quarta-feira, 22 de março de 2017

Bandido bom

Realmente não sei o que dá (se é que dá alguma coisa) na cabeça de quem defende que bandido bom é bandido morto. Considerando o detalhe de que o bandido por coincidência é gente, equivale, consequentemente, a dizer que gente boa é gente morta. E não me venha um rebotalho da SS “argumentar” que quem mata, estupra, rouba não é gente – até porque, se não fosse, não estaria submetido aos sistemas judiciário e penal, e por conseguinte não poderia ser julgado por crimes, que são prerrogativa, adivinha? de gente. Ainda que não se encaixassem na categoria humana, criminosos teriam sua organização protetora, como criaturas móveis e ativas que são. Mas não vai rolar fuga do óbvio, amados: bandidos são muitomente da nossa espécie, e a sociedade vai ter de se conformar em fazer o dever de casa lidando com patologias, distúrbios, destrambelhamentos de vida, psicopatias e disfunções biográficas demasiadamente humanos.

“Ah, você não diria isso se tivesse uma pessoa amada atacada por criminosos.” Em primeiro lugar: a classificação de seres como Homo sapiens independe de casos e percepções individuais; ou são, ou não são. Ninguém será humano até o meio-dia porque nunca me fez nada e, meio-dia e sete, já terá sido rebaixado ao reino monera por ter me causado danos. Em segundo lugar, por mais que seja perfeitamente natural e cabível revoltar-se ao ver alguém próximo ser atingido, quem se revolta e (por um momento) saliva por vingança é nossa parte selvagem, irracional, puro id e puro instinto; quem grita em nós é a besta, que, se completamente solta, não duvido fosse capaz de brutalidades até piores em retribuição. Mas não somos a besta – porque não queremos, devemos nem escolhemos sê-la; somos basicamente nossa porção racional e civilizada, que geme, chora, clama, porém não devolve o mal ao mal por saber que não é inteligente aumentá-lo. Em terceiro: quem “acusa” o outro de ser leniente por não ter tido uma pessoa amada atacada por criminosos, bem – nem sempre teve, por sua vez, uma pessoa amada atacada por criminosos. E é no mínimo feião, além de bárbaro e hipócrita, dar vazão à sua bloodlust travestida de justiça (que seria ao menos compreensível, embora não aceitável, se houvesse dor pessoal no meio) agourando uma dor pessoal aos demais. Desejar a chancela de um suposto bem a partir de um mal alheio me parece, sei lá. Até coisa de bandido.

Então comparo os justiceiros aos próprios criminosos? Sim, e com os primeiros em desvantagem. Afinal um fora da lei, como a expressão mesma indica, saiu da lei e quebrou-a, desreconhece sua obrigação de segui-la. Se fizermos movimento igual – nós que temos estudo, esclarecimento, vida equilibrada, boa família, boas influências –, não somos iguais: somos piores. Se com mais iluminação mental também matamos, descemos a um nível inferior aos desafetos. Não há nisso a menor tolerância com o crime: há a simples constatação de que o crime não vai embora se todos nós o cometermos, mas de que, ao contrário, ele só começa a se desvanecer se houver adultos na sala suficientemente lúcidos para o tratarem. Da última vez que vi, não se curava uma epidemia deixando todos doentes; é fundamental que haja os saudáveis, que haja os sóbrios, os resilientes, os pesquisadores, os médicos, os cuidadores. Os cuidadosos. Os amorosos. Os que permanecem de pé.

E não me venham com “ah, então leva esses marginaizinhos pra casa”. Dizer isso é chilique de criança incapaz de raciocinar que, se alguém sensatamente afirma que um remédio perigoso de fundo de quintal não é a cura para o câncer, isso não significa que esse alguém seja automaticamente responsável por assumir o paciente e descobrir a cura do câncer. Sim, as crianças física e moralmente abandonadas que por aí pivetam, os adolescentes abortados pelo sistema que perseguem finalidades retorcidas, carecem de uma casa no pleno verbete, casa que não seja mera fundação ou recolhimento, casa não de depósito – casa de família e abraço e dever da escola e devidos puxões de orelha, acompanhados do bolo que está no forno. Se não tenho espaço, tempo, formação ou disponibilidade emocional para ser essa casa, não quer dizer que eu seja, ao contrário, a rejeição, a pedrada e o chicote. Há extensões múltiplas de vocação e jeitos múltiplos de cuidar: pregar empatia, educar alunos, sustentar causas, condenar revanchismo, argumentar contra a sanha do vigilantismo. O fazer melhor é o fazer concreto, mas – Platão que me desculpe – ideias são bem concretas: são elas a gasolina que empurra a massa, que a orienta à civilidade ou à selvageria. São elas a receita; alguns de nós (em certo caso) somos melhores ingredientes; outros de nós (em diferente caso) são boas mãos.

É necessária a força de toda uma aldeia para tornar um bandido bom. Para matá-lo, basta a fraqueza de um só preguiçoso que ache mais cômodo nivelar-nos por baixo.

terça-feira, 21 de março de 2017

Preguiça de realidade

Hoje é um daqueles dias: preguiça de realidade. Não quero dizer que esteja ainda mais desiludida ou enraivecida com os mais recentes estupros ao Brasil (estou tão desiludida e enraivecida como sempre), nem que deseje me afastar dos noticiários mais do que de costume (desejo me afastar dos noticiários com a persistência rotineira). É, em todos os sentidos, mais prosaico: a realidade mais pratiquinha, mais imediata que me chama não está sendo convincente; estou embotada, apalermada diante do cesto gordo de roupa suja, das redações que solicitam correção, do bolo de notas fiscais que já anda fazendo rave na zoeira da bolsa, das provas a serem malevolamente feitas, dos projetos de aula a serem averiguados, das toalhas a serem engavetadas. Hoje quero engavetar tudo, mas na metáfora. Quero ignorar – mais que isso; nada posso além de ignorar, já que o olhar está exausto, zumbizado, perde o foco sozinho, escorrega para o nada, parado e inútil. Por quê? Porque há um romance a ser lido, grande, suculento, e não muitas vezes acontece de a paixão por quem habita a história ser tão profunda a ponto de nossa bateria mental ali se dissipar.

Agarrei o Norte e Sul de Elizabeth Gaskell – escritora inglesa dos mil e oitocentos, BFF de Charlotte Brontë – e fui tão ou mais agarrada por ele, especialmente pelo amor febril mas até então desesperançado de John Thornton. É fato: se nos apaixonamos pelo herói, não é que isso simplesmente nos leve a ignorar tudo o mais e sucumbir à história; é sinal, sim, de que a história é bem contada, ou do contrário não haveria sofrimento artificial que nos seduzisse. Temo pelo terço final da narração, uma vez que a autora se desculpa de antemão pelo desfecho meio precipitado (produzido originalmente para urgências de folhetim), porém tenho passado deliciosos dois terços junto ao pensamento cristalino de quem descreve tons emocionais com precisão, deita em palavras puras os cantinhos que nos povoam. Nas frases de Mrs. Gaskell raramente me distraio, dificilmente careço relê-las, porque são limpas logo à primeira vista e me convidam à frente em vez de servir de âncora. A desvantagem é que todo o interesse prático da vida se esvai, a mente consciente entra em motim contra os afazeres que assombram; pouco somos nós e estamos em nós num affair literário assim, doce, explosivo, desagradavelmente capaz de esfumaçar todos os prazos reais.

Sei da bagunça funcional que isso acarreta, mas hoje é Dia dos Namorados simulado, como acontece todos os dias em que um entusiasmo artístico nos dementa. Hoje – no restinho de hoje – recuso chamadas, não brinco no Face, faço careta pras decisões que peçam mais de 11 neurônios, não escolho nem a cor da próxima esponja da cozinha. Hoje quero me espreguiçar nessa languidez de férias, nesse intervalo sonolento mas ardente, porque arde de afetos em outras eras.

Hoje não haja verdades. Só as que se esqueceram de acontecer.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Descriando um clima

Quem é professor se digladia ferozmente dia sim, dia again com os malditos celulares de alunos – batalha desigual e inglória, já que somos os portadores de orações coordenadas, de tabelas periódicas, e eles dão de presente facebookices e o reino da zaplândia. Brigamos, enforcamos, defenestramos, mas em off não esquecemos que são crianças, são adolescentes, e afinal não estão em sala exatamente por gosto. O que REALMENTE não consigo entender é marmanjo velho de guerra PAGAR para se divertir no cinema – pagar para se DIVERTIR no cinema – e continuar futucando o aparelhinho dos infernos durante toda a sessão, checando postagens de vida ou morte, digitando como um possesso, resolvendo tretas de família, jogando a luzinha do capiroto na nossa cara. Por que pitombas um cidadão morre em trinta reais para colher o filme ali fresquinho, gigante, som surround, e “assiste” com a mesma negligência de uma Temperatura Máxima à mesa com a filharada? Por que comparece voluntariamente ao lazer que não o convocou e sabota os motivos da própria presença? Por que corre a uns braços e não se entrega? Por que busca a experiência de imersão e não imerge?

Barulhinhos de mastigação, bala e pipoca podem nos desviar de uma ou outra fala, mas em geral o corpo, em estado cinematográfico, consegue ignorá-los e seguir o lance, porque fazem parte da mística do ambiente e o preenchem como fantasmas da sala. Luzinhas de celular, não. Batem no olho (ainda mais com a atual configuração das cadeiras em cascata) e o disputam, deslocam, irritam. Pior dos piores: trazem a sugestão do mundo de fora para o infinito ficcional de dentro, o que mais ou menos equivale a um alarme de carro ensandecido ou a batidas debochadas na porta quando se está consumando o amor. Ir ao cinema é ir ao motel com a arte; pendurar-se no smartphone é se debruçar na janela e ficar namorando a vista em vez de se dar à companhia escolhida. O fato de alguém se empenhar em fugir da própria fuga me traz mil febres.

Mas não jaz no celular o único ricardão desses atuais amores. Há a mania recente de expulsar a plateia com o acender intempestivo da sala, mesmo quando há cenas pós-créditos (que 87% do auditório não veem, já que entendem a primeira lâmpada acesa como sinal de estouro da boiada). Um amadorismo dos horrores vindo da própria equipe que deveria saber: não se arranca assim alguém de um filme, não se sobe alguém à tona sem digestão, despedida, período de velório. Não demora nada e o sacratíssimo templo do cinema vai danar de dividir a tela entre créditos de um filme e trailers de outros, como já fazem os canais de assinatura com pressa odienta e sensibilidade de jiló. Mal posso descrever o ÓDIO de ver subirem as letrinhas para inglês mutante ver (só um X-pectador para lhes acompanhar a rapidez e o nanotamanho), enquanto a trilha daquilo a que se acabou de assistir, com a música que deveria alinhavar a história na gente, desaparece sob a narração das próximas atrações. Alguns canais chegam ao estapafúrdio: estragam ao mesmo tempo a despedida de uma produção e o início da seguinte, porque, com o furor de quem vai tirar a avó da forca, deixam os programas simultâneos por minutos inteiros. As razões da corrida maluca, não sei. Sei que morro de desgosto e boicoto solenemente os profanadores.

Um passarinho quase me diz que os promotores dessa política nunca amaram, nunca se agarraram na promessa de um restinho de tempo, de um segurar de dedos que se rompe demoroso, de um voltar de cabeça 826 vezes repetido, de um aceninho mil vezes reiterado no lento acostumar com a distância. Relação de duas horas com uma terra, um cenário, uma gente, um enredo aos quais (supostamente) pertencemos exclusivos é um fazer de amor, gera apego, gera grude e demanda tato e doçura para ser desfeita, pelo menos até o próximo encontro. Particularmente, minha maior tendência ao ver o filme anterior assim invadido é desligar a tevê de imediato, para preservar a memória; não curto sequer assistir a dois no mesmo dia, quanto mais ver um entrando no quarto enquanto o outro está saindo, tipo Hilda Furacão. Existe ternura não comercial na arte, paixão, afeto irrelogiável. Existe monogamia nessas digestões d’alma. Não há maratona. Não há medalha, medalha, medalha.

Quem insulta a inteireza da cine-experiência não vale o cheiro de pipoca que respira.

domingo, 19 de março de 2017

Em suspenso

Uma amiga e ex-aluna já facebookeou que gosta dos tempos em suspenso – aqueles períodos de transição como o do metrô, por exemplo –, em que a gente respira e espera. Devo confessar que eu também. Muitos se aborrecem com os minutos “roubados” ao trabalho, se chateiam com a estação que não chega nunca, sacodem a perna compulsiva na fila do banco, enlouquecem no engarrafamento. Euzilda, a não ser que tenha horário apertado me aguardando (cinema ou início de aula, basicamente), permaneço de boas; adoro ser obrigada a “não fazer nada” – coisa que na verdade não existe, como eu ontem comentava, e só significa não fazer nada do trabalho, não fazer nada obrigatório e/ou mentalmente exaustivo. Não catuco celular, nem nisso vejo graça, mas me deem um livro e me esqueçam dentro dele. Fico ali placidamente depositada na nuvem, sem pressa nem questão de pousar em hardware.

Nesse tempo em suspenso no transporte, na sessão de físio, na sala de espera, temos a desculpa perfeita para não estar fazendo por estarmos a caminho de fazer: estamos chegando, acabando, indo. Como é bom nos recolher ao gerúndio e torná-lo nosso muro de Troia, a fortaleza onde não penetra a produtividade insana. Sem internet no celular (celular aliás desligado), sem computador para digitações ou pesquisas de prova, sem o material didático para consulta, sem chance de pagar ou comprar ou adiantar coisas, sem geografia que permita lavar roupa, que resta? A mim, um santuário de libertação profissional e cronológica; aos outros, o deixar-me ali, inacessível na paz. E que um transeunte ou colega de vagão não tente iniciar conversa, porque o tempo em suspenso são férias também de social: afundo os olhos afrontosamente no livro, ou fecho os olhos desencorajadoramente e afundo em mim. Até ser intimada pela aterrissagem, não volto à tona.

Deve parecer que não gosto de nada obrigatório, e não gosto mesmo, tanto quanto o restante da espécie – só não tenho problema em dizê-lo, nem preocupação com a crítica dos cumprimento-de-metaholics, nem tendências para síndrome de Estocolmo. Posso assumir com limpa franqueza que não gosto de obrigações porque cumpro todas, todinhas. So, ganho passe livre para o que sinto não ser da conta de ninguém. Adoro, sim, que falte luz (com a condição de não estar um calor senegalês) e que isso me sequestre de uma tarefa não verdadeiramente urgente; adoro que o filme atrase um pouquinho e eu possa aproveitar o abraço da luz apagada sem qualquer esforço mental; a-do-ro que minha senha custe um bocadito a ser chamada e eu consiga devorar mais um ou dois capítulos; adoro que o trânsito alongue um tantinho a carona e eu ganhe mais uns minutos de trilha sonora com vida passando pela janela. Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sossego porque já corri demais. Quem quiser me alcançar que pare um pouco – não tenho mais fôlego nem índole para a São Silvestre perpétua.

Agora muitinho com licença, que meu programinha já dá mostras de começo na tevê e eu devo me sujeitar à condução coercitiva até a sala. Dentro de instantes, assim que eu for constrangida a ficar livre, voltaremos à nossa perturbação normal.

sábado, 18 de março de 2017

Vagando

Todo mundo pergunta o que a gente faz nas horas vagas, e o impulso é forte de responder: mas como posso fazer alguma coisa, se são vagas? Implicância; sei bem que “hora vaga” é o que se supõe existir fora do tempo oficial de trabalho, o que é exclusivamente instalado no campo do prazer e/ou – porque não remunerado – provavelmente inútil. Se é esse o critério, lamento informar, mas não tenho horas vagas. Não estou em hora vaga enquanto vejo Criminal minds, porque as células cinzentas se sentam todas para aprender meandros da alma e estruturas de roteiro. Não estou em hora vaga quando me deito com um romance do século XIX, por motivos idênticos, ainda que com manifestações opostas. Não estou em hora vaga quando vou ao cinema (é aula do mesmo jeito), passeio no shopping (acha que não fico minhocando enquanto observo placas, gestos, frases, costumes?) ou na praia (idem, ibidem). Não estou em hora vaga quando me recosto no sofá, já que possivelmente rumino projetos e dúvidas; não estou em hora vaga quando corro os dedinhos no Face, que tem sido fonte balofa de informação; não estou em hora vaga quando durmo sequer, visto que o subconsciente continua loading, rodando programas em segundo plano para melhor servi-lo. Desconheço o conceito de “não fazer nada” ou de achar qualquer inutilidade em trechos do dia. Não ganho por hora-sonho, é verdade, mas a hora-sonho está para a efetividade da hora-aula assim como a construção da nuvem está para o toró.

Então ninguém tem tempo vago? Olhem, queridos: só creio que um ser humano esteja absolutamente vazio de ações no coma e na morte – e mesmo assim, quanto ao primeiro, não tenho certeza. Sei que, nestas eras de culto à produtividade e heretização do ócio, ser chamado vagabundo é o cúmulo da ferida na honra (há coisa de duzentos anos, daria duelo de morte), mas os supostos vagabundos se tranquilizem com o segredinho que a gente só divide com os parças: nenhum de nós está desocupado. Pode estar bem ou mal ocupado; desocupado não está. Brincando a criança elabora seus terrores, ouvindo música acessamos nossas feras e administramos afinação e ritmo, debruçando na janela pescamos uma bem-aventurança no cheiro da umidade fresquinha, boiando no mar voltamos ao estado de comunhão primitiva. Sim, há o tempo que desensina em vez de construir – tempo de fofoca, de programa de pegadinha, de anedota com preconceito, de hinos de incitação a tantas violências, de briga, de bullying, de páginas de lenda urbana ou apologia de ódio –, por isso mesmo devemos ser gente que se vigia: ou evoluímos ou involuímos, não fomos feitos para permanecer, para algum lado as horas nos levam e nos escoam. Somos cronicamente incapazes de não aprender ou desaprender a cada braçada do ponteiro.

De mim para mim, abençoo solenemente essas falsas horas vagas, em que o emergencial do trabalho não nos impede de ser o que seríamos nas CNTP. O trabalho nos forma e sustenta, mas é talvez o que mais nos mascara – no íntimo e no recíproco. Dele nos vem um ser de contingência, uma natureza implantada e de adoção, que nos rouba pedaços do percurso lento, elaborado, de nos transformarmos em quem já somos.

Trabalhar pelo cartão de ponto e pela linha de produção nos desgasta. Trabalhar-nos ponto a ponto e nas entrelinhas nos desbasta. Nos refina. Nos aperfeiçoa. Nosso lucro pessoal se amontoa num alguém que construímos devagar.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Fora da asa

Eu há pouco falava de liberdades e voos, e lembrei aqui que Manoel de Barros, o magnífico, soltou: “Poesia é voar fora da asa”. Quem está em condição de poesia já veio condenado de fábrica a se transbordar, e sofrer quase sempre, porque no transbordar vem normalmente o explodir. O poeta (que nem toda vez escreve; às vezes é simplesmente quem tem olhos de ler, é um poliglota passivo da beleza) nasce com o espírito trinta números maior que o corpo, e não à toa enlouquece, entristece, anoitece, nesse abafamento sem fim de um coração que não cabe. Os destinados à poesia são necessariamente claustrofóbicos do mundo, têm uma bronquite estranha de quem puxa o ar da vida e ele não entra suficiente; procuras de poeta são excessivas para a oferta pouca do universo – a asa, por mais que cresça, pede um voo maior. E lá vai o poeta, sufocado e rarefeito, com pulmões que ao mesmo tempo solicitam e não comportam.

O mundo não foi feito para o poeta; o poeta carece de mundos. Outros quintais, de início; outros países, em sequência; outras dimensões, em definitivo – e, como outras dimensões não dão sopa no armazém, o aprisionado da poesia tem de se haver com ficções: livros, filmes, construções próprias e alheias. Não bastam as gentes existentes deste lado de cá da realidade, é urgente derrubar todos os muros, liberar todos os infinitos possíveis, desenclausurar conceitos que (o poeta nunca entenderá) tantos teimam em algemar e atirar no fundo do camburão, quando serviriam tão mais lindamente como sal da terra e luz do mundo. A lógica de quem nasceu para desprezar o (só) material e não achar suficiência no etéreo é pura, é translúcida: tudo que é belo deve ser autorizado a expandir-se, não ser temido, não ser desdenhado. Ao poeta, eternamente estrangulado de vácuos, endoidecem os desperdícios de ar.

Ser dependente de poesia – não somente em versos, mas na mais larga escala – é conhecer exclusivamente a fome: tudo lhe cai bem e nada a sacia. Tudo é irmão do poeta sôfrego e nem o abraço inteiro da humanidade o preenche. Tudo é visível à sua gula e todo o conhecimento do que se move sobre a terra não o abarrota. A falta humana tem poucas vias de cura, a falta do poeta é triplamente perniciosa: seu buraco negro personalizado o mastiga, o exige, o massacra, e desse tormento de autodeglutição sobra apenas uma fênix de desejo. Morre o poeta, o desejo do poeta não morre – supera-o e lhe sobrevive. Seu amor fluido é a respiração que finalmente extrapola os pulmões, o oxigênio que transcende a gaiola da necessidade de oxigênio, o voo grande demais para a asa e que paira sobre a asa. O poeta é o desejo vivo; o desejo é o poeta morto. Ninguém, ao estalar, se mistura melhor à essência da natureza viva do que aquele que só poderia contê-la ou nela ser contido. 

Poesia é ser mais do que se está, saber mais do que se aprendeu, enxergar melhor do que se vê. Voar fora da asa. Voltar como quem foge de casa.

quinta-feira, 16 de março de 2017

À espera


Estou absolutamente devastada de ternura com a história que acabei de ler – outra daquelas. Uma cozinheira chamada Ginger Prouse passava todos os dias pela esquina das ruas Nasa Road e El Camino Real (Kemah, Texas) e via um jovem sem-teto parado no mesmíssimo lugar, por três anos, independentemente dos maus humores do clima. Até que Ginger, consumida por velha dúvida, resolveu enfim abordar o rapaz e perguntar-lhe por que não deixava nunca o posto, por que não buscava abrigo que o guardasse do tempo. Victor Hubbard (este o nome do moço) disse que sua mãe o abandonara, que tinha um transtorno mental, mas casa não tinha; e que não se movia dali porque aguardava o retorno da mãe no último lugar onde a vira. Só nessa resposta eu já teria caído durinha ou ficado paralisada de comoção. Ginger não ficou.

Minha mais recente heroína criou uma página no Face contando a história de Victor, organizou um grupinho de voluntários que doaram roupas ao sem-teto e lavaram as dele – além de lhe emprestarem banheiros, chuveiros e tempo destinado a lhe preparar quitutes –, carregou ela própria o rapaz para dormir em sua casa, levou-o ao médico especializado em saúde mental, arrecadou dinheiro online para que o amigo se restabelecesse (mais de 15 mil dólares já foram angariados), providenciou trabalho para ele como seu ajudante de cozinha. E o toque mais fofíssimo: por causa das publicações no Face, Victor conseguiu entrar em contato com a família e reencontrar a mãe, embora o foco de sua afeição tenha muito justamente se voltado para a amiga Ginger – a quem considera uma bênção que salvou sua vida. Impossível discordar.

Igualmente impossível não acolher Ginger no peito como pessoa nossa, mesmo ao longe, separadas por léguas de sangue, quilômetros de genes. Abençoados os anjos que olham e veem o(s) que todo dia olhamos e não vemos. O mais bonito é que a sra. Prouse escapou a nosso método preguiçoso de só ajudar o que se move, o que busca, o que pede, o que estende a mão; Ginger se fez chegar para quem apenas esperava, porque os que apenas esperam pode ser que o façam por desconhecerem qualquer começo, qualquer alternativa. Não é que Victor se desejasse na imobilidade de não procurar emprego ou casa, simplesmente não tinha estrada, não tinha fio de meada a que se agarrar, tinha de sua somente a memória do que perdera; sua posse não incluía um futuro que não sabia que acharia, o passado era seu único endereço. Mas há também (tem de haver, senão o mundo pode definitivamente abrir falência) asinhas que velam os perdidos, portas que convidam os que não batem, zelos que encontram os que não procuram. Tem de haver: para sapatear na cara do pragmatismo que o amor não é meritocrático, não é funcional nem capitalista nem recebe currículo, não faz prova de admissão nem exige dinheiro de ingresso, não checa antecedentes nem justifica a indiferença mandando vagabundo trabalhar. Amor é o milagre gratuito que nos confunde e desmoraliza, é comunista, barbudo, miçangueiro, desordeiro, súbito, implacavelmente livre e pouco dado a cartões de ponto, irritantemente desinteressado, ilógico, debochado de nossas lógicas, regras e melindres. Amor é delicado com idiossincrasias mas impaciente com burocracias, e se recusa a sentar esperando quando se sabe esperado.

Quem se precisa amado, tão urgentemente que dói em todas as fomes, é justamente quem tem a prerrogativa da espera. Aqueles que não têm cacife para exigir do outro o fim de uma paralisia gêmea da nossa – somos exatamente nós.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Múltipla escolha

Bato um hi-five com Theodor Adorno quando diz que “liberdade não é poder escolher entre preto e branco, mas sim abominar este tipo de propostas de escolha”. Porque é um tipo de proposta elaborado por quem já pré-escolheu, já catou os feijões, já fez a seleção artificial e veio, triunfante, com as cédulas impressas. Não fico minimamente feliz nem com a “democracia” que nos leva a batalhas entre Jason e Freddy – embora entenda que esse péssimo sistema democrático é cinquenta e quatro milhões de vezes melhor do que sistema democrático nenhum –, quanto mais com esses pleitos fictícios que alguém inventa para nos enjaular o dia: Coca ou Pepsi (detesto ambas), blockbuster ou circuito Estação (adoro os dois), sal ou doce, verde ou vermelho, pop ou erudito. Vá entender POR QUE só duas opções acanhadas cabem, de cada vez, na pobre balancinha humana; pavor de descontrole? preguiça? maior chance de pertencimento? menor margem de erro? E aliás: por que mesmo, hein, temos o raio da balancinha madrasta? Com que objetivo sádico se reduz o mundo, inclusive o mundo mais prosaico, a um histérico escolher de time com direito a fiscal de butuca, pra ver se você não pisou na linha?

Não sou partidária da volatilização de tudo, o que seria também arrogância; confio em escolhas sólidas, firmes, infinitas. Mesmo assim, normalmente se assinala um entre vários, não há somente letras A e B: uma entre várias religiões, uma entre várias pessoas, um entre vários times – além da sempre possível alternativa “nenhum(a) das anteriores”. Podemos até nos comprometer pela eternidade com algo ou alguém, mas somos complexos, esmiuçantes, desdobráveis; o formulário não nos chega ( ) casar com Pafúncio ou ( ) casar com Dagoberto. O questionário passa por corredores infindos, desde o “não casar com ninguém” – podendo ou não incluir um “pelo menos agora” – até os parênteses com nomes de todos os parceiros casáveis do planeta, mesmo um lavrador dos confins da Escócia que nunca conhecemos; e desliza, no caminho, por um colorido gigante de variáveis: viajar a estudos e ficar com um estrangeiro, voltar para a terra natal e carregá-lo, morar lá por seis meses e cá nos outros seis, levar para lá a família inteira, deixar todo mundo aqui e fugir com o cidadão para um país J. Pinto Fernandes (que não tinha entrado na história), cansar do indivíduo e abandoná-lo numa esquina de Taiwan, viver 37 anos sozinha no Tibete e não conhecer absolutamente ninguém, jamais se afastar nem do próprio bairro (que dirá do país) e reencontrar um amor de infância numa festa, reencontrar um amor de infância numa festa e apenas passar a noite rindo dos velhos tempos, reencontrar um amor de infância numa festa e descobrir que ele virou lavrador nos confins da Escócia e retornou somente para visitar a mãe – mas, olha só, não vai te deixar escapar de novo. Recém-explodi só de considerar meia dúzia de enredos; a vida em si, que é enelhões de vezes mais abundantemente criativa, implode se confinada a um Fla X Flu que lhe é imposto. A vida assenta sim, e feliz, mas precisa escolher a toca. Precisa escolher de coração até a gaiola onde já a prenderam.

Posso frequentar os Vingadores, o CCBB, o festival de cinema iraniano e a Ilha da Caveira, e ninguém tem nada com isso. Posso perfeitamente ser neorromântica quase sempre e cismar de estar roqueira num fim de semana, e ir trabalhar no dia seguinte vestida sob inspiração steampunk ou nerd ou medieval. Posso ficar oitenta e dois anos dando aula de Português e puramente decidir virar fotógrafa, atriz, artesã numa cidade do interior que não tem nem internet; ou lavradora nos confins da Escócia. No que é possível e coerentemente variável, na mudança que não é automutilação nem desesperança – mas, ao contrário, uma amplitude maior de asa, para dar conta do muito que somos –, variemos. Alternemos estilo, cabelo, moradia, profissão, literatura sem dar satisfação ao espanto do vizinho, à intriga da família, ao motim do pessoal que só nos digere previsíveis e nos teme flutuantes. Agitamos as penas e há espaço de voo? Está tudo solto? está tudo certo.

A alegria é a prova que nos move.

terça-feira, 14 de março de 2017

Um luxo

Tem gente que cresce o olho em cima de casas forradas do mármore mais exclusivo, pé-direito de nove metros, teto catedral, claraboia, lustres de cristal vienense, oitenta e quatro mil tapetes tecidos a ouro, hidromassagem, espelhos do oiapoque ao chuí dando inveja ao salão da Colombo. É luxo, OK, mas um pouco aterrorizante – e meu espírito prático é incapaz de não se perguntar: quem limpa? –, bastante over e balofamente desnecessário. Claro que gosto de coisas bonitas, amo as frescuras delicadas dos mil e oitocentos, porém não viveria no meio dessas mesmas frescuras, que curiosamente não têm frescor. Cristais, mármores, dourados, colunas, tapeçarias enfeitam a ficção que é uma beleza, mas na vida real ou são rutilantes e nos intimidam, ou são impraticáveis e decadentes – e nos melancolizam em dobro. Ou são um Olimpo de que estamos excluídos, ou são uma ruína bêbada. Quer saber? Se fizerem realmente questão de me dar um palácio de níver, cancelem o palácio e me deixem um castelo; medieval, de preferência. Não um construído em honra de minha excentricidade: medieval legítimo. Simples, todo na pedra, limo crescendo, hera cobrindo as torres, florezinhas polvilhando a hera, um ou outro salão esplêndido sim; mas de luxo, mesmo, três coisas essenciais: biblioteca. História. Passagens secretas.

Quero um castelo com seu próprio fantasma de Canterville, com narrativas de almas atormentadas escondidas nas frestas, com masmorras antiquíssimas onde um Conde de Monte Cristo largou pistas de sua contagem de tempo, ou bilhetinhos de dores choradas, como a prisioneira de V de vingança. Quero um castelo em que haja primeiras edições de livros proibidos, antigamente perdidos para sempre; em que haja escadas despertadas a um toque na prateleira, a um torcer de candelabro. Quero um castelo onde ninguém saiba que viveu e morreu uma dama que todos consideravam louca, e era apenas poeta ou saudosa, ou ambos. Um castelo com quartos de que ninguém tem mais a chave, porque num desses quartos – dizem – alguém foi emparedado, alguém deixou tudo como era antes da morte do filho, alguém escreveu e escondeu uma obra-prima, alguém definhou de amor, alguém teve uma visão e se tornou santo, alguém foi trancado enquanto seu sósia tomava seu lugar. Quero um castelo com mais cômodos desconhecidos do que visíveis, e cinco mil dimensões paralelas para explorar antes do almoço.

Não sei de que jeito, mas preciso encomendar um castelo que tenha um mapa só encontrável em determinado baú, em determinado horário de determinada data, e nesse mapa um caminho que serpenteia pelo quarto do rei, o antigo coro do convento, a lareira da biblioteca (ah! a biblioteca!...), a segunda pedra da octogésima fila do pátio dos cavalos, a alcovazinha do príncipe que morreu menino, o símbolo gravado no anel concedido pelo herdeiro mais velho à camponesa que, na verdade, era sua desaparecida irmã. Preciso desse castelo onde ninguém me ache nos intervalos das refeições, porque estarei escarafunchando diários e terei me enamorado de encantos pela pinacoteca íntima – já que atrás de cada quadro haverá, infalível, a estrofe de uma sina de família, de uma lenda que um dia se concluirá no achamento do tesouro. Preciso desse castelo em que o luxo não será o tesouro, mas o achamento mesmo – em todo o seu processo, seu romance, sua fabulosa solidão ou sua aventurice à moda Goonies. Preciso dessas paredes que sangrem, que gritem, que se peçam libertadas, ouvidas, adivinhadas, captadas no mistério que tem urgência de explodir, viver, dessufocar. Preciso do segredo que não está em delação ou gabinete, que não é de joia ou cargo ou propina; preciso do segredo que é de amor, que está na ilha, que mora na torre, que canta no trigal, que abafa na máscara de ferro, que foi sequestrado por piratas, que foi o pesadelo do mago da corte, que voou no tapete, que dormiu por setecentos anos, que só acorda com um beijo.

Quero o luxo dos segredos mui passados. O luxo de um quarto do pânico mofado de fadas, para fugir de um futuro que nos bombardeia com setecentos anos de trabalho forçado e bobos da corte na direção. 

segunda-feira, 13 de março de 2017

Eles não usam smartphone

Eles, no caso, somos nós – os rebeldes. Os que se recusam a precisar apenas porque os outros precisam. Não é teimosia pura e gratuita, não é (só) manifesto político, não é bater pé na diferença; sou prática, e, passarinhamente, tenho motivos sólidos e livres para não usar smartphone: 1) não curto; 2) como as minhas boas décadas de vida atestam, nunca tive a menor necessidade dele para manter a existência e a saúde. Por sinal, é um ao-contrário bem balofo: tenho a maior necessidade da ausência dele para manter a existência e a saúde.

Vejamos. Sou fanática por privacidade e sossego, abomino ser constantemente solicitada e interrompida (por aí se vê que a vida materna ou a faculdade de Medicina seriam as mais crazy e homicidas opções); qualquer barulhinho, chamadinha, apitinho, zunzunzinho eletrônico é meu lex luthor, e mesmo o toque do telefone fixo me dá impulsos defenestradores, psicopáticos. Não lembro quem inventou o e-mail, mas espero que a alma da criatura já esteja no paraíso, por serviços prestados à humanidade. “Ah, mas no WhatsApp você também pode escrever, não precisa falar” – sim, fofurinha; é o que lhe disse ou sugeri, porém, linhas acima: não quero urgências me pesando no ombro. Já sou ansiosa sem equipe, sem torcida. Despreciso completamente de alguém ofegando do outro lado da mensagem, xingando lagartos e javalis enquanto os Vzinhos azuis não aparecem e a resposta não surge. Não adianta ser escrito e ser emergencial, pra ontem, pra dois anos atrás; é a quase idêntica sensação de o telefone de casa tocar durante o banho ou a série favorita, quando você não está, quando você não responde, quando você é só seu. E, sem ser médica nem mãe, não careço justificar a demora. Não careço alimentar o doentio de um mundo onde todos se fazem, para todos, filhos ou pacientes. Ávidos. Sôfregos.

Fique claríssimo: não defendo a indisponibilidade para o outro, defendo o exato oposto – a disponibilidade mais sincera. Mas a disponibilidade no que é fundamental, na tristeza, na ajuda para a festa, na doação de sangue, na orientação de trabalho, na companhia ao médico, na assessoria de currículo, na declaração do imposto, na declaração de amor eterno plus pedido de casamento com a participação de toda a turma; disponibilidade no que conta, no que move, no que acrescenta. Minha alergia e recusa são reservadas à aflição que pode esperar: contar fofoca (já não basta ser fofoca?), falar coisa adiável do serviço (já não basta o horário de serviço?), espalhar meme, perguntar bobagem para quem se encontrará ao vivo dali a 47 minutos, esclarecer qual o nome mesmo daquele ator?, comentar uma besteiragem que não paga a irritação de tirar alguém de suas prioridades, de seus lazeres. Aí é a vez de nós, os rebeldes, protestarmos: não custa ao amiguinho carente e imediatista entender que, se nossa ausência momentânea o incomoda, mil vezes mais uma presença importuna nos pesa. Questão de empatia quanto ao espaço alheio – espaço sonoro, inclusive –, seu tempo, sua vontade. Uma vez adultos, mental e fisicamente saudáveis, não somos mais cruciais uns aos outros (momento a momento) do que nos é crucial o convívio silencioso em nós mesmos.

E não, não vou abrir mão do celular com botõezinhos, mais estáveis de abordar e menos sujeitos ao temperamento da máquina e à promiscuidade gordurosa dos dedos passando na tela. Também não vou empregar dinheiro (labutado) em brinquedo que não quero; que as moedas fiquem para a viagem e o livro que me lavam, não para a chateação que me enlouquece. Já somos taludinhos, vivemos bem até aqui e com pressão mais baixa até agora; se for para escolhermos ansiedades, que seja o olho vivo na política, no golpe, no assalto que nos planejam, nas mentiras que nos engendram. Se for para baixarmos a vista, que seja para fugir às armadilhas plantadas. Se for para nadar em mundo alternativo, que seja em páginas de ficção assumida. Se for para cruzarmos comunicações, que seja entre pessoas e não entre caprichos.

Passou da hora de reassumirmos o cabresto. Quanto mais nos curvamos ao soberano da tela, mais ficamos fáceis de montar.

domingo, 12 de março de 2017

A distância entre nós

Assisti recentemente a um filme – não vou dizer qual para não contaminar a experiência de ninguém – em que um personagem dizia a outro: “Ela não é minha filha, mas eu a amo. Você não a ama, mas ela é sua filha”. Foi inevitável pensar nessa complicação mesma; como é inexato, como é inespecífico esperar que a voz do sangue, romanticamente, grite mais e traga o imediato sentido de pertencimento, apenas porque umas cobrinhas do DNA têm alelos em comum (não sei que biologia é essa de que estou falando, nem tenho paciência para recordar os termos técnicos. Segue o lance). Virou tabu, com os séculos, soltar a mera sugestão de que pais e filhos possam não se amar incondicionalmente, ainda que os genes usem a mesma roupa. Instituiu-se a glorificação do sangue que fala acima de tudo. Pois olhem: não fala acima de tudo. Ou, se fala, há que se levar em consideração o componente instintivo da espécie que deseja lançar raízes, e se protege nos filhos. Mas não foco aqui em autopreservação, foco em amor, e amor é bicho construído – mansamente construído. Não corre na veia, corre na vida. Se a mãe ama o filho recém-parido é porque, na realidade, já vem de nove meses de convivência intensiva, e o pequeno hóspede virou rotina em sua melhor face. Ainda assim o namoro continua após o parto, continuará sempre; o DNA, sozinho, não segura paixão eterna entre as gerações, que prosseguirão se conquistando futuro adentro.

Marido e mulher se divorciam porque não têm mais paciência ou condições de namorar (ou nunca tiveram), mas o rifão diz: filho não, filho é para sempre. Deveria ser, pessoas amadas – como o amor a dois também deveria –, e no papel continua sendo; na prática, no entanto, existe divórcio de filho e existe de monte. As criaturas pretendem que o consanguíneo seja o elo inquebrantável, mas elo inquebrantável, entre humanos, só conheço um, e dá um trabalhão permanente. Amor só nasce e se firma no contato, na presença, nas pequenices que enternecem, nas renúncias que o sorriso disfarça, no não julgamento que brota do respeito absoluto, na empatia que faz musculação diária, no afeto pelas manias miúdas que se passa a reconhecer e incluir nas saudades, nos rituais que selam a família, no incentivo que se oferece generoso, na gratidão pelo silêncio mais eloquente e educativo que o palavrão da bronca, na serenidade semeada pela não ameaça, no conforto e segurança da não violência, na confiança da não omissão. Amor se planta, rega, colhe, recomeça; tão absurdo é querer vê-lo cultivado uma vez e fixo pela eternidade, quanto esperar do mesmo campo a mesma produtividade infinita, sem transformação, sem empenho, sem investimento. A terra se esgota sem insumos. O sangue também.

“É claro que os amo, são meus filhos” – é pouco, é covardia, é mentira, é fuga, não basta. Filho veio para ser amado do mesmo jeito que (no universo ideal) foi convocado: de propósito. Ama-se aquilo que é próximo, e proximidade não é coordenada no GPS, não é o quarto ao lado; é escolha. E é prática. Amor tem que se afagar todo dia para aprender a ser (da) gente. 

sábado, 11 de março de 2017

O critério

Não demora nada e lá vem ele de novo: dilema. Topar ou não topar o emprego, aceitar ou não aceitar o pedido, trocar ou não de vizinhança, encarar chá ou café, frango ou pasta. Algumas gangorras são ridicularias cujo efeito não ultrapassa dez minutos, mas outras se espraiam e geram consequências que emprenham de outras consequencinhas, e assim se tricota uma trama de xadrez mental para especular futuros e juros e implicações e opiniões e subcomentários do tio-avô do chefe – antes de fechar contrato com a resolução definitiva. E quando o contrato está lavrado ainda não se sabe: prestou? Seguiu-se o melhor critério, tomou-se a melhor estrada, optou-se pelo melhormente razoável? Pois tio Gandhi deu dica bafo outro dia mesmo, quando cruzei com uma sua citação particularmente luminosa: “Sempre que tiveres dúvidas, ou quando o teu eu te pesar em excesso, experimenta o seguinte recurso: lembra-te do rosto do homem mais pobre e mais desamparado que alguma vez tenhas visto e pergunta-te se o passo que pretendes dar lhe vai ser de alguma utilidade. Poderá [ele] ganhar alguma coisa com isso? Fará com que recupere o controle da sua vida e do seu destino? Por outras palavras, conduzirá à autonomia espiritual e física dos milhões de pessoas que morrem de fome? Verás, então, como as tuas dúvidas e o teu eu se desvanecem”.

É evidente e ululante que ninguém espera consertar a fome mundial ao decidir comprar camiseta numa loja e não em outra, mas aí é o ponto de considerar, amados, a velha teoria do efeito borboleta: o leve bater d’asas dum insetinho aqui vai ecoando, se ampliando, se engrandecendo até gerar a corrente que causará um tufão na China. Uma das lojas frequentadas pode ter tido denúncias sérias de trabalho escravo, então recebe seu boicote – e do seu irmão – e da sua prima – e do tio-avô do chefe – e de todos os seus contatos, que têm outros contatos, que têm outros contatos. Um movimento que começou formiguinho vira epidêmico, a empresa sente o rabo de arraia da borboleta e o “seu” homem desamparado ganha alforria. Utópico? Tão utópico quanto qualquer gesto histórico de se recusar a saber o seu lugar no ônibus, organizar marcha de uma cidade a outra, teimar em estudar quando todos os colegas são diferentes, ficar parado na frente de um canhão. Utópico até que, ovo-colombomente, alguém foi lá e fez. E alguma coisa ruim da História desemperrou.

Se eu denuncio o crime, pode ser que “meu” homem desamparado se salve do criminoso – inclusive sendo o próprio criminoso. Se decido ensinar esta matéria e não aquela, “meu” homem (que é ainda menino) talvez já não esteja tão desamparado ao chegar a hora de reclamar seus direitos. Se voto no PSOL e não no PSDB, há esperança de que o homem desamparado seja contemplado em suas premências, no lugar do alto empresário. Se não jogo nunca o lixo no chão, tem boa chance de a casa do homem ser poupada da água infecta que não encontra escape nos bueiros. Se faço a faculdade que quero e não o curso que a família e a indolência de pensar escolheram para mim, é bastante provável que eu tenha – porque com asas desfraldadas em toda a envergadura – condições profissionais de ajudar o homem. O homem precisa de mim plena em quaisquer opções; inteira, consciente, racional, informada, coerente, convicta – feliz, de preferência. Não é de sacrifício nosso que o homem seguramente necessita, e sim de compromisso: que meus interesses e os dele se integrem, unifiquem, confundam sem que a ameaça de morte os separe.

Se existíssemos para nós, nos gestaríamos em cápsulas. Nascemos do ventre para lembrar que só existimos a partir da vivência em alguém. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Sede

Uma vez uma amiga perguntou no que eu era voraz, em termos de alimentação; e sinceramente, quanto aos sólidos, eu não soube responder. Daquilo em que poderia ser voraz, se eu fosse composta de id e canalhice – batata frita, por exemplo –, acabo nem passando perto, porque superego e consideração pelo fígado me cabrestam. Mas líquido, sim; líquido está na ordem do dia, e o calor sudanês do Rio, combinado com remédio que o agrava, exige litros e litros de água, mate, suco, achocolatado sem lactose, mais água, mais água, mais água, mate, mate, mate, mate. Uma fúria. Nunca fui tão voraz como agora, a ponto de já sair com mais de uma garrafinha a tiracolo, mas “a verdade é que sempre tive sede” – frase clássica do protagonista sonhadorzão de Big fish, um dos filmes queridos. Sede de coisa doce, saborosa. Não necessariamente das que cabem no copo.

Preciso de amenidades, digamos. Não adiantava Mãe fazer calendário de estudo para ajudar a me organizar nos tempos de eu menina; podia até ir pro quarto com o livro, mas (a não ser em desespero de véspera) passarinhava, passarinhava mentalmente, sonhava tecer uma casinha de folhas, planejava alguma espécie de renda rústica, ruminava situações de escola, escrevia história e poema, lia um milhão de linhas que não estavam no currículo, tramava o casamento de algum brinquedo, ficava simplesmente horas e horas esquecida da obrigação sem no entanto esquecê-la, apenas procurando um caudal de agrados e levezas para atenuá-la. Não deixava de fazer dever, não deixava de tirar nota boa, só não tinha disciplina para entrar na gaiola mental mais que o estritissimamente necessário. Dava a César o que era de César com toda a responsabilidade (no final das contas) e zero prazer: o estudo me era e continua sendo frio, chato, com cheiro e gosto de couro e madeira, como gabinete de trabalho quatrocentão. Minha sede estava além desse insosso e inodoro, com exceção de Português, Inglês, Artes, História – matérias úmidas; minha sede era de belezas e liberdades vagas, nuas de números, conceitos e fórmulas, belezas que nada tinham a ver com internet e traquitanas então inexistentes, e sim com psicologia, produção de coisas legais, planos infalíveis de dar presente (sempre adorei dar presente), narrativa, Sítio do Pica-Pau Amarelo, mitologia, cor, planta, pedrinha transparente do jardim. Que me deixassem, que não me interrompessem: eu sofria, chorava, me angustiava com o horror da prova iminente, mas no fim dava certo e eu só queria estar livre para meu infinito particular, grande demais para se desperdiçar espaço com o que não sacia.

Nisso não mudei. Nada. Mudei as sedes, permaneceu a Sede. O mesmo exterior caxias, o mesmo passarinho por dentro, agreste, rebelde, conciliável só com o mínimo de jaula social. Trabalhar o que é preciso, com honestidade e sangue, mas sem uma única hora-aula além do contrato; cuidar da casa o quanto ela solicita, não mais; não ter carro, não ter filho, não ter bicho, não acrescentar despesa, não plantar âncora onde não mora o coração. Era eu criança, salivava a semana inteira pela pracinha de domingo, o balanço, os cavalitos; adolescente, salivava o ano inteiro pela doçura irrestrita das férias; adulta, salivo a vida inteira pela vida mesma, que linda!, metida em cada canto e fresta, onde puder se encaixar, flexivelmente, sem essa de ter horário certo para happy hour. A sede eterna e cada vez mais larga da montanha-russa, mais forte, mais rápida; sede dos lugares novos, dos sebos, dos cantinhos, dos mercadinhos, das fofurinhas de outros países, do ar feliz que se respira ao sair do hotel pela manhã; sede de paladares novos, pratos que passam a ser opção, maravilhas que a língua não mais rejeita e ainda pede; sede de alternativas, de respostas, de argumentos, de meios de convencer quem está imerso em burrices; sede de silêncio, do fim das conversas ocas, da extinção da histeria; sede de escuta, de olhos que veem e ouvidos que reparam, de bocas que só falam depois que interpretam; sede de desipocritização, higienização coletiva de caráter, reversão de lobotomias, limpeza de comunicações; sede de lucidez, clareza, franqueza límpida, intenção translúcida. Sede do que é transparente. Bom.

E já que esbarramos em transparência de coisa boa: um brinde a e feito com o mais simples e disputado dos drinques; que continue existindo para hidratar e conduzir a inquietude das demais gerações. Cheers!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Ser outro

“Viver é ser outro”, geme o fascinante Livro do desassossego de Bernardo [Fernando Pessoa] Soares. “Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir – é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.”

É uma doideira pessoana, mas como discordar? Se dia por dia não cresci meio milímetro, não me nutri de nenhuma fatiazinha de mundo, não aprendi o nome de nenhuma cor, não fiquei mais exasperada ou esperançosa ou melancólica por causa de nenhuma notícia, não atravessei em outro ponto da rua e finalmente namorei de longe a casa sempre amorfa de perto – que raio fiz eu em certa data, que raio ela fez em mim? Para que serviu comparecer àquelas 24 horas se não me acrescentaram uma página, um argumento, um nome, o inédito de um biscoito ou esquina ou perfume?

É essa, entretanto, a beleza: ainda que de ontem para hoje não tenhamos decidido fugir com um bandoleiro espanhol, nos converter ao hinduísmo ou comprar um apartamento na Etiópia, é impossível não termos mudado. Fomos ao mercado e resolvemos levar queijo branco em vez de manteiga, e ali, no corredor onde teoricamente não estaríamos, nos sensibilizamos com uma bochecha da mais espantosa suculência infantil, e então o relógio biológico bradou com pulmões que nem tinha; ou, ao contrário, nos aterrorizamos com a pirraça de um gremlin que bateu a cabeça no chão até a mãe comprar o iogurte, e nosso trauma foi tão definitivo que demoliu décadas e décadas sonhando com bebês. Se bem que – OK – desejo ou ojeriza de filhos é transformação ainda muito grande, e a ida ao corredor do queijo branco poderia simplesmente ter frutificado no esbarrão com um colega de escola, no acréscimo de um abraço à lembrança, no acesso à lembrança de um brinquedo ou aroma que hoje vemos tão novo. A ida ao corredor do queijo branco poderia ter rendido a mera descoberta da marca que passaria a nos fornecer a melhor comfort food. Poderia ter trazido um nojinho invencível de corredores de queijo, porque lá havia peças embolorando em plena luz do dia. Poderia ter gerado o encontro com a gôndola de revistas no caminho, e a gôndola poderia ter segredado a ultimate receita de suflê para o sábado, alguma pré-revelação de novela, o nome do ator que tentamos lembrar há dois meses, o tema da próxima aula. Por qualquer forma ou rota, com qualquer lucro ou arranhão, não sairia do mercado a mesma pessoa que nele entrou.

Raul cantou como desejo a metamorfice ambulante, mas o que o barbudão apresentou como escolha é, em verdade, nossa exata natureza: a gente vê um filme pela 84ª. vez e se encanta com um detalhe que 83 vezes nos escapulira, a gente volta do salão com outros olhos sobre aquele esmalte, a gente de repente se dá conta de que nunca (ou sempre) gostou de azul, a gente sente a velha simpatia escoar quando vê o vizinho bonachudo descompondo o porteiro. A não ser por motivos de coma afincado (e mesmo assim não podemos jurar que alguma atividade cerebral não nos agite lá por dentro), não atravessamos dia ou hora impunes de mutação. O imutável, sim, teria de ser nossa exceção escolhida; a mudança é compulsória.

A gente fica pelejando em nossa oficina interna para garantir que ela seja para melhor.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Sororidade

A gente digita a palavra e o Word sublinha, procura no Volp e não tem. É pena, porque embora esquisitinha na forma é danada de bonita no conteúdo, e merecia com um milhão de urgências estar na boca e na alma dos seres de língua portuguesa (e de todos os outros). So-ro-ri-da-de. Pra já, pro minuto anterior, pra anteontem.

Em inglês sempre foi comum, e desde meus tempos adolescentes de Brasas eu já sabia muito bem que sorority é o equivalente feminino da fraternity – aquele tipo de comunidade, normalmente universitária, de vida e residência. Quem já assistiu ao divertido Legalmente loira ou ao fofildo Universidade Monstros (ou a qualquer outra produção que inclua um bando de jovens sob a égide de duas ou três letras gregas) saca perfeitamente do que estou falando. Mas isso é nos lás; nos aquis, sororidade não designou alojamentos femininos, até onde sei, e sim essa coisa linda do sentimento de irmandade e empatia entre mulheres. A noção de que, por mais que tenhamos tido rumos e influências diferentes, somos todas guerreiras da mesma terra e vítimas das mesmas idiotices culturais – vítimas com altíssimo grau de resiliência mas fisicamente mais suscetíveis, mais expostas, e por isso necessitadas de um pacto de lealdade protetora. Carecidas de um abraço carinhosamente coletivo de gêmeas e parceiras.

Sororidade é esquecer a conversinha mole com que tentaram nos dividir para conquistar – aquela secular esparrela do “mulheres são competitivas, nunca são realmente amigas umas das outras” – e sustentar que sim, temos as mais imbatíveis fidelidades e as mais amorosas compreensões, talhadas na dor comum e nas alegrias camaradas. Sororidade é combinar senha com as gatas do coração para afugentar o paquera que ensaia cruzar os limites, ou mesmo trazer para junto, com intimidade de infância, a desconhecida que gritou com o olhar “estou na beirinha de uma cilada”. Sororidade é saber que estupro já é estupro independentemente de “consumado”, que pode acontecer também nas casas do Morumbi e sob o peso de uma aliança, que acontece inclusive em bordel ou com garotas de programa, que NINGUÉM jamais o deseja ou provoca a não ser o estuprador, e que TODAS as vítimas desse assassinato moral merecem a mesma incondicionalidade no respeito e no acolhimento. Sororidade é não ter omissão canalha, é se meter sim em briga de marido e mulher, é chamar a polícia e tocar trombone e organizar apitaço ultrainfernal a qualquer menção de violência nos arredores.

Sororidade é cuidar de travesti e transmulher com a exata preocupação e ternura que teríamos por nossa mãe ou filha. Sororidade é nunca, jamais, sob nenhuma hipótese declarar que uma sister faz algo “como se fosse homem” quando se quer elogiá-la (nem quando se quer – afetuosamente – xingá-la, porque sisters também se xingam. Com fofura). Sororidade é não se prender a críticas do look alheio, porque afinal ninguém é obrigado a seguir moda absolutamente nenhuma e, se a mina quer sair de cabelo moicano verde e roupa de plástico transparente, e se sente linda (ou sequer leva em consideração o estar linda), pessoa alguma tem nadíssima com isso, nem tem justificativa para o mais leve desrespeito. Sororidade é não explicar nenhum desassossego de (outra) mulher com TPM, é não desmerecer nenhuma aflição tachando de frescura, é não deixar de acatar a legitimidade de nenhum sentimento – mesmo sem concordar com ele –, é não pré-julgar, é não condenar, é não ignorar toda a carga colônio-machista que pesa sobre nós para não cair em sua rede maldita.

Sororidade é ser mulher tão de propósito que nem se cogita questionar o direito de alguém o ser na mesma medida, ou em sua medida própria, porque cada uma escolha sua posição dentro deste imenso e esplendoroso time. Em sumíssima: não é assim tão diferente da sorority de manas do outro hemisfério – já que, tão igualmente, não deixamos de morar dentro da fortaleza umas das outras. 

terça-feira, 7 de março de 2017

Aprender a morrer

“Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Isso porque, de certa forma, o estudo e a contemplação retiram a nossa alma para fora de nós e ocupam-na longe do corpo, o que é um certo aprendizado e representação da morte; ou então porque toda a sabedoria e discernimento do mundo se resolvem, por fim, no ponto de nos ensinarem a não termos medo de morrer.” O trecho é de um ensaio de Michel de Montaigne e tem potencial para garantir quatro ou cinco insônias. Ainda que com algumas olheiras, assino embaixíssimo do autor direto e do indireto: aprender é, na última das últimas instâncias, aprender a morrer. Nada se aprende de bom que não seja para viver melhor; e o que é viver melhor, a não ser perdoar o passado (porque existiu ou porque partiu) e se concentrar no presente para atingir um futuro devido – futuro sobre o qual há uma única certeza? Aprendemos para viver felizes, nem que “felizes” seja o apelido da serenidade trazida pelo conhecer; e vivemos para morrer felizes, já que toda história se busca coerente com seu final. E vice-versa.

Aprendemos a morrer quando passamos a nos atirar ao amor – não à paixão, bem entendido – com o desinteresse e a irrestrição de quem sabe que não levará melhor roupa de gala para o túmulo. Aprendemos a morrer quando a consciência do limite físico nos invade e automaticamente nos consola com o arquivo da experiência, que vem no mesmo download: quanto menos o corpo nos pesa, quanto mais sua importância esvazia as prateleiras, mais espaço fica para a verdadeira bagagem. Aprendemos a morrer quando os nhenhenhéns e os tititis só merecem uns revirares de olhos e suspiros de tédio, porque afinal o prazo é curto, curtíssimo, e há melhores lembranças a carregar na viagem do que fantasmas de tretas passadas. Aprendemos a morrer quando devoramos leituras e, consequentemente, vidas e gentes – e partículas dessas ciências múltiplas nos enlaçam, confortam, orientam sem que precisemos de todas as tentativas ou de todos os erros.

Aprendemos a morrer quando aceitamos e acertamos a vida: é isso que temos, é isso-isso-isso que queremos, é assim e para lá que vamos. O fim da narrativa organiza os meios, restringe-os e os define. Quem quer que escolhamos ser, seremos sempre nosso personagem do último capítulo – e geralmente demora uma novela inteira até que ele consiga, pleno, voltar para casa.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ninharias

Se tem coisa que me dá irritação do tamanho dos Alpes é ver (e ouvir) gente falando, e falando, e falando, e falando sobre assunto do tamanho de um parafuso. Não há conteúdo real, somente a ruminação incapaz de silêncio – o trabalho mental que não se contenta em resolver as paradas de um jeito rápido e indolor, daí ir jantar e ver tevê. Nããão; o sujeito ou sujeita não quer abandonar o tema, não quer refletir sobre o tema, quer apenas esticaaaar o tema ao máximo, por falta absoluta de perspectiva ou absoluto excesso de ócio. E normalmente são questões de um pretérito já mortinho, além de absurdamente desimportante: olha, eu não disse que este era o metrô certo? Se a gente entrasse naquele que você queria, ia acabar lá na estação Botas de Judas e a Pafúncia já ia ter mandado centenas de mensagens revoltsss. É, mas esqueceu que a última vez que eu peguei metrô foi em 1987? Falei mesmo pra você conferir tudo antes, pra não confiar muito na minha direção, a responsabilidade era sua de qualquer jeito, pô. Sim, mas por que você não se informou também, cara? Fica sempre tudo nas minhas costas, olha a cagada que ia dar se a gente fosse na sua – e nisso os infelizes já estão há 43 minutos no metrô certo e o rame-rame não dá mostras de exaustão, tornando e retornando ao início, fim e meio; quase algo místico, se não fora igualmente um belo motivo de crime passional. Crime de minha parte, claro, que a essa altura terei procedido à esganadura dos interlocutores, seguida de defenestração sumária.

Odeio barulho; odeio barulho contínuo com duplo ódio; odeio barulho-verbal-contínuo-sem-finalidade-prática triplicadamente. Feito flor, vaso, gravura, escultura, a palavra expressa tem a prerrogativa de “não servir pra nada”, de existir por pura cisma de beleza – se beleza há. Se não há, haja ao menos utilidade propriamente dita, ou é ruído puro e vago, mera exasperação da rotina. Palavra que não enfeita, que não encanta, que não comove algum tanto, que sequer preenche lacuna não devia ter greencard de espaço sonoro; não devia desperdiçar nossos intervalos entre casa e trabalho, entre serviço e vida, entre fisioterapia e lazer, quando poderíamos estar em serenidade reflexiva, em plena fabulação de criatividade. Certo, discutir o nada é estratégia de sobrevivência ao encontro com o conhecido, a quem nem se pode dar o silêncio da intimidade, nem o da indiferença. Mas, uma vez cumprido o contato fático de bom-tom, para que persistir na conversa que gira, gira e não chega? E se a relação é de declarada amizade ou amor decidido, para que buscar uma conexão rasa e deixar fugir a profundeza do entendimento mudo? Para que desidratar cordas vocais em nome do que já foi resolvido? Para que ganhar sede mantendo o papo que não sacia?

Não sei se por frieza ou cansaço, ando cada vez mais impaciente com o que é oco ou inócuo. Não sei se pelo tempo rarefeito, vivo cada vez mais farta dos rumores excedentes, dos barulhinhos que cobram e perseguem, dos monólogos que impedem a leitura, da narrativa não solicitada que interrompe o brainstorm, das interjeições gritadas que só acontecem por desrespeito ou histeria. Se há algo realmente a ser dito, diga-se com o mínimo de danos, fale-se como quem não quer maltratar o silêncio. Se é a abobrinha pela abobrinha, parnasianamente; se é a voz apaixonada por si mesma, que remói e remói o leite derramado – melhor calar, não danificar a paz alheia. Move on, meu povo: assuntos palpitantes nos esperam na esquina, bora não decepcionar os pobrezinhos.

E, quando os encontrarmos, bora não assassinar o sossego que por aí habita para pô-los em seu lugar.

domingo, 5 de março de 2017

Estado de enigma

Um dos personagens principais do romance O margal, de Georges Ohnet – esquecido autor francês do século XIX – é um velho nobre arruinado que nada vê, nada sente, nada toca além de sua mania ensandecida de invenções. Não importa o inimigo mortal que virou credor e o quer expropriado e mendigo, não importa a família que o protege que nem criança das dívidas que mastigam a casa; importa, exclusivamente, o forno moderníssimo que ele tenta desenvolver há décadas e que (esperança!) levará seu sobrenome à riqueza. O problema é a inconclusão doentia, eterna, porque “o aperfeiçoamento era o vício do marquês. Uma invenção nenhum interesse tinha para ele senão em estado de enigma. Uma vez decifrado, cessava de agradar-lhe. Seu espírito inquieto punha-se à cata de um outro resultado. E raras vezes ficava no que havia descoberto. Era-lhe sempre necessário o melhor, esse destruidor do bom”.

O melhor, esse destruidor do bom. Quem nunca? Fomos criados para correr do medíocre, fazer inglês, informática, balé, teatro, xadrez, faculdade, mestrado, doutorado, Harvard, Sorbonne, MBA – em busca, sempre em busca. Às vezes o salário nem cresce tanto, ou cresce 10% enquanto o serviço triplica, mas quem somos nós para recusar uma promoção? a chance do milênio? a empresa de todas as invejas? Quem somos nós para aceitar permanecer, credo!, mais de um ano no mesmo cargo? Uma pista: somos gente que tem sonho erótico com feriado, que capota em vez de brincar de treinamento jedi com os filhos, que no fundo só queria uma bicicleta e uma plantação de tangerina. É pedir muito? Pior, é pedir pouco, pouquíssimo, e nenhuma casinha com varanda pode nos interessar, a nós que temos a obrigação lavrada em cartório de querer só o mais e o muito que continuam em estado de futuro, em estado de enigma. Vivemos o inferno compulsório de desbravar ou fracassar.

Call me crazy, mas fracassar não parece tão ruim quando se tem horário flexível, não se precisa dormir com 30% do olho porque a Bolsa pode ter um infarto fulminante, há tempo para livros e séries, cinema em dia de semana e terra molhada. OK, mediocridade deixou de ser in lá nos mil e setecentos, e nem eu aconselho a ninguém que estacione na frustração e no sofá. Aconselho, sim, que se escolha com pupilas sensatas o seu enigma perpétuo – de preferência um que não envolva cifrões nem condices de Monte Cristo, nem diplomas sem tesão, nem ambições de Nobel. De preferência um que a morte não leve, e que, ficando, aumente perenemente e não bote os herdeiros em luta. De preferência um mais abstrato e que empunhe sabre azul. Ou verde.

Se for para ser fanático por enigma, que seja o modo de fazer a informação chegar às sinapses de mais pessoas, que seja a forma de interrogar o Google sobre o presente perfeito, que seja o projeto de extinguir a fome pelo menos da multidão mais próxima. Que se fique insaciável por estratégias de colocar mais gente feliz, por viagens a lugares subestimados, por jeitos simples de melhorar o bairro, por maneiras de deixar a água amplamente acessível, por truques caseiros e baratos para tirar mancha, por lares definitivos para bichinhos órfãos de gente, por filmes que nunca imaginamos o quanto poderiam ensinar, por ideias bafo de decoração prática, por doações de tempo e ombro e roupa e sangue e alimento e medula, por coleções de amigos intermináveis. Que seja nosso enigma de estimação a caça ao bom e ao belo, e a certeza de que haverá os melhores meios de distribuição.

(Ao menos os meios de distribuição possíveis no momento. Que ninguém fique sem o necessário porque um orgulho teimoso não desiste de enfiar um hipermercado no caminhão de entregar.)

sábado, 4 de março de 2017

Musiquinha de comédia

Me chame para reunião de condomínio, fila de banco, venda de rifa na escola, apresentação de fagote da tia-avó – mas não me chame para ver comédia. E não porque eu seja emburrada e odeie rir; pelo contrário. Tanto gosto de rir que costumo de-tes-tar comédia, ou seja: aquele troço que já foi feito e rotulado como graça padrão, a “graça” estridente, caricata e exagerada que pode me dar pena, raiva, tudo menos o impulso gargalhesco. Pastelão, pantomima idiotizante, três-patetices que enfiam o dedo no olho e dão na cara do vizinho, american pies e genéricos tosco-escatológicos, humor de bordão e repetição – vade retro! essa bodega toda, que só me arranca náusea. Curto suavidades, por isso abomino o texto grosseiro e óbvio como um sol de 48 graus direto na testa. Admiro as sutilezas, portanto ninguém me espere no sofá para assistir a programa com claque, que chuta a gente no fígado: hora de rir, sua anta. Principalmente, estimo demais o livre-arbítrio – logo, sou tomada de revolta assassina ao ouvir a desgracenta musiquinha de comédia, um dos cúmulos da manipulação. Como ODEIO aquela trilha rápida, viva, engraçadinha que berra “piada à vista”, manda ter tolerância e não levar a sério nenhuma das informações contidas na sequência! Como ODEIO o desrespeito à nossa sensibilidade e percepção! Com que gosto abandono a história ao menor indício dessa sonoridade maldita!

Exagero, vá lá: me julguem. Sou chata mesmo, e inimiga do histérico e do fosforescente. Mas também sou capaz de rir possuída – só que do humor-agulha, fino, cerebral, insuspeito nas brechas, elegantemente encaixado no contexto e não anunciado aos ventos como grande estrela. O humor dos filmes de Ricardo Darín, por exemplo; o de uma ou outra piadinha da franquia Marvel; o riso discreto presente em meu amado Criminal minds (que, em sua essência, é uma série de investigação psicológica e exibe alguns psicopatas de perfil hardcore); a gaiatice imperturbável do historiador Leandro Karnal; a exaltação impagável do professor Clóvis de Barros Filho – exaltação que não é, porém, a finalidade do discurso, e sim mero instrumento do conteúdo filosófico. Gosto do circunspecto humor britânico, tão mais divertido quanto mais sisudo; gosto de Buster Keaton e Charlie Chaplin, mas não da alegria desvairada do palhaço típico. Raramente rio do que é produzido com o objetivo primordial de ter graça, ou de ter graça infantil. Há exceções, no entanto, entre os que são humorísticos de propósito. Era inevitável a gente se escangalhar com Os Trapalhões dos tempos áureos, e hoje em dia eu quase beiro a crise de asma com o excelente Tá no ar; nada como a inteligência docemente temperada de cinismo.

Dizem que, sejam quais forem nossas características, a gente se agrava com os anos. Pois me agravei: se já não era fã do escancarado, me tornei a Impaciência, prazer em conhecê-lo. Criança tem abundância de vida pra gastar com bobagem, como quem torra a mesada comprando pirulito; eu, que já passei da fase do tubo de ensaio, prefiro mesmo um bom almoço, tempero cuidadoso e muita substância. A vida corre e escorre demais para me desperdiçar com humor tosco – porque o humor esperto nos guia, nos alerta, e o tosco nos desvia do assunto. O tosco ri dos oprimidos e não dos opressores. O tosco não tem sutileza e chafurda em preconceitos. O tosco é normalmente feito para neurônios em nível de desenvolvimento pré-fetal.

Na dúvida: se tiver musiquinha de comédia, no mínimo desconfie. Graça que é graça não toca a trombeta e, em geral, acontece quando a gente nem está olhando. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

Iguais

O vídeo (promocional canadense) está correndo a internet: um grupo de crianças de 11, 12 anos joga basquete no quintal, a bola escapa, um dos meninos vai recolhê-la e vê o vizinho cadeirante, mais ou menos da mesma idade, entrando em casa. Os dois se olham, se cumprimentam e sorriem levemente – e um tanto tristemente, no caso do garotinho que observa o outro com a bola na mão e não parece alimentar expectativa de ser convidado. No entanto, depois que o vizinho se recolhe, o pequeno jogador o segue visualmente; o sorriso já é novo: sorriso de ideia fermentando. Corta para mais tarde. O jovem cadeirante descobre a mesma bola de basquete sozinha, à sua porta; põe a cuja no colo e vai devolvê-la. Chega ao quintal do jogo, se ilumina: toda a meninada lhe está colocada em rodas de igualdade – um sentado em carrinho de jardim, outro em cadeira de escritório, outro num caixote deslizante e criativos etcéteras. O menino que tinha inventado as rodas agora lhe sorri um convite. Melhor não haveria.

Mais fofura infantil? Toma fofura – e verídica. O mundo anda doido de paixão pelos americaninhos Jax e Reddy, de cinco anos, que planejaram uma traquinice para confundir a professora: Jax pediu à mãe que cortasse seu cabelo igualzito ao do amigo, a fim de que a teacher simplesmente não conseguisse distingui-los. Teria sido mesmo complicated para a Miss Something se não fosse pelo detalhe de Jax ser branco e Reddy, negro. “Se isso não for prova de que ódio e preconceito são ensinados, eu não sei o que é”, escreveu Lydia Stith, mãe do lourinho, ao postar foto dos comparsas antes da ida à barbearia. “A única diferença que Jax enxerga entre os dois é o cabelo.”

Estou com Jax, Reddy e todas as crianças do vídeo: somos específicos na fórmula e perfeitamente iguais na fundação. Somos aqueles papeizinhos de escolher salada em alguns restaurantes; uns marcam cenoura, cebola, tomate e molho de iogurte, outros cravam alface, palmito, batata palha e vinagrete, mas a mesma base, a mesma lógica essencial nos compõe – a necessidade do amor eterna e inveterada. Nisso somos gêmeos quase indistinguíveis, nessas veias e artérias do por-dentro, nessa ossatura primordial da alma. Reconhecê-lo é ter olhos diretamente para o importante; é quebrar a casca e ir à gema; é partir a crosta do bolo e ir ao gosto; é tirar o brinquedo da caixa e ir à rua. Não é à toa que criança rompe voraz a embalagem do presente: não tem ainda a delicadeza das minúcias, mas em compensação tem a fome do âmago, do vital, do foco maior, e impaciência para tudo o mais. E tudo o mais que é adjetivo, ornato e trique-trique se perde no lixão ou se encaminha à reciclagem, restando só o substantivo em sua glória. Amigo. Pessoa. Gente.

Bendito o olho que raio-xiza a vida e busca direto a vontade alheia, blimundamente. Esse só pousou na terra como impulso para o voo. 

quinta-feira, 2 de março de 2017

E a gente com isso

A valente Jane Fonda revelou ter sofrido abuso sexual na juventude. O “jornalista” Alexandre Garcia, lutando pelo troféu Perdi a Chance de Ficar Calado da década, retuitou a notícia comentando: “E eu com isso?”. Nós seguimos assombrados com os dois horrores, que na verdade são um só.

O Brasil nasceu de um imenso estupro, de um manual de atrocidades com largura de lista telefônica, e dessa história desgraçadamente violenta e oportunista veio a naturalização da falta de empatia: cuido do meu pirãozinho primeiro e depois a gente vê. Fomos desde cedo empurrados ao autocentro, à malandragem em causa própria, ao lambe-bota e ao beija-mão. Machuca admitir, mas por séculos e séculos nos gestaram com espírito de capitão do mato – aquele que, alçado a um nivelzito superior ao dos escravos, persegue e chicoteia sua gente mesma, fundindo-se mentalmente com quem o explora. Por isso é horrível sem ser surpreendente que um Alexandre Garcia (que apoiou o golpe de 64, que apoia o golpe de 16, que faz piada com o feminicídio dizendo ser uma “invenção de quem pensa que homicídio é matar ‘hômi’”) se mostre incapaz de solidariedade com quem é de outro gênero e mora nos longes. Mal damos amor a quem nos é semelhante e vive ao lado. Um espécime homem-branco-cis-hétero exibindo desdém pelo outro é o início dessa herança maldita de meio milênio; seguidorxs com potenciais características de vítima CONCORDANDO com o espécime é o fim da picada.

Porque é com a gente, sim. É muito com a gente. Tudo que é problema humano é direta e irrestritamente com a gente. Quem diz “e eu com isso?” diante do abuso da filha de alguém não pode estranhar que lhe devolvam “e eu com isso?” quando essa filha de alguém for a sua própria. Quem não concebe levantar-se pelos direitos de outrem tem de estar de boa com o fato de nenhum outrem se levantar pelos seus. Não se esforçar para fechar uma porta de maldade pode não ser tão doloso, mas é no mínimo tão culposo quanto abri-la; não tentar segurar a mão que bate é espancar por procuração; não engrossar o coro de nãos é estar na turma do sim.

Óbvio que não penso em botar o dedo na cara dos tão oprimidos, despojados, agredidos e desorientados quanto quaisquer outras vítimas a serem defendidas. Aponto a nossa cara, a nossa!, a de quem teve esclarecimento de estudo e situação familiar satisfatória, quem se criou sem ratos e sem monstros em casa (que não fossem aqueles plantados pelo filme e espantáveis com uma luzinha acesa), quem recebeu alimento e aula de Geografia, quem circula pela rua receoso mas não apavorado, quem está no banco de reserva das vítimas mas não cresceu como uma. Não se pode ter a condição de reagir e de se importar sem ter a obrigação de fazê-lo. A felicidade que temos, todos deveriam ter; o sofrimento que vemos para ninguém deveria existir. Ou paramos a erosão ou permitimos que ocorra, ou votamos contra o corrupto ou concordamos que se eleja, ou instruímos o indefeso ou deixamos que se engane, ou exaltamos a voz contra a injustiça ou consentimos que ela torture seu mártir com privacidade. Para o mal, ou somos meio – ou somos termo.

Não são “eles”: somos elos. Somos nós.