segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

A casa da histeria


"Por que chamamos todas as nossas ideias generosas de ilusões, e as cruéis de verdades?" É frase (em tradução aproximada) da escritora norte-americana Edith Wharton, hoje aniversariante de 160 anitos; está lá no romance The house of mirth (A casa da alegria). Infelizmente nunca cheguei a ler as obras de Wharton, nem o célebre A época da inocência, porém sou recorrentemente seduzida pelas citações da autora, sempre robin-hoodica na mira. Faço bem minha a angústia da questão: por que gabirobas fluorescentes tratamos o que temos de espontaneamente bom como tolice utópica, enquanto elegemos a indiferença, o sarcasmo e o cinismo para representantes da Terra na ONU dos planetas?

Sem dúvida há um grossíssimo componente de medo, e esse medo sempre havido na história humana anda ferozmente agravado pela virulência perdigota das redes sociais: ninguém da maioria (quero crer seja a maioria) propensa à generosidade deseja ser motor de deboche para a minoria ressentida e barulhenta; tanto os verdadeiros e poucos beneficiários do lema "o mundo é assim mesmo" quanto os burros de carga estocolmizados pela convicção de que "o mundo é assim mesmo" são bastante eficazes em bullyingar os questionadores, cravá-los como ameaças e crivá-los de ameaças, ridicularizá-los como infantis ou demonizá-los como comunistas. Particularmente considero uma honra ser chamada de comunista, mas convenhamos – para mim, integrante anônima e razoavelmente instruída duma classe média um pouco menos pobre, é fácil dizê-lo; difícil é afrontar o rótulo e a perseguição quando não se sabe do que se está sendo "acusado", ou quando se ouviu desde criancinha que isso aí é do mal, ou quando se pode por causa disso perder o emprego, os conhecidos, os familiares, a segurança, uma completa rede de apoio. É infelizmente compreensível que muitas indignações sejam sufocadas na nascente, que olhos por natureza abundantes de doação e observação acabem – exaustos e desencorajados – se fechando.

E não é só o medo de fora, embora o princípio envenenador tenda a nascer fora; uma vez que estamos (in)devidamente cabrestados pela pressão geral de "tudo ser assim mesmo", quase que nos apavora o apego à realidade que deveria ser. Uma possibilidade, uma VERDADE não realizada – e que se vê por hábito como irrealizável – espicaça em excesso nosso pobre ser cotidiano, que mal pode consigo durante a lida doméstica e o expediente, quanto mais doendo o tempo todo de forma aguda. Por temor às decepções em todos os níveis é que vamos nos permitindo esmagar pelas decepções em todos os níveis, dia após dia dessonhando, desreagindo; e eis que o planeta vai se amontoando de quaquilhões de seres coletivamente histéricos, convencidos de que é loucura fazer precisamente o que foram feitos para fazer. Seres persuadidos exatamente por quem mais teria a perder se eles o fizessem.

O mundo é louco sim, mas quase sempre ao contrário: é louco de regar sanidades que o dilaceram e enriquecer seriedades que o alopram. O mundo não olha pra cima para fingir, sensatíssimo, que está no comando.

(Felizmente não sabe até quando.)

Nenhum comentário: