas é certo que eu pretendia ter, com recursos de criança, uma das poucas formas de liberdade sem interferências.

Ainda sou a mesma brincadora de folhas. Já não saio saltitando pelo quintal (é pena), porém sigo me recusando ao que pré-escolheram. Detesto frases e expressões que vêm montadas de fábrica; abomino a previsibilidade dos conjuntos de roupas e bijus – qual a graça de não eleger seu time particular de itens, sua harmonia intransferível? –; nem looks de trabalho e saída escolho antes, para fugir à tirania até de mim mesma. Gosto de brincar de escolher, de passarinhar, de combinar o inicialmente incombinável, de me espantar com meu pedido no restaurante, de escapar das teclas e trilhas repetidas, de ter o pensamento docemente caótico e a agenda suavemente desorganizada. Curto nuances, listas randômicas, possibilidades, alternativas. Curto me assombrar até fazendo, às vezes, exatamente o que tinha imaginado.

Só não me ponham para dançar zuuuum para lá, zuuuum para cá, binária e esperavelmente. Não sou dessas que, para rebolar, aguardam autorização do som local. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

A culpa é dos felizes

Outra de escritor português – desta vez, Miguel Esteves Cardoso: “Ninguém tem pena das pessoas felizes. Os portugueses adoram ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso que funciona na nossa sociedade. [...] E, no entanto, as pessoas felizes também sofrem muito. Sofrem, sobretudo, de ‘culpa’. Se elas estão felizes, rodeadas de pessoas tristes, é lógico que pensem que há ali qualquer coisa que não bate certo. As infelizes acusam sempre os felizes de terem a culpa. É como a polícia que vai à procura de quem roubou as joias e chega à taberna e prende o meliante com ar mais bem disposto”.

Apesar de a disposição dos brasileiros ser mais solar que a de nossos ascendentes melancólicos, a hilária observação de Cardoso casa conosco às maravilhas: levamos no sangue o irritante remorso da felicidade – pelo menos da felicidade entre pessoas urbanas, informadas e instruídas. Achamos liiiiiinda aquela reportagem que mostra um senhorzinho ou uma senhorinha do interior dos interiores, plenamente realizadx com sua terra florida, a netarada reunida no Natal e a rotina bucólica; suspiramos pelo locus amoenus, pensamos em largar tudo pela vida à beira-mar depois da aposentadoria, mas na primeira consulta médica vamos fazer torneio de dores na sala de espera. Na primeira reunião de colegas, ficaremos constrangidxs por não ter grandes sofrimentos a desabafar. Estamos bem resolvidxs no trabalho, o amor segue alegre e cúmplice, a parte espiritual caminha serena e firme, a situação financeira não é das piores, a saúde está dando pro gasto, não há filhos ou pais doentes, não há dívidas, não há hipotecas. Ou seja: não somos interessantes, e evidentemente temos algo de errado.

Gente de classe média, cidade grande, corada e nutrida precisa de uns bons dramas com vinho tinto para ser alguém, ou então é jogada na geena dos medíocres e inexperientes. Precisamos suar mares para conseguir o mestrado, chorar sangues na tese de doutorado, batalhar um Vietnã pela promoção, estacionar num dilema horrível sobre a maternidade, encarar jornada tripla sobre salto agulha, ter uma ou outra distensão após as cinco horas de academia, enfrentar um péssimo síndico no condomínio – ou seja: sofrer. Sofrer explicitamente, indiscutivelmente, em voz alta. Sofrer é o cartão de visitas da decência e consideração. Não sofrer o suficiente é afrontar o esforçaholic que em tudo vê (com horror) fraqueza e comodismo; é debochar dos que empenham fortunas no personal, no coaching, no terapeuta. “Você é que é feliz”, sibilam os eternos angustiados ante os satisfeitos, mas no tom que é mais desprezo e acusação do que inveja propriamente – como quem resmunga: “Ó ser limitado e vil que não tens bocas a alimentar, que não lutas na justiça contra o inquilino que não sai, que jamais quebraste a perna ou te perdeste na mata, que em nenhum momento vês tiroteio ou assalto, que todo ano viajas com esse salário de fome sem ambicionares aumentá-lo, que assumes unicamente os encargos que te dão na empresa, arreda-te de mim! Desvia tua casta da minha!”. O feliz evidentemente é belo porque fez plástica, é hippie porque papaizinho sustenta, comprou carro novo porque arranjou falcatrua, tem um casamento lindo mas vai ver quantas brigas o prédio escuta? O feliz é um suspeito, o feliz é o mordomo, o feliz está indubitavelmente escondendo o jogo. O feliz é uma ofensa.

Terceirizar o desconforto com nossa infelicidade urbana, chique, neurastênica e obrigatória: quão brasileiro, quão humano. Somos filhos da Inquisição, do beija-mão, do coronelismo, do americanismo. Nascemos fartos de todo lirismo que seja libertação. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

A liberdade que é tua

O escritor português Vergílio Ferreira tem um texto lindo de negativas que assim começa: “Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros”.

Me calha demasiadamente, nos calha cada vez mais. Não é que a liberdade nos seja algo puramente individual e não deva levar em conta as crenças e orientações do grupo em que nos inserimos; o que fere é alguém ignorar o fato de que nosso compromisso com o grupo foi, também, livremente assumido na integridade de seu pacote, e por isso cabe a nós mesmos (se maiores de idade, cumpridores da lei e plenos de sanidade mental) nos administrar, e não a um feitor que nos mantenha em vigilância. Se casamos, se trabalhamos, se nos convertemos, o arbítrio de nossa lealdade é exclusivamente interno, diz respeito apenas a nós – no máximo a mais um ou dois diretamente envolvidos. Não há Inquisições, familiares, vizinhanças, direções, generais, presidências, rádio-corredor, rádio-Whats capazes de reger, todos juntos, uma consciência que seja. Nem capazes de diagnosticar se uma escolha de profissão, de país, de vestuário nos convém. Não há pressão exterior que nos saiba e nos molde; só a nós compete o sim, o abraço, o I do. Somos uma portinha que abre unicamente por dentro.

A portinha pode eventualmente, claro, ser chutada para escancarar-se – mas a liberdade em si já vai ter se evadido como um sopro por entre a violência, ou ter escorregado para trás de outra e outra e outra portinha, até ir morar num cofrezito de adamantium inviolável. A liberdade autêntica não cede, não morre, não sucumbe a comentários e fofocas, assédios e propinas, ameaças e barganhas. Por isso mesmo o livre verdadeiro é criatura de tamanho perigo: sabe lindamente os produtos de que não precisa, por mais que o encurralem e atormentem; é inarrastável para vícios, então não há nada que o desfoque nem abstinências que sirvam de chantagem; é flexível sem ser volúvel, é deliberadamente fiel, é inteligente de propósito. O livre conhece as melhores defesas contra ingerências em seus negócios (normalmente passam por papos retíssimos) e contra julgamentos temerários (em geral cruzam pela indiferença). O livre é sensato o bastante para não se constranger por ser livre: raciocina de tal forma que está imune à vergonha com que o manipulam. O livre não anda acorrentado à superfície das coisas. O livre enxerga.

A indefinível liberdade é o humano em estado de inteireza: talvez não faça o que quer (porque o querer é bruta flor carnívora que só pega em nossa terra de dentro), porém quer muito exatamente o que faz. Liberdade chega sempre com uma espécie compulsória de sabedoria.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Bandido bom

Realmente não sei o que dá (se é que dá alguma coisa) na cabeça de quem defende que bandido bom é bandido morto. Considerando o detalhe de que o bandido por coincidência é gente, equivale, consequentemente, a dizer que gente boa é gente morta. E não me venha um rebotalho da SS “argumentar” que quem mata, estupra, rouba não é gente – até porque, se não fosse, não estaria submetido aos sistemas judiciário e penal, e por conseguinte não poderia ser julgado por crimes, que são prerrogativa, adivinha? de gente. Ainda que não se encaixassem na categoria humana, criminosos teriam sua organização protetora, como criaturas móveis e ativas que são. Mas não vai rolar fuga do óbvio, amados: bandidos são muitomente da nossa espécie, e a sociedade vai ter de se conformar em fazer o dever de casa lidando com patologias, distúrbios, destrambelhamentos de vida, psicopatias e disfunções biográficas demasiadamente humanos.

“Ah, você não diria isso se tivesse uma pessoa amada atacada por criminosos.” Em primeiro lugar: a classificação de seres como Homo sapiens independe de casos e percepções individuais; ou são, ou não são. Ninguém será humano até o meio-dia porque nunca me fez nada e, meio-dia e sete, já terá sido rebaixado ao reino monera por ter me causado danos. Em segundo lugar, por mais que seja perfeitamente natural e cabível revoltar-se ao ver alguém próximo ser atingido, quem se revolta e (por um momento) saliva por vingança é nossa parte selvagem, irracional, puro id e puro instinto; quem grita em nós é a besta, que, se completamente solta, não duvido fosse capaz de brutalidades até piores em retribuição. Mas não somos a besta – porque não queremos, devemos nem escolhemos sê-la; somos basicamente nossa porção racional e civilizada, que geme, chora, clama, porém não devolve o mal ao mal por saber que não é inteligente aumentá-lo. Em terceiro: quem “acusa” o outro de ser leniente por não ter tido uma pessoa amada atacada por criminosos, bem – nem sempre teve, por sua vez, uma pessoa amada atacada por criminosos. E é no mínimo feião, além de bárbaro e hipócrita, dar vazão à sua bloodlust travestida de justiça (que seria ao menos compreensível, embora não aceitável, se houvesse dor pessoal no meio) agourando uma dor pessoal aos demais. Desejar a chancela de um suposto bem a partir de um mal alheio me parece, sei lá. Até coisa de bandido.

Então comparo os justiceiros aos próprios criminosos? Sim, e com os primeiros em desvantagem. Afinal um fora da lei, como a expressão mesma indica, saiu da lei e quebrou-a, desreconhece sua obrigação de segui-la. Se fizermos movimento igual – nós que temos estudo, esclarecimento, vida equilibrada, boa família, boas influências –, não somos iguais: somos piores. Se com mais iluminação mental também matamos, descemos a um nível inferior aos desafetos. Não há nisso a menor tolerância com o crime: há a simples constatação de que o crime não vai embora se todos nós o cometermos, mas de que, ao contrário, ele só começa a se desvanecer se houver adultos na sala suficientemente lúcidos para o tratarem. Da última vez que vi, não se curava uma epidemia deixando todos doentes; é fundamental que haja os saudáveis, que haja os sóbrios, os resilientes, os pesquisadores, os médicos, os cuidadores. Os cuidadosos. Os amorosos. Os que permanecem de pé.

E não me venham com “ah, então leva esses marginaizinhos pra casa”. Dizer isso é chilique de criança incapaz de raciocinar que, se alguém sensatamente afirma que um remédio perigoso de fundo de quintal não é a cura para o câncer, isso não significa que esse alguém seja automaticamente responsável por assumir o paciente e descobrir a cura do câncer. Sim, as crianças física e moralmente abandonadas que por aí pivetam, os adolescentes abortados pelo sistema que perseguem finalidades retorcidas, carecem de uma casa no pleno verbete, casa que não seja mera fundação ou recolhimento, casa não de depósito – casa de família e abraço e dever da escola e devidos puxões de orelha, acompanhados do bolo que está no forno. Se não tenho espaço, tempo, formação ou disponibilidade emocional para ser essa casa, não quer dizer que eu seja, ao contrário, a rejeição, a pedrada e o chicote. Há extensões múltiplas de vocação e jeitos múltiplos de cuidar: pregar empatia, educar alunos, sustentar causas, condenar revanchismo, argumentar contra a sanha do vigilantismo. O fazer melhor é o fazer concreto, mas – Platão que me desculpe – ideias são bem concretas: são elas a gasolina que empurra a massa, que a orienta à civilidade ou à selvageria. São elas a receita; alguns de nós (em certo caso) somos melhores ingredientes; outros de nós (em diferente caso) são boas mãos.

É necessária a força de toda uma aldeia para tornar um bandido bom. Para matá-lo, basta a fraqueza de um só preguiçoso que ache mais cômodo nivelar-nos por baixo.

terça-feira, 21 de março de 2017

Preguiça de realidade

Hoje é um daqueles dias: preguiça de realidade. Não quero dizer que esteja ainda mais desiludida ou enraivecida com os mais recentes estupros ao Brasil (estou tão desiludida e enraivecida como sempre), nem que deseje me afastar dos noticiários mais do que de costume (desejo me afastar dos noticiários com a persistência rotineira). É, em todos os sentidos, mais prosaico: a realidade mais pratiquinha, mais imediata que me chama não está sendo convincente; estou embotada, apalermada diante do cesto gordo de roupa suja, das redações que solicitam correção, do bolo de notas fiscais que já anda fazendo rave na zoeira da bolsa, das provas a serem malevolamente feitas, dos projetos de aula a serem averiguados, das toalhas a serem engavetadas. Hoje quero engavetar tudo, mas na metáfora. Quero ignorar – mais que isso; nada posso além de ignorar, já que o olhar está exausto, zumbizado, perde o foco sozinho, escorrega para o nada, parado e inútil. Por quê? Porque há um romance a ser lido, grande, suculento, e não muitas vezes acontece de a paixão por quem habita a história ser tão profunda a ponto de nossa bateria mental ali se dissipar.

Agarrei o Norte e Sul de Elizabeth Gaskell – escritora inglesa dos mil e oitocentos, BFF de Charlotte Brontë – e fui tão ou mais agarrada por ele, especialmente pelo amor febril mas até então desesperançado de John Thornton. É fato: se nos apaixonamos pelo herói, não é que isso simplesmente nos leve a ignorar tudo o mais e sucumbir à história; é sinal, sim, de que a história é bem contada, ou do contrário não haveria sofrimento artificial que nos seduzisse. Temo pelo terço final da narração, uma vez que a autora se desculpa de antemão pelo desfecho meio precipitado (produzido originalmente para urgências de folhetim), porém tenho passado deliciosos dois terços junto ao pensamento cristalino de quem descreve tons emocionais com precisão, deita em palavras puras os cantinhos que nos povoam. Nas frases de Mrs. Gaskell raramente me distraio, dificilmente careço relê-las, porque são limpas logo à primeira vista e me convidam à frente em vez de servir de âncora. A desvantagem é que todo o interesse prático da vida se esvai, a mente consciente entra em motim contra os afazeres que assombram; pouco somos nós e estamos em nós num affair literário assim, doce, explosivo, desagradavelmente capaz de esfumaçar todos os prazos reais.

Sei da bagunça funcional que isso acarreta, mas hoje é Dia dos Namorados simulado, como acontece todos os dias em que um entusiasmo artístico nos dementa. Hoje – no restinho de hoje – recuso chamadas, não brinco no Face, faço careta pras decisões que peçam mais de 11 neurônios, não escolho nem a cor da próxima esponja da cozinha. Hoje quero me espreguiçar nessa languidez de férias, nesse intervalo sonolento mas ardente, porque arde de afetos em outras eras.

Hoje não haja verdades. Só as que se esqueceram de acontecer.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Descriando um clima

Quem é professor se digladia ferozmente dia sim, dia again com os malditos celulares de alunos – batalha desigual e inglória, já que somos os portadores de orações coordenadas, de tabelas periódicas, e eles dão de presente facebookices e o reino da zaplândia. Brigamos, enforcamos, defenestramos, mas em off não esquecemos que são crianças, são adolescentes, e afinal não estão em sala exatamente por gosto. O que REALMENTE não consigo entender é marmanjo velho de guerra PAGAR para se divertir no cinema – pagar para se DIVERTIR no cinema – e continuar futucando o aparelhinho dos infernos durante toda a sessão, checando postagens de vida ou morte, digitando como um possesso, resolvendo tretas de família, jogando a luzinha do capiroto na nossa cara. Por que pitombas um cidadão morre em trinta reais para colher o filme ali fresquinho, gigante, som surround, e “assiste” com a mesma negligência de uma Temperatura Máxima à mesa com a filharada? Por que comparece voluntariamente ao lazer que não o convocou e sabota os motivos da própria presença? Por que corre a uns braços e não se entrega? Por que busca a experiência de imersão e não imerge?

Barulhinhos de mastigação, bala e pipoca podem nos desviar de uma ou outra fala, mas em geral o corpo, em estado cinematográfico, consegue ignorá-los e seguir o lance, porque fazem parte da mística do ambiente e o preenchem como fantasmas da sala. Luzinhas de celular, não. Batem no olho (ainda mais com a atual configuração das cadeiras em cascata) e o disputam, deslocam, irritam. Pior dos piores: trazem a sugestão do mundo de fora para o infinito ficcional de dentro, o que mais ou menos equivale a um alarme de carro ensandecido ou a batidas debochadas na porta quando se está consumando o amor. Ir ao cinema é ir ao motel com a arte; pendurar-se no smartphone é se debruçar na janela e ficar namorando a vista em vez de se dar à companhia escolhida. O fato de alguém se empenhar em fugir da própria fuga me traz mil febres.

Mas não jaz no celular o único ricardão desses atuais amores. Há a mania recente de expulsar a plateia com o acender intempestivo da sala, mesmo quando há cenas pós-créditos (que 87% do auditório não veem, já que entendem a primeira lâmpada acesa como sinal de estouro da boiada). Um amadorismo dos horrores vindo da própria equipe que deveria saber: não se arranca assim alguém de um filme, não se sobe alguém à tona sem digestão, despedida, período de velório. Não demora nada e o sacratíssimo templo do cinema vai danar de dividir a tela entre créditos de um filme e trailers de outros, como já fazem os canais de assinatura com pressa odienta e sensibilidade de jiló. Mal posso descrever o ÓDIO de ver subirem as letrinhas para inglês mutante ver (só um X-pectador para lhes acompanhar a rapidez e o nanotamanho), enquanto a trilha daquilo a que se acabou de assistir, com a música que deveria alinhavar a história na gente, desaparece sob a narração das próximas atrações. Alguns canais chegam ao estapafúrdio: estragam ao mesmo tempo a despedida de uma produção e o início da seguinte, porque, com o furor de quem vai tirar a avó da forca, deixam os programas simultâneos por minutos inteiros. As razões da corrida maluca, não sei. Sei que morro de desgosto e boicoto solenemente os profanadores.

Um passarinho quase me diz que os promotores dessa política nunca amaram, nunca se agarraram na promessa de um restinho de tempo, de um segurar de dedos que se rompe demoroso, de um voltar de cabeça 826 vezes repetido, de um aceninho mil vezes reiterado no lento acostumar com a distância. Relação de duas horas com uma terra, um cenário, uma gente, um enredo aos quais (supostamente) pertencemos exclusivos é um fazer de amor, gera apego, gera grude e demanda tato e doçura para ser desfeita, pelo menos até o próximo encontro. Particularmente, minha maior tendência ao ver o filme anterior assim invadido é desligar a tevê de imediato, para preservar a memória; não curto sequer assistir a dois no mesmo dia, quanto mais ver um entrando no quarto enquanto o outro está saindo, tipo Hilda Furacão. Existe ternura não comercial na arte, paixão, afeto irrelogiável. Existe monogamia nessas digestões d’alma. Não há maratona. Não há medalha, medalha, medalha.

Quem insulta a inteireza da cine-experiência não vale o cheiro de pipoca que respira.

domingo, 19 de março de 2017

Em suspenso

Uma amiga e ex-aluna já facebookeou que gosta dos tempos em suspenso – aqueles períodos de transição como o do metrô, por exemplo –, em que a gente respira e espera. Devo confessar que eu também. Muitos se aborrecem com os minutos “roubados” ao trabalho, se chateiam com a estação que não chega nunca, sacodem a perna compulsiva na fila do banco, enlouquecem no engarrafamento. Euzilda, a não ser que tenha horário apertado me aguardando (cinema ou início de aula, basicamente), permaneço de boas; adoro ser obrigada a “não fazer nada” – coisa que na verdade não existe, como eu ontem comentava, e só significa não fazer nada do trabalho, não fazer nada obrigatório e/ou mentalmente exaustivo. Não catuco celular, nem nisso vejo graça, mas me deem um livro e me esqueçam dentro dele. Fico ali placidamente depositada na nuvem, sem pressa nem questão de pousar em hardware.

Nesse tempo em suspenso no transporte, na sessão de físio, na sala de espera, temos a desculpa perfeita para não estar fazendo por estarmos a caminho de fazer: estamos chegando, acabando, indo. Como é bom nos recolher ao gerúndio e torná-lo nosso muro de Troia, a fortaleza onde não penetra a produtividade insana. Sem internet no celular (celular aliás desligado), sem computador para digitações ou pesquisas de prova, sem o material didático para consulta, sem chance de pagar ou comprar ou adiantar coisas, sem geografia que permita lavar roupa, que resta? A mim, um santuário de libertação profissional e cronológica; aos outros, o deixar-me ali, inacessível na paz. E que um transeunte ou colega de vagão não tente iniciar conversa, porque o tempo em suspenso são férias também de social: afundo os olhos afrontosamente no livro, ou fecho os olhos desencorajadoramente e afundo em mim. Até ser intimada pela aterrissagem, não volto à tona.

Deve parecer que não gosto de nada obrigatório, e não gosto mesmo, tanto quanto o restante da espécie – só não tenho problema em dizê-lo, nem preocupação com a crítica dos cumprimento-de-metaholics, nem tendências para síndrome de Estocolmo. Posso assumir com limpa franqueza que não gosto de obrigações porque cumpro todas, todinhas. So, ganho passe livre para o que sinto não ser da conta de ninguém. Adoro, sim, que falte luz (com a condição de não estar um calor senegalês) e que isso me sequestre de uma tarefa não verdadeiramente urgente; adoro que o filme atrase um pouquinho e eu possa aproveitar o abraço da luz apagada sem qualquer esforço mental; a-do-ro que minha senha custe um bocadito a ser chamada e eu consiga devorar mais um ou dois capítulos; adoro que o trânsito alongue um tantinho a carona e eu ganhe mais uns minutos de trilha sonora com vida passando pela janela. Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sossego porque já corri demais. Quem quiser me alcançar que pare um pouco – não tenho mais fôlego nem índole para a São Silvestre perpétua.

Agora muitinho com licença, que meu programinha já dá mostras de começo na tevê e eu devo me sujeitar à condução coercitiva até a sala. Dentro de instantes, assim que eu for constrangida a ficar livre, voltaremos à nossa perturbação normal.

sábado, 18 de março de 2017

Vagando

Todo mundo pergunta o que a gente faz nas horas vagas, e o impulso é forte de responder: mas como posso fazer alguma coisa, se são vagas? Implicância; sei bem que “hora vaga” é o que se supõe existir fora do tempo oficial de trabalho, o que é exclusivamente instalado no campo do prazer e/ou – porque não remunerado – provavelmente inútil. Se é esse o critério, lamento informar, mas não tenho horas vagas. Não estou em hora vaga enquanto vejo Criminal minds, porque as células cinzentas se sentam todas para aprender meandros da alma e estruturas de roteiro. Não estou em hora vaga quando me deito com um romance do século XIX, por motivos idênticos, ainda que com manifestações opostas. Não estou em hora vaga quando vou ao cinema (é aula do mesmo jeito), passeio no shopping (acha que não fico minhocando enquanto observo placas, gestos, frases, costumes?) ou na praia (idem, ibidem). Não estou em hora vaga quando me recosto no sofá, já que possivelmente rumino projetos e dúvidas; não estou em hora vaga quando corro os dedinhos no Face, que tem sido fonte balofa de informação; não estou em hora vaga quando durmo sequer, visto que o subconsciente continua loading, rodando programas em segundo plano para melhor servi-lo. Desconheço o conceito de “não fazer nada” ou de achar qualquer inutilidade em trechos do dia. Não ganho por hora-sonho, é verdade, mas a hora-sonho está para a efetividade da hora-aula assim como a construção da nuvem está para o toró.

Então ninguém tem tempo vago? Olhem, queridos: só creio que um ser humano esteja absolutamente vazio de ações no coma e na morte – e mesmo assim, quanto ao primeiro, não tenho certeza. Sei que, nestas eras de culto à produtividade e heretização do ócio, ser chamado vagabundo é o cúmulo da ferida na honra (há coisa de duzentos anos, daria duelo de morte), mas os supostos vagabundos se tranquilizem com o segredinho que a gente só divide com os parças: nenhum de nós está desocupado. Pode estar bem ou mal ocupado; desocupado não está. Brincando a criança elabora seus terrores, ouvindo música acessamos nossas feras e administramos afinação e ritmo, debruçando na janela pescamos uma bem-aventurança no cheiro da umidade fresquinha, boiando no mar voltamos ao estado de comunhão primitiva. Sim, há o tempo que desensina em vez de construir – tempo de fofoca, de programa de pegadinha, de anedota com preconceito, de hinos de incitação a tantas violências, de briga, de bullying, de páginas de lenda urbana ou apologia de ódio –, por isso mesmo devemos ser gente que se vigia: ou evoluímos ou involuímos, não fomos feitos para permanecer, para algum lado as horas nos levam e nos escoam. Somos cronicamente incapazes de não aprender ou desaprender a cada braçada do ponteiro.

De mim para mim, abençoo solenemente essas falsas horas vagas, em que o emergencial do trabalho não nos impede de ser o que seríamos nas CNTP. O trabalho nos forma e sustenta, mas é talvez o que mais nos mascara – no íntimo e no recíproco. Dele nos vem um ser de contingência, uma natureza implantada e de adoção, que nos rouba pedaços do percurso lento, elaborado, de nos transformarmos em quem já somos.

Trabalhar pelo cartão de ponto e pela linha de produção nos desgasta. Trabalhar-nos ponto a ponto e nas entrelinhas nos desbasta. Nos refina. Nos aperfeiçoa. Nosso lucro pessoal se amontoa num alguém que construímos devagar.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Fora da asa

Eu há pouco falava de liberdades e voos, e lembrei aqui que Manoel de Barros, o magnífico, soltou: “Poesia é voar fora da asa”. Quem está em condição de poesia já veio condenado de fábrica a se transbordar, e sofrer quase sempre, porque no transbordar vem normalmente o explodir. O poeta (que nem toda vez escreve; às vezes é simplesmente quem tem olhos de ler, é um poliglota passivo da beleza) nasce com o espírito trinta números maior que o corpo, e não à toa enlouquece, entristece, anoitece, nesse abafamento sem fim de um coração que não cabe. Os destinados à poesia são necessariamente claustrofóbicos do mundo, têm uma bronquite estranha de quem puxa o ar da vida e ele não entra suficiente; procuras de poeta são excessivas para a oferta pouca do universo – a asa, por mais que cresça, pede um voo maior. E lá vai o poeta, sufocado e rarefeito, com pulmões que ao mesmo tempo solicitam e não comportam.

O mundo não foi feito para o poeta; o poeta carece de mundos. Outros quintais, de início; outros países, em sequência; outras dimensões, em definitivo – e, como outras dimensões não dão sopa no armazém, o aprisionado da poesia tem de se haver com ficções: livros, filmes, construções próprias e alheias. Não bastam as gentes existentes deste lado de cá da realidade, é urgente derrubar todos os muros, liberar todos os infinitos possíveis, desenclausurar conceitos que (o poeta nunca entenderá) tantos teimam em algemar e atirar no fundo do camburão, quando serviriam tão mais lindamente como sal da terra e luz do mundo. A lógica de quem nasceu para desprezar o (só) material e não achar suficiência no etéreo é pura, é translúcida: tudo que é belo deve ser autorizado a expandir-se, não ser temido, não ser desdenhado. Ao poeta, eternamente estrangulado de vácuos, endoidecem os desperdícios de ar.

Ser dependente de poesia – não somente em versos, mas na mais larga escala – é conhecer exclusivamente a fome: tudo lhe cai bem e nada a sacia. Tudo é irmão do poeta sôfrego e nem o abraço inteiro da humanidade o preenche. Tudo é visível à sua gula e todo o conhecimento do que se move sobre a terra não o abarrota. A falta humana tem poucas vias de cura, a falta do poeta é triplamente perniciosa: seu buraco negro personalizado o mastiga, o exige, o massacra, e desse tormento de autodeglutição sobra apenas uma fênix de desejo. Morre o poeta, o desejo do poeta não morre – supera-o e lhe sobrevive. Seu amor fluido é a respiração que finalmente extrapola os pulmões, o oxigênio que transcende a gaiola da necessidade de oxigênio, o voo grande demais para a asa e que paira sobre a asa. O poeta é o desejo vivo; o desejo é o poeta morto. Ninguém, ao estalar, se mistura melhor à essência da natureza viva do que aquele que só poderia contê-la ou nela ser contido. 

Poesia é ser mais do que se está, saber mais do que se aprendeu, enxergar melhor do que se vê. Voar fora da asa. Voltar como quem foge de casa.

quinta-feira, 16 de março de 2017

À espera


Estou absolutamente devastada de ternura com a história que acabei de ler – outra daquelas. Uma cozinheira chamada Ginger Prouse passava todos os dias pela esquina das ruas Nasa Road e El Camino Real (Kemah, Texas) e via um jovem sem-teto parado no mesmíssimo lugar, por três anos, independentemente dos maus humores do clima. Até que Ginger, consumida por velha dúvida, resolveu enfim abordar o rapaz e perguntar-lhe por que não deixava nunca o posto, por que não buscava abrigo que o guardasse do tempo. Victor Hubbard (este o nome do moço) disse que sua mãe o abandonara, que tinha um transtorno mental, mas casa não tinha; e que não se movia dali porque aguardava o retorno da mãe no último lugar onde a vira. Só nessa resposta eu já teria caído durinha ou ficado paralisada de comoção. Ginger não ficou.

Minha mais recente heroína criou uma página no Face contando a história de Victor, organizou um grupinho de voluntários que doaram roupas ao sem-teto e lavaram as dele – além de lhe emprestarem banheiros, chuveiros e tempo destinado a lhe preparar quitutes –, carregou ela própria o rapaz para dormir em sua casa, levou-o ao médico especializado em saúde mental, arrecadou dinheiro online para que o amigo se restabelecesse (mais de 15 mil dólares já foram angariados), providenciou trabalho para ele como seu ajudante de cozinha. E o toque mais fofíssimo: por causa das publicações no Face, Victor conseguiu entrar em contato com a família e reencontrar a mãe, embora o foco de sua afeição tenha muito justamente se voltado para a amiga Ginger – a quem considera uma bênção que salvou sua vida. Impossível discordar.

Igualmente impossível não acolher Ginger no peito como pessoa nossa, mesmo ao longe, separadas por léguas de sangue, quilômetros de genes. Abençoados os anjos que olham e veem o(s) que todo dia olhamos e não vemos. O mais bonito é que a sra. Prouse escapou a nosso método preguiçoso de só ajudar o que se move, o que busca, o que pede, o que estende a mão; Ginger se fez chegar para quem apenas esperava, porque os que apenas esperam pode ser que o façam por desconhecerem qualquer começo, qualquer alternativa. Não é que Victor se desejasse na imobilidade de não procurar emprego ou casa, simplesmente não tinha estrada, não tinha fio de meada a que se agarrar, tinha de sua somente a memória do que perdera; sua posse não incluía um futuro que não sabia que acharia, o passado era seu único endereço. Mas há também (tem de haver, senão o mundo pode definitivamente abrir falência) asinhas que velam os perdidos, portas que convidam os que não batem, zelos que encontram os que não procuram. Tem de haver: para sapatear na cara do pragmatismo que o amor não é meritocrático, não é funcional nem capitalista nem recebe currículo, não faz prova de admissão nem exige dinheiro de ingresso, não checa antecedentes nem justifica a indiferença mandando vagabundo trabalhar. Amor é o milagre gratuito que nos confunde e desmoraliza, é comunista, barbudo, miçangueiro, desordeiro, súbito, implacavelmente livre e pouco dado a cartões de ponto, irritantemente desinteressado, ilógico, debochado de nossas lógicas, regras e melindres. Amor é delicado com idiossincrasias mas impaciente com burocracias, e se recusa a sentar esperando quando se sabe esperado.

Quem se precisa amado, tão urgentemente que dói em todas as fomes, é justamente quem tem a prerrogativa da espera. Aqueles que não têm cacife para exigir do outro o fim de uma paralisia gêmea da nossa – somos exatamente nós.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Múltipla escolha

Bato um hi-five com Theodor Adorno quando diz que “liberdade não é poder escolher entre preto e branco, mas sim abominar este tipo de propostas de escolha”. Porque é um tipo de proposta elaborado por quem já pré-escolheu, já catou os feijões, já fez a seleção artificial e veio, triunfante, com as cédulas impressas. Não fico minimamente feliz nem com a “democracia” que nos leva a batalhas entre Jason e Freddy – embora entenda que esse péssimo sistema democrático é cinquenta e quatro milhões de vezes melhor do que sistema democrático nenhum –, quanto mais com esses pleitos fictícios que alguém inventa para nos enjaular o dia: Coca ou Pepsi (detesto ambas), blockbuster ou circuito Estação (adoro os dois), sal ou doce, verde ou vermelho, pop ou erudito. Vá entender POR QUE só duas opções acanhadas cabem, de cada vez, na pobre balancinha humana; pavor de descontrole? preguiça? maior chance de pertencimento? menor margem de erro? E aliás: por que mesmo, hein, temos o raio da balancinha madrasta? Com que objetivo sádico se reduz o mundo, inclusive o mundo mais prosaico, a um histérico escolher de time com direito a fiscal de butuca, pra ver se você não pisou na linha?

Não sou partidária da volatilização de tudo, o que seria também arrogância; confio em escolhas sólidas, firmes, infinitas. Mesmo assim, normalmente se assinala um entre vários, não há somente letras A e B: uma entre várias religiões, uma entre várias pessoas, um entre vários times – além da sempre possível alternativa “nenhum(a) das anteriores”. Podemos até nos comprometer pela eternidade com algo ou alguém, mas somos complexos, esmiuçantes, desdobráveis; o formulário não nos chega ( ) casar com Pafúncio ou ( ) casar com Dagoberto. O questionário passa por corredores infindos, desde o “não casar com ninguém” – podendo ou não incluir um “pelo menos agora” – até os parênteses com nomes de todos os parceiros casáveis do planeta, mesmo um lavrador dos confins da Escócia que nunca conhecemos; e desliza, no caminho, por um colorido gigante de variáveis: viajar a estudos e ficar com um estrangeiro, voltar para a terra natal e carregá-lo, morar lá por seis meses e cá nos outros seis, levar para lá a família inteira, deixar todo mundo aqui e fugir com o cidadão para um país J. Pinto Fernandes (que não tinha entrado na história), cansar do indivíduo e abandoná-lo numa esquina de Taiwan, viver 37 anos sozinha no Tibete e não conhecer absolutamente ninguém, jamais se afastar nem do próprio bairro (que dirá do país) e reencontrar um amor de infância numa festa, reencontrar um amor de infância numa festa e apenas passar a noite rindo dos velhos tempos, reencontrar um amor de infância numa festa e descobrir que ele virou lavrador nos confins da Escócia e retornou somente para visitar a mãe – mas, olha só, não vai te deixar escapar de novo. Recém-explodi só de considerar meia dúzia de enredos; a vida em si, que é enelhões de vezes mais abundantemente criativa, implode se confinada a um Fla X Flu que lhe é imposto. A vida assenta sim, e feliz, mas precisa escolher a toca. Precisa escolher de coração até a gaiola onde já a prenderam.

Posso frequentar os Vingadores, o CCBB, o festival de cinema iraniano e a Ilha da Caveira, e ninguém tem nada com isso. Posso perfeitamente ser neorromântica quase sempre e cismar de estar roqueira num fim de semana, e ir trabalhar no dia seguinte vestida sob inspiração steampunk ou nerd ou medieval. Posso ficar oitenta e dois anos dando aula de Português e puramente decidir virar fotógrafa, atriz, artesã numa cidade do interior que não tem nem internet; ou lavradora nos confins da Escócia. No que é possível e coerentemente variável, na mudança que não é automutilação nem desesperança – mas, ao contrário, uma amplitude maior de asa, para dar conta do muito que somos –, variemos. Alternemos estilo, cabelo, moradia, profissão, literatura sem dar satisfação ao espanto do vizinho, à intriga da família, ao motim do pessoal que só nos digere previsíveis e nos teme flutuantes. Agitamos as penas e há espaço de voo? Está tudo solto? está tudo certo.

A alegria é a prova que nos move.

terça-feira, 14 de março de 2017

Um luxo

Tem gente que cresce o olho em cima de casas forradas do mármore mais exclusivo, pé-direito de nove metros, teto catedral, claraboia, lustres de cristal vienense, oitenta e quatro mil tapetes tecidos a ouro, hidromassagem, espelhos do oiapoque ao chuí dando inveja ao salão da Colombo. É luxo, OK, mas um pouco aterrorizante – e meu espírito prático é incapaz de não se perguntar: quem limpa? –, bastante over e balofamente desnecessário. Claro que gosto de coisas bonitas, amo as frescuras delicadas dos mil e oitocentos, porém não viveria no meio dessas mesmas frescuras, que curiosamente não têm frescor. Cristais, mármores, dourados, colunas, tapeçarias enfeitam a ficção que é uma beleza, mas na vida real ou são rutilantes e nos intimidam, ou são impraticáveis e decadentes – e nos melancolizam em dobro. Ou são um Olimpo de que estamos excluídos, ou são uma ruína bêbada. Quer saber? Se fizerem realmente questão de me dar um palácio de níver, cancelem o palácio e me deixem um castelo; medieval, de preferência. Não um construído em honra de minha excentricidade: medieval legítimo. Simples, todo na pedra, limo crescendo, hera cobrindo as torres, florezinhas polvilhando a hera, um ou outro salão esplêndido sim; mas de luxo, mesmo, três coisas essenciais: biblioteca. História. Passagens secretas.

Quero um castelo com seu próprio fantasma de Canterville, com narrativas de almas atormentadas escondidas nas frestas, com masmorras antiquíssimas onde um Conde de Monte Cristo largou pistas de sua contagem de tempo, ou bilhetinhos de dores choradas, como a prisioneira de V de vingança. Quero um castelo em que haja primeiras edições de livros proibidos, antigamente perdidos para sempre; em que haja escadas despertadas a um toque na prateleira, a um torcer de candelabro. Quero um castelo onde ninguém saiba que viveu e morreu uma dama que todos consideravam louca, e era apenas poeta ou saudosa, ou ambos. Um castelo com quartos de que ninguém tem mais a chave, porque num desses quartos – dizem – alguém foi emparedado, alguém deixou tudo como era antes da morte do filho, alguém escreveu e escondeu uma obra-prima, alguém definhou de amor, alguém teve uma visão e se tornou santo, alguém foi trancado enquanto seu sósia tomava seu lugar. Quero um castelo com mais cômodos desconhecidos do que visíveis, e cinco mil dimensões paralelas para explorar antes do almoço.

Não sei de que jeito, mas preciso encomendar um castelo que tenha um mapa só encontrável em determinado baú, em determinado horário de determinada data, e nesse mapa um caminho que serpenteia pelo quarto do rei, o antigo coro do convento, a lareira da biblioteca (ah! a biblioteca!...), a segunda pedra da octogésima fila do pátio dos cavalos, a alcovazinha do príncipe que morreu menino, o símbolo gravado no anel concedido pelo herdeiro mais velho à camponesa que, na verdade, era sua desaparecida irmã. Preciso desse castelo onde ninguém me ache nos intervalos das refeições, porque estarei escarafunchando diários e terei me enamorado de encantos pela pinacoteca íntima – já que atrás de cada quadro haverá, infalível, a estrofe de uma sina de família, de uma lenda que um dia se concluirá no achamento do tesouro. Preciso desse castelo em que o luxo não será o tesouro, mas o achamento mesmo – em todo o seu processo, seu romance, sua fabulosa solidão ou sua aventurice à moda Goonies. Preciso dessas paredes que sangrem, que gritem, que se peçam libertadas, ouvidas, adivinhadas, captadas no mistério que tem urgência de explodir, viver, dessufocar. Preciso do segredo que não está em delação ou gabinete, que não é de joia ou cargo ou propina; preciso do segredo que é de amor, que está na ilha, que mora na torre, que canta no trigal, que abafa na máscara de ferro, que foi sequestrado por piratas, que foi o pesadelo do mago da corte, que voou no tapete, que dormiu por setecentos anos, que só acorda com um beijo.

Quero o luxo dos segredos mui passados. O luxo de um quarto do pânico mofado de fadas, para fugir de um futuro que nos bombardeia com setecentos anos de trabalho forçado e bobos da corte na direção. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Eles não usam smartphone

Eles, no caso, somos nós – os rebeldes. Os que se recusam a precisar apenas porque os outros precisam. Não é teimosia pura e gratuita, não é (só) manifesto político, não é bater pé na diferença; sou prática, e, passarinhamente, tenho motivos sólidos e livres para não usar smartphone: 1) não curto; 2) como as minhas boas décadas de vida atestam, nunca tive a menor necessidade dele para manter a existência e a saúde. Por sinal, é um ao-contrário bem balofo: tenho a maior necessidade da ausência dele para manter a existência e a saúde.

Vejamos. Sou fanática por privacidade e sossego, abomino ser constantemente solicitada e interrompida (por aí se vê que a vida materna ou a faculdade de Medicina seriam as mais crazy e homicidas opções); qualquer barulhinho, chamadinha, apitinho, zunzunzinho eletrônico é meu lex luthor, e mesmo o toque do telefone fixo me dá impulsos defenestradores, psicopáticos. Não lembro quem inventou o e-mail, mas espero que a alma da criatura já esteja no paraíso, por serviços prestados à humanidade. “Ah, mas no WhatsApp você também pode escrever, não precisa falar” – sim, fofurinha; é o que lhe disse ou sugeri, porém, linhas acima: não quero urgências me pesando no ombro. Já sou ansiosa sem equipe, sem torcida. Despreciso completamente de alguém ofegando do outro lado da mensagem, xingando lagartos e javalis enquanto os Vzinhos azuis não aparecem e a resposta não surge. Não adianta ser escrito e ser emergencial, pra ontem, pra dois anos atrás; é a quase idêntica sensação de o telefone de casa tocar durante o banho ou a série favorita, quando você não está, quando você não responde, quando você é só seu. E, sem ser médica nem mãe, não careço justificar a demora. Não careço alimentar o doentio de um mundo onde todos se fazem, para todos, filhos ou pacientes. Ávidos. Sôfregos.

Fique claríssimo: não defendo a indisponibilidade para o outro, defendo o exato oposto – a disponibilidade mais sincera. Mas a disponibilidade no que é fundamental, na tristeza, na ajuda para a festa, na doação de sangue, na orientação de trabalho, na companhia ao médico, na assessoria de currículo, na declaração do imposto, na declaração de amor eterno plus pedido de casamento com a participação de toda a turma; disponibilidade no que conta, no que move, no que acrescenta. Minha alergia e recusa são reservadas à aflição que pode esperar: contar fofoca (já não basta ser fofoca?), falar coisa adiável do serviço (já não basta o horário de serviço?), espalhar meme, perguntar bobagem para quem se encontrará ao vivo dali a 47 minutos, esclarecer qual o nome mesmo daquele ator?, comentar uma besteiragem que não paga a irritação de tirar alguém de suas prioridades, de seus lazeres. Aí é a vez de nós, os rebeldes, protestarmos: não custa ao amiguinho carente e imediatista entender que, se nossa ausência momentânea o incomoda, mil vezes mais uma presença importuna nos pesa. Questão de empatia quanto ao espaço alheio – espaço sonoro, inclusive –, seu tempo, sua vontade. Uma vez adultos, mental e fisicamente saudáveis, não somos mais cruciais uns aos outros (momento a momento) do que nos é crucial o convívio silencioso em nós mesmos.

E não, não vou abrir mão do celular com botõezinhos, mais estáveis de abordar e menos sujeitos ao temperamento da máquina e à promiscuidade gordurosa dos dedos passando na tela. Também não vou empregar dinheiro (labutado) em brinquedo que não quero; que as moedas fiquem para a viagem e o livro que me lavam, não para a chateação que me enlouquece. Já somos taludinhos, vivemos bem até aqui e com pressão mais baixa até agora; se for para escolhermos ansiedades, que seja o olho vivo na política, no golpe, no assalto que nos planejam, nas mentiras que nos engendram. Se for para baixarmos a vista, que seja para fugir às armadilhas plantadas. Se for para nadar em mundo alternativo, que seja em páginas de ficção assumida. Se for para cruzarmos comunicações, que seja entre pessoas e não entre caprichos.

Passou da hora de reassumirmos o cabresto. Quanto mais nos curvamos ao soberano da tela, mais ficamos fáceis de montar.

domingo, 12 de março de 2017

A distância entre nós

Assisti recentemente a um filme – não vou dizer qual para não contaminar a experiência de ninguém – em que um personagem dizia a outro: “Ela não é minha filha, mas eu a amo. Você não a ama, mas ela é sua filha”. Foi inevitável pensar nessa complicação mesma; como é inexato, como é inespecífico esperar que a voz do sangue, romanticamente, grite mais e traga o imediato sentido de pertencimento, apenas porque umas cobrinhas do DNA têm alelos em comum (não sei que biologia é essa de que estou falando, nem tenho paciência para recordar os termos técnicos. Segue o lance). Virou tabu, com os séculos, soltar a mera sugestão de que pais e filhos possam não se amar incondicionalmente, ainda que os genes usem a mesma roupa. Instituiu-se a glorificação do sangue que fala acima de tudo. Pois olhem: não fala acima de tudo. Ou, se fala, há que se levar em consideração o componente instintivo da espécie que deseja lançar raízes, e se protege nos filhos. Mas não foco aqui em autopreservação, foco em amor, e amor é bicho construído – mansamente construído. Não corre na veia, corre na vida. Se a mãe ama o filho recém-parido é porque, na realidade, já vem de nove meses de convivência intensiva, e o pequeno hóspede virou rotina em sua melhor face. Ainda assim o namoro continua após o parto, continuará sempre; o DNA, sozinho, não segura paixão eterna entre as gerações, que prosseguirão se conquistando futuro adentro.

Marido e mulher se divorciam porque não têm mais paciência ou condições de namorar (ou nunca tiveram), mas o rifão diz: filho não, filho é para sempre. Deveria ser, pessoas amadas – como o amor a dois também deveria –, e no papel continua sendo; na prática, no entanto, existe divórcio de filho e existe de monte. As criaturas pretendem que o consanguíneo seja o elo inquebrantável, mas elo inquebrantável, entre humanos, só conheço um, e dá um trabalhão permanente. Amor só nasce e se firma no contato, na presença, nas pequenices que enternecem, nas renúncias que o sorriso disfarça, no não julgamento que brota do respeito absoluto, na empatia que faz musculação diária, no afeto pelas manias miúdas que se passa a reconhecer e incluir nas saudades, nos rituais que selam a família, no incentivo que se oferece generoso, na gratidão pelo silêncio mais eloquente e educativo que o palavrão da bronca, na serenidade semeada pela não ameaça, no conforto e segurança da não violência, na confiança da não omissão. Amor se planta, rega, colhe, recomeça; tão absurdo é querer vê-lo cultivado uma vez e fixo pela eternidade, quanto esperar do mesmo campo a mesma produtividade infinita, sem transformação, sem empenho, sem investimento. A terra se esgota sem insumos. O sangue também.

“É claro que os amo, são meus filhos” – é pouco, é covardia, é mentira, é fuga, não basta. Filho veio para ser amado do mesmo jeito que (no universo ideal) foi convocado: de propósito. Ama-se aquilo que é próximo, e proximidade não é coordenada no GPS, não é o quarto ao lado; é escolha. E é prática. Amor tem que se afagar todo dia para aprender a ser (da) gente. 

sábado, 11 de março de 2017

O critério

Não demora nada e lá vem ele de novo: dilema. Topar ou não topar o emprego, aceitar ou não aceitar o pedido, trocar ou não de vizinhança, encarar chá ou café, frango ou pasta. Algumas gangorras são ridicularias cujo efeito não ultrapassa dez minutos, mas outras se espraiam e geram consequências que emprenham de outras consequencinhas, e assim se tricota uma trama de xadrez mental para especular futuros e juros e implicações e opiniões e subcomentários do tio-avô do chefe – antes de fechar contrato com a resolução definitiva. E quando o contrato está lavrado ainda não se sabe: prestou? Seguiu-se o melhor critério, tomou-se a melhor estrada, optou-se pelo melhormente razoável? Pois tio Gandhi deu dica bafo outro dia mesmo, quando cruzei com uma sua citação particularmente luminosa: “Sempre que tiveres dúvidas, ou quando o teu eu te pesar em excesso, experimenta o seguinte recurso: lembra-te do rosto do homem mais pobre e mais desamparado que alguma vez tenhas visto e pergunta-te se o passo que pretendes dar lhe vai ser de alguma utilidade. Poderá [ele] ganhar alguma coisa com isso? Fará com que recupere o controle da sua vida e do seu destino? Por outras palavras, conduzirá à autonomia espiritual e física dos milhões de pessoas que morrem de fome? Verás, então, como as tuas dúvidas e o teu eu se desvanecem”.

É evidente e ululante que ninguém espera consertar a fome mundial ao decidir comprar camiseta numa loja e não em outra, mas aí é o ponto de considerar, amados, a velha teoria do efeito borboleta: o leve bater d’asas dum insetinho aqui vai ecoando, se ampliando, se engrandecendo até gerar a corrente que causará um tufão na China. Uma das lojas frequentadas pode ter tido denúncias sérias de trabalho escravo, então recebe seu boicote – e do seu irmão – e da sua prima – e do tio-avô do chefe – e de todos os seus contatos, que têm outros contatos, que têm outros contatos. Um movimento que começou formiguinho vira epidêmico, a empresa sente o rabo de arraia da borboleta e o “seu” homem desamparado ganha alforria. Utópico? Tão utópico quanto qualquer gesto histórico de se recusar a saber o seu lugar no ônibus, organizar marcha de uma cidade a outra, teimar em estudar quando todos os colegas são diferentes, ficar parado na frente de um canhão. Utópico até que, ovo-colombomente, alguém foi lá e fez. E alguma coisa ruim da História desemperrou.

Se eu denuncio o crime, pode ser que “meu” homem desamparado se salve do criminoso – inclusive sendo o próprio criminoso. Se decido ensinar esta matéria e não aquela, “meu” homem (que é ainda menino) talvez já não esteja tão desamparado ao chegar a hora de reclamar seus direitos. Se voto no PSOL e não no PSDB, há esperança de que o homem desamparado seja contemplado em suas premências, no lugar do alto empresário. Se não jogo nunca o lixo no chão, tem boa chance de a casa do homem ser poupada da água infecta que não encontra escape nos bueiros. Se faço a faculdade que quero e não o curso que a família e a indolência de pensar escolheram para mim, é bastante provável que eu tenha – porque com asas desfraldadas em toda a envergadura – condições profissionais de ajudar o homem. O homem precisa de mim plena em quaisquer opções; inteira, consciente, racional, informada, coerente, convicta – feliz, de preferência. Não é de sacrifício nosso que o homem seguramente necessita, e sim de compromisso: que meus interesses e os dele se integrem, unifiquem, confundam sem que a ameaça de morte os separe.

Se existíssemos para nós, nos gestaríamos em cápsulas. Nascemos do ventre para lembrar que só existimos a partir da vivência em alguém.